Review – Tsuki ga Kirei (Anime)

Tsuki ga Kirei

Romance é um gênero que não costuma me despertar a atenção, em boa parte devido aos clichês sempre presentes. Francamente, histórias românticas tendem a ser bastante formulísticas, além de ridiculamente previsíveis. O casal principal se conhece – ou se reencontra, caso já fossem conhecidos -, se apaixonam sem nunca admitir um ao outro, algum tipo de desentendimento faz eles se afastarem, talvez apareça algum triângulo ou mesmo quadrilátero amoroso ai, e a história vai enrolar até o último minuto para encerrar quando os dois trocarem o primeiro beijo. Obviamente nem todas as obras do gênero irão seguir essa fórmula, mas a questão é que simplesmente me falta vontade de separar o joio do trigo. Não vejo porque assistir dezenas de histórias clichês na (talvez vã) esperança de encontrar algo diferente. Sobretudo porque, vale apontar, quando aparece algo diferente as pessoas normalmente comentam: e foi assim que eu conheci a maioria dos romances que efetivamente assisti.

Tsuki ga Kirei foi um caso do tipo. Anime original do estúdio Feel, com direção de Seiji Kishi e roteiro de Yuuko Kakihara, a obra foi bastante comentada justamente por fugir de diversos clichês do gênero. Sua história narra o romance que desabrocha entre Azumi Kotaro e Mizuno Akane, dois adolescentes introvertidos que estão às portas de entrarem no ensino médio. Se conhecendo em seu último ano de ensino fundamental, eles se apaixonam, se relacionam, e lentamente vão se abrindo cada vez mais um para o outro, resultando em um romance maduro, realista e bem trabalhado, além de absolutamente fofinho [rsrs]. Ideal para quem procura algo no gênero que saia um pouco daquelas convenções já tão abusadas, esse é um anime que eu definitivamente recomendo, sendo provavelmente uma das mais positivas surpresas que 2017 nos trouxe. Dito isso, spoilers a partir daqui, então siga por sua conta e risco.

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Uma Breve Análise – Seikaisuru Kado: Um Bom Uso de CG

Seikaisuru Kado: um anime inteiramente em computação gráfica.

Seikaisuru Kado, anime de 2017 do estúdio Toei Animation, com 12 episódios, foi um desastre. Certamente um dos animes mais promissores deste ano – e talvez um dos mais promissores desta década -, ele ainda assim conseguiu a façanha de atirar pela janela todo o seu potencial. E o que começou com o que parecia ser uma trama política séria terminou… bom, digamos que bem longe disso.

Se evito entrar em maiores detalhes é para não dar spoilers, ao menos não por agora. E sim: mesmo sua sinopse poderia ser considerado um spoiler. Isso por conta de seu episódio zero, que oferece, ao seu final, uma reviravolta capaz de fazer cair o queixo de qualquer desavisado.

Mas dado o meu primeiro parágrafo, alguns que por ventura ainda não tenham assistido ao anime talvez se perguntem se vale a pena ou não se importar com spoilers de uma obra que eu acabo de descrever como “um desastre”. Bom, não me entendam mal, Seikaisuru Kado completamente desperdiça todo o seu potencial, mas eu não diria que isso faz dele uma obra ruim, exatamente. Apesar dos apesares, ainda tem seus bons (mesmo seus excelentes) momentos, com um saldo final relativamente positivo.

O real problema do anime é que ele tinha tudo para ser um novo clássico moderno, uma obra no mesmo nível daqueles animes cult tão comentados pelos mais experientes na mídia. Ao final, porém, ele terminou… ok. Não péssimo, não terrível, mas também não correspondeu às expectativas que criou. E com isso eu deixo o leitor decidir se vale a pena ou não dar uma chance a essa obra.

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Sobre discutir animação

E se eu disser que a animação de Byousoku 5 Centimeter é bem menos impressionante do que as pessoas fazem parecer? Leia o texto e entenda porquê.

Falar sobre animação é complicado, e ainda assim é um dos assuntos mais recorrentes no meio otaku. Verdade seja dita, o que normalmente vemos é o consenso: para o elogio ou para a crítica, via de regra as pessoas tendem a concordar sobre se um dado anime qualquer tem ou não uma boa animação. A palavra-chave aqui, porém, é tendem. Em tempos relativamente recentes, discussões sobre a animação de Pokemon Sun & Moon, ou de Kono Subarashii Sekai ni Shukufuku wo 2, mostraram que, em raras ocasiões, uma forte polarização pode muito bem se instaurar. No caso de Pokemon, inclusive, comentários sobre a animação de sua série mais recente chegaram a variar entre aqueles que a acharam barata e mal feita e aqueles que a acharam genial e a melhor animação que a franquia já teve, um espectro no mínimo interessante de se observar. Digo, se existe um elemento da análise de um anime que todos parecemos concordar que pode ser objetivamente medido este provavelmente seria a animação, e ainda assim vez ou outra vemos discussões como as já mencionadas. Por quê? De onde vem tamanha disparidade de opiniões sobre algo que, idealmente, qualquer um com bons olhos deveria ser capaz de perceber?

Bom, vamos lá, parte disso é certamente algum nível de desinformação. Sobre Pokemon Sun & Moon, para manter o exemplo, o canal The Canipa Effect chegou a fazer um excelente vídeo demonstrando que chamar a animação da nova série de “barata” ou “mal feita” não é apenas injusto, mas também é factualmente incorreto. Entretanto, e o vídeo reconhece isso, o principal problema se encontra no fato de que algo bom do ponto de vista da produção de um anime não será necessariamente percebido como bom pelo público em geral. Eu vou entrar em maiores detalhes ao longo do texto, mas o que eu quero argumentar aqui é que a palavra “animação”, no contexto atual do meio otaku, se tornou, em fato, um termo guarda-chuva que abarca sob si mesmo uma gama bastante variada de elementos. Em conjunto, coisas como movimento, coreografia, design, coloração, e outros, formam aquilo que normalmente chamamos de “animação”, e por vezes discussões sobre a qualidade de uma animação qualquer divergem justamente porque esses elementos internos atingem diferentes graus de sucessos em agradar ao público e em corresponder à proposta da obra. Se isso parece muito confuso agora, tudo bem: vamos com mais calma, olhando alguns desses diversos elementos e seus possíveis usos.

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Lista – 5 Filmes em Anime que Valem a Pena Assistir

Para quem por ventura ainda não saiba, na minha página no facebook eu tenho feito breves resenhas de filmes em anime, com uma nova saindo todo domingo (bom… quase todo domingo…). Entretanto, para isso eu tendo a assistir literalmente qualquer coisa: recomendações de conhecidos, obras mais famosas, hypes do momento, ou qualquer coisa com um poster legal no My Anime List. E, como resultado, eu algumas vezes acabo vendo uma obra… menos que impressionante, digamos assim. Por conta disso, já há algum tempo eu venho pensando em um tipo um pouco mais regular de lista, um no qual eu pegaria alguns dos melhores filmes que eu vou assistindo para recomendar para vocês. Obviamente, nisso entram também filmes que eu veja por fora desse quadro semanal da página, mas acho que já deu para pegar o espírito da coisa.

Agora, normalmente aqui no blog eu procuro falar de obras menos comentadas. Não necessariamente desconhecidas, mas apenas obras que você não vê as pessoas comentando com tanta frequência. E eu devo fazer isso aqui também… mas em entradas futuras. Essa primeira lista eu quero deixar para alguns filmes até que bem famosos, obras que, após assisti-las, me fizeram pensar que sua fama foi deveras merecida. Eu ainda reservei uma entrada para uma obra não tão conhecida, mas se você é um otaku hardcore com centenas de animes assistidos, provavelmente aqui não vai ter nada de novo para você. Mas se você viu poucos filmes em anime e quer algumas boas portas de entrada para este lado da mídia, aqui estão 5 que definitivamente valem o seu tempo.

Ah, e só uma última coisa: nada de estúdio Ghibli. Eventualmente eu devo fazer uma lista do tipo só com obras deles, mas por agora deixemo-os de lado um pouquinho. E dados os avisos, vamos à lista /o/

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Review – Kaguya-hime no Monogatari (Anime)

Kaguya-hime no Monogatari

Era uma vez um já idoso cortador de bambus. Ele vivia com sua mulher em uma casa modesta, e ganhava o sustento de sua família fazendo todo tipo de objetos com os bambus que cortava. Um dia, porém, ele viu uma luz sair de um dos bambus de sua plantação, e achando isso muito estranho ele decidiu investigar. Cortando a planta, dentro dela ele viu uma menininha, pequena o bastante para caber na palma de sua mão. Acreditando ser ela um presente dos céus, ele leva a garotinha para mostrar à esposa, e ambos decidem criá-la como se fosse sua filha. Deste dia em diante, sempre que o cortador ia cortar seus bambus, ele acabava encontrando troncos cheios de ouro, e rapidamente ele se tornou muito rico. Já a menina, como que imitando aos brotos de bambus, cresceu muito rapidamente, e em alguns meses já era uma jovem de incomparável beleza. Tal é o começo de Taketori Monogatari (O Conto do Cortador de Bambu), história folclórica que serve de base para o filme Kaguya-hime no Monogatari, uma produção de 2013 do estúdio Ghibli.

Com direção de Takahata Isao, co-fundador do estúdio, o filme é um caso curioso. Enquanto é relativamente comum vermos referências a mitos, lendas e contos folclóricos nos animes e mangás, tais referências normalmente tomam a forma de apenas alguns nomes, objetos ou personagens “emprestados” dessas histórias tradicionais. Precisão mitológica raramente sendo uma preocupação dos autores. Kaguya-hime no Monogatari, porém, se propõe a ser uma clara recontagem do conto original, adaptando-o até os mínimos detalhes. Seria um engano, porém, ver a esse filme como pura recontagem: ele claramente possui uma voz e uma identidade próprias, e por debaixo da fidelidade ao original encontramos aqui uma leitura evidentemente moderna desse conto do século X. Um filme tecnicamente belíssimo, com um visual expressivo e trilha sonora memorável, protagonizado por personagens carismáticos e bem desenvolvidos, e ainda abordando de forma sutil e sensível temas bastante complexos. Quem ainda não o viu, fica aqui a minha recomendação para que o faça. Mesmo porque, vale o aviso de sempre: spoilers a frente.

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Review – Fune wo Amu (Anime)

Fune wo Amu

Você já se perguntou como é feito um dicionário? Quais as diferentes etapas que vão na produção de um, quanto tempo essa produção pode demorar, e quais as pessoas envolvidas nesse trabalho? Eu vou chutar e dizer que muito provavelmente você nunca deu muita atenção a essas perguntas. Em fato, você talvez nem tenha tido muito contato com dicionários em primeiro lugar. No passado, era muito mais simples apenas perguntar a alguém o que uma palavra significava, e hoje a internet está ai, mais que capaz de lhe dar a resposta a dúvidas do tipo. Assim, é compreensível que a premissa de Fune wo Amu não tenha chamado a atenção de lá grande parcela do meio otaku. Uma produção em 11 episódios do estúdio Zexcs, com direção de Toshimasa Kunoyanagi e roteiro de Takuya Sato, o anime de 2016 adapta ao livro homônimo de Shion Miura sobre uma pequena equipe da editora Genbu Shobo que deseja criar um novo e atualizado dicionário: A Grande Passagem. Acontece que um dos membros está deixando a equipe, e precisa encontrar alguém pra substituí-lo. E é aqui que entra o nosso protagonista, Majime Mitsuya.

Tal sinopse, porém, faz pouco em termos de capturar o real apelo do anime. Fune wo Amu foi ao ar no bloco noitaminA, um quadro da Fuji TV voltado para animes que busquem ter apelo para além do meio otaku, e tal concepção fica bastante aparente na obra. É um anime claramente mais voltado para o público adulto, lidando com dramas e situações comuns a essa faixa etária. Tematicamente, é uma história que trabalha com a comunicação, e o papel vital das palavras nesse processo. E como anime, é uma obra que sabe muito bem como usar da mídia em que está inserida, com ocasionais metáforas visuais e trilha sonora que sabe dar o tom da cena. E claro, tudo isso se complementando com um elenco de personagens carismáticos, cujas interações conseguem soar incrivelmente naturais. Quem ainda não conhece esse anime, fica a minha recomendação para que o faça. Mesmo que a premissa pareça tediosa, vamos lembrar que o Japão já se provou mais que capaz de tornar até as mais mundanas situações em algo interessante. Além disso, fica o aviso de sempre: haverá spoilers a partir daqui.

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Uma Breve Análise – Youjo Senki: Conclusão Temática

Tanya Degurechaff

Existe mais de uma forma de se concluir uma história, e enquanto eu assumidamente aprecio muito mais conclusões narrativas, nas quais todas as pontas soltas da trama são amarradas em um todo coeso, eu também posso apreciar um final aberto, mas que conclui a obra ao menos tematicamente. E Youjo Senki, anime de 12 episódios produzido pelo estúdio NUT, tem um final exatamente assim.

Rapidamente, lembremos sobre o que é, de fato, a história de Youjo Senki. No episódio 1, somos introduzidos à nossa protagonista, Tanya, uma garotinha que parece ter galgado posições no exército de seu país. Isso por conta de seus poderes mágicos, úteis na guerra que está sendo travada entre duas nações, uma das quais o Império do qual Tanya é cidadã. Dito isso, a motivação da menina claramente passa longe de qualquer ideal patriótico, e ela por vezes soa como uma pura sadista. Antes de dizer mais, porém, é bom deixar o aviso: spoilers a frente, incluindo ai spoilers do final da obra.

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