Mark W. MacWilliams (org.) – Japanese Visual Culture

Lançado em 2008 pela editora americana M. E. Sharpe, Japanese Visual Culture: Explorations in the World of Manga and Anime é uma coletânea de 14 ensaios organizada por Mark W. MacWilliams. O livro abre com algumas palavras de Frederik L. Schodt (autor, dentre outros livros, do importante Manga! Manga! The World of Japanese Comics, de 1983) e segue com uma introdução escrita pelo seu editor, antes de entrar efetivamente nos ensaios que compõem o grosso do livro. Para compra, é possível adquirir um exemplar tanto pela Amazon como pela Livraria Cultura, com ambas também oferecendo versões em e-book. Para leitura online, o livro está disponível para visualização prévia no Google Books.

Agora, idealmente falando seria ótimo se eu pudesse explanar com a devida profundidade cada um desses ensaios, mas para não tornar esse texto excessivamente longo eu pretendo trazer aqui apenas uma visão geral de cada um deles, me focando nos pontos centrais que cada autor levanta em seu texto. A proposta desse meu artigo é menos a de uma resenha ou análise do livro – algo que eu julgo não ter a expertise necessária para o fazer com propriedade – e mais a de, em parte, divulgação desse tipo de material e, mais importante, das discussões levantadas por esses autores. Por conta disso, não esperem ver muito da minha opinião pessoal neste texto, e eu deixo para o leitor o julgamento quanto à validade ou não dos pontos apresentados.

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Informes – Dois novos quadros chegando ao blog

Ao longo desses três anos de blog eu acabei criando uma variedade até que bem grande de quadros. Análises, listas, ensaios, mas nenhum deles teve qualquer texto introdutório: eu só fazia um primeiro artigo, publicava e era isso. Por que, então, avisar da chegada de dois outros quadros? Bom… A bem da verdade para um destes não tinha mesmo nenhuma necessidade. O outro, porém, eu sinto que seria importante dar algumas palavras a seu respeito.

Vamos começar com o primeiro, que eu devo conseguir descrever em um parágrafo. Basicamente, nesse novo quadro (que deve ir ao ar na próxima semana) eu quero trazer para vocês obras seminais da história da animação e dos quadrinhos japoneses. Em suma: velharia :D. O nome do quadro será “antiguidades”, e a ideia é basicamente pegar obras antigas que tenham iniciado alguma tendência ou que possuam alguma outra grande importância para a história do anime e mangá. Que fique claro: não serão reviews, não pretendo fazer uma análise qualitativa dessas obras. Serão muito mais comentários sobre o impacto que tais obras tiveram nas suas respectivas industrias, então servirá mais como curiosidade do que como necessariamente uma recomendação de obra. Simples, não? O outro quadro, porém, é o motivo pelo qual eu faço esse texto.

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Review – Kyousougiga (Anime)

Kyousougiga

Próximo à antiga Kyoto vivia um monge, Myoue, dotado do incrível poder de dar vida a tudo o que desenhava. Um destes desenhos era Koto, uma coelha negra, que se apaixonara pelo seu criador. Compadecendo-se dela, uma bodhisattva oferece à Koto seu corpo, a fim de que ela pudesse se declarar. O tempo passa e Koto e Myoue acabam tendo três crianças: o humano Yakushimaru, a oni Yase, e o buda Kurama. Porém, atritos com a cidade próxima levam a família a decidir se mudar, no caso para dentro de uma das pinturas de Myoue: a Capital Espelhada, Kyoto. Tudo parece ir bem, mas logo Koto começa a sonhar com a destruição daquele mundo, e ela acredita ser por já usar o corpo da bodhisattva há tempo demais. Assim, Koto e Myoue decidem deixar a cidade, prometendo a seus filhos que um dia voltariam. O tempo passa – anos, décadas, mesmo séculos -, mas nada de ambos retornarem. Eis que um dia, porém, uma tempestade de raios parece literalmente rasgar os céus daquele mundo. Descendo à cidade, chega então uma garotinha portando um imenso martelo. Seu nome era Koto, e ela estava em busca de uma coelha negra.

Kyousougiga é facilmente uma das obras mais densas que já assisti, tanto em roteiro quanto em elementos simbólicos e alegóricos, a tal ponto que eu bem sei que nenhum único texto poderia esgotar tudo o que se pode extrair desse anime. Sua primeira encarnação foi como um ONA (original net animation) de apenas um episódio, lançado em 2011 no site Nico Nico Douga (e posteriormente também no Youtube). Em 2012 a série recebe mais 5 episódios, também no formato ONA. E finalmente, em 2013 temos a série para televisão, com 10 episódios. Em todos esses casos, a direção do anime ficou a cargo de Rie Matsumoto, mas a criação de fato é creditada a Izumi Todo: um pseudônimo para a staff do estúdio Toei Animation. Sim: Kyousougiga é uma obra da Toei, e possivelmente uma das melhores que o estúdio já fez. Visualmente espetacular, com uma belíssima trilha sonora, personagens carismáticos, e uma trama repleta de reviravoltas, esse é um anime que realmente merece muito mais atenção do que recebe. Quem ainda não viu, fica aqui a minha recomendação. Até porque, cabe aqui o aviso de sempre: spoilers a frente.

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Debate – Bate-Papo Sobre a Pirataria

Pirataria é um assunto que vez ou outra ressurge no meio otaku. Natural, dado o quanto ela está intimamente ligada tanto à forma como o anime e mangá se popularizaram mundo afora, como também, em maior ou menor medida, à forma como essas mídias ainda são consumidas.

Posicionamentos a seu respeito variam, desde aqueles que acreditam que ela é benéfica em si mesma até aqueles que creem que ela é uma relíquia do passado, fruto de uma era onde era impossível assistir animes ou ler mangás legalmente, e que agora ela deveria ser deixada para trás.

É um assunto complicado, mas justamente por isso é um que vale a pena ser discutido. E discuti-lo é o que fizemos: eu, o Cat, do Dissidência Pop, e o Vinícius, do Finis Geekis. Nosso debate foi publicado na íntegra lá no Dissidência Pop, então passem lá para dar uma olhada. E claro, sintam-se a vontade para, também, dar a opinião de vocês no assunto.

Link para o debate: Bate-Papo Sobre a Pirataria

Imagem: Hunter x Hunter (2011), episódio 137

Tropes e clichês: nada é original, mas isso não é desculpa para não tentar.

Trope: Accidental Pervert (Pervertido por Acidente) – Auto-explicativo, quando um personagem age como um pervertido acidentalmente, como o Kirito pegando nos peitos da Asuna quando ela cai sobre ele.

Então, o meu último texto, “clichês, estagnação e o problema dos animes“, recebeu reações… mistas, por assim dizer. Houve quem elogiasse, mas também houve quem criticasse. E, francamente, não sem certa razão. Para todos os efeitos, aquele texto ficou horrível, estrutural e argumentativamente falando, parte disso devido a forma como ele surgiu. Como eu explico no começo, originalmente eu pretendia fazer uma lista com alguns clichês que vinham me incomodando, mas depois decidi transformar o texto em uma argumentação sobre clichês de forma geral. E o resultado foi uma bagunça, com exemplos tomando muito mais da metade do texto e o ponto em si só aparecendo bem para o final. Em essência o que eu queria argumentar era que os animes vêm sofrendo do problema de se tornarem convencionais demais, com certos clichês aparecendo porque parece haver um zeitgeist sempre presente de que é assim que anime deve ser – maior exemplo disso sendo os diversos arquétipos femininos: a tsundere, a yandere, a kuudere e por ai vai. Mas até chegar nesse ponto eu dei tantos exemplos de diferentes clichês – muitos deles, diria até a maioria, nem se quer específicos dos animes, uma crítica que recebi e que é bastante válida – que a conversa que o artigo gerou, sobretudo em grupos no Facebook, onde costumo divulgar meus textos, acabou se focando muito mais justamente nos clichês citados, e não no que eu queria que fosse o ponto central do texto.

Paciência: nem sempre o que parece uma boa ideia na teoria o é de fato na prática. Ainda assim, a experiência me deixou com vontade de falar um pouco mais sobre clichês. Desta vez, porém, de forma um pouco mais… completa. Eu já explorei algumas facetas do tema em textos passados – por exemplo, no meu texto “alguns pensamentos sobre originalidade“, ou no artigo “pensamentos soltos sobre o overexposure” -, mas sobretudo a resposta que meu último texto trouxe me deixou com vontade de sistematizar melhor a minha opinião no tema. Porque, bem francamente, esse é um assunto muito mais complexo do que pode parecer a uma primeira olhada, e em si mesmo é um tema que se relaciona a aspectos culturais, sociais, econômicos, mesmo psicológicos. Falando assim até pode parecer que estou exagerando, mas é para demonstrar estes pontos que temos o restante de todo esse texto. Antes, porém, eu quero deixar absolutamente clara a minha opinião com relação a clichês de forma geral: como conceito, “clichê” não será sempre e invariavelmente ruim, ao menos não se assumirmos a definição em português do termo (mais sobre isso em breve). Contudo, existem alguns de fato problemáticos, na medida em que quebram a imersão na história, e mesmo os demais ainda precisam ser bem executados – como, bem, literalmente tudo em uma história -, do contrário podem soar apenas preguiçosos. Cada caso é um caso, mas dito isso eu pessoalmente ainda prefiro histórias que tendam a quebrar convenções do que histórias que as sigam com maestria (mas isso, novamente, é puramente pessoal).

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Clichês, estagnação e o problema dos animes.

Quando o anime parece interessante, mas é só a mesma pilha de clichês de sempre.

Originalmente, eu pretendia fazer um artigo listando alguns dos clichês que mais vêm me irritando nos últimos tempos, do tipo que faz você revirar os olhos e se perguntar se realmente vale a pena continuar acompanhando aquela história. Inicialmente a lista teria apenas cinco entradas e depois eu pensei em aumentar para dez, quando então eu percebi que praticamente todas elas se referiam a uma mesma “coisa”: os personagens. Suas personalidades, seus comportamentos, e por ai vai.

Por exemplo, um dos clichês que eu pretendia citar nessa lista era como o protagonista parece sempre precisar de um motivo altamente pessoal para agir ou fazer o que for. A perda de algum ente querido, algum outro evento traumático no passado… Recentemente eu li o mangá Carnaval Glare, publicado no Brasil pela editora Nova Sampa (com uma das piores traduções e diagramações que eu já vi em um mangá, mas isso não importa agora). Na história, existem estes seres que causam mortes e destruição conhecidos como Bruxas, e que só podem ser combatidos por humanos especiais capazes de empunhar armas especiais. Tais humanos formam uma espécie de força policial que lida com incidentes envolvendo Bruxas, e nosso protagonista é o capitão dessa força. E ele luta contra as Bruxas porque uma delas matou a sua irmã mais nova no distante passado.

Várias obras fazem algo do tipo, onde você tem uma ameaça a praticamente toda a humanidade, e ainda assim a obra sente que precisa dar uma motivação mega pessoal ao protagonista para justificar ele lutar. Nisso, a decisão do Eren de enfrentar os Titãs, em Shingeki no Kyojin, vem após a morte de sua mãe, ao passo que a vontade de Gon de lutar contra as formigas quimeras, em Hunter x Hunter, vem sobretudo por um desejo de salvar o Kaito. E isso só para dar alguns exemplos de um dos clichês que eu pretendia citar.

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Sobre realismo, pessimismo e otimismo.

O quão realista uma história precisa ser?

Pergunta rápida: uma história precisa ser realista? Qualquer que seja a sua resposta, eu apostaria que você provavelmente caiu em um de três grupos: aqueles que prontamente disseram “não”, aqueles que provavelmente pensaram algo como “não, mas ela precisa ser verossímil e consistente consigo mesma”, ou aqueles que prontamente disseram “sim”. Mas quantos de vocês pararam para se perguntar o que essa palavra se quer significa?

Como movimento artístico e literário, o Realismo surge na França do século XIX como uma reação ao Romantismo, com a proposta de retratar a vida real de forma… bom, real. Mas isso é se quer possível? Nesse sentido, eu gosto de uma pequena fala de Vladimir Nabokov, nos comentários finais de seu livro Lolita. Ao falar sobre o cenário norte-americano de seu livro, o autor coloca: “a obtenção daqueles ingredientes locais que me permitissem acrescentar alguma ‘realidade’ (uma das poucas palavras que só fazem sentido entre aspas) no caldeirão de minha fantasia pessoal provou ser muito mais difícil, aos cinquenta anos, do que fora na Europa de minha juventude” [1]

Uma das poucas palavras que só fazem sentido entre aspas“. É, eu gosto dessa definição. E ela me parece ainda mais verdadeira atualmente, quando fica cada vez mais claro que o “realismo” do qual as pessoas falam é um tipo bastante específico de “realismo”. Mais especificamente, e sendo bastante direto, o termo deixou de se referir a obras que retratassem a realidade concreta e passou a se referir a qualquer história que seja “dark” , “pesada”, “cruel”, “brutal”, e por ai vai. Aparentemente, o único requisito atual para uma obra ser “realista” é ter personagens sofrendo e morrendo, preferencialmente de alguma forma absurdamente chocante.

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