Protagonista Apelão


Quando bem usado


O tropo do protagonista “apelão” bem poderia ser descrito como um dos mais divisivos. Por um lado, sua ubiquidade nos animes, bem como a extensa produção a seu respeito (na forma de artigos, listas, vídeo, etc.), deixa claro que ele tem uma boa gama de fãs. Por outro, o tropo também tem sua parcela de críticos, que apontam como seu uso tira a tensão das cenas de luta, uma vez que o protagonista sempre as vence com pouca ou nenhuma dificuldade.

Uma crítica com algum fundamento, já que sem o devido cuidado um protagonista forte demais logo se torna mesmo cansativo. Sobretudo, diga-se, quando a própria história não reconhece a força do personagem, tentando criar momentos de tensão que simplesmente não convencem. Nesse artigo, porém, eu quero tomar o partido oposto. Pois apesar das as críticas, um protagonista “apelão” ainda permite uma boa gama de histórias que não seriam possíveis sem ele. 

Assim sendo, aqui discutimos alguns dos animes que, com maior ou menor sucesso, souberam usar de seus protagonistas “apelões” na hora de contarem suas histórias – agrupados, ainda, de acordo com a forma pela qual resolveram os problemas que um personagem do tipo coloca. E se não é minha intenção negar a crítica descrita acima, espero ao menos lembrar ao leitor que há mais em uma história, mesmo em uma de ação, do que apenas lutas.

Maou Gakuin no Futekigousha, episódio 1

Ao Infinito…

Acho que podemos dizer que o escalonamento de poder foi a forma original que autores encontraram para lidar com um protagonista forte demais. Se ninguém consegue vencê-lo, crie alguém que consiga – ou, ao menos, alguém que você possa convencer a audiência que consegue. Está, assim, restaurada a tensão: problema resolvido. Exceto que há ai uma série de asteriscos.

O escalonamento é um bom exemplo de um recurso onde menos é mais, e isso porque quanto mais vezes ele é usado, mais difícil é para a audiência reconhecer a nova ameaça como diferente da anterior. A história pode dizer que o novo oponente é muito mais forte, mas se ela fez o mesmo com o anterior e o anterior ao anterior, na prática o que você tem ai é um constante platô onde o protagonista é sempre ligeiramente mais fraco que o vilão da vez – o bastante para apanhar, treinar e, é claro, então vencer.

Tenho certeza que só com essa descrição o leitor já pensou em um bom número de exemplos, e meio que esse é mesmo um problema quase que onipresente em mangás e animes de luta (sobretudo shounen). Mas nesse ponto cabe eu lembrar que esse artigo busca aos bons exemplos, e fato é que, se bem manejado, o escalonamento de poder pode sim cumprir a sua função original, resgatando a tensão da história ou mesmo marcando um ponto de virada nela.

Dragon Ball Z, episódio 1

Um exemplo disso pode ser encontrado no mangá da dupla Buronson e Tetsuo Hara, Hokuto no Ken. Se passando em um futuro de anarquia pós-apocalíptica, acompanhamos aqui a história de Kenshiro, o único praticante do temido estilo de arte marcial hokuto shin ken. Um estilo que o torna essencialmente invencível – ao menos durante os primeiros arcos da história.

Kenshiro cabe aqui como o perfeito exemplo do protagonista “apelão”. No começo da história, vilão algum sobrevive ao seu primeiro encontro com o personagem, a maioria ainda sendo derrotado com bastante facilidade. E mesmo nos casos em que o oponente dá algum trabalho, o mangá nunca passa a sensação de que o Kenshiro esteja perdendo o controle da luta. Tudo isso muda, contudo, com a introdução do Ken-oh: outro personagem também usuário do hokuto shin ken.

Não apenas o Ken-oh é o primeiro oponente a sobreviver ao seu encontro com o Kenshiro, como também é o primeiro a empatar com nosso protagonista, ambos saindo da luta seriamente feridos. Mas mais importante: a chegada de Ken-oh sinaliza um ponto de virada na história de Hokuto no Ken, um momento a partir do qual Kenshiro encontrará adversários bem mais fortes do que os de até então. O seguinte, Souther, sendo inclusive o primeiro a vencer o Kenshiro.

Hokuto no Ken, episódio 1

Lendo o mangá, admito que no começo a força do protagonista já estava me frustrando. A facilidade com que ele vence os inimigos é divertida de se ver na primeira ou segunda vez, mas quando você entende que aquela é a fórmula da história acontece exatamente o que descrevi na introdução: as lutas perdem qualquer tensão. A introdução do Ken-oh, porém, dá uma necessária “chacoalhada” nas coisas, e reacendeu o meu interesse na história a partir daquele ponto.

Mas se esse mangá dos anos 80 é um exemplo velho demais para o leitor, posso dizer que o recurso ainda encontra bons praticantes mesmo em tempos mais recentes. Ponto em caso, meu próximo exemplo: Mob Psycho 100.

Mangá escrito por ONE, também com posterior adaptação em anime, aqui temos a história de Kageyama “Mob” Shigeo, estudante do segundo ciclo do fundamental e psíquico de enorme poder. Aceito como discípulo pelo golpista de bom coração Reigen Arataka, Mob precisará balancear sua calma vida escolar com seu trabalho de exorcista profissional. A reviravolta vindo do fato de que não há fantasma que Mob não possa derrotar em alguns segundos.

Mob Psycho 100, episódio 1

Já quero adiantar aqui que isso não significa que Mob não se veja em perigo vez ou outra, mesmo durante o começo da história. Mas isso quase sempre vem como consequência da sua hesitação em usar seus poderes contra outras pessoas – com boa parte do crescimento do personagem vindo de aprender quando, porquê e por quem usar as suas habilidades.

No que se refere a poder puro, porém, de início parece mesmo que Mob é o psíquico mais forte de seu universo. Mas, com o tempo, o garoto encontrará… bom, talvez não oponentes em pé de igualdade, mas no mínimo uma boa gama de outros psíquicos que conseguem dar algum trabalho. Com certeza mais do que qualquer fantasma aleatório – o que não deixa de ser parte do ponto.

Algo interessante sobre o escalonamento de poder em Mob Psycho 100 é que ele não chega a ser um fim em si mesmo. Acontece que a história precisava de personagens humanos que pudessem fazer frente ao Mob – e que pudessem servir de exemplo do tipo de pessoa que o Mob pode vir a se tornar caso se deixe levar pela arrogância de ser o mais forte. Que isso signifique lutas mais intensas é em essência um bônus, ainda que bem vindo.

Mob Psycho 100, episódio 1

Mas isso é uma discussão que retomamos mais para o final do artigo, e por agora acho que vale apenas reforçar o ponto inicial. Apesar de seus riscos, o escalonamento de poder pode ainda ter o efeito desejado, posto que bem executado. Dando um sopro de ar fresco na história e restaurando a tensão dos momentos de ação. Mas claro: as vezes, a falta de tensão é justamente o ponto.

Fantasia de Poder

Na prática, “fantasia de poder” é uma acusação. Implícito no termo estando a ideia de que a obra existe tão somente como escapismo, que convida sua audiência a se identificar com um protagonista para o qual tudo dá certo. E, pondo as coisas nesses termos, não é difícil imaginar que as ideias de uma fantasia de poder e a de um protagonista “apelão” se cruzam com bastante frequência.

Um protagonista que esteja acima de todos é o perfeito eixo em torno do qual escrever uma história sobre um universo que se dobra a seu favor – nem que na marra. E enquanto eu não estou aqui para disputar o caráter escapista dessas histórias, acho que ainda cabe uma rápida exploração de como operam.

Overlord, episódio 1

Como na seção anterior, tratemos aqui de alguns exemplos para que a discussão não fique tão abstrata. Começando com a light novel, e sua posterior adaptação em anime, Tensei Shitara Slime Datta Ken (ou TenSura), de Fuse.

Nessa história, temos que, após sofrer uma morte trágica, um assalariado japonês reencarna em um mundo de fantasia na forma de um singelo slime. Um que, por contravenções do roteiro que não cabem detalhar aqui, irá ainda se mostrar bastante poderoso, angariando aliados de diversas raças e mesmo chegando ao ponto de fundar a própria nação – da qual, é claro, torna-se o hesitante líder.

Em algum nível, é quase como se Rimuru, o protagonista, jogasse Sim City com aquele mundo, construindo e ampliando sua cidade enquanto forma alianças com territórios vizinhos. E ainda que esse talvez seja um exemplo extremo, a fantasia do protagonista que altera por completo o status quo do mundo em que chega não é nem um pouco rara em séries do gênero isekai.

Tensei Shitara Slime Datta Ken, episódio 1

Mais nisso em breve, mas antes eu gostaria de seguir com nosso próximo exemplo. E, mantendo o padrão da seção anterior, vamos agora com um bem distante desse último no tempo e no gênero: o mangá de Kazuki Takahashi, Yu-Gi-Oh!

Imagino que o título dispense apresentações, mas as façamos mesmo assim. Esta é a história de Muto Yugi, que, após resolver o quebra-cabeça tridimensional conhecido como “Enigma do Milênio”, liberta o espírito do faraó sem nome, que passa então a possuí-lo sempre que o garoto se vê em perigo. E enquanto o título é mais conhecido pelo jogo de cartas que originou, o começo do mangá é bem diferente do que a história que ele viria a se tornar.

Nele nós temos um formato de “adversário da semana”, seguindo sempre uma mesma estrutura. Um vilão pontual aparece, causando problemas para Yugi e seus amigos. A situação chega ao ponto de alguém se ver em sério perigo, ao que então o espírito do faraó toma posse do corpo do protagonista. Dito espírito desafia então o vilão para um jogo qualquer, que ao perder recebe uma punição.

Yu-Gi-Oh, episódio 1

Dentro dessa estrutura, o faraó é efetivamente invencível, e nos mostra como o conceito de um protagonista “apelão” pode ser bastante condicional. Ele pode não ser o mais forte em físico ou mais poderoso em magia, mas tem a inteligência e sagacidade necessárias para vencer qualquer oponente.

Mas mais importante para esta seção do artigo: esses capítulos iniciais de Yu-Gi-Oh põem em evidência a ideia do protagonista que faz a justiça (leia-se: vingança) com as próprias mãos. Aquele que, dotado de poder extraordinário, é capaz de livrar o mundo do “mal” – desde o valentão da escola até um criminoso foragido. E de novo: este está longe de ser o único exemplo, com Hokuto no Ken bem merecendo uma citação (para ficar só em títulos já mencionados).

O que podemos ver nesses exemplos é a fantasia da autoimportância. A daquele que, sozinho, é capaz de trazer a mudança, seja na forma do governante benevolente Rimuru, seja na forma do vigilante faraó. E ainda que seja inteiramente possível contar histórias do tipo com protagonistas mais fracos, o protagonista “apelão” permite pular muito do que seria o “miolo” desse tipo de história, começando já de um ponto em que o herói tem o poder para fazer valer a sua vontade.

Hokuto no Ken, episódio 1

Se essa é uma fantasia saudável, ou mesmo se ela diz algo sobre uma população que já não se vê mais como capaz de controlar os rumos da própria vida, são questões de ordem psicológica e sociológica que não me cabem discutir aqui. Este é um texto sobre narrativa, afinal de contas.

Mas antes de encerrarmos essa seção, cabe ainda um último exemplo de como um protagonista “apelão” pode ser usado no contexto de uma pura fantasia de poder: o do total e consciente exagero. Bem ao exemplo da light novel de Shuu e de sua subsequente adaptação em anime: Maou Gakuin no Futekigousha.

Aqui temos que o todo poderoso rei demônio Anos Voldigoad oferece a própria vida para pôr fim a uma longa guerra entre humanos e demônios. Dois milênios depois, Anos reencarna em um mundo mais pacífico – mas também um onde a magia dos demônios enfraqueceu consideravelmente. E se nosso protagonista já era forte para os padrões de sua época, agora então seu poder ultrapassa os limites do absurdo.

Maou Gamuin no Futekigousha, episódio 1

E cabe aqui enfatizar o “absurdo”. Em uma de suas primeiras lutas, Anos causa ferimentos terríveis ao oponente apenas com as vibrações das batidas de seu coração. E quando esse oponente insiste em manter a bravata mesmo diante da morte certa, Anos o mata e imediatamente o ressuscita, apenas para mostrar que podia.

É uma história que leva o conceito de um protagonista “apelão” ao extremo, e que se fosse mal-executada poderia cair em todas as críticas já mencionadas sobre esse tipo de personagem. Contudo, a execução competente e consciente do exagero dá à coisa toda um ar quase que cômico, de tal forma que muito da graça da obra estava não em se o Anos venceria suas lutas ou mesmo em como ele as venceria, mas sim no quão absurda e absoluta seria a sua vitória.

E bom, já que eu toquei no assunto da comédia…

Pela Piada!

Nem toda história é feita para ser tensa. E com tantas trazendo protagonistas cada vez mais fortes, era só uma questão de tempo até vermos surgir toda sorte de paródias desse exato tropo.

One Punch Man, episódio 11

O exemplo clássico aqui vem de ainda outro mangá de ONE, One Punch Man. A história do autoproclamado “herói por hobby” Saitama, que de tão forte vence qualquer inimigo com apenas um soco. A piada estando na resolução anticlimática de cada conflito, onde cada novo vilão é construído como uma ameaça ainda maior que o anterior, apenas para ser vencido em um único golpe.

Mas claro que este está longe de ser o único exemplo do tipo, e dada a popularidade da obra (em boa parte graças à sua adaptação em anime) eu prefiro dedicar o grosso desta seção a outros dois exemplos um pouquinho menos conhecidos.

O primeiro desses é a light novel, e posterior adaptação em anime, de Yuumikan: Itai no wa Iya nanode Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai to Omoimasu (ou BOFURI). Uma história que, de certa forma, traz muito do apelo de Maou Gakuin no Futekigousha, mas num contexto bem mais leve e mesmo alguns degraus abaixo na escala do exagero.

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai to Omoimasu, episódio 1

Aqui nós temos a história da estudante Honjou Kaede, que incentivada por sua amiga começa a jogar o VRMMORPG New World Online. Uma completa novata nesse tipo de jogo, porém, a garota faz exatamente como descreve o título: como não quer se machucar, ela aloca todos os seus pontos em defesa! O resultado sendo seu avatar Maple, de resistência sem igual naquele mundo.

Isso, porém, é apenas o começo. New World Online é um jogo de coleta de habilidades, com os jogadores sendo incentivados a construir todo um arsenal de golpes e a combiná-los da forma que for mais vantajosa. O problema é que a Maple parece ter um talento para encontrar as habilidades mais quebradas do jogo, logo se tornando uma verdadeira lenda viva naquele universo.

Desde devorar seus oponentes com seu escudo, até fazer cair uma chuva de veneno do alto de sua tartaruga gigante voadora, muito do apelo do anime vem de qual será a próxima loucura da Maple. Mesmo entre os personagens começa a haver alguma expectativa quanto a qual será o próximo passo da protagonista, com muito da graça da série vindo das suas reações a cada nova bizarrice.

Itai no wa Iya nano de Bougyoryoku ni Kyokufuri Shitai to Omoimasu, episódio 5

Claro que, com o avançar da história, Maple ainda consegue encontrar adversários a altura. E pra um anime sobre uma garota jogando videogame com seus amigos, BOFURI entrega um bom tanto de lutas bem legais. Mas mesmo assim, nada que tire a graça que está na essência da obra.

Já nosso segundo exemplo vem de outra light novel adaptada em anime, desta vez de FUNA: Watashi, Nouryoku wa Heikinchi de tte Itta yo ne! (ou Noukin) A história de uma garota que só desejava ser mediana – e que atingiu seu desejo da forma mais “tecnicamente correta” possível!

Em sua vida passada, a jovem Kurihara Misato era uma prodígio que, justamente por suas habilidades acima da média, nunca conseguiu fazer amigos. Ao morrer, lhe é oferecida a chance de reencarnar em um novo mundo, ao que a garota pede ainda por ser apenas mediana nessa próxima vida. Para o seu azar, aquele que a reencarnou interpretou isso como a média dentre todas as criaturas daquele mundo, não apenas dos humanos.

Watashi, Nouryoku wa Heikinchi de tte Itta yo ne!, episódio 1

Como resultado, a jovem Adele von Ascham nasceu em uma família nobre e com uma aptidão sem igual para a magia. E por motivos que não cabem resumir aqui, ela agora leva a vida como a hunter Mile, tentando a todo custo esconder suas capacidades fora do comum – e falhando miseravelmente.

Se BOFURI estava mais próximo de Maou Gakuin no Futekigousha, em abraçar a loucura que o conceito de um protagonista superpoderoso permite, Noukin está bem mais próximo de One Punch Man, em que sua protagonista é bem capaz de vencer oponentes bem poderosos com apenas um golpe. Diferente do mangá de ONE, contudo, a graça aqui não vem bem da quebra de expectativas durante as lutas.

Antes, todo o ponto de Noukin está na Mile tentando manter a farsa de ser “mediana” mesmo quando está claro para todos ao seu redor que ela é muito mais do que isso. O que, aliado às tendências otaku que a garota trouxe de sua vida passada, é a principal fonte da comédia do anime.

Watashi, Nouryoku wa Heikinchi de tte Itta yo ne!, episódio 1

Aliás, de comédia e também de drama, dado que é justamente a sua experiência como uma prodígio em sua vida passada que faz a Mile acreditar que precisa ser “normal” se quiser ser aceita por aqueles ao seu redor. O que me permite entrar no último ponto que trago para essa discussão…

Drama

Mesmo concordando com o argumento de que um protagonista “apelão” tira a tensão das lutas de sua história, acho válido apontar que há outras formas de conflito (mesmo mais interessantes, se me permitem) do que apenas o físico. E muitas das obras aqui mencionadas explicitam isso muito bem.

Vamos repassar alguns dos exemplos, começando com Mob Psycho 100. Onde, conforme aludi no começo do artigo, o real foco de conflito na história repousa no crescimento do Mob como pessoa. Aprendendo a se relacionar com os outros, a vocalizar seus desejos e vontades, a aprimorar seu corpo, e mesmo a quando e como usar dos seus poderes.

One Punch Man, episódio 1

Na outra obra de ONE, One Punch Man, o conflito maior repousa na relação do protagonista, Saitama, com o mundo ao seu redor. Saitama detém inigualável poder, mas essa mesma força o tornou apático e desconectado do mundo que o cerca, além de fadado a buscar por uma luta que é forte demais para ter. Ele atingiu o que buscava, apenas para descobrir que não era realmente o que queria.

Diga-se de passagem, a ideia de que “é solitário no topo”, para usar do ditado, é uma bastante presente em obras com protagonistas poderosos demais. Tanto que na temporada em que escrevo esse artigo há dois animes que bem servem de exemplo: Yuusha, Yamemasu, adaptado da light novel de Quantum, e Shijou Saikyou no Daimaou, Murabito A ni Tensei suru, adaptado da light novel de Katou Myoujin.

Eu vou evitar de falar do primeiro, já que seria preciso entrar em detalhes do meio pro final da história para explicar a inserção do título nessa seção do artigo. Mas toda a premissa do segundo é a de um sábio tão poderoso que mesmo seus amigos mais próximos passaram a tratá-lo com reverência, fazendo com que ele decidisse reencarnar em uma época onde pudesse ser tratado com mais naturalidade.

Shijou Saikyou no Daimaou, Murabito A ni Tensei suru, episódio 1

Em Tensei Shitara Slime Datta Ken, muitos dos conflitos da história provém da relação de Rimuru e seu povo com as outras nações ao seu redor. Em Maou Gakuin no Futekigousha, Anos precisa lidar com séculos de racismo e revisionismo histórico que ele não pode simplesmente atirar para longe. E suponho que já comentei sobre as motivações da Mile em Watashi, Nouryoku wa Heikinchi de tte Itta yo ne!

É ingenuidade achar que autores não estão cientes das críticas aos tropos que usam. Sim, quando o protagonista é forte demais, suas lutas não terão lá tanta graça. Mas a solução que muitos encontraram foi a de criar conflitos outros que não apenas embates físicos. De onde temos uma pletora de protagonistas que até podem socar ou explodir qualquer inimigo, mas que ainda seguem atormentados por dúvidas quanto a quem são e qual o seu lugar no mundo.

E se ainda assim o autor não quiser abdicar de tensão nas lutas, há formas de se fazer isso mesmo com um protagonista “apelão”. Overlord, light novel de Maruyama Kugane, também com adaptação em anime, serve como exemplo aqui. E se o seu protagonista, Momonga, segue intocado do começo ao fim, a história compensa isso com ocasionais mudanças de foco para algum outro personagem, cuja vitória – e mesmo sobrevivência – já não é tão garantida.

Overlord, episódio 1

Concluindo…

Certamente que há tropos que podemos chamar de ruins em si mesmos. De cabeça, consigo pensar em vários que reforçam estereótipos, propagam discursos de ódio, e outras coisas do tipo. Mas o conceito em si de um protagonista “apelão” com certeza não é um desses! E se é verdade que um personagem do tipo tira muito da tensão das lutas, também é verdade que uma história não é feita só de lutas.

Num espectro que vai da leveza ao drama, personagens do tipo cumprem uma pletora de papéis. Em um extremo, são bons veículos para histórias que se prestam a ser pura fantasia de poder, entregando catarse na ideia de um personagem capaz de fazer valer a própria vontade. No outro extremo, porém, temos personagens propensos à solidão, com problemas – pessoais ou sociais – que não podem apenas socar para longe.

Crucial ainda sendo o ponto de que são histórias que não poderiam ser contadas de outra forma, ou ao menos não sem que muito de sua essência ou mensagem se perdesse. É um tropo que, apesar das críticas, ainda tem sua razão de existir, mesmo para além de qualquer possível resposta mais cínica.


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Imagem de capa:

One Punch Man, episódio 1

Um comentário sobre “Protagonista Apelão

  1. eu gostei bastante da explicação de histórias que usam personagens muito poderosos em suas obras.
    hokuto no ken foi isso, com o seu personagem a pelão, o kenshiro, que trucidava seus inimigos na base das suas técnicas poderosas. que até um ponto da história me divertia, mas sentia um desafio altura para o ken, e que quando veio adversários tão poderosos, foi aí que a história alavancou para mim.
    e eu gosto de história escapistas com seus protagonistas super poderosos, mas só quando bem utilizados na narrativa com intuito de gerar seu propósito, seja cómico, reflexivo e até mesmo o absurdo para suas ações.
    estava sentindo saudade desses temas de narrativa e tópico sobre animes, e obrigado por ter lançado
    essa análise diego!

    Curtido por 1 pessoa

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