Como fazer uma (boa) review negativa?

Falando sobre críticas negativas.

O que define uma boa review negativa? Para mim, isso se resume ao efeito que ela causa. Idealmente falando, apontar os defeitos e problemas de uma dada obra deveria servir para incentivar ao pensamento crítico, além de nos fazer refletir um pouco mais sobre o que faz uma boa e uma má obra de ficção. E notem: eu não digo que todos precisam concordar com a review. É plenamente possível discordar dos pontos apresentados após ponderação, ao mesmo tempo que, para aqueles que gostem da obra criticada, é também possível concordar com os defeitos levantados e ainda seguir gostando daquela história. O ponto aqui é menos a busca de um consenso e mais a ideia de que essa review deveria trazer algo de positivo. Algo que, infelizmente, muitas vezes não acontece. Não é raro encontrarmos reviews negativas que só encontram eco entre aqueles que já não gostavam do anime em primeiro lugar, bem como deve ser ainda mais fácil encontrar tais reviews sendo recebidas com puro desdém e irritação por parte daqueles que gostem da obra analisada. E é aqui, a meu ver, que temos as reviews negativas ruins.

Para alguns, essa minha distinção talvez soe como injusta. Afinal, não é como se o autor pudesse controlar a reação à sua crítica, não é verdade? Bom… Enquanto há certamente alguma verdade nisso (também não sou ingênuo: sei muito bem que há pessoas que não suportam ver aquilo que gostam ser criticado negativamente, por mais ponderada e bem argumentada que seja a crítica), eu ainda não seria tão rápido em isentar ao autor. Isso porque eu acredito que existem algumas estratégias discursivas que podem em muito minimizar qualquer possível reação negativa, estratégias estas que eu mesmo busco usar nas raras vezes em que vou falar mal de algo. Não vou dizer que sejam fáceis de aplicar, e eu mesmo penso que fazer uma boa review positiva é um trabalho bem mais fácil que fazer uma boa review negativa (dai tão poucas reviews minhas nesse sentido). Mas para aqueles que eventualmente se interessarem, ficam então estas considerações.

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Vamos falar de traps (o termo…)

Kinoshita Hideyoshi

Trap. Palavra da língua inglesa que literalmente se traduz por “armadilha”, no meio otaku ela é normalmente usada para descrever um personagem que, embora de aparência feminina ou andrógena, acaba por se revelar, no decurso da história, como masculino. Isso, claro, sendo apenas uma apropriação do termo, muito usado na internet como reação a fotos de transexuais ou crossdressers, uso esse sintetizado em memes como “it’s a trap“. O espírito aqui sendo óbvio: a pessoa crê estar olhando para uma figura feminina, apenas para depois descobrir que não se trata de uma mulher “de verdade”.

Justamente por conta desse significado, o termo já foi bastante criticado como sendo transfóbico, e isso baseado em sobretudo dois argumentos: primeiro, o de que o termo faz parecer que mulheres trans estariam tentando “enganar” os outros, ao invés de estarem apenas sendo elas mesmas; e segundo, o de que ao criar uma divisão entre as mulheres trans e as mulheres “de verdade”, o termo acaba por lhes negar parte de sua identidade. Mantenham isso em mente pois será relevante depois, mas por agora fica então a pergunta: e quanto ao meio otaku?

Que o termo é no mínimo “politicamente incorreto” se aplicado a pessoas reais é uma espécie de regra não dita já bastante consolidada. Por conta disso, vez ou outra surge no meio otaku o debate de se é ou não certo seguir usando do termo mesmo que para personagens fictícios. Afinal, se ele é assim tão ofensivo, não seria melhor abandoná-lo, talvez trocando por algum outro menos problemático? Até porque, não é como se perdêssemos qualquer coisa ao fazê-lo, não é? Bom… É complicado. Ou, pelo menos, mais complicado do que poderia parecer a princípio.

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Review – Sarusuberi: Miss Hokusai (Anime)

Sarusuberi: Miss Hokusai

Sarusuberi: Miss Hokusai é um caso no mínimo curioso em termos de adaptação. Produzido pelo estúdio Production I.G., com direção de Keiichi Hara e lançado em 2015, o filme adapta ao mangá Sarusuberi, escrito e ilustrado por Hinako Sugiura. O curioso aqui está no fato de Sarusuberi, o mangá, foi lançado na revista semanal Manga Sunday, entre 1983 e 1987, com quase 30 anos separando-o de sua adaptação. Já um pouco menos surpreendente, mas ainda interessante de apontar, é o fato de que aparentemente o filme fez algumas mudanças em relação à obra original. O traço é a mais óbvia, com o mangá buscando um traço mais próximo àquele do japão do período onde se passa a história – o período Edo -, enquanto que os traços do filme são claramente mais modernos. Mas saindo da estética e entrando na história, parece que o filme introduz algumas cenas próprias, além de dar uma maior atenção a personagens que, no mangá, são bem mais secundários. O essencial, porém, foi mantido, e a premissa de ambos se mantém a mesma.

A história é focada no dia a dia de O-Ei, artista e filha de Katsushika Hokusai. Ambos são figuras históricas reais, com Hokusai (1760 – 1849) muitas vezes sendo apontado como o primeiro a usar do termo “mangá” para descrever o seu trabalho, em particular a sua série de pinturas Hokusai Manga. Claro, até que ponto podemos considerá-lo “biográfico” é algo que irei discutir mais adiante, mas é bom ter em mente que orbas desse tipo não devem ser de cara entendidas como um perfeito retrato do passado (ou das pessoas) que representam. E é importante salientar que aqui não há exatamente uma trama propriamente dita, com o filme assumindo um formato muito mais de slice of life, mostrando alguns momentos na vida de O-Ei. Isso em si mesmo pode afastar muitas pessoas, sobretudo aqueles que procurem uma estrutura narrativa mais convencional. Mas ainda recomendaria que dessem uma conferida no filme. É uma obra excelente, que se utiliza muito bem de seu tempo. Além disso, a partir daqui o texto terá spoilers, então considere esse o seu aviso.

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O que é uma “desconstrução”?

"Desconstrução": a palavra é jogada aqui e ali com frequência, mas o que ela de fato significa?
“Desconstrução”: a palavra é jogada aqui e ali com frequência, mas o que ela de fato significa?

Com toda certeza o leitor já se deparou com esse argumento ao menos uma vez, o de que dado anime ou mangá é uma “desconstrução do” e ai segue-se algum gênero, clichê, ou o que couber. “Neon Genesis Evangelion é uma desconstrução do gênero mecha“, “Madoka Magica é uma desconstrução do gênero mahou shoujo“, “Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu é uma desconstrução do gênero isekai [protagonista que viaja para outro mundo]”, “Hunter x Hunter é uma desconstrução do shounen“, e por ai vai. Você talvez inclusive concorde com algumas dessas afirmações, discorde de outras, e talvez incluísse entre esses exemplos a sua própria lista de animes que “desconstroem” alguma coisa. Mas para o quanto a palavra é usada, ela é também incrivelmente imprecisa. Boas são as chances que duas pessoas a usando queiram dizer coisas completamente diferentes, e mesmo que concordem que este ou aquele anime é uma desconstrução de algo, talvez o achem por motivos totalmente distintos. Justamente por isso é possível surgir bastante debate e discussão sobre se dado anime é ou não uma desconstrução disso ou daquilo. Mas isso levanta então a questão: o que, afinal, é uma desconstrução? O que o termo realmente quer dizer?

Bom, bem francamente, essa é uma pergunta bem difícil de responder. Ao longo do tempo e do contexto essa palavra mudou drasticamente, ao ponto de que a forma como o meio otaku a usa atualmente é total e completamente diferente daquela do uso original da palavra. O que traz consigo um certo grau de ironia, para ser bem sincero, mas explicarei melhor isso em breve. Por agora, o importante é apontar o seguinte: para tentar explicar melhor essa palavra, eu vou precisar entrar em pelo menos três definições que ela assumiu ao longo do tempo. Primeiro, a definição original, de quando a palavra surge ainda no meio da teoria literária. Em segundo lugar, a definição mais consensual entre a crítica dentro do meio otaku, aquela normalmente adotada e propagada por aqueles com um conhecimento um pouco maior da mídia. Finalmente, a definição coloquial dentro do meio otaku, aquela surgida a partir de uma espécie de subversão ou “corrupção” do segundo significado, e que essencialmente é a responsável pelas pessoas começarem a usar o termo para falar de literalmente todo anime minimamente diferente do padrão.

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Debate – A Filmografia de Makoto Shinkai

A filmografia de Makoto Shinkai.
A filmografia de Makoto Shinkai.

Makoto Shinkai foi talvez um dos nomes mais comentados no meio otaku de 2016. Isso sobretudo por conta do seu mais recente filme, Kimi no Na Wa [review], que semana após semana quebrava algum novo record de bilheteria no Japão. Mas verdade é que o diretor já era bem conhecido muito antes de seu mais novo hit, tendo ganhado notoriedade inicialmente com seu curta Hoshi no Koe (2002), embora no Brasil ele talvez seja mais conhecido pelos seus filmes Byousoku 5 Centimeter (2007) e Kotonoha no Niwa (2013), sobretudo porque antes tiveram a sua adaptação em mangá lançada aqui no Brasil pela editora New Pop.

Aproveitando então o momento, juntamos aqui um pessoal da blogosfera animística para falar um pouco sobre o que achamos da filmografia do Makoto Shinkai. Assim, aqui temos o Cat Ulthar, do blog Dissidência Pop; o Vinícius Marino, do blog Finis Geekis; e o Vitor Canônico, do canal no YouTube VítorVerde.

E para já dar início a esse debate, eu acho por bem já lançar aqui duas perguntas aos participantes. Em primeiro lugar: o que vocês acham da filmografia do Makoto Shinkai de maneira geral? E, em segundo lugar, e como acho inevitável tocarmos nesse assunto mais cedo ou mais tarde: quem aqui já assistiu Kimi no Na Wa e, dos que viram, o que acharam dele?

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