Kino no Tabi, episódio 4 – “Eu sou Kino”


Terra de Adultos


Queria começar essa análise falando que gosto bastante do momento que o anime escolheu para nos dar o passado da Kino – algo que só pude apreciar de verdade após ler a light novel e assistir ao anime de 2017. Naquela, essa história é logo o primeiro capítulo do volume 1, enquanto que nesse ela vem no episódio 11 de 12. Ambos bem longe do ideal, se me perguntassem.

Acho bom conhecermos a Kino viajante primeiro. Nos aclimatarmos à personagem, entendermos quem ela é como pessoa, e talvez nos perguntarmos que circunstâncias a levaram a estar onde está. Mas quando o seu passado nos é revelado muito tarde, acaba sendo difícil de nos importarmos. Porque, nesse ponto, já estamos também familiarizados demais com a Kino como ela é para que seu passado nos seja mais do que uma curiosidade. Sendo assim, nos trazer essa história no episódio 4 me parece mesmo a decisão ideal.

E que história! Minha segunda favorita do anime, atrás apenas daquela do episódio 9. Mas não vou me estender demais aqui: tenho um texto inteiro para isso. Sendo assim, entremos então no episódio!

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Kino & Kino


Considerando que esse episódio se trata essencialmente de uma história de origem, sua prioridade é a de nos fazer entender como a Kino se tornou a pessoa que conhecemos hoje. E instrumental para isso foi o homem que visitou seu país poucos dias antes de seu aniversário: o Kino.

Foi graças às suas conversas com ele que ela começou a questionar o sistema em voga na sua terra natal, o que eventualmente levou à morte dele e à escapada dela. E se começo essencialmente pelo final, isso se deve ao fato de que descobrir isso nos permite recontextualizar algumas coisas.

Quando da minha análise do primeiro episódio, eu comentei como, para a Kino, “viajante” parecia ser muito mais do que um hobby, trabalho ou título. Era uma identidade, e uma que ela inclusive temia perder. Sua fala sobre como ela só fica três dias em cada país porque têm medo de se assentar em algum lugar deixando isso bem claro. Pouco antes, naquele mesmo episódio, Hermes havia comentado como cada um tem o seu lugar no mundo. Pois bem: como fica, então, a Kino?

Verdade seja dita, a garota passou pelo que bem poderíamos descrever como uma morte metafórica. Tivesse ficado em seu país, esta teria sido bastante literal. E uma vez fora dele, ela renuncia mesmo ao seu nome. A flor vermelha que vemos no começo e no final do episódio é muito provavelmente a camélia, que na língua das flores representa tanto o amor quanto uma morte graciosa. Quem quer que a Kino fosse antes, essa pessoa deixou de existir no momento em que ela cruzou o portão da sua terra natal.

Ela assume, então, uma nova identidade. Se ela não tem mais um lugar ao qual pertencer, então ela não pertencerá a lugar algum. Ela muda seu nome, e se torna então uma viajante.

Num rápido parênteses, aqui também cabe o comentário que fiz na última seção da minha análise do segundo episódio. Que ali a Kino pareça tão interessada no anel que os homens lhe dariam de recompensa pode muito bem se dever ao fato de que ela não pode crescer como uma jovem normal.

No mais, é também interessante que a memória de seu tempo com Kino é uma sempre presente. O nome que ela decide adotar é o do viajante. Sua vestimenta se torna bem mais andrógena, e ela inclusive passa a se referir a si mesma como “boku”, um “eu” mais masculino (e o mesmo que o Kino usava). Seu sobretudo é aquele do viajante. E o episódio 1 nos dá uma cena na qual Kino recita a mesma fala do Kino original, “dizem que quando as pessoas veem um pássaro a voar no céu elas sentem vontade de sair em uma viagem”. Indício de que ela ainda leva consigo os ensinamentos daqueles três dias.

Aliás, que ela fique apenas três dias em cada país muito provavelmente se deve também ao fato de que este foi o tempo que o Kino ficou no hotel da sua família. E que ela mantenha sempre uma atitude de mera observadora nos países que visita talvez se deva ao fato de que ela viu em primeira mão o que acontece quando um estrangeiro interfere nos costumes locais.

Podemos também contrastar a Kino do começo com aquela do final do episódio.

Quanto à primeira, me refiro à Kino que age como narradora quando o episódio começa. A forma como ela descreve seu nome me é de particular interesse. Ela diz que já não se lembra, e enquanto não duvido que isso seja verdade, acho também bastante provável que ela ativamente o tenha tentado esquecer. Ela se lembra, porém, que se a pronúncia fosse ligeiramente alterada seu nome se tornava um insulto, e quando ela diz isso a dublagem transparece certa raiva e ressentimento no seu tom de voz.

Já no epílogo do episódio, quando Hermes e Kino caem nas flores, este diz a mesma coisa que ele disse quando primeiro passaram por isso, logo após fugirem do país natal da Kino. E nisso ela ri. Uma risada bem alta, até, uma reação bastante fora do normal para uma personagem que tende a ser bem mais contida em suas emoções.

Não me entendam mal, a Kino é sim bastante expressiva. Só que essa expressividade tende a ser mais sutil. Um sorriso contido. Um franzir das sobrancelhas. E por ai vai. Uma efetiva gargalhada é bem pouco característico da personagem, o que denuncia que há algo de especial nessa memória. Ela pode não gostar de se lembrar de como era sua vida em sua terra de origem, mas a lembrança de seu momento de renascimento parece lhe ser mais querida.

Dito isso, será que não há mais ai? Que a Kino tenha decidido essencialmente tomar para si a identidade do Kino original não talvez denuncie ai um certo sentimento de culpa? Tudo bem, confesso, digo isso muito por já ter assistido a série antes. Um dos especiais toca exatamente nesse assunto. Mas por isso mesmo podemos deixar o assunto para depois. Por agora, fica apenas a provocação.

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Terra de Adultos


Mas ainda que o episódio seja a história de origem da Kino, há também aqui muito o que se discutir em termos mais temáticos.

Antes, porém, eu só queria observar como ainda outra vez o anime nos apresenta figuras de autoridade pouco confiáveis. E enquanto pode ser tentador apontar para o líder todo vestido de preto como o exemplo disso, a verdade é que todos os adultos ali cumprem exatamente esse papel. Mesmo o pai da nossa protagonista a tenta matar tão logo ela se mostra “defeituosa”. É como eu disse quando da minha análise do terceiro episódio: Kino no Tabi tende a não ver autoridades com bons olhos.

Mas entrando então nos temas mais centrais do episódio, dois são os que se destacam, inclusive por estarem ligados: o trabalho e o ser adulto. Vamos começar com definições.

Conforme andam pelo mercado, a Kino diz ao Kino qual o seu entendimento da palavra “trabalho”. Trata-se, ela coloca, de algo que é sofrido de se fazer, mas necessário. De onde vem, então, o seu entendimento da palavra “adulto”. Trata-se, aqui, daquele que trabalha. Que cumpre com a sua função mesmo que a contragosto, e que ainda o faça com um sorriso no rosto. Ser adulto é, poderíamos então dizer, submeter as suas vontades, gostos e desejos ao bem coletivo. Só que o episódio questiona ambas as definições.

A questão do trabalho é a mais rápida de se destrinchar. Fica no ar a pergunta de se o trabalhar precisa necessariamente ser uma experiência dolorosa. Se não é possível viver fazendo aquilo que se gosta – como o Kino faz.

Dito isso, não acho que a mensagem final do episódio possa ser reduzida a um mero “trabalhe com o que gosta e não terá de trabalhar um só dia”, ou alguma platitude semelhante. Primeiro porque, bom, o Kino morre no final! Mas muito mais significativo: a Kino não exatamente virou uma cantora, não é?

Nossos sonhos e ambições podem ser bastante circunstanciais. No fim do dia, acho que o que a Kino realmente queria era o direito de escolher o próprio destino. De levar uma vida que não fosse ditada por outrem. Para conseguir isso, porém, foi preciso sacrificar bastante. Foi preciso perder o seu lugar no mundo, e mesmo deixar de ser quem era. Será que ela está melhor agora do que se tivesse se tornado uma “adulta” em seu país? Tenho certeza que ela mesma diria que sim, mas ainda fica a provocação.

E nisso podemos passar para o segundo tema maior do episódio.

Fica aqui também a pergunta de o que torna uma pessoa um “adulto”. Como disse, no país da Kino ser adulto é trabalhar em um trabalho que você não gosta, e com um sorriso no rosto. Mas será que apenas isso é o bastante?

Acho bem interessante como o episódio conduz toda a sequência que vai da Kino perguntando aos pais se ela podia não fazer a cirurgia até a sua fuga. Tão logo a garota questiona o costume local, as pessoas começam a agir de forma bastante agressiva. Bastante emotiva. Bastante, diria até, infantil.

Esses são claramente adultos infantilizados. Mais velhos, claro, mas ainda imaturos. Quando a Kino se mostra “defeituosa”, seu pai se prontifica a se livrar dela, pegando um facão de cozinha e apontando para a garota. Nada em sua atitude, expressão facial, ou mesmo jeito de se mover denuncia um adulto que plenamente entende as implicações e consequências do que está para fazer. Bem o contrário, na verdade.

Mesmo a falta de empatia das pessoas para com o Kino, após este ser esfaqueado e morrer, denuncia o quão infantis são. Se crianças às vezes parecem um tanto quanto cruéis, é porque elas são mesmo. Ainda não totalmente dotadas de empatia. Isso sem mencionar como todas aquelas pessoas pareciam estar sempre buscando a aprovação de alguma figura de autoridade.

Que seria, então, ser um adulto? Kino, o homem, talvez tenha respondido isso justamente quando a Kino lhe pergunta o que ele é. Esse diz: “Eu sou Kino. Apenas um homem chamado Kino, isso é tudo”. Ser adulto, portanto, talvez seja tão somente reconhecer a si próprio. E nisso, seguir o próprio caminho.

No mais, essa indistinção que o episódio faz entre adulto e criança levanta também algumas questões que, se talvez menos focadas ao longo do episódio, ainda merecem consideração.

A cirurgia do país da Kino é essencialmente um ritual de passagem, bem semelhante aos que já existiram ao longo da história. Da noite para o dia a pessoa deixa de ser uma criança para se tornar um adulto. Algo que, alguns talvez diriam, ainda acontece. Podemos não ter um ritual elaborado para marcar a data, mas legalmente falando a maioridade funciona da exata mesma forma.

A decisão dos pais da Kino de se “desfazer” dela também convida a uma reflexão sobre o controle que os pais exercem na vida de seus filhos, e como tendemos mesmo a ver os segundos como propriedade dos primeiros. E quando isso se soma à questão anterior e à indistinção que o anime faz entre adultos e crianças, fica inevitável não considerarmos o quão arbitrárias são as nossas categorias de “adulto” e “criança”.

Mas claro, a nada disso o anime dá uma solução fácil. Permanece verdadeira a ideia de que há trabalho que ninguém gosta e que ainda assim precisam ser feitos. E o episódio de forma alguma propõe abolir a separação entre crianças e adultos. Ele apenas nos dá sobre o que refletir. Para onde essa reflexão irá nos levar cabe a cada um – como bons adultos que somos.

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E Agora: Todo o Resto


Nossa costumeira seção onde deixo tudo que não consegui encaixar ao longo do texto. Tenham em mente que alguns comentários aqui podem conter spoilers de episódios futuros, então sigam por sua conta e risco.

  • Eu gosto bastante da frase que abre o episódio. “Ainda que não conhecesse o lugar, embarquei numa jornada à terra dos meus sonhos. Tendo chegado à terra dos meus sonhos, descobri que não conhecia o lugar”.

  • Enquanto a flor sobre a qual Kino e Hermes estão deitados deve sim ser uma camélia, imagino que a flor que os garotos jogam para a Kino seja uma flor de cerejeira (sakura). Quem se lembra do episódio final já deve saber o porque dessa minha especulação.

  • A OST que toca quando o Kino está reparando o Hermes, bem como quando Kino e Hermes estão fugindo daquele país, chama-se “ele é velocidade e eu sou balanço”. É a minha OST favorita da série.

  • Vemos pássaros com alguma frequência ao longo do episódio. Eles aparecem no começo, quando a Kino está deitada em meio às flores. No meio, quando Kino e Kino estão voltando das compras. E mais para o final, com a Kino vendo um pouco antes de subir no Hermes para fugirem dali. O simbolismo é meio óbvio, então não acho que precise explicar. Mas ainda acho bem legal.

  • Na hora de dar nome ao Hermes, a Kino pergunta ao Kino o nome do seu antigo parceiro. Isso foi cortado no anime, mas na light novel é dito que o Kino já teve uma motorad antes.

  • Quando a Kino retira o último pino do seu “calendário”, podemos ver pela janela aquela luz branca forte e intensa. Desta vez ela não encobre todo o cenário, mas ainda está lá presente como um sinal do perigo que se aproxima.

3 comentários sobre “Kino no Tabi, episódio 4 – “Eu sou Kino”

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