Kino no Tabi, episódio 5 – “Viajante, para onde você vai?”


Três homens nos trilhos


Nesse ponto, já devem ter percebido que alguns temas e imagens se repetem em Kino no Tabi. Alguns destes eu já apontei antes, como o recorrente uso do sol intenso para indicar perigo, e aqui no quinto episódio podemos ver ainda duas instâncias disso.

Mais uma vez o anime toca no tema do trabalho, ainda que agora de forma drasticamente diferente daquela feita no episódio anterior. E ainda outra vez podemos ver a desconfiança da série para com figuras de autoridade, novamente na imagem do rei cruel.

É um episódio que nos dá bastante sobre o que falar, então entremos logo na análise.

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O Sentido do Trabalho


É curioso que este episódio venha logo depois do anterior. Como eu disse, ambos abordam o tema do trabalho, mas o fazem de formas bem diferentes, preocupados em lidar com questões bem diferentes.

O quarto episódio parte do pressuposto de que o trabalho é algo necessário. É nessa realização que está a essência do dilema ali proposto. Algumas pessoas terão de fazer trabalhos que não gostam, mas estes ainda são importantes de serem feitos. Não seria melhor, portanto, que pudessem fazê-los com um sorriso nos rosto? Concorde ou não com os métodos daquele país – e o episódio certamente não parecia concordar -, ele só faz sentido dentro desses dois pressupostos. Mas e quando o trabalho não é algo necessário?

A história dos três homens nos trilhos, bem como o pequeno conto sobre o país onde ninguém precisa trabalhar, explora justamente essa questão. Gostamos de pensar no trabalho como algo significativo, algo que fazemos por algum propósito. A realidade, porém, nem sempre condiz com nossos anseios.

Os três homens se alistaram na companhia ferroviária por um motivo. E foram dados empregos que parecem ter algum sentido. Limpar um trilho que pode voltar a ser utilizado. Desmontar um trilho que estava fora de uso. Remontar uma linha pra ela voltar a ser usada. Todos são trabalhos válidos e legítimos, mas ai temos que todos os três estão trabalhando na mesma linha. O que acaba por tirar muito do propósito da coisa.

Me lembra um pouco aquele dito sobre trabalhos inúteis, onde por vezes parece que alguém é contratado para abrir um buraco só para que então se contrate alguém que vá lá e tampe o buraco. Uma crítica comum à burocracia excessiva, mas que se aplica quase que literalmente aqui. Ainda que superficialmente significativos, a verdade é que o trabalho dos três homens é completamente inútil!

Nisso temos o motivo para cada um trabalhar. O primeiro diz que era pra sustentar esposa e filho. O segundo diz que era para o sustento dos irmãos. E o terceiro, pelo sustento da mãe. Todos, porém, já estão há 50 anos nesse trabalho. O anime não toca nisso, mas: é bastante provável que a vasta maioria das pessoas por quem eles trabalham já não precisam de ajuda financeira há décadas. E ainda assim eles continuam, e pretendem continuar até que a empresa os mande parar – se é que essa empresa ainda existe! Aposentadoria? Nunca ouvi falar.

O tema segue sendo desenvolvido na história que a Kino conta ao primeiro homem, sobre um país no qual as pessoas não precisam trabalhar – mas trabalham mesmo assim.

É um país onde o alto avanço tecnológico e a mecanização proporcionaram uma pseudo-utopia onde, tecnicamente falando, ninguém precisa fazer nada. Aqui já podemos ver outro tema recorrente em Kino no Tabi, que é a tecnologia e como ela é usada (ou abusada) pelas pessoas. Mas teremos outras oportunidades para discutir o tema. Por agora, ficamos no fato de que estamos em um país com máquinas bastante eficientes.

Só que nesse contexto de opulência, como você distribui de forma justa a riqueza gerada pelas máquinas? E chave aqui é sim a palavra “justa”, pois a sua definição de justiça vai muito impactar como você encara a “solução” daquele país para lidar com essa pergunta.

Segundo o homem com o qual Kino conversa, as pessoas ali não precisam trabalhar, mas trabalham mesmo assim, a fim de ganhar pontos que indicam o quanto elas se beneficiam da riqueza gerada pelas máquinas. Só que tem um detalhe ai: porque as máquinas já fazem um ótimo trabalho sozinhas, o trabalho humano é, quando muito, simbólico. Ninguém ali produz nada, porque não tem o que produzir.

A justificativa que o homem dá é a de que humanos não devem levar uma vida fácil. Que se deixados sem trabalho, as pessoas se tornariam preguiçosas. Na verdade, a palavra usada é até um pouco mais pesada que isso. Ele diz “dame ningen“, algo como “pessoa ruim”. “Vagabundo” talvez seria uma adaptação válida.

É interessante. Se no quarto episódio o trabalho era algo necessário, ainda que ruim, aqui as pessoas desse país parecem crer que ele possui valor em si mesmo. Sua utilidade vem em segundo plano. A velha máxima “o trabalho engrandece”. Uma lógica que, vale dizer, segue bastante atual.

Acaba que esse episódio, ou no mínimo essa história em particular, seja talvez ainda mais relevante hoje do que no passado. Fato é que caminhamos para um mundo não muito distante do deste país. A automatização já é uma realidade, e mais e mais trabalhadores ainda se verão substituídos por robôs nas próximas décadas. O que poderia levar uma utopia pós escassez, mas sejamos realistas. Enquanto dinheiro for a força motriz da nossa sociedade, e a única forma de conseguir algum for trabalhando, a automação será apenas uma bomba relógio.

Cada vez menos trabalhos são necessários, mas a ética da nossa sociedade ainda associa trabalho com o valor pessoal. E surgem, então, duas formas de lidar com essa contradição.

A primeira delas é aquela representada pelos homens no trilho, que acreditam que o seu trabalho tem importância, quando na verdade só estão cavando um buraco para outro vir tampar. Já a segunda vem do país da história da Kino, onde as pessoas reconhecem a inutilidade do próprio trabalho, mas ainda o fazem baixo uma valorização do ato de trabalhar em si, e não dos seus resultados.

Nenhuma das duas alternativas, porém, parece lá muito boa. No caso dos três homens, eles estão já há décadas sem voltarem para casa ou terem notícias de suas famílias. Eu brinquei ainda há pouco, mas realmente não parece que aposentadoria existe no país deles. Já no caso do país da história da Kino, nossa protagonista até pergunta se o homem estava feliz com a vida que levava, mas mal é ouvida.

Por fim, toda essa situação nos força a questionar como fica, então, a Kino nisso tudo.

Ao final de cada encontro seu com os homens nos trilhos, eles perguntam a ela para onde vai. Uma pergunta talvez inócua, não fosse pelo fato de que “propósito” é o tema que subjaz a todas as discussões no episódio. “Para onde você vai?” podendo ser lido menos literalmente e mais metaforicamente. Como em: qual é, afinal, o propósito da sua jornada?

O problema é que, até onde sabemos, não há um. A Kino não tem nenhum destino particular em mente. Nenhum ponto final ao qual atingir. Nenhum país que, ao chegar nele, ela deixará de viajar. Isso não torna a situação dela similar à dos três homens? Ou à do país da sua história? Bom, não realmente.

Aqui podemos retomar a minha análise do primeiro episódio. Para Kino, “viajante” é mais do que um trabalho: é parte integrante da sua identidade. E como vimos no episódio anterior, é também aquilo que representa a sua liberdade do destino que tinha em seu país e a sua conexão com o Kino original. O apego que ela tem ao título de viajante é muito maior do que os demais personagens do episódio tem ao de trabalhador.

O que talvez explique ela não contar a sua história pela terceira vez. A repetição da fórmula da história dos três homens, onde a Kino encontra um, pergunta sobre seu trabalho, e conta a sua história, espelha a repetitividade sem sentido do trabalho daqueles três. Que ela então se recuse a contar sua história ainda outra vez demonstra que ela não está presa neste ciclo, por mais similar que a sua situação possa parecer na superfície.

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Ditadura da Maioria


A segunda parte do episódio nos trás então uma história não relacionada à anterior, onde temos a Kino chegando a um país devastado e deserto. Três dias se passam, e eis que na manhã do último dia nossos protagonistas encontram um homem que lhes conta a história daquele país.

Como eu apontei na introdução, aqui nós temos ainda outro exemplo de como Kino no Tabi vê figuras de autoridade com alguma desconfiança. A imagem do rei caprichoso sendo uma recorrente: vimos um na Terra Triste do terceiro episódio, vemos um aqui neste episódio, e, pequeno spoiler, veremos outro logo no próximo episódio. Ao mesmo tempo, a derrocada desse rei cruel raramente cria uma situação melhor do que a anterior.

Essa história em específico parece levemente inspirada na Revolução Francesa, que terminou com o fim da monarquia e a morte da família real. O que se seguiu sendo um período de perseguições e assassinatos políticos que foi “carinhosamente” apelidado de Reino do Terror.

Dito isso, as conexões com a realidade são provavelmente bem mais estéticas do que qualquer outra coisa. Esta parece ser realmente uma história sobre os méritos ou deméritos da monarquia enquanto um sistema de governo, ou mesmo da revolução enquanto forma legítima ou ilegítima de mudança. Antes, essa parece uma história sobre algo bem mais fundamental: a própria noção de “democracia”.

Superficialmente, a ideia de decidir tudo pelo voto da maioria soa sensata e justa, mas só superficialmente.

“Maioria” é um conceito complicado. Mesmo assumindo um assunto qualquer no qual há duas posições conflitantes, se 51% votarem por A e 49% votarem por B, A ainda tem a maioria, por mais que na prática as coisas estejam bastante balanceadas. E isso só pensando em duas posições. Imagine ai uma terceira, e agora suponham que 40% apoia A, 30% apoia B e 30% apoia C. A segue na liderança, mesmo que 60% das pessoas, a efetiva maioria, prefira qualquer uma das outras duas opções.

Mas tudo bem: o anime não realmente toca nessa questão. Vamos, então, assumir que todas as discussões e debates que ocorreram naquele país terminavam sempre com a vitória da maioria absoluta. O que o episódio então coloca é a pergunta: como lidar com as vozes dissidentes?

No caso do país da história, essas vozes foram consideradas um perigo à democracia. Um risco à sua estabilidade. Uma afronta à maioria. E uma traição dos ideais que todos partilhavam. Foram, portanto, executados. Um após o outro, aqueles que discordavam da maioria eram sentenciados a morte, no mais puro exemplo do que podemos chamar de uma ditadura da maioria.

Se a história terminasse aqui, ela já teria sido uma provocação bem interessante sobre questões como o efeito manada e a pressão social para se conformar aos desmandos da maioria. Só que a história não para por aqui. Como disse, aquele país está em ruínas, com apenas um habitante ainda ali. Porque morte após morte, sobrou apenas um.

Nisso, essa se torna em grande medida uma história sobre como não há duas pessoas iguais. Podemos concordar em muitas coisas, mas sempre iremos divergir em algum assunto. Quem espera por um mundo no qual todos concordem com todas as suas visões, espera por um mundo no qual é você a última pessoa ainda de pé. Vozes contrárias não são uma ameaça à democracia: são parte integrante e necessária dessa.

Lógico, não imputemos também ao anime um contexto que não é o dele. É um título de 2003, japonês ainda por cima, então projetar nessa história ansiedades modernas ou se devemos ou não “tolerar o intolerante” (e para deixar isso bem claro: a minha posição é a de que não, nós não devemos) seria anacrônico para dizer o mínimo. Mas ainda é uma provocação válida, mesmo em nossos tempos.

Quando a Kino deixa o país, ela diz: “adeus, rei”. Ao exigir que todos se conformassem à sua visão, a massa das pessoas se provou não melhor do que o rei que depuseram.

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E Agora: Todo o Resto


Mais uma vez, o final do artigo fica para tudo que não consegui encaixar no texto corrido. Felizmente, desta vez sem nenhum spoiler, então aproveitem a leitura!

  • Eu gosto da estética do país onde ninguém precisa trabalhar. O exterior é bem a sua estética futurista utópica, mas quando entramos no ambiente de trabalho ele parece uma mescla do ambiente de escritório com uma fábrica da revolução industrial. É uma ambientação que martela bem como aquele espaço foi construído para ser desconfortável.

  • Sobre trabalhos inúteis, o antropólogo David Graeber chegou a lançar o livro Bullshit Jobs: a Theory, onde analisa justamente a ascensão de trabalhos do tipo. Infelizmente, eu não li o livro, e só conheço a teoria muito por cima, dai eu ter escolhido não comentar nada no texto corrido. Fica, porém, a curiosidade.

  • Eu não tenho nem a mais vaga noção do que pensar sobre o efeito visual que ocorre quando os homens vão perguntar à Kino pra onde ela vai. Funciona pra chamar atenção à pergunta, mas ainda assim…

  • E seguindo a linha de “fica a curiosidade”, Aristóteles chega a classificar a democracia como uma forma corrompida de governo, igualando-a a uma ditadura da maioria. Bom, ok, é mais complicado que isso, mas só pra atiçar a curiosidade mesmo. Google, minha gente! Ou Wikipedia…

  • Não sei muito o que tirar da cena final, na bifurcação. Mas ela acaba recuperando coisas do episódio. Nós abrimos com a Kino falando que não gosta de andar na floresta porque é fácil de seguir pelo caminho errado, e fechamos com ela falando que não importa o caminho que tomem: se errar é só voltar para trás. Ao mesmo tempo, obviamente ele continua o tema do voto e do consenso do conto final.

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