Kino no Tabi, episódio 3 – “Sempre aparece alguém para interpretar”


Terra das Profecias


Algo que Kino no Tabi faz com certa frequência é compilar em um mesmo episódio diversos contos diferentes, geralmente com um em específico servindo como aquele que interliga os demais. E é aqui que temos um primeiro exemplo dessa prática.

Três são os países que Kino visita aqui, com ainda um prólogo e epílogo se passando pouco depois da visita da Kino ao primeiro. Sendo assim, e como cada país visitado trás seus próprios temas e ideias, optei neste texto por dedicar uma seção para cada.

Temos muito o que discutir, então não vou importuná-los com um longo prefácio. Vamos de uma vez ao episódio!

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Terra das Profecias


O primeiro país do episódio é um no qual, ao chegar, Kino é informada de que o mundo acabará dali três dias, conforme profetizado no livro sagrado daquela região. Mas antes de entrarmos nas questões temáticas que o anime explora aqui, vale a pena nos determos um pouco em como a nossa protagonista reage a tudo isso.

Sobre a profecia em si, Kino nos aparece como bastante neutra. No quarto do hotel, Hermes até lhe pergunta se ela realmente acreditava que o mundo iria acabar, e a resposta dela bem poderia se resumir a um “não sei”. E quando ela vê o sol nascendo durante a sua rotina matinal de treino, ela faz uma ligeira expressão de surpresa. O que é bem interessante, porque é uma mostra de como a Kino tende a não julgar os locais que visita.

Dito isso, ela com certeza não age como alguém que acredita que o mundo irá acabar, e de muito bom grado se aproveita do fato dos lojistas da cidade estarem distribuindo seus produtos de graça. E quando Hermes lhe pergunta o que faria se o mundo estivesse mesmo pra acabar, ela diz que ainda assim iria dormir. O que pode ser um indício de que a personagem valoriza mais o presente do que o futuro.

Última coisa: eu adoro que quando, na manhã do terceiro dia, os lojistas vem questionar a Kino sobre os produtos dados de graça, ela se faz de desentendida, agradece e vai embora. Como eu mencionei na análise do episódio 2, ela não hesita de levar vantagem se for possível.

Mas avancemos então aos temas dessa parte do episódio.

Agora, cultos apocalípticos existiram aos montes ao longo da história. O próprio Japão teve a sua experiência com pelo menos um culto do tipo: Aum Shinrikyo, responsável pelo ataque terrorista com gás sarin ao metro de Tóquio em 1995. Uma das características da seita sendo a crença na proximidade do “Armagedom”: o fim do mundo.

O uso no episódio de uma iconografia cristã é também algo interessante. Agora, para todos os efeitos, Kino no Tabi tende a uma estética bastante ocidental. Seus cenários, arquiteturas, roupas, parecem muito mais saídos de algum país europeu do que realmente do Japão. Então a aparição de claras igrejas e bispos aqui talvez seja só para manter o tema. Dito isso, as três grandes religiões monoteístas são bem mais apocalípticas do que o xintoísmo ou o budismo. Mesmo a Aum precisou pegar emprestado um termo bíblico para descrever o seu fim do mundo.

Para o espectador moderno talvez soe estranho que pessoas acreditem no fim dos tempos com base na interpretação de um clérigo qualquer de passagens absurdamente crípticas. Mas enquanto Kino no Tabi tende mesmo a criar cenários irreais como forma de explorar uma ideia qualquer, esta situação em particular já foi bastante real múltiplas vezes ao longo da história. Os melhores exemplos terminando muito como esse episódio: o fim do mundo não chega, mas uma nova data é proposta.

É curioso que quando amanhece e as pessoas se juntam na praça para questionar o clérigo, uma pessoa na multidão pergunta como eles deveriam continuar vivendo agora que o mundo não acabou. Há bem mais por trás dessa pergunta. A questão que ele realmente queria fazer provavelmente sendo: como seguir vivendo agora que tudo aquilo que eu acreditava se provou uma mentira?

A solução: um novo clérigo chega para dizer que, segundo a sua interpretação, o fim do mundo é na verdade dali há 30 anos apenas. E nisso as pessoa suspiram de alívio, mas não acho que seja apenas pelos anos ganhos. Uma interpretação em particular do texto sagrado pode estar errada, mas o texto em si não. Essa espécie de “reagendar” do fim do mundo sendo uma forma de manter a crença viva, apenas a ajustando aos novos fatos. Algo que, diga-se de passagem, também já ocorreu na realidade, com gurus do fim dos tempos propondo novas datas quando suas antigas falhavam em se concretizar.

O episódio só irá fechar essa história de fato no epílogo, quanto um exército se dirige ao país da profecia. Dotados do mesmo texto, eles no entanto chegaram à conclusão de que o fim do mundo é evitável, desde que se destrua aquele país. Praticamente uma guerra santa.

É interessante que isso venha ao final do episódio, porque nesse ponto nós da audiência já temos o contexto de que aquele poema não é nenhuma profecia, o que só faz a ação daquele exército soar como fútil, cruel e desnecessária. Mas podemos dizer algo diferente dos conflitos religiosos do nosso mundo?

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Tradição


Na segunda história do episódio, temos que a Kino chega a um país bastante amigável, que a recebe de braços abertos e a convida a participar em sua festa tradicional, uma comemoração de quando um bando teria expulsado daquelas terras um rei maligno.

Mais uma vez começando por como a Kino reage a isso, é interessante que quando convidada à se juntar à dança ela se recuse, dizendo que não sabe dançar. Isso talvez seja verdade, mas considerando o que ela fala na posterior conversa com o descendente do rei, onde ela deixa claro saber que aquele país usa da aprovação de viajantes para criar suas tradições, é bastante possível também que ela só não quisesse interferir nessa situação. Seja para manter a sua posição neutra, seja talvez porque, como ela mesma coloca, essa mesma é uma bela tradição.

Já na questão dos temas trabalhados aqui, não é surpresa que este seja referentes justamente ao título do conto.

“Tradição” é um tema que de uma forma ou de outra acaba perpassando todo o episódio, mas que acaba sendo abordado com mais força aqui. E sobre isso há três considerações que eu acho interessantes de fazer.

Primeiro, há aqui a ideia da tradição como dotada de alguma historicidade. Isto é, de um ponto de origem no qual a tradição surge, neste caso a expulsão do rei malevolente. Uma ideia que voltaremos a ver no conto seguinte, da Terra Triste, onde também há um evento que gera uma tradição (o poeta cujo poema segue sendo transmitido de geração em geração).

Segundo, temos a ideia da tradição como algo que surge naturalmente. O povo desse país busca artificialmente criar uma tradição, mas acaba que exatamente essa prática se torna, inadvertidamente, a sua real tradição. Não, porém, que eles próprios percebam, como o episódio bem aponta. O que pode muito bem nos levar a refletir sobre como tradições são por vezes invisíveis, nos soando como comportamentos tão naturais que nem questionamos sua existência ou propósito.

Por último, há aqui uma questão identitária. Acho particularmente curiosa a forma como o descendente do rei descreve a decisão das pessoas de buscarem uma nova tradição. Nas suas palavras, ao rejeitarem o passado, por sua ligação com a realeza, eles ficaram sem uma identidade para mostrar. Isso, mais o fato dos cidadãos dependerem da aprovação de um viajante para adotarem uma tradição, quase faz soar como se esta precisasse ser externamente sancionada. O reconhecimento externo parecendo até mais importante que o interno.

E bom, sendo o caso até dá para especular o porque. Identidade não apenas define a nós mesmos, mas também nos diferencia do outro. Eu sou eu tanto quanto eu não sou fulano ou ciclano. Ao nível estatal, diferentes práticas, costumes, políticas e semelhantes podem muito bem cumprir essa função de distinguir entre “nós” e “eles”. Não sei se o episódio queria passar essa ideia, mas margem para essa interpretação ele acaba dando.

E falando em interpretação…

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Terra Triste


O último país que a Kino visita neste episódio é a Terra Triste, um país escuro e depressivo onde há sempre uma jovem entoando um poema críptico que a todos entristece.

Agora, antes de entrarmos na questão do poema, algo que vale comentar aqui é como Kino no Tabi tende a ter uma relação bastante ambígua com figuras de autoridade. Na absoluta maioria dos casos, o anime as vê com bastante desconfiança, sendo frequente a figura do líder malevolente. O rei deste episódio, que por puro capricho ameaça a vida do poete caso ele não atingisse as suas expectativas, sendo o primeiro exemplo de muitos que ainda virão ao longo da série.

Dito isso, a derrocada do governante quase sempre acaba por gerar uma situação tão ruim quanto ou pior do que aquela de até então. O que é uma forma bastante pessimista de ver um cenário do tipo: ruim com eles, pior sem eles. Mas teremos oportunidade melhores no futuro para discutir essa questão em específico.

Mas sobre a história da Terra Triste de forma geral, eu enxergo nela sobretudo algumas considerações sobre arte e artista. E nesse sentido dois são os pontos que eu acredito serem dignos de nota.

O primeiro deles é a ideia da arte que vem do “âmago”. Essa noção da arte como uma espécie de extensão do próprio artista. No caso, o poeta que só consegue recitar sobre os sentimentos que conhece. Que não conseguia compor um poema sobre a tristeza até que pode finalmente sentir uma tristeza profunda.

É uma arte bastante pessoal, mas que talvez justamente por isso ressoa com bastante força com os outros. Como o gondoleiro explica para a Kino, ninguém na cidade sabia o que exatamente o poeta estava tentando dizer com aquelas palavras, mas elas ainda assim comunicavam com intensidade a tristeza que ele sentia.

Ao mesmo tempo, e aqui chegamos ao meu segundo ponto, a arte aparece aqui como bastante contextual.

O conto se encerra com o twist de que o poema da Terra Triste foi transcrito em livro e levado para uma outra terra, onde se tornou uma profecia. Não é difícil ligar os pontos: trata-se do primeiro país do episódio. E nessa passagem o significado e sentido originais do texto mudaram completamente, e de um poema sobre a dor da perda ele se converteu numa profecia do fim do mundo. Algo de essencial até se manteve – o poeta provavelmente acreditava que seu mundo havia mesmo acabado -, mas não o bastante.

Sem o contexto das circunstâncias nas quais a obra foi feita, abre-se margem para toda sorte de interpretações, aqui no caso com resultados bastante desastrosos. Como eu disse mais acima, Kino no Tabi é o tipo de história que tende a criar situações absurdas a fim de nos fazer refletir sobre algo bastante real, e imagino que a ligação entre essas duas histórias – a da Terra das Profecias e a da Terra Triste – convide a uma reflexão sobre intenção autoral versus a interpretação individual de uma obra.

Durante sua estada no hotel da Terra das Profecias, Kino chega mesmo a comentar com Hermes como era curioso que sempre que alguém fala algo, logo aparece alguém para interpretar o que foi dito. Implícito ai está a ideia de que estas são coisas diferentes, o que foi dito e a sua interpretação. E o conto da Terra Triste essencialmente confirma essa distinção.

E enquanto eu sou tentado a dizer que o episódio não faz um juízo de valores dessa distinção, o fato de que a interpretação errônea do propósito e do significado do poema termine, como vemos no epílogo, por levar a uma guerra e à destruição de um país, seja talvez um indício de que há um problema ai. Mas talvez essa seja só a minha interpretação da coisa.

Por fim, não temos muitas reações por parte da Kino nesse terceiro conto, mas ainda gostaria de chamar atenção ao fato de que, quando o responsável pelo portão de saída do país pergunta se a Kino havia desgostado da sua estadia naquele lugar, esta apenas responde que cada povo tem os seus costumes. Mantenham essa noção em mente. Será útil no próximo episódio.

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E Agora: Todo o Resto


Por fim, a tradicional seção final desses artigos onde eu jogo todos os pontos que não consegui encaixar de forma coesa ao longo do texto acima. Pelo menos não tem spoilers dessa vez, então podem ler sem problemas o/

  • Gosto de como o subtítulo do primeiro conto é “we NO the future”. Uma brincadeira com a pronúncia similar de “know” (saber) e “no” (não).

  • Esse episódio acaba trabalhando bastante o tema da comunicação, e me fez lembrar um pouco do primeiro. Ambos, porém, lidam com questões bem diferentes. Aquele estava preocupado com a subjetividade das palavras, o fato de que eu posso dizer que algo é belo, mas não posso comunicar o quanto eu sinto que algo é belo. Já este está mais preocupado com a questão da interpretação e do significado do que é dito mesmo.

  • Durante o festival na terra da tradição, a estadia da Kino ali termina com a tela escurecendo e a música se distorcendo até ser cortada. Um indício de que algo ali estava errado.

  • Apesar dos meus comentários no texto, a história do país da tradição soa meio deslocada aqui. Dito isso, ela ajuda a abaixar a guarda do espectador. Acreditamos que serão três contos não relacionados, mas ai temos o twist ao final.

  • Terminamos o episódio com o Hermes perguntando se ao final a “profecia” estava certa ou errada. A Kino não tem uma resposta pra isso e eu muito menos.

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