A minha relação com a escrita | Especial de 5 Anos


As vezes eu me pergunto: por que diabos eu ainda escrevo?


Escrever é difícil. Hum, não, espera, risquem isso. Escrever é fácil. Muito, muito fácil. É como tocar um instrumento: qualquer um pode fazer. Violão? Só passar os dedos pelas cordas. Piano? Basta pressionar as teclas. Trombone? É só assoprar! Mas assim como há uma enorme distância entre o dedilhar a esmo as cordas de um violão e o criar efetiva música com ele, escrever pode ser fácil, mas fazer um bom texto… Ah, isso já é bem mais difícil.

Há cinco anos eu escrevo para este blog, publicando semanalmente sobre anime, mangá e similares. E para o segundo texto comemorativo nessa série de especiais eu queria tirar o momento para refletir um pouco sobre a escrita. A minha escrita, a forma como a encaro e talvez umas coisinhas mais. Porque, é engraçado: eu não sei se gosto de escrever, exatamente.

Eu gosto do resultado. Quando termino um texto bem escrito e vem aquela sensação de satisfação por um trabalho bem feito. Mas o processo… Não é que eu odeie, mas é complicado.

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O que faz um bom texto?

Se esperam encontrar aqui uma resposta remotamente satisfatória para essa pergunta, desde já peço desculpas. Verdade seja dita, se tivesse essa resposta eu provavelmente não estaria escrevendo este texto para começo de conversa.

Minha vida seria bem mais fácil se existisse uma conveniente lista de regrinhas que, se seguidas, levariam invariavelmente a um bom texto. E não me entendam mal, já tentaram fazer essa listinha. Várias vezes. Você até talvez já tenha visto alguma do tipo. Aquela já bem antiga lista de dicas do que não fazer na redação do ENEM. Algum curso ou livro sobre escrita criativa. Ou qualquer coisa do tipo.

E não é que os conselhos que você pode encontrar aqui não sirvam, ou que sejam maus conselhos. De forma nenhuma. Pegando de exemplo um texto dissertativo-argumentativo, cabe sim todas as dicas do seu professor de redação. O texto deve ser bem estruturado, com argumentos sólidos, português correto, além de coeso e coerente. Só que isso é o mínimo que um texto precisa ter para não ser ilegível.

Acima de tudo, um bom texto deve prender a atenção do leitor. Se a sua redação do ensino médio for um tédio, seu professor ainda vai ler e ainda vai avaliar com base apenas em critérios mais objetivos. Se um texto no meu blog for um tédio, as pessoas simplesmente não vão ler. Mas o que torna um texto interessante?

O meu ideal de um bom texto é o de um texto fluido. Um no qual o encadeamento de ideias conduz o leitor do começo ao fim do artigo, de forma que antes mesmo que você perceba ele já tenha acabado. A realidade, porém, raramente condiz com o ideal, e neste caso não se trata apenas da minha habilidade ou falta de.

Todo texto afasta alguém. Há pessoas que não lerão porque não se interessam pelo tema abordado. Há pessoas que não lerão porque olharam a barra de rolagem e acharam o texto longo demais (e, rápido parênteses, nem sempre isso é preguiça, às vezes a pessoa só está com pouco tempo livre mesmo). Há pessoas que vão achar os parágrafos longo demais, a escrita rebuscada demais, e por ai vai. Não se pode agradar a gregos e troianos.

Podemos, porém, maximizar as chances de alguém ler. Há técnicas do marketing específicas para incentivar a leitura de um texto de blog. Por exemplo, fazer parágrafos curtos, fáceis de se realizar uma leitura dinâmica, usando do negrito em palavras chave, além de separar o texto em tópicos.

Cabe, porém, refletir sobre o contexto. Essas são, afinal, dicas de marketing. A leitura do texto acaba muitas vezes sendo um meio para um fim. Talvez a pessoa espere tirar uma renda com o seu blog, e queira que as pessoas leiam para que vejam os anúncios. Ou talvez trate-se do blog de uma empresa, e o texto seja uma nem tão disfarçada propaganda de algum produto ou serviço. Nenhum conselho deve ser encarado de forma acrítica.

E se atingir o maior número possível de pessoas não é a sua prioridade? Falando por mim, enquanto eu certamente não reclamaria de ter mais visitantes no blog, eu não estou particularmente disposto a completamente mudar o meu conteúdo e a minha escrita para ficar melhor posicionado no Google.

Talvez então um bom texto seja aquele que cumpre o seu propósito. Que atinja as pessoas que você quer atingir, e que comunique a elas o que você quer comunicar. É, então né… Bonito de dizer, mas ainda me soa etéreo demais para ser útil. Até porque, e quando você não tem um público alvo em mente? Sinceramente, eu escrevo pra quem quiser ler, e não penso muito além disso.

Agora, só pra que isso não fique sem menção, também não quero cair aqui no completo relativismo. Textos ruins existem, ponto final. Textos mal escritos, seja na gramática, sintaxe ou na forma de falar, que terminam por ser praticamente ininteligíveis. Mas extremos são fáceis de apontar. O meio é que é mais complicado.

O que faz um bom texto? Não sei. De verdade, nem ideia. Estou há cinco anos tentando descobrir e não acho que esteja mais próximo de uma resposta concreta do que quando comecei. Talvez só não haja uma mesmo…

Dito isso: quem me dera esse fosse o maior dos meus problemas!

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Ansiedade

Eu devo ter sentado para escrever este texto no começo da tarde. Já está escuro e ainda estou só no começo.

Acho que por vezes não damos a devida importância ao termo “perfeccionista”. De tanto ser usado em entrevistas de emprego quando perguntam o seu maior defeito, ele assumiu meio que esse status de um defeito que não é bem um defeito. Afinal, quem não quer contratar alguém que se esforce ao máximo para que o trabalho fique perfeito, não é verdade? Só que perfeccionismo pode sim ser problemático. E pior de tudo: paralisante.

Meu processo comum de produção textual geralmente consiste em escrever três parágrafos, achar que estão todos um horror, apagar e recomeçar. E assim sigo até que chega então a data de publicação – e nesse ponto vai ao ar o que estiver pronto, bom ou não. E vou dizer: não é o mais eficiente dos sistemas. Hoje mesmo, há bem mais coisas que eu poderia ter feito ao longo do dia se não tivesse passado a maior parte dele evitando de escrever este texto.

E evitando é exatamente a palavra aqui. Optando por fazer toda sorte de pequenas atividades com a desculpa, nesse ponto talvez até inconsciente, de que “é só uma pausa, daqui a pouco eu continuo”. E nisso passo horas descendo o feed do Facebook (e eu nem gosto do Facebook!). Talvez fosse até mais produtivo ter deixado para começar o texto agora de noite, quando o prazo de publicação já está se esgotando.

Fato é que quando começo a escrever me vem na mente toda sorte de questionamentos. Será que estou sendo claro? Rebuscado demais? Conciso demais? Será que estou encadeando bem as ideias e argumentos? Será que o texto não está uma confusão ininteligível? Estou usando advérbios demais? Esse parágrafo não ficou muito curto? Não é informação demais muito rápido? Talvez seja melhor apagar tudo e começar do zero… de novo.

Mesmo coisas ridiculamente pequenas me incomodam. Eu tento fazer os parágrafos terem mais ou menos o mesmo tamanho, e eu nem sei o porquê! Mas ai acaba que quando o parágrafo anterior teve quatro linhas e o atual está na terceira, eu acabo tentando esticar o segundo um pouquinho pra ficarem mais ou menos iguais.

Mas de longe os piores momentos são quando eu apenas sinto que há algo de errado no texto, mas não consigo dizer exatamente o que. E nisso eu acabo apenas reescrevendo o exato mesmo parágrafo com apenas algumas palavras alteradas, numa tentativa de torná-lo mais “palatável”. Só que ainda assim a sensação não vai embora – e toco a reescrever novamente. Não é divertido.

Há estratégias que até ajudam a diminuir isso. Por exemplo, se tempo não é um problema, pode ser uma boa ideia escrever o texto em etapas. Antes de começar esse mês de aniversário, onde eu preciso publicar uma vez ao dia (ou seja: tempo é um problema), eu vinha tentando seguir um processo em três passos.

Primeiro, bullet points. Escrever todo argumento que vier na cabeça, de preferência em uma linha, duas no máximo. Então vem uma maior estruturação. Argumentos que digam respeito a um mesmo tema ou ideia são agrupados, e ai brevemente desenvolvidos. De uma frase, viram um parágrafo, mas ainda curto. E só então escreveria o texto de fato, agora já tendo uma boa ideia de onde escrever o que e quando. Mas não é um método infalível.

Acontece que o meu problema é outro. Quando você não sabe o que escrever, esse método é ótimo. Faz as ideias fluírem. Mas meu problema é o como. Pois mesmo quando tenho confiança no argumento (e acreditem, não é sempre), ainda posso ter problemas com o jeito que o escrevo. É um problema com a forma, não com o conteúdo. E nas situações mais extremas eu só… não escrevo. Deixo pra depois. Pra amanhã.

Diga-se de passagem, foi o que me fez querer tentar escrever uma vez ao dia durante esse mês de Agosto. Eu não posso deixar pra amanhã, porque amanhã já tem que sair outra coisa. Então a saída é sentar e escrever.

Mas seja como for, é por isso que eu digo que não sei se gosto de escrever. É desgastante. Estressante. E se me permitem reclamar ainda mais um pouquinho, às vezes é também um pouco ingrato. Porque o esforço que vai nesses textos – aliás, em qualquer produção criativa – é quase sempre invisível. Algo que não “chega” em quem lê, que só pode ver o produto finalizado.

Talvez seja por me sentir assim que eu não vejo com muito bons olhos críticas muito pesadas. Ridicularização, deboche, a comum prática de dizer que este ou aquele título é um lixo, um câncer, ou o que for. Claro, criticar é importante, e apontar defeitos também. Mas criar qualquer coisa é ridiculamente difícil! Dai também eu preferir só falar de séries que gosto na hora de fazer uma review ou análise.

Mas voltando ao assunto, toda essa ansiedade às vezes faz eu me perguntar por que diabos eu ainda escrevo.

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Por que diabos eu ainda escrevo?!

Eu pretendo ainda escrever um texto especificamente sobre a minha experiência enquanto produtor de conteúdo, e inevitavelmente devo abordar lá esse mesmo tema. Ainda assim, sinto que este texto ficaria incompleto se não dissesse pelo menos algumas palavras nesse assunto.

Lembro de ter dito isso quando do meu texto em comemoração aos 200 artigos publicados no blog: há sempre algo de arrogante em quem produz conteúdo para a internet, sobretudo talvez nesse âmbito das reviews e análises de mídia. Acreditamos não apenas que nossas opiniões são válidas, como também que são importantes o bastante para compartilhar com o mundo. E fica a cargo deste dizer se estamos certos ou errados.

Indo direto ao ponto: eu escrevo porque tenho algo a dizer. Algo que vem muito da forma como eu consumo animes. Eu simplesmente não consigo não pensar sobre o que assisto, e no momento que penso eu fico com vontade de comentar. De, de alguma forma, partilhar aquela visão, ou o meu ânimo para com uma obra ou assunto em particular. E nisso o blog se torna um espaço onde eu posso fazer exatamente isso.

Claro, é possível argumentar que não precisa ser um blog. Eu poderia postar minhas opiniões sobre anime em algum grupo no Facebook. Comentar episódios no Twitter. Discutir um tema em algum servidor no discord. E ei, a informalidade dessas plataformas talvez até inibisse essa minha ansiedade de escrita. Certamente há bem menos pressão em escrever dois parágrafos no Facebook do que todo um artigo em um blog.

De novo, é um assunto que eu provavelmente irei retomar quando falar da minha experiência como produtor de conteúdo. Por agora, porém, acho que a melhor resposta à pergunta “por que um blog?” é: porque eu quero. Porque eu sinto que é o espaço que melhor comporta o conteúdo que eu quero criar. Porque, apesar de tudo, produzir um artigo ainda é bem mais satisfatório. Então, cá estou, há já cinco anos.

Não vou mentir: há dias que eu esqueço isso. Dias que não estou a fim de escrever. Dias em que a pressão auto-imposta pode ser paralisante. Ainda assim, basta ver o anime certo ou ter a epifania certa que logo volta a vontade de escrever. Porque eu quero partilhar essas ideias.

Imagem: Hourou Musuko, episódio 4

3 comentários sobre “A minha relação com a escrita | Especial de 5 Anos

  1. “Trombone? É só assoprar!”

    Oh, não, de forma alguma! Se você assoprar não fará som nenhum.

    Eu entendi seu argumento: se você passar os dedos nas cordas do violão vai sair um som dali. Se apertar as teclas do piano, também. Mas se assoprar o trombone não sai som nenhum!

    Isso porque os instrumentos de sopro se dividem, grosso modo, em dois grupos: os de madeira e os de metal. Os de madeira, como a flauta e o oboé, produzem som com a passagem do ar por palhetas. Esses você assopra (e eles não são normalmente feitos de madeira, mas as palhetas são, ou eram, sei lá). Os de metal, como o trombone e o saxofone, não produzem som: são apenas instrumentos para amplificá-lo e controlá-lo. O que produz o som nesses instrumentos é a vibração dos lábios do músico.

    Para produzir som no trombone não é só assoprar. É preciso zumbir.

    Dá uma olhada: https://www.youtube.com/watch?v=UOGPmf1WCS8

    Agora que já impliquei desnecessariamente com a terceira linha do seu artigo posso voltar a lê-lo 😊

    Curtido por 1 pessoa

  2. Ok, já que eu fiz um primeiro comentário em tom de deboche (mas foi só brincadeira, você entende, né? e foi uma brincadeira edificante!), sinto-me obrigado a fazer outro em tom sério agora. Só um like não bastaria.

    Escrevi recentemente quase a mesma coisa que você escreveu em editorial no meu blog. O que me trava não é a mesma coisa que você, o que me falta no caso é motivação mesmo, mas quase todo o resto é igual.

    Deixar para a última hora.

    Enrolar (e no Facebook, principalmente!).

    Gostar mais do resultado do que do ato de escrever em si.

    E bullet points! Comecei a usá-los esse ano e uso em todos os artigos. É uma maravilha, facilita e acelera a produção – o que me fez estranhar que para você parece que usá-los torna o processo todo mais demorado? Afinal, você disse que não usa isso justamente quando está pressionado pelo tempo.

    Eu escrevo para começar conversas. Lembro que em seu artigo de aniversário você disse que esse era seu objetivo inicial também, tendo mudado com o tempo. O meu objetivo continua o mesmo, ainda que quase nenhuma conversa seja começada na maioria das vezes. Acho que a intenção e a persistência têm valor em si próprios.

    E já te contei, não foi? Que quando abri meu blog decidi que ele teria artigos diários para evitar que eu fosse vítima da minha própria paralisia, mais ou menos o que você está tentando fazer nesse mês.

    Escrever é uma droga.

    Mas a gente é viciado nessa droga 😛

    Até daqui a 5 anos!

    Curtido por 1 pessoa

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