Kino no Tabi, episódio 2 – “Caridade não é feita pelo bem dos outros”


Uma história sobre alimentar os outros


É algo curioso. Lembro que, na primeira vez que assisti Kino no Tabi, eu não gostei muito desse segundo episódio. Mas o assistindo agora pela quarta vez, acho que posso dizer que ele é bem melhor do que eu me lembrava.

Como segundo episódio, de certa forma ele termina de nos apresentar a nossa protagonista, e o faz justamente quebrando um pouco a fórmula do anime. Ao invés de acompanharmos a visita da Kino a algum novo país, a temos ajudando três homens que ficaram presos na floresta após serem pegos pela neve quando tentavam voltar para casa.

Já como história independente, é um episódio cujo tema de fundo parece ser o de uma indistinção entre homem e animal, e nisso ele pode mesmo ser bastante desconfortável em alguns momentos (de propósito, é claro). Mas falemos mais disso em momento oportuno.

Assim como fiz no meu artigo do primeiro episódio, decidi dividir a este em três partes. Na primeira, quero explorar um pouco como o episódio trabalha a Kino, enquanto que na segunda comento com mais vagar a história dos três homens. Finalmente, a terceira mais uma vez fica para pontos que eu não tenha conseguido encaixar ao longo do texto.

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Sobre a Kino


Algo que gosto nesse episódio é como ele constrói e desconstrói a Kino.

Que ela pare para ajudar os três homens é abordado diretamente no episódio, através da sua conversa com Hermes na primeira noite. Ela própria se questionando o porque da decisão. Afinal, como ela mesma diz, não é como se tivesse qualquer tipo de obrigação para com os três ou qualquer tido de contenda com o coelho que teve de matar para salvá-los.

Ela aventa a possibilidade de o ter feito porque gostaria de poder contar com a ajuda de outras pessoas caso estivesse numa situação semelhante, e é nesse contexto que Hermes menciona o dito “caridade não é feita pelo bem dos outros”. É uma provocação rápida, na qual o próprio anime não se detém, mas que expressa como no fundo de qualquer boa ação há um fio de egoísmo.

Temos também que enquanto salvando os três homens, Kino não hesita em aceitar uma recompensa pelos seus atos. Ela certamente não o fez esperando por uma, mas também não vai recusar se puder tirar algum proveito da situação. Isso, mais os momentos de interação dela com os homens à luz da fogueira, muito ajuda a humanizar a personagem.

O episódio também passa boa parte de seu tempo construindo o fato de que a Kino é bastante competente com suas armas. Já desde o começo, quando abrimos com ela matando uma lebre com um tiro só. Depois na primeira manhã, onde mais uma vez a vemos diligente em sua rotina de treino matinal. E ai temos o enfrentamento final.

Permitam-me alguns parágrafos para discorrer um pouco sobre essa luta.

Em primeiro lugar, toda a construção até a luta é bem interessante. Eu mencionei no episódio anterior como por vezes o sol aparece em Kino no Tabi como uma presença opressiva, que ofusca o cenário. E vemos isso justamente na última manhã, quando a ambientação mais escura de até então é trocada por essa luz que embranquece o cenário, prenunciando o perigo.

Kino é chamada até os fundos do caminhão, e ela vai. Quando não encontra ninguém ali, ela ouve um segundo chamado, agora atrás de si. E é interessante a expressão facial dela nessa segunda vez. Ali ela já parece entender que algo estava errado.

Quando os homens a mandam se desfazer de suas armas e facas, mesmo eles ficam impressionados com a quantia que Kino carregava, mais um lembrete de que a personagem não deve ser subestimada. E durante todo esse processo a Kino permanece impassiva, com uma expressão que não denuncia qualquer emoção.

É quando ela está com sua última faca em mãos que o barulho da neve caindo distrai os homens por uma fração de segundo, e nesse ponto eu não posso deixar de lembrar das palavras da Kino ao final do prólogo do episódio anterior: a sorte é mesmo o mais importante para um viajante.

O que se segue é uma rápida luta na qual, graças às suas habilidades de tiro e ao seu raciocínio rápido, Kino consegue vencer os homens, matando os três no processo. É um momento bastante badass da personagem, mas que é seguido justamente por ela abraçando a si mesma e dizendo que estava assustada. Construção e desconstrução, que muito humanizam a personagem.

O episódio nos mostra também uma Kino que não gosta de matar – mas que ainda o faz quando for necessário.

Vemos como ela fica ligeiramente pensativa sobre o fato de ter tido de matar um coelho para ajudar os homens. Ela mesma não é nenhuma vegetariana: como coloca, mesmo suas rações são feitas de animais. Mas uma coisa é matar em prol de si própria e da própria sobrevivência. Outra bem diferente é matar em prol de outrem.

Dito isso, quando é em prol da própria sobrevivência, vemos uma Kino que não hesita nem por um instante. O que, de certa forma, muito diz sobre o seu mundo. Ela bem sabe que se hesitar pode logo ser ela a estar do outro lado do cano do revólver.

Finalmente, cabe aqui algumas palavras sobre o seu gênero.

O fato de Kino ser uma garota é algo que não fica exatamente claro nesse começo do anime. Afinal, a apresentação da personagem é bastante andrógena, e ela tende a referia a si própria usando do termo boku, usualmente masculino. É só mais pra frente que a obra melhor aborda o seu gênero, mas decidi já começar a análise me referindo a ela no feminino porque, pra ser sincero, seria um pesadelo linguístico tentar manter uma escrita neutra nesse sentido.

Dito isso, sua aparente apreciação pelo anel bem serve como um dos primeiros indícios de seu gênero – e de algo mais, que vou deixar para comentar na seção final deste artigo.

Mas chega então de falarmos da Kino. Passemos à história dos três homens.

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Uma História Sobre Alimentar os Outros


Eu disse na introdução e repito aqui: em grande medida esta é uma história sobre a indistinção entre homem e animal. Algo que vemos desde a primeira cena.

A forma como o episódio constrói a morte da lebre é uma bem curiosa. É uma cena que se detém no fato, não pelo gore, mas para tratar essa morte com certa solenidade. Algo que melhor entendemos na já mencionada conversa da Kino com o Hermes na primeira noite.

Kino se pergunta porque ajudou os homens quando não tinha qualquer obrigação para com eles nem qualquer contenda para com a lebre. Que essa dúvida se quer surja é um indício de que, para a kino, as duas coisas – a vida dos homens e a vida da lebre – tenham pesos no mínimo bastante próximos (para não dizer iguais). E ainda que ela tenha decidido ajudar os “dos seus”, ela ainda trata cada lebre com solenidade na hora de preparar sua carne.

Importante aqui também é a ideia da cadeia alimentar. A noção de que para uns viverem, outros precisam morrer. A própria Kino chega bem perto de dizer exatamente isso, na também já mencionada conversa na qual ela reconhece que mesmo suas rações são feitas de animais.

Só que nós humanos temos a tendência de nos ver no topo dessa cadeia alimentar. Quase como se tivéssemos o direito inalienável de nos servir dos seres vivos à nossa volta. É por isso que os mercadores de escravos se comparam a lobos, e é por isso que descobrir que eles devoraram sua “carga” soa tão desconfortável. Que o Hermes ainda chame os restos mortais da escrava morta de “sobras” só faz martelar ainda mais esse desconforto.

Não queremos pensar que um dia podemos nos encontrar no lado da lebre, literal ou metaforicamente falando. E o episódio nos faz confrontar essa realidade. Diga-se de passagem, a morte do primeiro mercador de escravos é mesmo um tanto quanto irônica, morrendo com um tiro na testa – exatamente como as lebres que a Kino matou para alimentá-los.

Pouco antes de partir, Kino olha para trás, para as peles das lebres penduradas num galho de árvore. Há uma aura de tragédia aqui, e a própria personagem parece se perguntar se aquilo tudo valeu a pena. Ao final, foram seis vidas perdidas. Como fica a sua responsabilidade para com as lebres?

Quando estão indo embora, Hermes pergunta à Kino o que ela faria se se encontrasse em uma situação semelhante. Sua resposta é bem interessante, dizendo que coisas assim continuarão a acontecer porque somos apenas humanos.

O episódio passa boa parte de seu tempo nos aclimatando aos três homens. Aprendemos sobre sua terra natal, sobre seus costumes, seus desejos, suas vidas… Que pessoas tão normais se revelem mercadores de escravos, e que, como se isso não bastasse, ainda desejassem tomar a Kino, que tanto os ajudou, como escrava, deixa um gosto amargo na boca. Mas esse é o ponto.

Somos apenas humanos. Dispostos a sacrificar uns para o nosso benefício. Mesmo a Kino não é imune a esse princípio. Não se trata, porém, de mera falha de caráter. Somos animais, tão movidos pelo instinto e pela vontade de viver quanto uma lebre ou um lobo. Talvez justamente por isso a resposta da Kino ao Hermes não seja exatamente um “não”, nem ela pareça ter qualquer ressentimento daqueles homens.

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E Agora: Todo o Resto


Como eu disse na introdução, essa área fica para todos os pontos que não consegui encaixar no texto acima, e adiciono agora que alguns destes podem ser pesados em spoilers de episódios futuros, então pensem bem antes de ler!

  • O episódio já começa com os dizeres “neva… e ela encobre e esconde as coisas”. Foreshadow de que os três homens estavam escondendo sua real natureza.

  • Eu imagino que essa indistinção entre homem e animal que o episódio explora tenha lá suas raízes no xintoísmo, religião que presta bastante reverência à natureza de forma geral.

  • Sobre a questão do anel, eu imagino que parte do fascínio da Kino para com ele é o fato de que ela nunca teve a oportunidade de crescer como uma garota normal, dadas as circunstâncias nas quais ela teve de deixar a sua terra natal.

  • Quando, pouco antes da luta, um dos mercadores fala que conseguiriam um novo motorista para o Hermes, ele apenas agradece a consideração. Não consigo decidir se ele tinha absoluta confiança na capacidade da Kino de sair daquela enrascada ou se ele não dava a mínima mesmo.


<- Episódio 1 | Episódio 3 ->

2 comentários sobre “Kino no Tabi, episódio 2 – “Caridade não é feita pelo bem dos outros”

  1. esse é de fato um dos unicos (se não o unico) episodio que a kino se encontra em meio ao desenvolver da história, e não como uma “espectadora” a ser observada como você já colocou.

    OTIMA ANALISÉ

    Curtido por 1 pessoa

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