Vinland Saga, episódios 4 & 5 – “Um verdadeiro guerreiro não precisa de uma espada”


De Thors a Thorfinn


Por questões pessoais, eu não consegui escrever uma análise do episódio 4 na semana passada, então deixei para comentá-lo junto do 5.

Nesses dois episódios, seguimos ainda nesse arco que bem poderia ser chamado de o prólogo da história, com a mudança mais significativa sendo a efetiva passagem da posição de protagonista do Thors para o Torfinn, que ocorre na transição do episódio 4 para o 5. Esperado (bastava ver qualquer material promocional do anime, francamente), mas ainda bem conduzido.

Em todo caso, não percamos tempo com prelúdios, e entremos direto na análise de cada episódio. Uma boa leitura e espero que gostem.

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Episódio 4


O quarto episódio continua exatamente de onde o terceiro havia parado, com o assalto do Thors a um dos navios do bando do Askeladd.

Continuamos a ver como o Thors se recusa a puxar sua espada, vencendo cada oponente apenas com alguns golpes não letais. Em dado momento ele até atira um deles ao mar e, logo em seguida, lhe lança um remo no qual se apoiar, para que não se afogue. Nem mesmo Bjorn consegue forçar o Troll dos Jom a usar sua arma, o que é bem interessante. O episódio 3 dá a entender que o Bjorn seria um dos mais fortes do bando, dada a sua disposição de atacar o navio do Thors sozinho, e uma vez que ele usa do cogumelo e entra em modo berserker mesmo seus companheiros de bando fogem dele, dizendo que seria sandice tentar pará-lo. E ainda assim Thors o derrota com as mãos nuas.

Parte do ponto aqui é sem dúvida estabelecer o quão forte é o Thors. Não se trata de um guerreiro qualquer, nem mesmo entre os escalões dos jomsviking. Mas parte também é um reforço dos ideais do Thors, sua hesitação em matar vindo do quanto ele valoriza a vida.

Detalhe talvez interessante, e se me permitem avançarmos um pouco no episódio, pouco antes de começar seu duelo com Askeladd, Thors lhe pergunta se ele tem esposa e filhos, ao que Askeladd responde que não. Lembremos: foi o nascimento de sua primeira filha o evento que fez Thors começar a temer o campo de batalha. Como eu comentei na minha análise do episódio 3: ter para quem voltar o fez ter medo de ter de partir. Que Askeladd não tenha essa preocupação já transmite, inclusive ao Thors, que ele provavelmente tem bem menos a perder naquela luta. Sem ter para quem voltar, Askeladd pode ser bem mais inconsequente com a própria vida – e, talvez por extensão, com a de terceiros.

A luta começa com o Askeladd tomando as rédea, usando de um ataque surpresa. Primeiro: o movimento de câmera nesse primeiro golpe é fantástico, meus parabéns ao estúdio WIT. Mas mais importante: Askeladd consegue ferir Thros, mas apenas com um corte superficial. Isso nos comunica duas coisas: que o Askeladd é consideravelmente mais forte que os demais em seu bando, e que ele ainda assim não é forte o bastante. E não demora para que Thors o encurrale, usando de um misto de força, técnica e um pouco de jogo mental.

Nesse ponto, Askeladd pergunta a Thors se ele não acha um desperdício que um guerreiro tão forte tenha se mantido escondido na Islândia por 15 anos, ao que este apenas responde com um “não”. É uma forma bastante concisa de contrastar a ideologia dos dois. Askeladd vê o campo de batalha com bons olhos, como inclusive podemos ver em suas expressões faciais ao longo do episódio (por exemplo, quando ele primeiro vê o Thors atacando um dos barcos no começo do episódio, ou em diversos momentos no duelo dos dois).

Temos o discurso do Thors sobre ele não ser ainda um “verdadeiro” guerreiro, sendo a óbvia pergunta “o que, então, faz um verdadeiro guerreiro?” é uma que irá perpassar toda a história de Vinland Saga, então prefiro não me estender nisso aqui e agora. Menciono, porém, porque será importante ao comentar o final do episódio.

Askeladd pergunta se Thors não aceitaria ser o líder deles, e ainda que depois ele vá dizer que estava brincando acho que todos podemos concordar que ele definitivamente não estava. Ele com certeza viu algo em Thors, algo que ele talvez sinta que lhe falta, ao ponto de achar que o Troll dos Jom seria um líder melhor inclusive do que ele mesmo. Mas claro, isso não tinha como dar certo, e quando Askeladd percebe isso ele decide então fingir que era apenas uma piada. Dito isso, me pergunto o que seu bando diria caso a resposta do Thors fosse um “sim”…

Mas avançando, Bjorn acorda e se aproveita do momento para ir atrás do Thorfinn, usando-o de refém. A expressão do Askeladd deixa bem claro que ele não havia planejado aquilo, mas também não vai deixar a oportunidade passar. Ainda assim: a insistência do Thors no fato dele ter ganho o duelo, e a concessão do Askeladd, assumindo a derrota e deixando o navio do Leif partir, servem para dizer que apesar de tudo ainda há algo de honroso nele.

E ai temos o final, onde vemos que Thorfinn se escondeu no navio roubado com o propósito de eventualmente se vingar do Askeladd.

Thors disse ao Thorfinn: você não tem inimigos.

Thors disse ao Ari: não fale “matar” como se não fosse nada de mais.

Thors disse ao Askeladd: um verdadeiro guerreiro não precisa de uma espada.

E ainda assim, ao final, ali está Thorfinn. De adaga na mão e jurando matar o Askeladd. Há certa ironia aqui, que nada tem de acidental. A jornada do Thorfinn é, e espero não estar falando nada de surpreendente aqui, uma em direção a se tornar um “verdadeiro guerreiro”, mais até do que o seu pai foi. Mas ele terá de começar de baixo. Bem, bem de baixo.

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Episódio 5


vinland2

Antes de mais nada, permitam-me dizer: que cenários! Acho que isso muito se deve ao fato de sairmos de ambientes mais predominantes em uma ou duas cores (a Islândia coberta de neve, o mar aberto, a passagem entre dois penhascos), mas qualquer que seja o caso eu vou dizer que este deve ser o episódio mais visualmente bonito até o momento.

Agora, como eu disse na introdução deste artigo, o quinto episódio vem muito pra cimentar o posto do Thorfinn como o efetivo protagonista de Vinland Saga. Não a toa, é da sua perspectiva que acompanhamos a maior parte dos eventos do episódio.

Começamos com o bando do Askeladd navegando em direção ao ponto de encontro no qual deveriam ser pagos pelo recente trabalho, e nisso vemos como o Thorfinn já estava ficando desidratado no seu barco. Ele atracam e a princípio Thorfinn tenta ir atrás do bando, determinado como está em conseguir a sua vingança, as acaba caindo e desmaiando. Ao menos quando ele acorda ele consegue ouvir o som do rio, achando afinal uma fonte de água. Sua alegria, porém, dura pouco: a sede saciada, vem então a fome.

Tudo isso passa uma mensagem mais do que clara: a situação do Thorfinn é dura. Muito, muito dura. Ele escolheu seguir o Askeladd em um impulso, e agora está sofrendo as consequências disso – e vai sofrer por ainda um bom tempo.

Pouco depois, Thorfinn vê o ataque do bando do Askeladd a um vilarejo, testemunhando de perto a sua brutalidade. Caso não se lembrem, estamos aqui em um período de guerra entre os nórdicos e os ingleses, de onde deriva a cena que vemos. Claro, aquele bando não é parte de nenhum exército, mas contendas do tipo raramente se resumem apenas às forças armadas. O próprio Askeladd o disse, quando de seu encontro com Floki no episódio 2: seu bando não gosta de cristãos.

Com todos dormindo, Thorfinn se esgueira até a cama do Askeladd, mas desiste de matá-lo ali. Não há porque me estender nessa decisão, o próprio anime deixa bem claro o motivo: para Thorfinn, essa seria uma atitude covarde. Uma colocação interessante, que denuncia que seu senso de honra ainda suplanta a sua sede de vingança. Assim, ele prefere desafiar o Askeladd para um duelo.

Previsivelmente a coisa não vai muito bem para o garoto, e após essa primeira derrota temos algumas cenas dele tentando sobreviver ali por conta própria, se alimentando de… er… nozes? Castanhas? Em fim, do que acha pelo chão da floresta ou dos restos dos alimentos do pessoal do bando. E enquanto ele está nessa, o anime corta para a sua família, na Islândia, que recebe a notícia da morte do Thors e do desaparecimento do Thorfinn.

É uma cena até que curta, que mostra como a Ylva tenta ser forte diante da perda do pai e do irmão. Por um lado, isso serve muito de lembrete de que aquele é um mundo violento. A própria Ylva fala que não acreditava que o pai fosse viver muito mesmo (ainda que se ela diz a verdade ou não fica aberto a interpretação). Mas também nos lembra que, violento ou não, a perda de um ente querido ainda tem impacto nas pessoas.

Acho que é uma sequência que muito nos convida a pensar no Thorfinn e nas suas decisões. Thors morreu se sacrificando para salvar as pessoas do vilarejo e o seu filho. Na sua terra natal, Ylva tenta seguir em frente. Thorfinn, porém, se mantém preso ao seu ideal de vingança.

Temos um encontro do Thorfinn com o Bjorn, onde o garoto mais uma vez tenta usar a espada e falha miseravelmente. E ai temos o embate do Thorfinn com o lobo, onde ele finalmente usa sua adaga. É uma sequência interessante porque, e agora eu falo como leitor do mangá original, um dos maiores defeitos do Thorfinn como guerreiro é que ele tende a perder a calma com facilidade, e nisso se torna previsível e fácil de vencer. Ele é muito emotivo, em um mundo onde isso pode ser fatal. E é interessante que o episódio já nos mostre esse traço da sua personalidade. Quando é contra aqueles que mataram seu pai, ele só branda a espada. Quando é contra o lobo, ele consegue raciocinar melhor, e mesmo aplica o conselho que o Askeladd lhe deu.

Seguimos com uma montagem de treino, e fechamos o episódio com ainda outro duelo entre Thorfinn e Askeladd. Mais uma vez o garoto perde, mas mesmo o Askeladd é forçado a reconhecer que ele muito melhorou para uma criança de 6 anos que só fez treinar por si mesma por alguns dias. Não em voz alta, é claro, mas no fato de que ele está disposto a dar uma chance ao Thorfinn. Como ele mesmo coloca: conquiste algo em combate e ele aceitará um novo duelo. E assim o Thorfinn entra para o seu bando.

A título de curiosidade, esse episódio é filler, tirando a parte da Ylva na Islândia. Mas é um bastante bem vindo. No mangá, toda a infância do Thorfinn junto ao bando do Askeladd foi basicamente ignorado, então é bem legal que o anime tenha decidido fazer a ponte entre a morte do Thors e o que vem depois, quando o Thorfinn já está um pouco mais velho.

Mas por agora ficamos por aqui. E esperamos pra ver o que o episódio 6 nos trará.

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