Kino no Tabi, episódio 12 – “Sacrifícios devem ser feitos pela paz”


Uma Terra Pacífica


Uma característica importante de Kino no Tabi é o seu uso do exagero enquanto ferramenta de reflexão. Os países que Kino visita são frequentemente absurdos, e isso é parte do ponto, pois é através do absurdo que o anime consegue comentar ou satirizar um dado assunto qualquer.

Nós começamos o anime com todo um país bebendo um soro de leitura da mente, algo que só faria sentido se todos ali fossem incrivelmente idiotas. Mas é através desse cenário que o episódio explora questões como a necessidade de máscaras sociais e de filtros na comunicação humana.

E eu trago isso agora porque esse décimo segundo episódio é um bom exemplo do que quero dizer. A situação aqui apresentada é absurda, não há como negar. Mas é por meio dela que o anime consegue explorar os temas que quer. E quanto a quais são esses, bom… é pra isso que temos o restante desse texto.

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Uma Terra Pacífica


Por agora pulemos o pequeno excerto que funciona de prólogo ao episódio. Voltaremos a ele em momento oportuno, mas por agora comecemos com a entrada da Kino no país do episódio. Isso porque já aqui temos os primeiros sinais de que algo estava errado. Conforme o atendente fala que aquele é um país pacífico, a câmera vai se aproximando do seu rosto. Recurso comum do anime para indicar que algo nas suas palavras não é que parece.

Uma visita ao Museu de História depois, Kino é convidada a assistir a “guerra” que aconteceria no dia seguinte, e que termina por se revelar essa bizarra mistura de campeonato esportivo com um terrível massacre ao povo que vive na divisa dos dois países em guerra. E depois de muito refletir sobre o episódio, eu penso que esses dois elementos são os melhores frameworks pelos quais interpretá-lo. Já vou explicar.

A questão do esporte é talvez a mais óbvia. Toda a situação é tratada em grande parte como nós tratamos uma partida de futebol, socialmente falando. O campo delimitado, times divididos, árbitro, música… A Kino servindo como a única expectadora daquele show de horrores vem quase que como para “fechar o pacote”. Isso é um jogo – pelo menos para os dois países em guerra. Mesmo, é claro, que eles não o chamem assim.

Através dessa equivalência entre esporte e guerra, o que o episódio parece dizer é que as motivações de ambos são, se não idênticas, no mínimo bastante similares. Como a curadora do museu coloca, há nos humanos sentimentos de competitividade e hostilidade que precisam ser saciados de uma forma ou de outra. A guerra era a forma antiga de saciá-los. Já o esporte, é a moderna. O lugar da primeira é no museu. Do segundo, no campo aberto.

Podemos mesmo apontar como ambos são por vezes instrumentos da política. A Wikipedia até mantém uma página voltada a compilar instâncias do esporte sendo usado para fins políticos, o caso mais famoso provavelmente sendo as olimpíadas de 1936, na Alemanha. Em pleno regime nazista, Hitler planejava usar delas para provar a superioridade da “raça” ariana – e ficou sem reação diante das medalhas de ouro do afro-americano Jesse Owens.

E não é preciso ir muito longe para ver a relação entre esporte e agressividade. São frequentes as manchetes de torcedores, aqui no Brasil mesmo, organizado brigas após certos jogos. No caso, o esporte funcionando sobretudo como uma maneira de separar “nós” “deles”.

Que tanto a guerra quanto o esporte fossem atividades historicamente masculinas – isto é, que fossem atividades das quais as mulheres foram, por muito tempo, proibidas de participar – serve também de reforço a essa ligação. Algo que, vale dizer, o próprio episódio parece reconhecer, na medida em que tanto os participantes das velhas guerras quanto os da “nova” parecem ter sido exclusivamente homens.

Eu poderia ainda traçar outros paralelos, mas acho que o ponto já está muito bem feito. E acredito que essa fosse de fato a ideia maior do episódio. Tanto que em todas as vezes que o assisti no passado essa foi a minha interpretação.

Mas assistindo-o agora pela quarta vez, acredito que há mais que podemos “ler” aqui. Porque para além de ser um evento esportivo sendo usado como substituto de uma guerra aberta, a situação em caso é também a de dois países, suas grandes potências até, usando de um terceiro, muito menor e muito menos desenvolvido, como palco de seu conflito, resultando aqui na morte dos locais.

Situações do tipo já aconteceram no passado. Não dessa forma, é óbvio, mas não é exatamente raro que, digamos, diferentes potências apoiem diferentes grupos em um mesmo país, causando ou aumentando algum tipo de fricção internet (quando não efetiva guerra civil) que em um última instância beneficia sobretudo alguma das grandes potências. A Guerra Fria viu não poucas instâncias do tipo.

Inclusive acrescentaria que, aceitando essa interpretação, há mesmo algo de cínico na cena, pós massacre, dos capitães de cada lado do conflito apertando as mãos. Uma cordialidade esportiva após o assassinato de sabe-se lá quantas pessoas.

Mesmo o discurso da curadora tem algo de imperialista nele. Ela fala sobre como a paz exige sacrifícios, adicionando que esses sacrifícios não podem em absoluto ser das pessoas daquele país. E, ainda assim, a guerra é daquele país. Muito mais do que ela é daquele pequeno povoado que só pode fugir em desespero. Ainda assim, eles é que servem de “sacrifício”. Porque antes eles do que nós, afinal.

Não é uma interpretação que eu defenderia com unhas e dentes. Acho mesmo que a intenção original era de traçar um paralelo entre esporte e guerra, e que as evidências dessa outra visão são bem rasas. Ainda assim, é algo que não pude deixar de pensar a respeito enquanto assistia o episódio.

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E No Meio Disso: A Kino


É interessante observarmos como a Kino reage a tudo o que ocorre nesse episódio, sobretudo em vista do que já sabemos a seu respeito.

O prólogo do episódio, a pequena conversa entre Kino e Hermes, já nos fornece um bom tanto de caracterização da mesma. Aprendemos aqui que ela parece ter um leve complexo de inferioridade, ou no mínimo um sentimento de culpa bem forte. A mesma diz que não sabe a razão, mas não é difícil de imaginar, dado o seu passado. Isso é algo que um dos especiais iria abordar anos depois, mas é interessante ver que já aparece aqui.

Seus pais a chamaram de “um fracasso” e tentaram matá-la. O homem que a protegeu acabou morto em seu lugar. E ela fugiu, sem ter para onde ir. O anime não menciona, mas a light novel atesta diversas vezes que a Kino tem 15 anos. Apenas 3 anos a separam desses eventos, então não é de se estranhar que ela ainda sinta os seus efeitos. Que ela não identifique a causa deles sendo talvez reflexo da sua tentativa de esquecer o seu passado.

Ao mesmo tempo, temos aqui uma resposta um pouco mais elaborada à pergunta do porquê dela viajar. Uma que tanto o quinto quanto o décimo primeiro episódio fizeram, ainda que de formas mais indiretas.

Kino diz que quando ela se sente daquele jeito é também quando ela pensa na beleza do mundo, e que isso a faz querer seguir em frente. Para o próximo país, ou, como ela coloca, o próximo encontro. É difícil, aqui, não pensar nas palavras que encerram o primeiro episódio: “o mundo não é bonito, por isso ele o é”.

Hermes não parece entender o que a Kino quer dizer com tudo isso, e a própria admite que ela também talvez não entenda. E que esteja viajando para entender. No caso, entender a si própria. Uma viagem de descoberta não apenas do mundo exterior, mas também dela mesma. Quem ela é, o que sente, e por ai vai. Mas isso é apenas especulação.

Mas avançando no episódio, é interessante também como este coloca a prova o papel da Kino enquanto mera observadora. Como eu disse, a sua presença enquanto espectadora do massacre de certa forma “completa” a cena, e vemos que ela parece ter mexido profundamente com a Kino. Algo que o anime comunica sobrepondo o seu olhar estoico ao assassinato em massa daquele povo.

Kino não é apática. Toda a sua filosofia é, afinal, a de conhecer cada lugar que visita. Aprender mais sobre ele, sobre a sua cultura, suas pessoas, e por ai vai. Mas ela também não é de confrontar os nativos. Ela pode ter opiniões sobre cada lugar que vista, e a vemos frequentemente conversando com o Hermes sobre elas, mas para a população local ela sempre projeta um ar de neutralidade. Ela não julga, pelo menos não em voz alta.

Aqui, porém, é diferente. A curadora pergunta à Kino se ela assistiu à “guerra”, e Kino responde que tudo que ela viu foi um massacre. Quando a mulher fala sobre perder os filhos, Kino questiona se o povo massacrado também não têm famílias para chorar a perda dos seus. E quando ela está para ir embora, Kino diz que não sabe dizer se a mulher estava mesmo certa ou não.

É interessante que nem no arco do coliseu a Kino chegou a fazer esse tipo de confronto aberto com alguém da população local, o que talvez seja o maior indício do quanto essa experiência em particular parece tê-la afetado.

Ainda que outro forte candidato a isso seja o que ocorre ao final do episódio. Kino é cercada por alguns dos habitantes do vilarejo massacrado, e acaba tendo de matar um deles para se defender. Nesse momento, a expressão no seu rosto é de puro horror, e o som do tiro ecoa ao fundo por muito mais tempo do que seria natural.

Nós sabemos o quanto a Kino é habilidosa. E também já vimos, tanto no segundo episódio quanto no arco do coliseu, que ela é perfeitamente capaz de matar sem hesitação. O que explica, então, a expressão no seu rosto?

O que eu penso é que essa situação toda realmente mexeu bastante com ela. Ela entende a posição daquele povo, e não queria matar ninguém. Seus movimentos indicam que ela agiu de forma automática. Mas imagino que na hora que ela puxou o gatilho, Kino se lembrou do massacre que viu. E de como ela, agora, participou nele – legítima defesa ou não. E acho que foi esse o “choque” que vemos estampado no seu rosto.

No episódio anterior, Kino havia mencionado que ela as vezes fica assustada quando se envolve com alguém durante as suas viagens. Pode não parecer, mas ela é sim afetada pelo que acontece à sua volta. E esse episódio demonstra isso muito bem.

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E Agora: Todo o Resto


Finalizando o texto com a costumeira seção onde coloco tudo que não consegui encaixar no texto corrido.

  • O subtítulo do episódio é “amor materno”, mas pra ser sincero não sei bem como encaixar essa temática no contexto do episódio como um todo. É a motivação da curadora, mas parece parar por ai…

  • Acho que o que mais notei nessa quarta vez que assisto o anime são esses padrões da direção. Quando temos o massacre, mais uma vez temos aquele sol sorte e intenso. Não tanto quanto em outras ocasiões, mas definitivamente ainda está lá.

  • Algo que o anime corta da light novel – até porque não tinha como adaptar – é que quando a curadora começa a falar sobre maternidade, a Kino pensa na própria mãe, e em como ela não fez nada para impedir que seu pai tentasse matá-la. A Kino nutre certo (e justo) rancor dos seus pais, algo que não teve como ser passado para o anime (uma pena).


<- Episódio 11 | Episódio 13 ->

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