Debate – A Filmografia de Makoto Shinkai

A filmografia de Makoto Shinkai.
A filmografia de Makoto Shinkai.

Makoto Shinkai foi talvez um dos nomes mais comentados no meio otaku de 2016. Isso sobretudo por conta do seu mais recente filme, Kimi no Na Wa [review], que semana após semana quebrava algum novo record de bilheteria no Japão. Mas verdade é que o diretor já era bem conhecido muito antes de seu mais novo hit, tendo ganhado notoriedade inicialmente com seu curta Hoshi no Koe (2002), embora no Brasil ele talvez seja mais conhecido pelos seus filmes Byousoku 5 Centimeter (2007) e Kotonoha no Niwa (2013), sobretudo porque antes tiveram a sua adaptação em mangá lançada aqui no Brasil pela editora New Pop.

Aproveitando então o momento, juntamos aqui um pessoal da blogosfera animística para falar um pouco sobre o que achamos da filmografia do Makoto Shinkai. Assim, aqui temos o Cat Ulthar, do blog Dissidência Pop; o Vinícius Marino, do blog Finis Geekis; e o Vitor Canônico, do canal no YouTube VítorVerde.

E para já dar início a esse debate, eu acho por bem já lançar aqui duas perguntas aos participantes. Em primeiro lugar: o que vocês acham da filmografia do Makoto Shinkai de maneira geral? E, em segundo lugar, e como acho inevitável tocarmos nesse assunto mais cedo ou mais tarde: quem aqui já assistiu Kimi no Na Wa e, dos que viram, o que acharam dele?

Kimi no Na Wa
Kimi no Na Wa

Vitor:

O que vocês acham da filmografia do Makoto Shinkai de maneira geral?

Todos os trabalhos de Shinkai, ou pelo menos os que eu já vi até o momento da escrita deste texto (a saber, Kanojo to Kanojo no NekoHoshi no KoeKotonoha no Ni WaByousoku 5 Centimeter e Kimi no Na Wa), são fundamentalmente inusitados.

De romances humanos descritos por um gato até romances separados pelas gigantescas barreiras da dilatação do espaço e do tempo, Shinkai parece se preocupar em não produzir nada genérico. Sempre há algum tipo de inovação, algo que aprecio bastante. Outro aspecto curioso de suas produções é o seu tom. Com exceção de Kimi no Na Wa, sobre o qual falarei mais a frente, seus filmes são sempre lentos e melancólicos, costumeiramente terminando sem um final feliz.

Esta escolha de tom afeta a direção dos filmes de forma visível: são obras contemplativas, nas quais não há muita história acontecendo. É por isso que há tanta ênfase em belos planos de fundo ao invés de animação fluida: Shinkai não está tentando ferver nosso sangue com cenas frenéticas, mas sim nos fazer parar para pensar um pouco na vida e na beleza do mundo ao nosso redor.

Beleza é certamente algo que não falta aos filmes do diretor, diga-se de passagem.
Beleza é certamente algo que não falta aos filmes do diretor, diga-se de passagem.

Dito isso, precisamos relembrar que existe uma fina linha entre uma obra de pacing lento mas interessante e uma obra chata. Infelizmente, muito do que Shinkai produziu cruza essa linha justamente pela ausência de uma história maior: quase a totalidade de suas obras é composta de pessoas conversando por cima de belos planos de fundo. E não é como se estas obras fossem necessariamente mal escritas (embora algumas certamente são mais curtas do que deveriam), elas simplesmente esticam muito a premissa do romance mas não são acompanhadas de nada para manter a atenção do espectador fora os belos visuais, com os quais é normal que eventualmente nos acostumemos. Nas duas vezes nas quais eu vi que ele tentou acrescentar elementos extras, a saber, Hoshi no Koe e Kimi no Na Wa, estes elementos melhoraram muito a dinâmica das obras, mas são tão mal explicados e ilógicos que acabam arrastando todo o resto para o baixo nível das obras mal escritas. Em contraste, a melhor obra de Makoto Shinkai, 5 Centimeters per Second, além de ser bem dirigida, faz total sentido e evita os clichês típicos de romances, incluindo o melodrama, mas, ainda assim, é um bocado seco.

Em suma, baseado nas obras dele que já vi, Makoto Shinkai sempre produz algo diferente e inusitado com o tema do romance, mas geralmente peca ou em manter o ritmo ou em manter a lógica de seus filmes. É um bom diretor, mas um péssimo escritor de qualquer história não mundana.

A linha entre o introspectivamente lento e o puramente tedioso é bem fina, e eu devo concordar que Shinkai a cruza em muitos momentos.
A linha entre o introspectivamente lento e o puramente tedioso é bem fina, e eu devo concordar que Shinkai a cruza em muitos momentos.

Quem aqui já assistiu Kimi no Na Wa e, dos que viram, o que acharam dele?

Como comentei acima, Kimi no Na Wa é um filme muito mais interessante de assistir do que o resto da filmografia de Shinkai, mas é estupidamente mal escrito. Ele começa como uma decente comédia genderbender, que embora não faça sentido nem mesmo dentro das regras de seu próprio universo fictício, ainda é boba o suficiente para divertir sem pesar na nossa consciência crítica. Infelizmente, o filme perde o tom leve e começa a se levar a sério no segundo ato, introduzindo vários plot twists que conseguem entortar ainda mais uma obra que já era bastante sem noção para início de conversa. Como os personagens não perceberam que estavam viajando no tempo? Como essa desgraça de viagem funciona? Se essa viagem está acontecendo para que uma vila seja salva de um meteoro, quem a está causando? Deus? Porque Ele gosta tanto dessa vila mas ainda assim permitiu que houvesse uma linha do tempo na qual todos morreram? Porque essa viagem já é algo que acontece à tanto tempo, se só agora o meteoro caiu? Porque a viagem parou um dia antes do acidente (na linha do tempo da garota) mas voltou logo que o menino bebeu o sakê com cuspe dela? Como ela conseguiu convencer o pai a evacuar a cidade depois de tantas tentativas falhas?

Essas perguntas básicas sobre os principais aspectos do roteiro derrubam completamente qualquer base lógica que o filme tenha, restando em sua defesa apenas os seus belos visuais, trilha sonora, e a boa direção de Shinkai, que finalmente não nos fez bocejar. Meus parabéns à ele, mas é preciso mais do que bons diretores e bons valores de produção para criar um produto acima da média (algo que Zankyou no Terror já nos provou algum tempo atrás).

Por divertido que seja, Kimi no Na Wa não faz o menor sentido, preciso concordar.
Por divertido que seja, Kimi no Na Wa não faz o menor sentido, preciso concordar.

Cat:

O tema da vez é Makoto Shinkai, o queridinho da animação japonesa nesta segunda década do século XXI. Sem sombra de dúvidas seu novo filme, Kimi Wo Na Wa (que não assisti ainda), o lançou ao estrelato entre otakus e não-otakus, atingindo a atenção do ocidente. Makoto Shinkai finalmente entrou no seleto rol de cineastas japoneses especializados em animação que alçaram um nome de relevância global, como também ocorreu com os renomados Hayao Miyazaki, Mamoru Oshii, Satoshi Kon e Masamune Shirow. O caso de Makoto Shinkai é curioso pela natureza de sua obra, mesmo não tendo visto todo o seu repertório, vi a maioria de seus filmes e curtas e posso traçar alguns elementos que o diferenciam dos demais diretores que se encontram por ai.

Antigamente para uma animação fazer sucesso no ocidente era necessário algum elemento único e instigante, uma bela arte, além de um apelo familiar, como no caso dos filmes do estúdio Ghibli. Claro que o apelo familiar não era uma regra, longe disso, como no caso de Satoshi Kon, com seu cinema absurdo que contagiou a crítica mundial juntamente por esse caráter inovador e surreal, como pode muito bem ser visto em clássicos como Perfect Blue e Paprika. Ghost in the Shell de Masamune Shirow e Akira de Mamoru Oshii também foram grandes sucessos, conjugando cenas de ação muito bem animadas com roteiros de ficção científica cyberpunk, que era moda nos anos 90. Mas o que Makoto Shinkai possui de distintivo que o faça ser atraente de uma maneira geral?

Animes capazes de atingir ao grande público, mesmo fora do meio infanto-juvenil, já existem há um bom tempo.
Animes capazes de atingir ao grande público, mesmo fora do meio infanto-juvenil, já existem há um bom tempo.

Vejo que Makoto Shinkai trabalha com um “grande tema” próprio, sua “jornada do herói” particular. A maioria de suas obras que sejam grandes o suficiente para conter um enredo minimamente intrincado seguem o mesmo “esqueleto” por assim dizer: uma amizade ou um romance juvenil, uma crise que demanda uma separação, a dor da solidão e o passar do tempo, o reencontro e o desfecho que pode ser a união dos entes que estavam separados ou uma ruptura definitiva. Dentro deste roteiro pré-estabelecido Makoto Shinkai desenvolveu suas obras, belíssimas na questão de cores e cenários com um enredo enxuto o suficiente para chamar a atenção. O que sempre muda é o cenário em que se passa o enredo, seja um mundo de ficção científica com batalhas intergalácticas, um Japão pós-apocalíptico divido em duas potências, ou ainda um mero contexto escolar ou a vida diário de um dedicado aspirante a sapateiro e uma professora desgostosa com sua vida.

Eu ainda não assisti o famigerado último filme de Makoto Shinkai, mas percebi uma evolução contínua em seu estilo. Em Hoshi no Koe vemos um Makoto Shinkai iniciante, com uma obra boa, mas crua, não possuindo uma sutileza de técnica e forma presente em seus trabalhos subsequentes. Em Byousoku 5 Centimeter já vemos um acréscimo de complexidade das relações entre os personagens e no aspecto gráfico, claro. O momento de virada da obra de Makoto Shinkai para algo que seja realmente interessante para um público mais geral foi Kotonoha no Niwa. Em suas animações anteriores, embora complexas, o tom era de uma perpétua melancolia, com um desfecho quase sempre triste. Kotonoha no Niwa foi sua obra mais madura, embora o desfecho seja melancólico, essa animação demonstrou esperança com um encerramento maduro, o que não houve nas outras. Claro que Kotonoha no Niwa contou juntamente com uma animação de tirar o fôlego.

Assim, vejo que o diferencial do Makoto Shinkal atual é contar uma história emocionante e igualmente simples, sem se deixar levar para o simplesmente piegas, na qual há um amadurecimento contínuo de suas personagens, tudo conjugado com um animação e fotografia sempre belíssimos. Não vi Kimi Wo Na Wa, mas se for como contam, consubstancia o meu pensamento, uma história não tão melancólica, com uma quantidade razoável de drama e que demonstra um bom amadurecimento dos protagonistas. Recentemente vi os seus comerciais, incrível como em um comercial de 15 segundos Makoto Shinkai conseguiu contar uma história tocante com um animação maravilhosa!! Sem sombra de dúvidas o homem é talentoso e merece o reconhecimento que está recebendo. Obs: precisamos de comerciais assim por aqui.

Em 15 segundos, Shinkai consegue atingir mais que muitas obras de 12 ou 24 episódios.
Em 15 segundos, Shinkai consegue atingir mais que muitas obras de 12 ou 24 episódios.

Vinicius:

Sem dúvida precisamos!

Brincadeiras à parte, o Cat tocou em uma questão importantíssima. Makoto Shinkai está recebendo um reconhecimento até então inédito em sua vida. Isto sem dúvida se deve ao fato de que ele consegue se comunicar com o público muito bem.

Não apenas um público jovem ou nipônico, mas incrivelmente variado. Kimi no Na Wa tem sido ovacionado no Japão e no estrangeiro, por jovens e adultos, críticos de anime e de cinema convencional. Com o filme prestes a estrear em cinemas americanos, muito provavelmente veremos um boom de “animefilia” comparável ao lançamento de A Viagem de Chihiro em 2001.

Esse é um ponto que não pode ser ignorado, pois sinto que trará consequências à recepção de animes no Ocidente, quando não à própria indústria, no Japão. Quando A Viagem de Chihiro foi lançado, o anime ainda era um entretenimento de nicho no Ocidente, mal-visto por muitos. É notável que  críticas lançadas na época (como essa do Roger Ebert) tenha focado não apenas em seus méritos, mas em uma defesa do próprio meio. O público (ou assim esses críticos pensavam) ainda precisava ser convencido de que esses “desenhos chineses” tinham algum valor.

O resultado dessa mudança não foi apenas uma atenção maior aos animes na academia (com nomeações para O Castelo Animado e Princesa Kaguya, ambos do Ghibli), mas uma ponta de lança para promover o meio de uma forma geral.

Em 2001, A Viagem de Chihiro mais uma vez provou ao ocidente o valor das animações japonesas, abrindo ainda as portas para outros filmes receberem reconhecimento similar.
Em 2001, A Viagem de Chihiro mais uma vez provou ao ocidente o valor das animações japonesas, abrindo ainda as portas para outros filmes receberem reconhecimento similar.

Vejam por exemplo esse trailer de Millenium Actress, do Satoshi Kon – um diretor, como o Cat bem disse, que não poderia estar mais longe do “cinema família” de Miyazaki e Cia. Embora o longa não pudesse ser mais diferente de A Viagem de Chihiro, o clipe tenta capitalizar em cima de seu sucesso, dizendo que ambos os filmes venceram o mesmo prêmio no Japão.

Todos os sinais apontam para uma tentativa de transformar o lançamento de Kimi no Na Wa na América do Norte em um evento de igual proporção. Não apenas o filme está ganhando uma dublagem (importante, pois o público anglófono tem ojeriza a legendas), como a banda Radwimps, responsável pela trilha, gravou novas versões de suas canções em inglês para a versão localizada. Se há quinze anos a “febre” por anime trouxe tantos frutos, quem dirá hoje?

Será que a “Shinkaimania” fará as distribuidoras investirem mais em animes? Será que o mercado brasileiro verá o exemplo americano como precedente para promover mais animações por aqui (incluindo lançamentos no cinema, coisa até hoje rara)? Será que veremos uma turbinada em conteúdo japonês em serviços de streaming? Ou mesmo uma influência direta no mercado japonês, no fomento a filmes “tipo exportação”?

O que vocês acham?

Poderia Kimi no Na Wa ter no ocidente um impacto semelhante ao que teve A Viagem de Chihiro?
Poderia Kimi no Na Wa ter no ocidente um impacto semelhante ao que teve A Viagem de Chihiro?

Diego:

Duas coisas que queria comentar:

Em primeiro lugar, eu acho interessante o Cat trazer à tona os comerciais. Em parte porque me abre brecha para indicar o curta Crossroad, um belíssimo comercial feito pelo Shinkai, de dois minutos, para um cursinho. E em parte porque me permite tocar em uma opinião que tenho sobre o diretor: a de que eu acho que ele se sai muito melhor em seus curtas do que em seus longa metragens.

Shinkai é, para todos os efeitos, e como autor, muito mais preocupado em passar emoções do que qualquer outra coisa. Sua primeira obra de maior renome, Hoshi no Koe, pode até ser classificada como de ficção científica e ambientada em um cenário de guerras espaciais, mechas batalhando e coisas do gênero, mas tudo isso é apenas um cenário – ridiculamente pouco explorado, dado o curto tempo – para se trabalhar com as emoções dos dois protagonistas conforme a distância entre eles aumenta. E mesmo em filmes mais longos, como Yakusoku no Basho ou Hoshi wo Kodomo, isso se repete: tudo é secundário perante as emoções dos personagens.

Para mim, é em seus curtas que Shinkai mais brilha.
Para mim, é em seus curtas que Shinkai mais brilha.

Por conta disso, quando a obra é só sobre emoções – como em 5 Centimeter ou em Kotonoha no Niwa – eu sinto que ela quase sempre é grande demais para o seu próprio bem (o primeiro então, honestamente, é um baita tédio), mas quando o autor tenta adicionar algo mais, esse algo mais é muito pouco explorado (como nos já mencionados Yakusou no Basho e Hoshi wo Ou Kodomo). Seus curtas, porém, consegue entregar, muitas vezes partindo de uma premissa bastante simples, exatamente as emoções com as quais o Shinkai se foca tanto, e por conta disso eu sinto que eles “funcionam” muito melhor que seus longas.

Embora, pra ser sincero, eu colocaria Kimi no Na Wa como uma exceção a essa minha fala, e acho que aqui ele conseguiu atingir um balanço satisfatório entre entregar as emoções que deseja e ainda assim manter uma história interessante para além disso (que tem, claro, suas falhas e furos, mas ao menos é uma história que você só percebe esses furos depois, ao invés de passar o filme inteiro pensando “puts, isso bem que poderia ter sido mais explorado”).

Já sobra a fala do Vinícius, eu tendo a ser bastante cético quando à possibilidade de algum impacto aqui no Brasil. No exterior talvez o filme de fato atinja uma influência semelhante à de Chihiro, mas acho difícil o mercado brasileiro seguir o exemplo de lá de fora. Considerando que mesmo blue rays e DVDs de animes são raros aqui e os serviços de streaming legalizados ainda engatinham em termos de trazer uma boa variedade de conteúdos, acho que ainda estamos bem longe de uma situação na qual Kimi no Na Wa poderia ter algum impacto.

Por melhor que seja Kimi no Na Wa, acho difícil ele ter qualquer impacto significativo aqui no Brasil. Mas certamente não me importaria de ser provado errado no futuro [rs]
Por melhor que seja Kimi no Na Wa, acho difícil ele ter qualquer impacto significativo aqui no Brasil. Mas certamente não me importaria de ser provado errado no futuro [rs]

Vitor:

O maior problema dos curtas de Shinkai é exatamente serem curtas. Obviamente não há tempo de explorar quaisquer aspectos que ele queira, tudo fica no máximo superficial (fora a direção e os visuais, que como de costume são fantásticos). Por outro lado, seus longas muitas vezes acabam por ser monótonos, exatamente por geralmente não possuírem muito além de um romance para explorar (embora posso estar falando besteira, pois ainda não assisti nem Yakusou no Basho nem Hoshi wo Ou Kodomo). A única exceção a essa regra de chato mas longo vs. interessante mas curto é o novo filme de Shinkai, Kimi no Na Wa. A direção aqui é boa o suficiente e há material o suficiente para manter a maioria dos espectadores atentos ao que está acontecendo. Ele finalmente achou a fórmula para um sucesso com as massas, mesmo que seu impacto só seja visível no Japão. Ainda assim, acho uma grande pena que justamente esse filme tão cheio de problemas de roteiro consiga tanta fama e tantos elogios. 5 Centimeters per Second pode até não ser tão engajante, mas pelo menos nada nele quebra a suspensão de descrença de forma tão absurda como fazem os twists de Kimi no Na Wa. Espero que seus próximos filmes consigam unir o melhor dos dois mundos, tanto em questões de manter o interesse, quanto em questão de ser bem escrito.

Enquanto eu o ache um enorme tédio, tenho de concordar que 5 Centimeters é ao menos bastante sóbrio.
Enquanto eu o ache um enorme tédio, tenho de concordar que 5 Centimeters é ao menos bastante sóbrio.

Vinicius:

Deixar de explorar as coisas é uma característica da ficção curta. Mais do que isso: é um pré-requisito para que funcione.

O escritor Júlio Cortázar dizia que, se escrever fosse uma partida de boxe, o romance venceria por pontos; o conto, por nocaute. O propósito do gênero é justamente nos passar uma mensagem com o mínimo de backstory e contextualização possíveis.

Para isso, é preciso apelar para momentos “decisivos”, de grande peso, força – ou beleza. Algum tipo de “clique” que nos faça entender quem são essas personagens e por que fazem o que fazem.

Alguns críticos comparam esse tipo de ficção com a fotografia, e não por acaso. A idéia é nos convencer com a força de uma imagem, não com um agregado de fatos e consequências. É ser um verdadeiro “flash” na vida de alguém, um “instante decisivo” (como dizia o fotógrafo Cartier-Bresson) que nos força a enxergar o mundo de outra forma.

Claro, há curtas ruins (e o mesmo pode ser dito de longas). Isto não significa, no entanto, que eles estejam fadados a serem superficiais. Basta lembrar que O Cão Andaluz, um dos filmes mais importantes da história do cinema, é ele próprio um curta (17min).

Cartaz de O Cão Andaluz
Cartaz de O Cão Andaluz

Shinkai não é um Buñuel, mas sinto que seus curtas cumprem direitinho o papel esperado do gênero. E aqui, Vítor, eu recomendo que você assista a seus curtas realmente curtos, como Dareka no Manazashi (em inglês, Someone’s Gaze) e Cross Road (ele próprio um comercial).

Ambos exploram com bastante afeto momentos humanos da vida: o distanciamento de uma mulher de seu pai, no início da vida adulta, e o turbilhão de incertezas e esperanças do ano de vestibular.

Claro, é verdade que Makoto Shinkai trabalha com temas bem mundanos. É normal que histórias sobre romances, conquistas adolescentes e animais de estimação causem menos furor do que uma aventura épica (daí talvez a popularidade de Kimi no Na wa).

Entretanto, o mesmo ponto que fiz para os curtas vale aqui também: temas mundanos não são inferiores. Ulisses de James Joyce está de prova: é um dos maiores livros da história da literatura e nada mais que a história de um homem comum durante um único dia de sua vida.

Isso não é uma exclusividade da “alta cultura” (embora eu deteste esse termo). Pelo contrário, pode ser visto também em animes e mangás.

Esta exploração do aspecto “micro” da vida – com farto recurso ao subtexto – é bastante presente em obras josei. Por exemplo, na mangaká Hozumi, sobre quem eu próprio já escrevi.

Tudo isso para dizer que Shinkai pode ter muitos defeitos, mas não acho que o fato de fazer curtas é um deles. Pelo contrário, considero essa a sua maior força.

Shinkai pode ter seus defeitos, mas seus curtas não são um deles.
Shinkai pode ter seus defeitos, mas seus curtas não são um deles.

Diego:

Bom, acho que é um bom momento pra irmos encerrando a discussão, então para tando eu queria deixar aqui duas perguntas:

A primeira delas é: o que vocês acham de toda a história envolvendo o oscar? Desde que foi anunciado que Kimi no Na Wa seria exibido nos cinemas dos Estados Unidos, sabia-se que isso era para qualificá-lo como possível indicado ao oscar. Infelizmente, não deu, e eu queria saber se vocês tem alguma opinião a emitir sobre esse assunto, se acham que o filme realmente não tinha porquê competir no oscar, se acham que ele devia estar lá, ou mesmo talvez aproveitar para dar uma ou duas palavras sobre a forma como o oscar trata as animações estrangeiras de forma geral.

E a segundo pergunta é bem mais aberta, que é justamente se vocês têm algum comentário ou consideração final para dar sobre a carreira do Makoto Shinkai.

Hora das considerações finais.
Hora das considerações finais.

Cat:

Também finalizarei minha participação neste debate tecendo algumas considerações dos questionamentos finais do Diego.

Primeiramente, quanto a questão do Oscar, serei sucinto e direto, ganhar o Oscar não é e nunca foi sinônimo do filme ser bom. Tem-se no senso comum que os melhores filmes de cada ano são justamente os ganhadores da tão sonhada estatueta, mas isso não é verdade. O Oscar é apenas mais um, embora o mais famoso, prêmio do cinema mundial, mas há diversos outros muito importantes, como o festival de Cannes, de Berlim, o de Veneza, etc…

O Oscar segue uma pauta específica na escolha dos concorrentes e premiados. Há elementos que tornam o filme “feito para o Oscar”, tornando o prêmio bastante previsível, pelo menos quanto as indicações. Invista em biografias de gente famosa, dramas baseados em fatos reais, questões como busca por direitos sociais, etc., que você terá muita chance de ganhar uma estatueta. No que tange animações, também existem as fórmulas mágicas. Quase sempre ganhará o Oscar um filme “família”, com humor leve e uma boa animação 3D, e que passam uma mensagem de superação ou algo do gênero.

Filmes indicados ao Oscar de melhor animação de 2016
Filmes indicados ao Oscar de melhor animação de 2016

Se duvidam do que falei no parágrafo anterior, é só olhar a lista dos ganhadores de melhor filme de animação desde 2001 quando a categoria foi formalmente criada. Todos os filmes são animações 3D, a maioria da Pixar, da Dreamworks e da Disney. A única exceção foi A Viagem de Chihiro, o único filme 2D a ganhar o Óscar de melhor animação. A Branca de Neve de 1939 também ganhou, mas nem conta, já que foi uma premiação especial.  Provavelmente quem levará o Oscar esse ano será Zootopia ou Moana, filmes perfeitos para o prêmio, feitos na medida para o Oscar.

Claro que desde 2000, alguns filmes 2D competiram ao Oscar, quantidade muito menor do que de filmes 3D. Não dá para negar qual a preferência da Academia ao escolher os indicados. Falando dos filmes 2D, boa parte dos filmes indicados foram filmes da Ghibli! Um mérito para Japão! Depois de A Viagem de Chihiro ter ganhado o Oscar, pensava-se que seria o começo de uma nova era para as animações japonesas, ou pelo menos para os filmes em duas dimensões, infelizmente, Chihiro foi a única exceção, um estranho no ninho no meio de um mar 3D. Há também outra exceção, dos filmes feitos com a técnica do Stop-Motion, muitos já foram indicados, tendo um filme assim ganhado, Wallace & Grommit.

Depois de analisar esses fatos apresentados acima, a conclusão que se chega é que muito provavelmente se Kimi No Na Wa tivesse a chance de concorrer ao Oscar não ganharia, já que o prêmio privilegia animações dos EUA e em 3D. Isso que nem estou entrando no mérito do conteúdo do filme, já que nem assisti ainda, mas apenas falo das questões gerais por trás desta “polêmica”.  O estúdio Ghibli foi uma exceção, por ter ganhado um prêmio e tantas indicações, talvez a ligação que mantém com a Disney tenha ajudado, já que os filmes do estúdio Ghlibli são distribuídos pela Disney no ocidente. Apenas um palpite.

No Oscar, Chihiro foi a exceção.
No Oscar, Chihiro foi a exceção.

Não vejo o fato de Kimi No Na Wa não ter ganhado a indicação como algo negativo. O filme foi um sucesso de bilheterias e de crítica, melhor impossível. Um divisor de águas tanto no cinema de animação japonês como na carreira de Makoto Shinkai. Se o Oscar não soube apreciar um provável bom trabalho, azar o deles. A maioria dos jurados mal vê os filmes indicados e quem procura indicações mal olha ao redor do mundo buscando bons trabalhos. Só espero o dia em que todos reconheçam que esse prêmio é supervalorizado muito além do seu real valor.

Quanto a segunda pergunta, sobre a possibilidade de tecer um comentário ou consideração final sobre a carreira do Makoto Shinkai. Bom, desejo o maior sucesso para ele. Ninguém hoje no Japão faz o que ele faz, embora pareça assustadoramente simples, conseguir criar um enredo não muito complexo, com uma carga dramática na medida e com uma animação exuberante. Makoto Shinkai encontrou a receita do sucesso, então é melhor ele aproveitar e não decair de nível. Talvez no futuro tenha um destaque internacional como o concedido ao Hayao Miyazaki. Mas isso só o futuro dirá.

Shinkai possui um estilo bastante próprio, e se seguir como tem feito certamente continuará encontrando sucesso em sua carreira.
Shinkai possui um estilo bastante próprio, e se seguir como tem feito certamente continuará encontrando sucesso em sua carreira.

Vinicius:

Sobre o Oscar, vou só deixar aqui esse link, que traz depoimentos dos votantes do prêmio de 2015 na categoria animação.

Para quem está com preguiça de ler a matéria, aqui vão as pérolas: a maioria escolheu seus favoritos baseados única e exclusivamente no fato de serem “acessíveis”. Um dos votantes disse, sem um pingo de ironia, que deixou suas crianças escolherem o filme com ele. Outro se gabou de só assistir “filmes que meus filhos gostam” e chamou Princesa Kaguya e Song of the Sea de “two obscure freakin’ Chinese fuckin’ things that nobody ever freakin’ saw“.

Desculpem se eu não traduzi a expressão, mas não consigo pensar num equivalente em português que comunique o nível de desprezo que esse ser humano tem pela animação. Detalhe curioso: Todos sabemos que Princesa Kaguya, do Isao Takahata, não é “chinês”, mas Song of the Sea não é sequer um anime! Trata-se de um filme irlandês baseado na mitologia gaélica. Não importa que você venha da Europa: se fizer um desenho que não caiba da fórmula Disney, é rotulado como “Perigo Amarelo”.

Song of the Sea.
Song of the Sea.

Diante desse histórico, Kimi no Na Wa nunca teve a menor chance de ganhar nada. E não acho que Makoto Shinkai, nem qualquer outro diretor de anime, teve qualquer coisa a perder por causa disso.

O Oscar tem, é verdade ,um alcance midiático assombroso. Uma vitória de um anime (Kimi no Na Wa ou outro) teria o potencial de avivar o interesse pela mídia no Ocidente, como aconteceu em 2001 depois de Viagem de Chihiro.

Para os animes em si, no entanto, isso não significa nada. A academia americana é notoriamente hostil à animação como forma de arte. O reconhecimento dos seus votantes não diz, artisticamente, coisa alguma.

Pessoalmente, prefiro seguir o Festival de Veneza, que já premiou Castelo Animado de Miyazaki e indicou filmes como Sky Crawlers de Mamoru Oshii e Paprika de Satoshi Kon. Não há garantias de que Shinkai eventualmente o ganhe, mas pelo menos tem um júri mais aberto a  “freakin’ Chinese fuckin’ things“.

Sério. É rir para não chorar…

Mesmo que fosse indicado, Kimi no Na Wa provavelmente nunca venceria o Oscar.
Mesmo que fosse indicado, Kimi no Na Wa provavelmente nunca venceria o Oscar.

Vitor:

Eu não assisti a maioria dos filmes indicados ao Oscar, mas não é nem um pouco difícil perceber que seu sistema está cheio de idiotices. Como um prêmio supostamente tão importante é dado por pessoas que pouco se importam com o que assistem, ou pior, que mal assistem às obras candidatas? Isso é ridículo. Fora que os votantes não seguem um critério lógico e racional para crítica, o máximo que há é uma parcialidade bizarra (ainda mais óbvia vendo o link que Vinícius mandou).

Ainda assim, se eu fosse parte do júri, sem sombra de dúvidas não escolheria Kimi no Na Wa. Não faz sentido dar um prêmio supostamente tão importante para uma obra com um roteiro que deixa tanto a desejar.

Quanto ao resto das obras de Shinkai, nesse meio tempo finalmente terminei de assistir tudo dele que me faltava, mas mantenho minhas posições. Ele é um amante de inovação e de romances cujas obras alternam entre a monotonia e inverossimilhança. Suas produções tem melhorado cada vez mais em termos de beleza visual e engajamento com os espectadores, mas ainda deixam bastante a desejar quando se trata de roteiro. Honestamente, espero que chegue o dia em que Shinkai consiga conciliar esses aspectos para produzir verdadeiras obras primas. Até lá, tudo o que podemos fazer é esperar e torcer pelo melhor.

E aqui acabou o debate.
E aqui acabou o debate.

Diego:

Chegando então ao final da discussão, acho que é minha vez de dizer alguma coisa sobre as suas perguntas eu eu mesmo lancei [rs]:

Sobre a questão do Oscar, eu vou dizer que ao menos esperava o filme ser indicado. Mas vencer, não, de jeito nenhum. Mesmo The Red Turtle, do Ghibli, que foi indicado, eu não acho que ele tenha alguma chance real. É como já foi falado, o Oscar não dá realmente grande atenção para animação, e animação estrangeira então é claramente tratada com desdém. A bem da verdade, é algo que me incomoda na premiação tão somente por pensar que tem gente sendo paga horrores para nem fazer o seu trabalho direito, e olha que o trabalho é sentar a bunda no sofá e ver um filme. Mas pensando se Kimi no Na Wa merece ou não a premiação… Eu não vi praticamente nada de animação ocidental desse ano, então não acho que posso fazer qualquer afirmação precisa. Mas reitero o que falei na minha review do filme: se houver quem acredite que ele merecia o Oscar, eu consigo entender porquê. Para todos os efeitos, é um filme bem legal e gostoso de assistir.

Quanto ao Shinkai enquanto diretor, eu digo que enquanto não costume gostar dos seus longas, Kimi no Na Wa ao menos se mostrou um avanço bastante significativo, sendo uma obra que consegue prender e emocionar ao mesmo tempo. Ainda guarda muitos dos problemas de outras obras do autor, como furos no roteiro aqui e ali ou coisas que poderiam ser melhor explicadas, mas também traz em si muito do que faz suas obras interessantes em primeiro lugar. Assim sendo, digo que certamente terei vontade de ver o que o Shinkai fará no futuro, e espero que ele siga evoluindo como autor e diretor para entregar histórias cada vez melhores.

No mais, foi uma discussão interessante, e como sempre de alto nível, sendo bem legal ver as diferentes opiniões e argumentos sobre esse que, para todos os efeitos, vem se tornando um dos diretores japoneses mais aclamados no mundo. Agradeço a participação de todos, e até um possível próximo debate.

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Posters de divulgação de Byousoku 5 Centimeter, Hoshi wo Ou Kodomo, Kotonoha no Niwa, Dareka no Manazashi, Crossroad e Kimi no Na Wa.

2 – Kimi no Na Wa.

3 – Byousoku 5 Centimeter

4 – Byousoku 5 Centimeter

5 – Kimi no Na Wa

6 – Posters de Divulgação de Akira, Ghost In The Shell e Paprika.

7 – Comercial para o The Shinano Mainichi Shinbu, jornal de Nagano.

8 – Posters de divulgação para Sen to Chihiro no Kamikakushi, Howl no Ugoku Shiro e Kaguya-hime no Monogatari

9 – Sen to Chihiro no Kamikakushi.

10 – Crossroad, comercial para o cursinho Z-Kai.

11 – Kimi no Na Wa.

12 – Byousoku 5 Centimeter

13 – Cartaz de Un Chien Andalou (wikipedia).

14 – Dareka no Manazashi.

15 – Kotonoha n Niwa.

16 – Posters de divulgação de Zootopia, Moana, Kubo of the Two Strings, My Life as a Zucchini e The Red Turtle.

17 – Sen to Chihiro no Kamikakushi.

18 – Kotonoha no Niwa.

19 – Poster de divulgação de Song of The Sea.

20 – Kimi no Na Wa.

21 – Kotonoha no Niwa.

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