O que é uma “desconstrução”?

"Desconstrução": a palavra é jogada aqui e ali com frequência, mas o que ela de fato significa?
“Desconstrução”: a palavra é jogada aqui e ali com frequência, mas o que ela de fato significa?

Com toda certeza o leitor já se deparou com esse argumento ao menos uma vez, o de que dado anime ou mangá é uma “desconstrução do” e ai segue-se algum gênero, clichê, ou o que couber. “Neon Genesis Evangelion é uma desconstrução do gênero mecha“, “Madoka Magica é uma desconstrução do gênero mahou shoujo“, “Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu é uma desconstrução do gênero isekai [protagonista que viaja para outro mundo]”, “Hunter x Hunter é uma desconstrução do shounen“, e por ai vai. Você talvez inclusive concorde com algumas dessas afirmações, discorde de outras, e talvez incluísse entre esses exemplos a sua própria lista de animes que “desconstroem” alguma coisa. Mas para o quanto a palavra é usada, ela é também incrivelmente imprecisa. Boas são as chances que duas pessoas a usando queiram dizer coisas completamente diferentes, e mesmo que concordem que este ou aquele anime é uma desconstrução de algo, talvez o achem por motivos totalmente distintos. Justamente por isso é possível surgir bastante debate e discussão sobre se dado anime é ou não uma desconstrução disso ou daquilo. Mas isso levanta então a questão: o que, afinal, é uma desconstrução? O que o termo realmente quer dizer?

Bom, bem francamente, essa é uma pergunta bem difícil de responder. Ao longo do tempo e do contexto essa palavra mudou drasticamente, ao ponto de que a forma como o meio otaku a usa atualmente é total e completamente diferente daquela do uso original da palavra. O que traz consigo um certo grau de ironia, para ser bem sincero, mas explicarei melhor isso em breve. Por agora, o importante é apontar o seguinte: para tentar explicar melhor essa palavra, eu vou precisar entrar em pelo menos três definições que ela assumiu ao longo do tempo. Primeiro, a definição original, de quando a palavra surge ainda no meio da teoria literária. Em segundo lugar, a definição mais consensual entre a crítica dentro do meio otaku, aquela normalmente adotada e propagada por aqueles com um conhecimento um pouco maior da mídia. Finalmente, a definição coloquial dentro do meio otaku, aquela surgida a partir de uma espécie de subversão ou “corrupção” do segundo significado, e que essencialmente é a responsável pelas pessoas começarem a usar o termo para falar de literalmente todo anime minimamente diferente do padrão.

Definir o termo é mais complicado do que parece.
Definir o termo é mais complicado do que parece.

Começamos, assim, pelo surgimento do conceito original. Embora, para fazer isso, será necessário sair do meio dos animes e mangás, mesmo do Japão moderno, para entrar brevemente no meio da teoria literária e do debate que aqui surge lá para finais dos anos 1960. Já aviso: os próximos parágrafos serão bem mais densos do que o restante desse texto. Como praticamente qualquer termo surgido em um ambiente acadêmico, há por trás desse um vasto debate embasado em ainda outros tantos termos, argumentos, autores… Resumir esse contexto já seria difícil para alguém que entende o debate a fundo, e eu, que não tenho qualquer experiência na área e posso quando muito fazer uma pesquisa rápida pela internet, só poderia dar noções bastante gerais de como o termo surge. Ainda assim, acho que isso é desculpável na medida em que este não é o foco do texto, dado que o significado original do termo já não possui absolutamente nenhuma relação com o seu uso no meio otaku. Saber de onde ele surgiu é útil para entender o quanto o termo mudou, mas para isso noções básicas serão o suficiente. Então, sem mais delongas, vamos com isso.

Em 1967, o filósofo francês Jacques Derrida publica o seu livro De La Grammatologie, considerado como o marco inicial do chamado “desconstrutivismo“. Em essencia, estamos falando de um conceito que vai na contra-mão do chamado “estruturalismo“. Honestamente, explicar o que cada lado defende é bem complicado, e eu mesmo não tenho certeza se entendi direito. Trata-se de uma discussão que traz implicações para a filosofia, a epistemologia, a ontologia, e por ai vai. Mas aparentemente o que ocorre é que o desconstrutivismo tenta provar que palavras não possuem significado inerente, e que por conta disso todo e qualquer texto é, em si mesmo, contraditório. Uma vez que uma mesma sentença pode ser entendida de múltiplas formas, eventualmente chega-se a um entendimento que completamente subverte o que o texto parecia querer indicar em uma primeira leitura, dai nascendo a contradição. Como você dizer a uma pessoa que ela “está bonita hoje”, só para ela lhe responder algo como “então eu normalmente estou feia?”, completamente subvertendo a intenção original da frase.

Jacques Derrida, autor de "De La Grammatologie"
Jacques Derrida, autor de “De La Grammatologie”

A “desconstrução”, aqui, seria portando do próprio sentido das palavras, frases, parágrafos… Expondo como o texto, em última instância, não possui qualquer significado. Se isso lhe parece distante daquilo que você entende por “desconstrução”, é porque é mesmo. Eu posso garantir, com base em uma amostragem nada científica, que ninguém no meio otaku usa o termo com esse significado, e não tenho a menor ideia do quanto a discussão acima ainda é relevante para a teoria literária. De verdade. Talvez tenha artigos no tema saindo toda semana em alguma revista eletrônica do meio ou talvez essa seja uma conversa já há muito superada: eu não faço ideia. Fato é que quando, no meio otaku, alguém tenta definir ao termo “desconstrução”, a pessoa está falando de uma outra coisa. Algo um tanto quanto menos filosófico e um pouco mais descritivo. Então vamos entrar agora nessa segunda definição.

Desconstrução” quando aplicada à ficção, normalmente se refere a pegar um gênero, um arquétipo, um clichê, e tentar mostrar como as coisas ocorreriam se algo assim acontecesse no “mundo real” ou com “pessoas reais”. Em outras palavras, é tentar dar um maior realismo a estas situações fictícias. Algo que, vale dizer, pode ser simples ou mais complexo, a depender do que se procura “desconstruir”. Neon Genesis Evangelion é normalmente apontado como uma desconstrução de todo o gênero mecha por mostrar como adolescentes de 14 anos reais provavelmente reagiriam ao ter o destino do mundo em suas costas e estando expostos a situações de alto risco constantemente. Mas algo tão simples quanto o protagonista entrando no quarto quando a heroína está se trocando, pedindo desculpas e saindo dali sem maiores incidentes poderia facilmente ser apontando como uma desconstrução do clichê da garota ficando envergonhada e batendo no protagonista de alguma forma.

Neon Genesis Evangelion é tido como um dos mais clássicos exemplos de desconstruções por mostrar o quanto uma situação antes glorificada (adolescentes pilotando robôs gigantes) seria na verdade bastante traumática sob uma perspectiva mais realista,
Neon Genesis Evangelion é tido como um dos mais clássicos exemplos de desconstruções por mostrar o quanto uma situação antes glorificada seria na verdade bastante traumática sob uma perspectiva mais realista.

Por conta dessa sua busca por realismo, desconstruções nesse sentido tendem a ser bem mais pesadas do que as suas contra-partes mais tradicionais. Mas é importante ressaltar que isso não é uma obrigatoriedade, e que muito menos o fato de uma obra ser mais “dark“, violenta ou depressiva automaticamente a torna uma desconstrução de algo. E acho que dois bons exemplos disso podem ser encontrados em duas obras que eu não me importaria de considerar uma “desconstrução” do sub-gênero “pessoas transportadas para um mundo de RPG”: Log HorizonHai to Gensou no Grimgar. Ambos buscam apontar qual seria o resultado mais realista de tal situação, diferindo apenas em sua escala. Log Horizon é muito mais grandioso, lidando com personagens no topo da hierarquia social que se forma ali, apontando como uma população submetida a algo do tipo eventualmente criaria as suas próprias organizações sociais, muitas das quais réplicas daquelas que existem no mundo real. Já Grimgar toma uma abordagem bem mais modesta, mostrando as dificuldades que aqueles menos experientes e menos talentosos teriam de enfrentar apenas para continuarem vivos.

Nenhuma dessas obra é particularmente dark, embora alguns talvez pudessem argumentar que Grimgar chega bem perto disso, mas ainda assim buscam apresentar um cenário mais realista para a premissa na qual se inserem. Mas claro, realismo por si só não caracteriza a desconstrução, mas sim como esse realismo expõe a irrealidade do clichê tradicional. Nesse sentido, acho seguro afirmar que é Grimgar o que mais se aproxima de uma “desconstrução” de fato, já que se foca mais nas dificuldades que um grupo enfrentaria em um cenário do tipo, as perdas que isso poderia acarretar, o estresse psicológico que poderia surgir, etc. Ou talvez um exemplo ainda mais apropriado desse ponto fosse o anime Kono Subarashii Sekai ni Shukufuku wo, ou simplesmente KonoSuba, uma comédia que ainda assim consegue comentar o absurdo de alguns dos clichês de seu gênero enquanto ainda apresentando uma visão relativamente realista de como um cenário do tipo de fato se desenrolaria.

Uma obra não precisa ser excessivamente dramática para ser uma desconstrução: basta apresentar uma perspectiva mais realista da situação.
Uma obra não precisa ser excessivamente dramática para ser uma desconstrução: basta apresentar uma perspectiva mais realista da situação.

Vale dizer, de forma alguma a palavra, nesse sentido, é algum tipo de atestado de qualidade. Dizer que algo é uma “desconstrução” do que for é apenas apontar uma característica da mesma, que pode ser bem ou mal empregada. Isso talvez fique mais evidente quando ser uma desconstrução deixa de ser um diferencial. É normal apreciar uma obra que tente fazer algo diferente, especialmente se você já está cansado de como um dado gênero funciona, e acho que é daí que surgiu uma espécie de “mito” da desconstrução como algo inerentemente positivo. Mahou Shoujo Madoka Magica é um bom exemplo disso. Ignorando aqui o debate de se Madoka seria ou não uma desconstrução em primeiro lugar, é inegável que ele é bem mais “pesado” do que a maioria dos animes de seu gênero. Sim, houve animes anteriores que procuraram quebrar as convenções do mahou shoujo, como Princess Tutu, mas Madoka veio na época certa para não ter uma concorrência real, e daí o choque que conseguiu causar. Porém, após o seu sucesso diversas outras obras surgiram tentando fazer algo semelhante, mas boa parte delas simplesmente passou batido pela maioria: ou alguém aqui legitimamente gosta de Genei wo Kakeru Taiyou? Quando o fator “novidade” desaparece as pessoas retornam aos seus critérios comuns de avaliação das obras, e nisso fica evidente como ser diferente não é o bastante para assegurar qualidade.

O problema é que nem todo mundo parece notar tudo isso. E é ai que entramos na terceira e última definição do termo, onde normalmente se usa a palavra para descrever essencialmente qualquer obras que seja mais violenta, mais complexa ou mais dramática do que o padrão para o seu gênero. Há quem queira argumentar que Re: Zero é uma desconstrução do gênero isekai não por ele mostrar as falhas e inverossimilhanças inerentes aos clichês do gênero, mas sim porque o protagonista sofre. Só. Tudo bem, em um primeiro momento o protagonista literalmente morrer no primeiro episódio poderia ser uma desconstrução da própria noção de que qualquer pessoa normal conseguiria durar muito tempo em um mundo completamente estranho, mas dali até o seu final o anime acaba por eventualmente cair nos mesmos clichês tão comuns ao gênero. Não dizendo que isso o torna ruim, mas apenas apontando que isso não o tornaria uma desconstrução dentro dos parâmetros anteriores.

Se uma desconstrução não precisa ser violenta e dramática o contrário também é verdade: uma obra ser violenta ou dramática não a torna uma desconstrução.
Se uma desconstrução não precisa ser violenta e dramática o contrário também é verdade: uma obra ser violenta ou dramática não a torna uma desconstrução.

Semelhantemente, já ouvi falarem que Fullmetal Alchemist: Brotherhood é uma “desconstrução do shounen“, algo que faz bem pouco sentido de várias formas diferentes. Em primeiro lugar pelo simples fato de que “shounen” não é um gênero, mas sim uma demografia, que engloba em si mesma uma gama bastante variada de gêneros, incluindo ai esporte, mistério, romance, ação, aventura… Dizer que qualquer coisa que seja é uma “desconstrução do shounen” não é muito diferente de dizer que algo é “uma desconstrução do ‘aconselhável para maiores de 12 anos'”, e se essa segunda frase parece-lhe sem sentido então você entendeu o ponto. Por outro lado, mesmo que fizéssemos a concessão de assumir que o argumento é o de que Fullmetal desconstrói os clichês mais comuns ao que nós popularmente chamamos de “battle shounen“, mesmo isso não faz realmente muito sentido se assumirmos a definição anterior. Afinal, há bem pouco que faça de Fullmetal uma obra mais realista do que seus semelhantes, e os clichês de se esforçar para atingir um objetivo e da importância da amizade ainda são bastante presentes na obra.

Claro, há um limite de até que ponto se pode defender o “purismo” de significado de uma palavra.  Como bem mostrei no começo do texto, o significado original do termo já não guarda qualquer semelhança com a forma como ele é normalmente usado, então nada impede que o mesmo mude ainda outra vez. Mas é verdade que uma mudança do tipo será tão melhor quanto ela for útil, coisa que atual não o é. Porque cada vez mais o termo “desconstrução” deixa de ser um termo de descreve uma característica para se converter em uma espécie de elogio vazio que você coloca em qualquer obra que lhe agradar. Isso gera confusão, e uma na qual nem se pode mais saber o que exatamente a pessoa quer dizer quando usa o termo: uma situação que provavelmente faria os adeptos do desconstrutivismo original darem um leve sorriso de canto de boca (e daí a ironia).

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Neon Genesis Evangelion, episódio 1.

2 – Mahou Shoujo Madoka Magica, episódio 1.

3 – Foto de Jacques Derrida [wikipedia] e capa da edição francesa de De La Grammatologie [wikipedia].

4 – Neon Genesis Evangelion, episódio 25.

5 – Kono Subarashii Sekai ni Shukufuku wo, episódio 1.

6 – Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu, episódio 1.

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2 comentários sobre “O que é uma “desconstrução”?

  1. Parabéns! Um artigo que eu gostaria de ter escrito. E acho que cheguei a dizer isso literalmente em algum dos meus rants no nosso chat da blogosfera, ou não? =D

    De todo modo, com os meus estudos e reflexões foi exatamente nesse mesmo ponto que eu cheguei. Se me permite, portanto, gostaria de acrescentar:

    – Desconstrução vs Paródia
    – Intencionalidade do autor

    Ia escrever um longo comentário aqui sobre isso, mas se não se importar, gostaria de escrever isso em um artigo no meu próprio blog. Será que me permite? =)

    (e desde já estou curioso para saber se alguém vai ser maluc… corajoso o suficiente para escrever sobre o significado que “desconstrução” tomou junto aos movimentos que se classificam progressistas e defensores de minorias; veio da mesma fonte, portanto é semelhante aos delineados em seu artigo, mas ao mesmo tempo é completamente diferente, principalmente depois de ter transmutado na forma “fulano de tal é desconstruidão”)

    Curtido por 1 pessoa

    • “Ia escrever um longo comentário aqui sobre isso, mas se não se importar, gostaria de escrever isso em um artigo no meu próprio blog. Será que me permite? =)”

      lol Claro que sim xD

      “e desde já estou curioso para saber se alguém vai ser maluc… corajoso o suficiente para escrever sobre o significado que “desconstrução” tomou junto aos movimentos que se classificam progressistas”

      … Talvez um dia … rs

      Curtir

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