Review – Planetes (Mangá)

Planetes
Planetes

Originalmente lançado entre 1999 e 2004, Planetes foi o mangá de estréia de Makoto Yukimura, e devo dizer que foi uma estréia e tanto. A história, um slice of life de ficção científica, acompanha o dia a dia de um grupo de lixeiros espaciais, designados para a nave Toy Box. A função da equipe de três, e depois quatro, tripulantes sendo a de limpar a atmosfera terrestre dos detritos que sobram das viagens espaciais, desde partes de aeronaves e satélites desativados, até detritos bem menores. Isso porque à uma dada altura, a velocidade com que a qual estes objetos orbitam a Terra se torna imensa, de forma que mesmo o menor dos parafusos ainda poderia causar literalmente a queda de uma espaçonave. E com a humanidade dando os seus primeiros passos para fora da Terra, sobretudo na forma de bases permanentes na Lua e estações espaciais, a necessidade desses lixeiros fica bastante evidente.

Num geral, é uma obra bastante focada no desenvolvimento e crescimento de seus personagens, com cada capítulo funcionando muito bem isoladamente, ao menos no começo. E embora logo a obra ganhe uma narrativa um pouco mais “fechada”, na forma do protagonista, Hachimaki, tentando entrar para uma missão espacial que enviará um grupo de astronautas para Júpiter, a ideia de capítulos focados em um dado tema, que servem, por sua vez, de base para o crescimento de seus personagens, nunca é de fato abandonada (algo, na minha opinião, bastante positivo, considerando o quão interessantes e cativantes podem ser estes personagens e temáticas). Contudo, falar muito mais do que isso vai me exigir entrar em spoilers, então considere isto o seu aviso. Se ainda não leu este mangá, leia. Ele foi publicado no Brasil em 2015, em 4 volumes pela editora Panini, e definitivamente vale a pena dar uma olhada.

Volume 1

Bom, começando a review, acho melhor já falar do que basicamente todo mundo que fala sobre esse mangá primeiro nota: o seu realismo. Planetes é um mangá de ficção científica do tipo hard, um estilo do gênero que prima pelo rigor científico, o que parece ser uma constante no trabalho de Yukimura. Podemos ver isso inclusive em Vinland Saga, outro mangá do autor, atualmente em publicação, que retrata de forma bastante precisa, historicamente, o ambiente nórdico da Idade Média, onde se passa sua história (mesmo que adicionado sobre isso uma camada de ficção necessária para a própria existência da trama, é claro). Ou seja, é um autor que claramente faz a sua pesquisa antes de escrever as suas histórias, e em Planetes isso é algo que fica bastante evidente. O que curiosamente trouxe um caráter bastante atemporal a esse mangá.

Explicando, eu diria que a ficção científica, num geral, nos diz bem menos sobre o futuro e muito mais sobre o presente. Mais especificamente, sobre a forma como o presente vê o futuro, à luz de seus conhecimentos, esperanças e preocupações. De forma alguma isso fica mais claro do que contrastando a visão otimista que o século XIX tinha para com o futuro com a visão claramente mais pessimista e apocalíptica que predomina a partir de meados do século XX, marcado por duas guerras mundiais e pela Guerra Fria. E claro, conforme os contextos sociais e o conhecimento científico avançam e se modificam, as antigas visões de futuro vão ficando visivelmente datadas. Por melhor que seja o livro de Verne, viajar ao centro da Terra através de cavernas infelizmente não é possível. E as histórias sobre uma Terra devastada, exaurida de seus recursos naturais, bem demonstram as preocupações ambientalistas de finais dos anos 1990 e começo dos anos 2000.

Volume 2

Planetes, porém, consegue “manobrar” esses “problemas” (que a bem da verdade não são realmente problemas de fato, ao menos ao meu ver) de uma forma muito interessante. Em primeiro lugar, o seu rigor científico se sustenta muito bem ainda hoje, e eu honestamente me surpreendi ao descobrir que esse mangá já passa dos seus 17 anos. Além disso, tematicamente ele trabalha com questões como o luto, o seu lugar no universo, o seu lugar na sociedade, o amor, e uma série de outros temas bastante atemporais. O resultado final é uma obra que não seria se quer justo dizer que envelheceu bem: ela não envelheceu, permanecendo tão relevante e precisa hoje quanto o era quase duas décadas atrás. E, ousaria dizer, que provavelmente permanecerá relevante mesmo quando passarmos da década de 70 deste século, quer as previsões sobre viagens espaciais presentes na obra se concretizem ou não (algo que, aliás, muitos que estão lendo este texto possivelmente verão ao vivo).

Mas deixando o seu elemento de ficção científica de lado, falemos da história em si. Como eu disse, Planetes pode ser considerado um slice of life, no sentido que ele não possui uma “trama de fundo” de fato, e antes a sua história é tão somente o dia a dia de seus personagens. Em particular, é claro, do protagonista Hachimaki, cuja ambição de conseguir a sua própria nave move praticamente toda a sua história, sendo o que o leva a se inscrever para a missão que irá para Jupiter, o que por sua vez o leva a conhecer Ai Tanabe, quando esta é escalada para tomar seu lugar como lixeiro espacial. Nesse sentido, Hachimaki é possivelmente o personagem que mais de desenvolveu ao longo dessa história, especialmente em termos psicológicos. Ele começa bem “cabeça dura” e centrado em seu objetivo, no meio da narrativa passa por uma interessante crise existencial, ao se dar conta da grandeza do próprio universo, e termina bem mais aberto ao carinho e afeição dos outros, especialmente da Ai. É um personagem bastante humano, e que rende algumas das melhores frases em todo esse mangá.

Volume 3

O restante do pessoal da Toy Box, porém, tem desenvolvimentos bem mais pontuais. A Fee é talvez a única outra que passe por uma maior mudança, como o Hachimaki, mas isso apenas mais para o final do mangá. Tudo bem que o seu arco toma um pouco mais da metade do último volume, e em temática é uma provocante abordagem da forma como podemos ceder às pressões sociais, mas ainda não chega perto do longo desenvolvimento que foi com o Hachimaki. Tanabe, por sua vez, é muito mais “delineada” e “explicada” do que realmente desenvolvida, e a conhecemos mais através da sua convivência com o Hachimaki e os demais astronautas, e de um pequeno flashback de sua infância. Ainda assim, foi mais desenvolvida do que o Yuri, ao qual é dedicado o primeiro capítulo da história, e que depois recebe pouco foco em si próprio.

Agora, não entendam mal, de forma nenhuma eu quero dizer que estes personagens são ruins, nem perto disso. Todos eles são extremamente divertidos e carismáticos, verossímeis e fáceis de torcer por. Só estou dizendo que se você for pra essa obra esperando um elenco que termina, em termos de personalidade, completamente diferente do que eram no começo, não vai encontrar. Até porque muitos deles não precisam mudar. Hachimaki e a Fee sim, mas o Yuri não tinha mais o que amadurecer para além de aceitar, afinal, a morte da esposa. Muito menos a Tanabe precisava mudar. Não quero implicar que “desenvolvimento é overrated“, ou algo do tipo, mas alguns personagens estão melhor como estão, e querer “forçar” alguma mudança ou conflito poderia soar exatamente isso: forçado. Nesse sentido, diria que Yukimura soube muito bem para quem dar mais atenção e quem deixar como um personagem mais “de fundo”, recebendo atenção apenas quando necessário. O mangá é, afinal, a história do Hachimaki em primeiro lugar.

Volume 4

Agora, eu gostaria de entrar em cada temática que o mangá traz, mas se eu o fizesse esse texto ficaria demasiado imenso. Durante o começo do mangá, praticamente cada capítulo traz consigo um tema de teor mais introspectivo, e mesmo mais adiante na história ainda temos um ou mais temas a cada arco. São coisas como o luto, o egoísmo, o conformismo, o medo, o panico, o amor… Como eu disse, questões bastante atemporais, que exploram as mais variadas facetas da experiência humana, e que certamente permanecerão relevantes por ainda um longo tempo. Isso, combinado ao rigor científico da obra comentado mais acima, permite que Planetes seja um daqueles poucos mangás que efetivamente podem lhe ensinar algo, ou colocá-lo para pensar em uma série de questões.

Mas eu vou dizer que a maioria dos temas que eu achei mais interessantes ficaram no quarto volume. Todo o arco da Fee, lidando com a questão da ajustar-se à sociedade, traçando paralelos tanto com seu tio quanto com seu filho, foi bastante interessante em si mesmo, mas foi feito ainda mais interessantes pelas críticas colocadas na história à possibilidade de uma guerra no espaço, os danos que isso causaria, e os métodos sujos usados por duas facções antagônicas do exército para manobrar a opinião pública contra ou a favor da guerra. E em adição temos o final da obra com o Hachimaki, no qual predomina o tema ter um lugar ao qual voltar (talvez a maior mudança no personagem, que no começo do mangá só falava em ter a própria nave para viajar pelo universo) e o tema do amor. Inclusive, daí vem talvez a melhor frase do mangá, que o encerra com chave de ouro: “não pude deixar de armar e ser amado”.

Pôster promocional para o anime, de 2003.

E já que toquei nisso, falemos então do final. Porque eu meio que tenho sentimentos mesclados para com ele. Definitivamente foi um final forte, em mensagem e dentro da história. A viagem para Júpiter foi construída desde o volume 2, e encerrar com um Hachimaki amadurecido discursando para toda a humanidade ao chegar ao planeta foi um encerramento bastante satisfatório. Mas é difícil de não pensar que este ainda é apenas o começo da jornada do Hachimaki, que ainda terá de passar anos em Júpiter, e ainda precisa voltar para seguir com a vida junto à Tanabe. Digamos que é um final bastante típico de um slice of life, no qual o final é o final apenas daquilo que é mostrado ao leitor, enquanto que a vida destes personagens certamente se prolonga para muito além, restando ao leitor apenas imaginar o que pode vir a acontecer dali em diante. Mas não é como se tivesse ficado pontas soltas ou questões a resolver, então num geral foi um final bastante conclusivo, o que me deixou satisfeito.

Num geral, Planetes é um mangá extremamente maduro, realista em precisão científica e construção de mundo, recheado com diversos temas que inspiram a reflexão, tudo isso encabeçado por personagens carismáticos, bem trabalhados, e bem desenvolvidos. É um excelente mangá, talvez um dos melhores já publicados, e foi muito bom termos recebido-o por meio da Panini, que fez um trabalho excelente na obra (e não apenas em questões como gramatura, capa com orelha e tudo mais: o glossário ao final, explicado diversos termos científicos, foi uma adição típica da editora que ajudou muito no entendimento do mangá).

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Volumes 1 a 4 de Planetes

2 – Capa do volume 1

3 – Capa do volume 2

4 – Capa do volume 3

5 – Capa do volume 4

6 – Pôster promocional do anime de Planetes.

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