Review – Kino no Tabi (Anime)

Kino no Tabi
Kino no Tabi

Quando alguém decide contar uma história, normalmente seu enfoque é exatamente nisso: na história. É claro, muitas vezes o autor espera conseguir passar algo com aquela história, seja uma mensagem, uma moral, ou apenas um questionamento. Mas via de regra esta mensagem fica ao fundo da trama. O que realmente se destaca é a história: seus personagens, o mundo em que se passa, a trama que a move, etc. Mas existem alguns casos, raros é verdade, onde quase parece que o oposto se concretiza. Ao invés de termos uma mensagem ou questionamento que serve de “plano de fundo” à história, temos uma história na qual tudo nela parece servir ao propósito de passar uma mensagem ou questionamento. Lançado no ano de 2003, Kino no Tabi é um destes raros casos. Produzido pelo estúdio ACGT, e inspirado na série de light novels de mesmo nome escrita por Keiichi Sigsawa, este anime talvez seja um daqueles poucos títulos que mereceriam adjetivos como “filosófico”, “introspectivo” ou “profundo”.

Composto por 13 episódios, um OVA e dois filmes, o anime episódico acompanha a viajante Kino e sua motocicleta falante Hermes, conforme ambos viajam pelo mundo em que vivem. O objetivo de ambos é visitar o maior número possível de “países” (na prática parecem muito mais cidades-estados do que países de fato, mas deixa quieto rs), de forma que cada episódio se foca na chegada de Kino a um ou mais destes países, onde a dupla de viajantes sempre passa apenas três dias. Mas dessa premissa tão simples o que surge é uma vasta gama de questionamentos sobre os mais variados assuntos. Cada país que Kino visita é, antes de tudo, uma forma de levar o espectador a refletir sobre certos assuntos. Podem as pessoas realmente entenderem umas às outras? Poderia a democracia se converter em algo tão hediondo quanto a pior da ditaduras? O que realmente é a felicidade? Seria o estresse algo bom para os seres humanos? Estas e (muitas) outras perguntas são levantadas ao longo do anime, de forma que é quase certo que o espectador terá muito a pensar ao final de cada episódio. Se você ainda não viu esta série, eu fortemente a recomendo. Isto dito, o restante do post conterá diversos spoilers, então se você ainda não viu o anime e não gosta de revelações do roteiro, eu recomendo que pare a leitura por aqui.

Começando então a review, a primeira coisa que eu acho necessária apontar é o quão difícil é fazer uma review para esta história se pautando naquilo que normalmente se espera de uma história. Por exemplo, o formato episódico já significa a inexistência de qualquer trama maior ocorrendo ao fundo, de forma que não é exagero falar que cada episódio poderia ser analisado completamente em separado dos demais, sem que se perdesse absolutamente nada com isso (exceto por dois casos: o episódio 7, que é continuação direta do episódio 6, e o episódio 13, o final da série). Ainda, cada episódio é bastante único em si mesmo, em diversos sentidos. Para começo de conversa, cada país que Kino visita é, como eu mencionei, uma espécie de ferramenta cujo propósito é levantar um questionamento. O primeiro episódio, sobre um país onde todos podem ler mentes, leva o espectador a pensar sobre comunicação e sobre se os seres humanos podem verdadeiramente entender uns aos outros. O quarto episódio, onde vemos o passado da Kino, permite-nos pensar questões como o que é a felicidade, o conceito de trabalho, e outros elementos. O nono episódio é uma crítica mordaz à ideia de censura, mas é também uma crítica à própria ideia de crítica, bem como um comentário sobre o lugar de cada um na sociedade. O décimo segundo episódio, talvez o mais brutal de todos, nos faz pensar sobre questões como a função social do esporte, o significado da guerra e o sacrifício de uns em prol do bem estar de outros. E isso citando apenas alguns episódios.

Mas os episódios não diferem apenas na questão temática, também a ambientação é bastante divergente. Cada país é único, e isso em vários sentidos. Não apenas cada um deles tem sua própria história, cultura e tradição, como também cada um possui seu próprio regime político e seu próprio nível de avanço tecnológico. Assim, podemos encontrar desde uma monarquia regida por um tirano até uma democracia onde o que vale é o voto da maioria, bem como desde um país onde a ideia de uma máquina voadora ainda parece um absurdo até países onde as pessoas são transportadas em plataformas flutuantes automáticas. É um mundo extremamente diversificado, ao ponto que não seria exagero dizer que cada país é, de certa forma, um mundo próprio e à parte. Tudo isso torna bastante difícil pensar em Kino no Tabi enquanto uma unidade. Na verdade, poderíamos até dizer que estes diferentes episódios se quer possuem uma razão para estarem ordenados da forma que estão. à exceção do episódio 7, que é continuação direta do 6º, e do episódio 13, que pressupõe que o espectador tenha assistido pelo menos o primeiro e o quarto episódio, você poderia “embaralhar” estes episódios da forma que bem entendesse e o mais provável é que não perderia absolutamente nada com isso.

Agora, isso não quer dizer que o anime não tenha certa unidade. Quando vistos em conjunto, algumas temáticas maiores de fato emergem da série. Uma delas, inclusive, já rendeu um texto aqui: trata-se do conceito de relativismo cultural, do qual já tratei no meu post “Kino no Tabi – Relativismo Cultural: Descritivo, Normativo e Epistemológico“, onde aponto que a atitude quase sempre passiva e de aceitação de Kino para com o país que visita é um bom exemplo de como o relativismo cultural encara as diferentes culturas, buscando antes de tudo entendê-las, ao invés de julgá-las. Outro bom exemplo de uma temática que perpassa o anime pode ser encontrado ao final do primeiro episódio, onde aparece, em inglês, a frase “the world is not beutiful; therefore it is” (algo como “o mundo não é bonito; por isso ele o é”, em tradução livre). Como podem imaginar, esta frase pode ter uma série de interpretações, mas uma que particularmente parece encaixar com o anime seria a interpretação de que a beleza do mundo está embasada em sua feiura. Ao longo da história, vemos diversos países que inicialmente parecem perfeitos, com os cidadãos felizes, vivendo em paz e harmonia, mas rapidamente vamos descobrindo o lado oculto daquele país, os jogos de poder que controlam a população, as opressões, dominações, indo desde coisas como a lobotomia até verdadeiros genocídios. O belo, assim, somente consegue existir enquanto fachada do feio. Mas tem um outro aspecto de Kino no Tabi que eu acredito que dá unidade ao anime, algo mesmo mais fundamental do que estas temáticas gerais.

Kino, protagonista de Kino no Tabi
Kino, protagonista de Kino no Tabi

Para chegar onde quero chegar, eu preciso primeiro falar dos personagens da série, especificamente sobre a Kino. De um modo geral, Kino é uma protagonista bastante “estranha”. Na grande maioria dos casos ela é apenas uma observadora dos eventos que ocorrem naquele país, somente tomando algum tipo de ação quando sua própria vida é posta em risco. Poucos são os momentos em que ela de fato influencia na história e mais raros ainda são os momentos em que suas ações causam transformações profundas. Neste sentido, podemos dizer que ela passa bem longe do que tradicionalmente se pensa da figura do protagonista. Ela é, de fato, a personagem principal, os olhos através dos quais vemos aquele mundo. Mas ela não protagoniza absolutamente nada! Na imensa maioria dos casos ela é uma observadora e em raros outros casos ela não passa de uma coadjuvante na história protagonizada, de fato, por alguém que ela vem a encontrar em qualquer que seja o país que ela esteja visitando. Mesmo no episódio quatro, que é justamente um flashback contando como Kino veio a se tornar uma viajante, ela ainda parece muito mais “levada” pela história ao seu redor do que uma personagem que causa o movimento da história. Mas ao assistir o nono episódio podemos ter uma melhor visão sobre quem (ou melhor dizendo, sobre o que) a Kino é.

Neste episódio, Kino chega a um país cujas histórias contam que recebe livros de todo o mundo. Ao visitar a biblioteca do país, porém, Kino descobre que embora o país receba, de fato, toda sorte de livros, estes são cuidadosamente avaliados e analisados. Se forem considerados seguros, são levados para a biblioteca pública, mas se forem considerados perigosos eles ficam trancafiados numa outra biblioteca, de acesso restrito. Obviamente, alguns no país não concordam com isso. Entre eles está um homem conhecido apenas como “Autor”, que parece ter o delírio de ter escrito um livro com toda a história do mundo, desde seu início até seu fim futuro. Em um dado momento, Kino e o Autor ficam frente a frente, resultando no que é talvez uma das minhas linhas de diálogos favoritas em toda a história da animação japonesa. Diz o autor que cada ser humano nasce acreditando ser o protagonista de sua própria história. Entretanto, a sociedade lhe nega este papel, e é desta contradição fundamental que surge grande parte do tormento humano. Segundo o Autor, a única forma de escapar a esta sina seria se colocando em uma posição onde você não fosse nem o protagonista, nem o coadjuvante. Ou seja: o Autor. Mas se pararmos para pensar, exista uma quarta via. Uma na qual você não é um personagem, seja este o protagonista ou o coadjuvante, mas também não é o autor, que tudo sabe e tudo vê, e é exatamente esta quarta via aquela que Kino representa. Aquele que apenas observa: o leitor.

Kino é o leitor. Ou espectador, nesse caso. Ela é a representação de nós, que lemos, assistimos e ouvimos histórias. Neste sentido, eu diria que este anime é um enorme livro de contos. Cada país é um conto, uma história que Kino vê se desenrolar. Tal como uma boa história, ela nunca chega exatamente no começo de algo, de forma que muitas vezes é necessário alguma forma de flashback ou diálogo expositivo para que entendamos aquele mundo. E novamente como toda boa história, tão logo temos o clímax e a conclusão da trama que se observava, Kino deixa o país, tal como nós deixamos a um livro cujo final acabamos de ler. E, finalmente, também tal como toda boa história, cada conto lido (leia-se, cada país visitado), deixa o espectador pensando em uma série de diferentes questões, mensagens e indagações. Em conjunto, estas histórias tão diferentes terminam por formar essa compilação que é Kino no Tabi, um gigantesco apanhado das mais variadas histórias sobre os mais variados assuntos. Essa talvez seja a grande essência desse anime: uma obra que, afinal, talvez seja justamente sobre o próprio ato de ler, assistir e ouvir histórias. Uma história metalinguística por excelência, tão sutil quanto eficiente.

Como um todo, eu diria que Kino no Tabi é uma obra única. Em primeiro lugar, ele subverte o que se é esperado de uma história convencional, usando de cada elemento, personagem e cena de que dispõe a fim de instigar a reflexão e o pensamento crítico. Justamente por isso o anime nunca fornece respostas. A cada episódio uma vasta gama de questionamentos ficará na cabeça do espectador, mas cabe tão somente a este mesmo espectador decidir qual é a resposta ideal a estas perguntas. Além disso, cada país apresentado é no mínimo fascinante. Embora todos tenham algum grau de exagero, a fim de justamente instigar a reflexão sobre um ou outro aspecto da existência humana, todas estas diferentes culturas e sociedades parecem muito bem amarradas e desenvolvidas. Suas ideologias, formas de ação política, modelos de governo, moral, crenças… Considerando que vemos cada um destes países por vinte minutos ou menos é surpreendente o quanto eles foram bem elaborados. Além disso, mesmo os personagens com quem Kino interage são interessantes, ainda que apareçam por tão pouco tempo. Cada um deles é, de certa forma, um produto de sua própria cultura, mas também possuem seus próprios valores, crenças e formas de encarar o mundo em que estão imersos. Quanto à nossa dupla protagonista, apesar da passividade e falta de mudanças ao longo da série talvez ser algo que possa incomodar alguns, eu achei ambos personagens muito bem delimitados, com personalidades bem definidas e bastante divertidos de se acompanhar.

Agora, é um anime perfeito, que vai agradar a todos? Meio óbvio que não. Em primeiro lugar, o fato de ser episódico talvez já afaste quem simplesmente não gosta deste modelo narrativo. Se você é do tipo que prefere tramas complexas que vão se desenvolvendo ao longo de toda a série, esse anime provavelmente não vai fazer o seu estilo. Além disso, aqueles que dão especial valor a verem a evolução e mudança dos personagens possivelmente irão se decepcionar com a forma como Kino aparentemente termina exatamente como começou (até porque, se prestarmos atenção aos diálogos do primeiro episódio, veremos que o último episódio, na verdade, acontece antes do primeiro, na cronologia da série). Finalmente, se você simplesmente não gosta de histórias mais calmas e introspectivas, é bastante possível que esse anime só irá conseguir lhe dar sono. Mas se você está a fim de ver algo bastante diferente do padrão, com uma temática mais filosófica e uma execussão mais calma, essa obra definitivamente vale a pena ser vista. É um daqueles casos em que efetivamente se consegue ver o quão longe se é possível ir com esta mídia e o quanto animes podem efetivamente serem obras capazes de instigar e provocar ao espectador. Pessoalmente, eu considero Kino no Tabi um dos meus animes favoritos, isso se não meu anime favorito, então se você por algum motivo ainda não assistiu, ficada dada a minha recomendação.

Imagens: Kino no Tabi, Episódio 2 – A Tale of Feeding Off Others -I Want to Live-

Anúncios

Um comentário sobre “Review – Kino no Tabi (Anime)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s