Review – Cardfight!! Vanguard (Anime)

Sem título
Cardfight!! Vanguard

Que a industria da animação japonesa sempre foi fortemente usada como meio de propaganda para algum produto não é nenhuma novidade. Não seria exagero dizer que a imensa maioria dos animes já são lançados tendo em mente possíveis produtos que podem sair deles, como bonequinhos, acessórios, figures, etc. Mas existe uma pequena diferença entre lançar produtos de uma obra já em curso e criar uma obra especificamente para promover um certo produto. Cardfight!! Vanguard, anime produzido pelo estúdio TMS Entertainment e com direção supervisionada de Hatsuki Tsuji, se encaixaria no segundo caso. Indo ao ar em janeiro de 2011, o anime serviria de propaganda para o jogo de cartas de mesmo nome, produzido pela empresa Bushiroad, que seria lançado no mês seguinte. Sem dúvida foi uma enorme aposta. Diferentemente dos desenhos americanos, onde primeiro se fazia o produto e depois se pensava em uma animação para encaixar os mesmos, aqui o produto que desejavam propagandear ainda não existia. Mas diferentemente de outras animações japonesas, nas quais primeiros se deixava a obra ganhar alguma notoriedade para então se lançar algum produto relacionado, aqui já se tinha clara a ideia de que este anime deveria ser uma propaganda para o jogo de cartas. Certamente foi difícil criar um roteiro dentro destas condições. E qual foi o resultado desta aposta? Um sucesso estrondoso.

O anime conta a história de Sendou Aichi, estudante que entra em contato com o jogo de cartas Cardfight!! Vanguard, que vinha se tornando progressivamente popular. Introvertido, o jogo lhe fornece a perfeita oportunidade para começar a interagir com novas pessoas e fazer novas amizades, o que faz com que o jovem sinta cada vez mais desejo de progredir no jogo. Mas estas cartas escondem um poder muito além da sua compreensão, que pode até mesmo trazer a completa destruição deste mundo. Em si, uma sinopse bastante comum para animações do gênero, mas o sucesso do anime certamente é fora do comum. O primeiro arco do anime, “Cardfight Vanguard” teve um total de 65 episódios. O segundo, “Cardfight Vanguard: Asia Circuit” foi ao ar em 2012, praticamente sem qualquer hiato, contando com 39 episódios. O terceiro arco foi intitulado “Cardfight Vanguard: Link Joker”, indo ao ar com 2013 e contando com 59 episódios. Finalmente, o quarto e último arco, “Cardfight Vanguard: Legion Mate”, foi ao ar em 2014, trazendo mais 33 episódios. Um total espantoso de 196 episódios, mais um filme que se passa após os eventos do último episódio, intitulado “Cardfight!! Vanguard: Neon Messia”. Isso sem contar uma série de filmes, anime e mangás spin-offs. Nada mal para uma enorme propaganda, em? (rs). Infelizmente, falar mais do que isso irá exigir spoilers, então já deixo aqui meu aviso para parar a leitura caso se incomode com isto. Num geral, eu considero Cardfight!! Vanguard um anime bastante divertido de se ver e definitivamente recomendo, apesar de saber que o tamanho pode desencorajar muita gente. No mais, spoilers abaixo, sigam por sua conta e risco (rs).

Logo de início eu posso dizer o que mais me chamou a atenção neste anime: o protagonista. Se você já assistiu animes de jogos antes, você já deve ter percebido que protagonistas deste gênero tendem a ser excessivamente bons no que fazem (em contraste com protagonistas de animes de esportes, que tendem a começar com certo talento, mas precisam de muito tempo e dedicação para ficarem realmente bons). Sendou Aichi, porém, é o completo oposto disto. Normalmente, um anime de jogos tem uma espécie de “saco de pancadas”, aquele personagem secundário que serve somente para ser derrotado por algum inimigo. Em Vanguard, este personagem é o próprio protagonista. Isso ajuda a tornar os jogos de cartas, que o anime chama de “fights”, bem mais emocionantes. Afinal, se o próprio protagonista não terá a vitória assegurada… então quem tem?! Isso cria uma tensão na qual, ao longo do anime, o expectador certamente irá se surpreender com muitos dos resultados das fights, um excelente mecanismo para evitar que o anime fique excessivamente previsível ou maçante. Além disso, colocar o protagonista como um iniciante que ainda tem muito a aprender é o que irá permitir que ele tenha um bom desenvolvimento ao longo da série. Como eu disse, na maioria dos animes de jogos temos um protagonista que já está no topo, normalmente parecendo ao expectador uma figura quase inatingível em termos de sagacidade, inteligência, ou habilidade. Em Vanguard nós vemos o protagonista se tornar esta figura, de forma que quando ele finalmente alcançar o título de “melhor do mundo” seremos plenamente capazes de entender e aceitar como isto se deu.

Isso me leva àquilo que eu considero talvez um dos pontos mais fortes do anime: o seu trato com os personagens. Embora eu não possa afirmar que todos são excepcionalmente bem desenvolvidos, eles certamente são bem trabalhados. Suas personalidades são consistentes e bem definidas, sua progressão ao longo da história algo bastante evidente, e chega a ser surpreendente que nenhum deles nunca parece regredir, seja como jogador, seja como pessoa. Manter uma linha continua de progressão é algo relativamente difícil quando se considera obras muito longas, e certamente é um esforço que merece ser reconhecido. Certamente algo que muito ajudou foi o fato do núcleo de personagens principais ser levemente alterado a cada arco. No primeiro, acompanhamos o quarteto Sendou Aichi, Kai Toshiki, Tokura Misaki e Katsuragui Kamui, que competem no campeonato nacional de Vanguard sob o nome de “Team Quadrifoglio”. No segundo, porém, Kai é deixado de lado, com o enfoque passando para os outros três, que agora competem no campeonato continental. No terceio arco Kamui também é posto de lado, e três personagens são adicionados ao núcleo principal, sendo eles Kourin, Shingo e Naoki. Finalmente, no quarto arco o próprio Aichi é deixado de lado, com o protagonismo sendo dado ao Kai. Estas mudanças constantes permitiram que os personagens fossem desenvolvidos de forma satisfatória sem que se chegasse a um ponto onde fosse preciso criar um conflito desnecessário tão somente para que se pudesse continuar o desenvolvimento deles. Infelizmente, exceto pelos vilões praticamente nenhum secundário recebe lá muito desenvolvimento, limitando-se a manter uma mesma personalidade por toda a série (o que não é necessariamente ruim, ao menos não são personagens inconsistentes, o que já é bom em si mesmo).

Sendou Aichi, protagonista do anime.
Sendou Aichi, protagonista do anime.

Infelizmente, eu não posso ser assim tão elogioso com a história. Por um lado, fica evidente que houve um planejamento prévio desta. O primeiro arco, de 65 episódios, foi muito bem executado e amarrado, com um final satisfatório, mas que propositadamente deixava elementos em aberto para o segundo arco que estava por vir. E, num geral, essa fórmula se manteve. Cada arco é relativamente bem fechado em si mesmo, mas ao mesmo tempo se liga muito bem aos arcos anteriores. Por exemplo, se percebermos bem temos apenas um único inimigo, de fato, do começo ao fim do anime, que é o Void, entidade responsável por absolutamente todos os problemas na série. Infelizmente, o anime deixa diversas pontas soltas no que se refere a explicações para certas coisas, o que pode irritar algumas pessoas. Por exemplo, temos como fato dado que a Terra e o Planeta Cray (onde habitam as “Units”, que são os personagens que aparecem nas cartas do jogo) existem em sintonia, com os eventos em um mundo afetando diretamente ao outro. Por quê? Porque sim. E se no começo do anime você consegue perfeitamente aceitar estes “porque sim” como apenas elementos constitutivos daquele universo, a cada temporada a coisa vai ficando mais e mais absurda, com o ápice chegando na quarta temporada. Agora, na terceira temporada nós temos a chegada dos Link Jokers, o exército e encarnação do Void, que começa a possuir as pessoas da Terra. Ao final desta temporada, Aichi derrota o Link Joker, mas a um preço: ele recebe em seu corpo a Semente, que contém o poder necessário para reviver o Link Joker. Na quarta temporada vemos como ele resolveu esse problema: ele fez surgir um castelo na lua para se selar neleWhat! The! Hell?! Como? Por quê? Quando? De alguma forma devemos engolir que tudo isso é graças ao poder do Link Joker que residia em seu corpo, mas a falta de explicações mais detalhadas é um problema sério no anime a cada novo arco.

Agora, apesar disso, estranhamente eu nunca tive aquela sensação de que estavam apenas arrastando o anime só por arrastar. Na verdade, a falta de explicações e o fato de alguns arcos parecerem um pouco apressados passa justamente a imagem de que a equipe produtora talvez tenha tido de trabalhar com menos tempo do que gostaria, e se for o caso eu com certeza não ficaria surpreso. Nunca me pareceu que estavam fazendo o anime só por fazer, inventando qualquer coisa só para manter a “propaganda” no ar, tanto que aparentemente souberam a hora de parar e deixar outra série tomar o lugar da original. Não digo que isso redima a confusão que essa falta de explicações causa, mas ao menos não parece que foi má vontade da parte dos criadores. E isto dito, se você consegue deixar de lado esses detalhes e aceitar este tipo de coisa como parte de como funciona aquele universo, em termos de história puramente o anime consegue ser bem amarrado. Pessoalmente, eu não consigo me lembrar de nenhuma ponta solta no que se refere à trama em si, com praticamente todas as críticas que eu poderia fazer sendo direcionadas a poderes ou habilidades que parecem surgir do nada e desaparecer tão do nada quanto. E isso muito mais a partir do terceiro arco do que nos dois primeiros, aliás. Além disso, o andar da história também é bastante agradável, com exceção indo para o segundo arco, onde a história teve um começo excessivamente arrastado e um final demasiado corrido. Mas aparentemente aprenderam a lição, já que o terceiro e quarto arco voltam a ter um ritmo mais uniforme.

Já em termos temáticos, muito me surpreendeu perceber que, ao menos na minha opinião, o anime nunca pareceu se perder. Com quase 200 episódios seria de se esperar que o anime passasse por uma série de diferentes temáticas, mas num geral eu diria que como um todo duas foram trabalhadas do começo ao fim. A primeira delas é a do crescimento, representada pela obtenção de poder. Ao longo do anime, diversos personagens, o protagonista incluso, conseguem alguma forma de poder sobrenatural que lhes deixa excepcionalmente bons no jogo, mas que ao mesmo tempo parece alterar suas personalidade para lhes dar um excesso de confiança que se traduz em arrogância e desprezo pelos demais. Como seria de se esperar, é uma história na qual o jogo de cartas é um espelho para o jogador, cujo crescimento enquanto pessoa se atrela de forma evidente ao seu crescimento enquanto jogador. Ao enfatizar a artificialidade das habilidades daqueles que se entregam algum tipo de “saída fácil”, bem como o lado negativo deste ganho de poder que não se pode realmente controlar, o anime acaba por apontar a importância de buscar um poder próprio, crescer e amadurecer por si mesmo, sem depender de interferências externas que podem se provar muito mais maléficas do que benéficas.

Mas um segundo tema é, ao menos para mim, ainda mais interessante: o tema da aceitação de um como um todo. Durante a primeira temporada, todo o conflito da parte final do anime se resolve em torno de quem o Aichi acredita que é. De um lado, ele de fato ansiou por poder de forma desenfreada, chegando a um ponto no qual não se importava em pisar nas pessoas para o conseguir. Mas de outro, ao voltar a si ele imediatamente rejeitou essa ideia, não aceitando um poder que causasse dor aos outros. Mas se tradicionalmente esperaríamos o abandono ou a superação deste seu lado negativo, Aichi conclui que ambos os extremos representam a ele. Não se trata de ser um ou outro, mas sim de efetivamente aceitar-se enquanto uma união de ambos os elementos de si próprio, os bons e os maus. Essa temática retornará com excepcional força ao final da série, quando temos o embate final. Normalmente, se esperaria que o Link Joker, a encarnação do Void que tentou invadir e dominar o Planeta Cray, fosse completamente aniquilado, mas não é o que acontece. Ao invés disso, o invasor é assimilado, aceito por aqueles que tentou destruir. Considerando o quão comum são histórias que favorecem uma dicotomia clara entre o bem a ser preservado e o mal a ser destruído, ver um anime claramente voltado para todas as idades colocar um pouco de relativização nisso foi uma surpresa bastante agradável, pessoalmente falando.

Num geral, eu diria que Cardfight!! Vanguard entrega muito bem aquilo que promete. Uma história acima de tudo divertida, sobre um grupo de personagens carismáticos e bem trabalhados, tudo isso com uma animação bastante agradável e uma trilha sonora muito bem utilizada. Não é muito mais, mas não precisa ser. Infelizmente, sei que o tamanho da série pode desencorajar muita gente a ver, mas eu diria assim: se você gosta de animes de jogos e está sem nada pra fazer no momento, ou se simplesmente gosta da proposta de ver um protagonista inicialmente fraco ir se desenvolvendo com o tempo, deem uma chance para o primeiro arco deste anime, de longe a melhor parte da série e que se sai muito bem enquanto obra isolada. Se gostarem e quiserem ver mais destes personagens, ai é só seguir para os demais arcos. Emocionante, divertido, e um meio gostoso de matar o tempo, é a melhor forma que eu consigo encontrar para descrever este anime.

Imagens: Cardfight!! Vanguard, Episódio 1 – Vanguard do Destino!

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Um comentário sobre “Review – Cardfight!! Vanguard (Anime)

  1. Nice Review Diego -u- Acho que posso dizer que concordo com tudo.

    Como pra mim, a maior graça de qualquer anime são os personagens, Vanguard realmente é um acerto.

    Eu me desanimei em algumas partes, é verdade… Mas foi mais por falta de tempo do que por outra coisa.

    E lendo assim me bateu uma saudade do Aichi… Eu gostava muito dele na Season 1. Da metade da 3 em diante, teve alguns lances que não me agradaram…

    Curtido por 1 pessoa

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