Kino no Tabi – Relativismo Cultural: Descritivo, Normativo e Epistemológico

Kino: uma viajante cujo único propósito é a própria viagem
Kino: uma viajante cujo único propósito é a própria viagem

Exibido nas televisões japonesas há já mais de uma década, no longínquo ano de 2003 (-q), Kino no Tabi foi inspirado na série de Light Novels de mesmo nome, de autoria de Keiichi Sigsawa. Com uma premissa bastante simples, o anime episódico segue as aventuras de Kino e sua motocicleta, Hermes, conforme viajam pelo mundo fantástico em que vivem. Com o objetivo de conhecer o maior número possível de diferentes países, Kino segue a regra auto-imposta de sempre passar exatamente três dias no país em que chega, acreditando ser este tempo suficiente para aprender o que for de mais importante sobre aquele país. Assim, ao longo da história vemos Kino conhecer e interagir com uma vasta gama de povos, cada qual com seus próprios costumes, tradições, e cultura. Um anime criado para instigar a reflexão no expectador, Kino no Tabi nos mostra o quão diversificado e diferente o mundo pode ser.

Antes de dar seguimento ao post, um aviso: haverá spoilers. Apesar de eu sempre tentar falar sobre o anime em linhas gerais, a fim de tratar sobre os assuntos que o anime levanta ao invés de sobre este ou aquele acontecimento no roteiro, para este post seria impossível não usar de exemplos do anime. Assim, se você planeja assistir ao anime e é do tipo de pessoa que não gosta de spoilers, é recomendado que pare a leitura por aqui. Se, por outro lado, você não poderia se importar menos com spoilers, tenha uma boa leitura. Feito o aviso, voltemos agora com a nossa programação normal o/

Sobre o que é Kino no Tabi? Como eu disse mais acima, a história é sobre a viagem empreendida por Kino. Indo para além da trama, porém, podemos dizer que Kino no Tabi é sobre o encontro com o “outro”. Kino, nossa protagonista viajante, é sempre uma estrangeira. Seu status como externa ao país que visita é constantemente relembrado, especialmente pelas pessoas do dito país, que sempre se referem a ela como “tabibito-san” (viajante). Assim, apesar de sempre tratada com respeito, certamente não se pode dizer que ela seja tratada como igual. Deixemos, porém, estas considerações de lado por um momento. Voltarei a tratar da personagem da Kino em momento mais oportuno, então por hora ampliemos o espectro, tratando não mais de uma personagem individual, mas sim de todo o mundo de Kino no Tabi.

Para compreender melhor o mundo de Kino no Tabi, convém que tenhamos explicitas algumas noções de antropologia. Em específico, falemos um pouco sobre o conceito de Relativismo Cultural. Termo cunhado por Alain Locke, porém com os preceitos tendo sido definidos algum tempo antes, por Franz Boas, podemos dizer que, em linhas gerais (e simplificando de forma bastante grosseira), o Relativismo Cultural parte do pressuposto de que o mundo contém uma vastidão de diferentes culturas, cada qual com seus próprios costumes, tradições, sistemas de crenças, etc., para chegar à conclusão de que um dado elemento cultural somente pode ser compreendido efetivamente quando imerso na cultura que o produziu. É preciso dizer, porém, que as ideias de Boas não surgiram do nada. Em um artigo de 1986, intitulado “Cultural Relativism and the Future of Anthropology” (bastante crítico ao Relativismo Cultural, inclusive), Melford Spiro divide o Relativismo cultural em três espécies distintas, o Relativismo Descritivo, o Relativismo Normativo e o Relativismo Epistemológico, colocando Boas e seus alunos no campo do Relativismo Normativo, sendo este, em grande parte, uma reação ao Relativismo Descritivo. Já aviso aqui que este texto será a base principal desta postagem, basicamente pois ele apresenta um bom panorama no que se refere ao nascimento, amadurecimento e avanço do Relativismo Cultural como um todo, apesar de seu tom reprobatório em muitos momento.

Certo, certo, certo. Muitos nomes, muitos conceitos, pouca explicação, é verdade. Vamos com um pouco mais de calma e começar do começo: com o Relativismo Descritivo. Segundo Spiro, este surgiu como uma constatação: as culturas deste mundo são diferentes. Ponto. Esta diferença, porém, teria um motivo. Surgido em um momento em que o evolucionismo social ainda estava em alta, o Relativismo Descritivo tinha como objetivo apontar os diferentes “estágios” da evolução humana, que deveriam ir desde os “primitivos” caçadores e coletores nômades, passando pelas “bárbaras” tribos assentadas, até, obviamente, os “civilizados” europeus (ufa, haja aspas nessa frase…). A partir dessa premissa, e observando os povos que então existiam, os antropólogos da época esperavam ser capazes de traçar uma linha contínua da evolução da civilização (ou algo do tipo…).

Como mencionei acima, o Relativismo Normativo de Boas viria como uma reação a essas noções. Para ele, não havia uma linha lógica para a evolução humana, que invariavelmente levaria dos nômades até o burguês europeu, mas sim uma vastidão de culturas, cada qual com suas particularidades, porém todas iguais (no sentido de não serem mais nem menos evoluídas do que outras culturas pelo mundo). Desta forma, para entender um certo elemento de uma culturas (digamos, a crença em uma determinada divindade), é preciso entender o papel que aquele elemento desempenha naquela cultura (digamos, a importância de uma divindade da colheita em uma sociedade mantida principalmente pela agricultura). Seu objetivo, assim, era o de evitar o chamado etnocentrismo, a crença de que a nossa cultura é a melhor e de que devemos julgar as demais culturas com base unicamente nos nossos valores e ideais.

O mundo de Kino no Tabi é vasto, contendo uma larga gama de diferentes culturas, com diferentes tradições e costumes
O mundo de Kino no Tabi é vasto, contendo uma larga gama de diferentes culturas, com diferentes tradições e costumes

Tudo isso é bem interessante, bem polêmico também, mas o leitor já deve estar se perguntando o que tem a ver com Kino no Tabi. Bom, olhando o mundo no qual Kino viaja podemos ver uma série de elementos que remetem especialmente ao Relativismo Normativo. Em primeiro lugar, o mundo de Kino contém uma vastidão de diferentes povos. Cada povo vive de forma autônoma em seu próprio “país”, uma espécie de grande cidade murada, desenvolvendo seus próprios costumes e tradições. Para além disso, o anime aceita em grande parte a noção de determinismo cultural, tão cara ao Relativismo Cultural como um todo, a qual afirma que a cultura na qual uma pessoa nasce determina seus valores, crenças, comportamento, etc. Isso se torna especialmente notável quando percebemos que muito raramente um personagem é nomeado: com os poucos casos em que uma personagem recebe um nome sendo, em sua maioria, justamente aqueles de personagens que desafiam os valores e tradições estabelecidos, a enorme maioria das personagens parecem fazer parte de um “todo” maior, perfeitamente assimiladas em sua cultura ao ponto de serem, em grande parte, apenas manifestações exemplares dos valores e crenças daquele povo.

Um dos maiores exemplos disto talvez seja aquele encontrado no OVA lançado algum tempo após a série original, onde toda uma nação é inteiramente dedicada a construir uma enorme torre, esperando o momento em que ela caia apenas para começar novamente. O motivo? Ninguém sabe: apenas seguem os costumes. Curiosamente, o único personagem neste episódio que desafia a norma, não desejando trabalhar na torre, pergunta à Kino se aquele povo não era louco, no que a viajante responde que não sabe dizer quem era o louco: se toda a população ou se aquele que ia contra os costumes de toda uma população.

O que torna possível dizermos que o anime segue os preceitos do Relativismo Normativo, porém, não é apenas a existência de diferentes culturas e do determinismo cultural (ambos elementos igualmente caros ao Relativismo Descritivo), mas a forma como estas diferentes culturas nos são apresentadas. Em sua maioria, cada episódio começa com Kino e Hermes chegando a um país. Inicialmente, o país parece uma terra perfeita, mas logo que aprendemos os detalhes daquele país ficam evidentes vários costumes bastante estranhos. Conforme Kino anda pelo país e conversa com as pessoas neste, porém, os costumes que poderiam parecer pura estupidez logo se mostram condizentes com certos eventos históricos, ideologias ou crenças do país que os possui.

Um excelente exemplo disto é o país natal da própria Kino. No episódio onde este é mostrado, aprendemos que os habitantes, ao chegar à idade de 12 anos, fazem uma cirurgia cerebral para “remover a criança que há em você” (ou coisa que o valha rsrsrs). Como resultado, as pessoas se tornam capazes de sorrirem felizes o tempo todo. Isto pode parecer uma medida drástica, até que se compreenda como o trabalho é visto naquela sociedade. Visto como algo necessário, porém que traz infelicidade às pessoas (que podem, afinal, acabar obrigadas a seguir carreiras que detestam), a cirurgia surge como uma solução a isto, mantendo as pessoas felizes. Obviamente nós poderíamos levantar aqui uma dezena de outras questões, desde pontes com ditaduras em geral até o próprio conceito de felicidade, mas uma coisa é o mais relevante: quando entendido não em sua unidade, mas como parte de toda uma cultura, este estranho costume parece um pouco menos estranho. Claro, podemos discordar a vontade de tal prática, mas não podemos negar que ela tem um motivo e uma função naquela sociedade. E que, acima de tudo, ela serve aos propósitos daquela sociedade.

Ao longo da série são feitos bem poucos juízos de moral a respeito deste ou daquele costume, ao menos pela Kino. Um bom exemplo disto ocorre quando ela visita a Terra Triste, que tem como tradição transmitir às gerações futuras, por meio da poesia, a tristeza. Quando Kino estava para deixar o país, o funcionário responsável pela saída lhe pergunta o que ela achou da estadia, acrescentando ainda que ele imaginava que não tivesse sido uma experiencia lá muito agradável. A própria Kino, porém, não elogia nem critica o país, limitando-se a aceitar que aquele é o modo como aquela cultura funciona. Outro evento, porém, é ainda mais significativo. Em um dado episódio, Kino conversa com um assassino recuperado. Profundamente arrependido, ele pergunta à esposa de sua vítima o que poderia fazer para passar o resto de seus dias pagando por seu erro. Como resposta, a esposa pede que ele fosse seu guarda costas na viagem que começaria, apenas para, ao começar a viagem e tendo deixado o país, matá-lo. Logo que mata o homem, a mulher vê Kino, que a havia seguido. A mulher então diz que Kino poderia tê-la impedido, perguntando por que não o fez. Como resposta, Kino simplesmente diz que não é Deus.

Curioso notar que mesmo quando algum tipo de juízo de valores é feito pela Kino, ele o é de forma bastante sutil e vaga. Um exemplo seria o país visto no episódio 12. Neste, Kino chega a uma terra que se vangloria de ter acabado com a guerra que travava com a nação vizinha. Paradoxalmente, porém, as pessoas insistem que no dia seguinte haverá uma guerra. Ao observar mais a fundo, Kino descobre que a guerra foi “substituída” por um tipo bastante sangrento de “jogo”: uma vez ao ano, times dos dois países em guerra causam o massacre de uma população que vive entre os dois países, com o time que causar mais mortes sendo o vencedor. Apesar de um costume bastante brutal, logo vemos que deu bastante certo para os dois países, cujo número de baixas em guerra caiu para zero desde que o sistema foi implantado, poupando assim as vidas de incontáveis soldados de ambas as nações. Se isto é aceitável ou não, mesmo Kino não sabe dizer. Partindo daquele país, ela apenas diz que não sabe quem estava certo: se aqueles que faziam guerra à moda antiga, ou se aqueles que defendem esta nova forma de “guerra”.

Em sua viagem, Kino sempre procura aprender o máximo que pode sobre o país que visita
Em sua viagem, Kino sempre procura aprender o máximo que pode sobre o país que visita

Pois bem, mas segundo Spiro haveriam três tipos de relativismos. Kino no Tabi certamente segue os preceitos do Relativismo Normativo, indo mesmo contra os preceitos evolucionistas do Relativismo Descritivo, mas o que dizer do Relativismo Epistemológico? Bom… Para responder isso é melhor falar brevemente sobre o mesmo um pouco.

Epistemologia é um ramo da filosofia que estuda a natureza do próprio conhecimento (em suma, tenta responder à pergunta “como os seres humanos conhecem o mundo?”). Relativismo Epistemológico, assim, seria a relativização do nosso conhecimento. Ainda usando dos dizeres de Spiro, este coloca que o Relativismo Epistemológico se baseia na noção de que as diferenças culturais que podem existir são infinitas, usando desta afirmação para concluir que é simplesmente impossível que alguém de uma cultura realmente entenda, de maneira objetiva, outra cultura. Desta forma, os relativistas epistemológicos procuram comparar a antropologia com a crítica literária, afirmando que cada antropólogo pode fazer sua própria “leitura” de uma dada cultura, sem nunca poder se dizer que há um conhecimento objetivo e científico desta (exatamente o oposto dos ideais do Relativismo Normativo, que acreditava ser possível o conhecimento objetivo das culturas, além de ser possível a realização de grandes teorias científicas explicativas do comportamento humano).

Tendo entendido isso, agora é um bom momento para voltarmos à personagem da Kino. Como foi dito, ela é uma constante estrangeira no país que visita, encontrando sempre com uma cultura “nova” e “diferente”. Como também já foi dito, ela raramente faz qualquer juízo de valores, procurando sempre ouvir o que os habitantes do local tem a dizer sobre seus próprios costumes. Finalmente, porém, ela acredita ser possível compreender os povos que visita. Apesar da própria Kino quase nunca pensar em grandes generalizações, salvo poucos casos, ela acredita que é possível a um estrangeiro entender pelo menos o que for de mais significativo em uma cultura, desde que passando algum tempo entre os praticantes daquela cultura (daí sua regra de ficar sempre três dias no país que visita), conversando com os mesmos e procurando entender o que um dado comportamento significa para eles.

Como um todo, Kino no Tabi é um anime bastante reflexivo. Seu objetivo inicial é claramente o de chocar ao espectador, mostrando os mais variados costumes e tradições, muitos dos quais desafiam valores morais que o próprio espectador possui. Porém, ao mesmo tempo, ele relativiza essa sensação de estranheza inicial. Com o andar do episódio, cada vez mais o espectador se pega notando que mesmo os mais alienígenas dos costumes tem uma origem social, histórica ou ideológica, o que certamente instiga-nos a pensar em nossa própria cultura e nos fazendo pensar em quantas vezes não fomos nós iguais àquele povo do OVA, apenas seguindo as tradições sem parar para pensar em sua origem ou significado real.

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Kino no Tabi. Episódio 1, “Terra da Dor Aparente – I see You –”

2 – Kino no Tabi. Episódio 3, “Terra das Profecias – We Know The Future –”

3 – Kino no Tabi. Episódio 12, “Uma Terra Pacífica – Mother’s Love –”

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2 comentários sobre “Kino no Tabi – Relativismo Cultural: Descritivo, Normativo e Epistemológico

  1. Muito bom!

    Uma coisa só que fiquei pensando: concordo que há sempre um relativismo, mas a decisão de Kino de sair de seu país e deixar de seguir a tradição local não mostra um não-relativismo também? Quer dizer, ela não aceita aquela cultura por não concordar com seus valores. De certa forma, isso faz dela um indivíduo e não mais um simples membro de uma comunidade. Seria o velho dilema: “liberdade x segurança”? Afinal, ela ganha a liberdade de viajar pelo mundo, mas abdica da segurança de viver em conformidade com a sociedade.

    Um detalhe: no parágrafo acima da última imagem, está assim: “uma vez ao ano, times dos dois países em gerra causam o massacre de uma população que vive entre os dois países, com o time que causar mais mortes sendo o vencedor”. Guerra está escrito errado aí.

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    • Então, sobre a Kino… Eu acho que isso pode muito bem representar o embate de culturas. Até a chegada do Kino original, a Kino era perfeitamente conformada com as normas sociais de sua cultura, mas quando entra em seu país uma cultura externa – representada pelo Kino – a sua própria perspectiva muda. Ou seja, talvez pudéssemos dizer que, para o anime, diante de um choque entre culturas o determinismo cultural se torna mais fraco. Mas é também possível apenas dizer que, embora o determinismo cultural seja a norma, ainda há indivíduos que servem de exceção. Afinal, no episódio da mulher que constrói um avião ela o faz indo contra as convenções da sua cultura (mesmo que no final a sua invenção tenha aplicação prática dentro da sua sociedade). Então… é, acho que qualquer uma dessas duas interpretações explicaria bem a Kino xD

      E obrigado por apontar o erro, vou corrigir o quanto antes =)

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