Review – Tom Sawyer (Mangá)

Tom Sawyer
Tom Sawyer

Mangá lançado em 2007, de autoria e arte de Shin Takahashi e inspirado no clássico de Mark Twain, Tom Sawyer foi recentemente lançado no Brasil pela editora JBC, tendo chegado às bancas em outubro de 2014. Uma história que se apresenta como uma espécie de ode à infância, a trama começa quando Haru, uma jovem estudante universitária, retorna à cidadezinha onde cresceu a fim de presidir o enterro da mãe. Após o enterro, a jovem decide passar algum tempo na casa onde a mãe morava, sem ânimo para voltar à cidade grande. No entanto, vista como alguém “de fora” pela comunidade local, a garota sofre forte preconceito e ostracismo, mal se relacionando com qualquer um da cidade. Isto até que ela encontra Taro, um garoto cansado da forma como os adultos tratam as crianças. Junto de Taro e seus amigos, Haru redescobrirá o valor da infância e da inocência, ao mesmo tempo em que vai amadurecendo e crescendo, naquele verão em que começa e termina os seus “tempos de moleque”, como a própria história enuncia.

Agora, fica aqui o recado de sempre: haverá spoilers. O mangá tem apenas um volume e, como disse, foi publicado no Brasil bem recentemente, de forma que ainda deve estar nas bancas. Se você é do tipo que não gosta de spoilers e prefere ler a obra sem nada além de uma sinopse antes, então pare a leitura por aqui e vá dar uma conferida no mangá. Uma ótima trama, com ótimos personagens, é certamente uma obra que vale a pena ser lida. Agora, se você já leu o mangá, não pretende ler ou não se incomoda com spoilers, fique a vontade para continuar a leitura. E àqueles que o fizerem, espero que gostem o/

Quando comecei a ler este mangá, eu honestamente não sabia o que pensar sobre ele. Logo de início, a história tratava de temáticas bastante séries e, até certo ponto, depressivas. A perda de um ente querido. A solidão. O ostracismo. A religiosidade que se transforma em severidade e preconceito. Apesar disso, estes diversos elementos estavam, muitas vezes, mascarados por um ar de brincadeira, de zombaria da situação. Senti isso especialmente em uma cena em particular. Após o enterro de sua mãe e de sentir na pelo o ostracismo dos cidadãos daquela cidadezinha, Haru se reencontra, na casa da mãe, com uma gata com quem brincava quando menor. Com a própria Haru atestando que, naquele momento, a gata era a única que ainda a conhecia, naquele vila, a cena em si aparenta ser feita para ser tocante. No quadro seguinte, assim, nos é dada a notícia da morte da gata. Não apenas a morte de um animal querido, mas também o retorno ao estado de solidão e isolamento, isto é o que esta cena representa. Entretanto, a forma como é passada a morte chega a ser a de uma “punchline” em uma piada . Um quadrinho que ocupa um terço da página, com as personagens desenhadas em estilo “chibi“, a notícia da morte da gata é nos dada apenas com as palavras “gata / morreu”.

Por conta de várias situações semelhantes, eu fiquei confuso. A temática é profunda, mas a execução certamente é leve. Afinal, esse mangá se leva ou não a sério? Mas… conforme eu ia lendo e vendo o desenrolar da trama, eu percebi que essa pergunta estava errada. Se levar a sério ou ser “apenas brincadeira”, essa oposição simplesmente não se encaixa nessa obra. Perguntar sobre ela ou tentar encaixar esse mangá em uma ou outra “caixinha” simplesmente vai contra tudo aquilo que o próprio mangá tenta passar. Sendo uma obra que em si é uma ode à infância e à brincadeira, Tom Sawyer nos prova como uma história é capaz de ser levada a sério justamente por não fazer questão de o ser. Tal como uma criança brincando de faz de conta, até que medida uma pessoa irá levar aquilo a sério e até que ponto descartará como pura “brincadeira de criança” depende inteiramente de cada um.

Conforme a história vai se desenvolvendo, acompanhamos a trama pelo olhar de duas “crianças”. Em primeiro lugar, temos Taro, um garoto cuja única indicação de idade que o mangá nos dá é o fato de que ele ainda nem havia engrossado a voz. Originalmente de fora da cidadezinha, Taro sempre passa o verão nela, morando na casa da tia enquanto os pais estão a trabalho fora do país. Impressionável, travesso, mas de bom coração possivelmente seriam adjetivos que bem descreveriam o personagem. Já nossa outra “criança” é nossa protagonista, Haru. Estudante de artes universitária, a garota sempre sofreu enorme preconceito na cidadezinha, sobretudo por conta de sua mãe, uma mãe solteira e independente, mas que muitos diziam ser demasiado irresponsável. E nesse último ponto, Haru se assemelha bastante à mãe, de modo geral sendo retratada como bastante irresponsável e ingênua. Justamente por essas características, porém, a personagem se torna bastante próxima de Taro e seu grupo de amigos, participando em suas brincadeiras e aventuras (e muitas vezes sendo levada pela brincadeira das crianças sem nem se dar conta). Justamente por isso, por termos estes protagonistas, a meu ver, a história consegue caminhar tão bem entre a seriedade e a leveza. Tratando tudo pelo olhar mais ingênuo e descompromissado, mesmo as coisas mais extremas podem ser floreadas, ao mesmo tempo que mesmo as mais rotineiras podem ser exageradas. Assim, o fugir de casa é tratado como uma brincadeira de faz-de-conta, enquanto que a obsessão da tia de Taro para com comidas e remédios saudáveis é retratada como o pior dos castigos.

Haru e Taro.
Haru e Taro.

Isto dito, esta não é uma história puramente sobre as peraltices de algumas crianças. Não, esta é, sobretudo, uma história sobre crescer. Uma história sobre descobrir a si mesmo, suas vontades e desejos, sonhos e expectativas. Mas também sobre entender suas responsabilidades e sobre como suas ações podem afetar aos outros. Crescer, aqui, diz respeito a não fugir, seja de suas esperanças, seja de suas responsabilidades. É por esse processo que passa Haru, conforme vai deixando de lado sua atitude mais egocêntrica (elemento típico da infância) e assumindo responsabilidades (marco da vida adulta). Vemos isso na parte em que ela e as crianças estão na ilha deserta: podendo voltar sozinha para a cidadezinha, deixando as crianças para trás, ela decide retornar à ilha para garantir a segurança dos menores. Ou, ainda, no final da história. No começo da trama, Haru e Taro presenciam um assassinato. Assustados, ambos fazem um juramento de nunca contar o que viram a ninguém, temendo represália dos criminosos. Quando Haru acredita que Taro está em perigo, porém, ela quebra esse juramento, confessando o que viu e implorando para que ajudassem ao garoto. Tendo isso em mente, o fato da trama se passar no verão, metonímia do fim da infância por excelência (como havia exposto em um texto anterior), possivelmente não é coincidência.

Mas a história tem um outro lado. É, sim, sobre crescer, sobre deixar a infância para trás. Mas é, também, sobre não esquecer desse período da vida. Sobre não esquecer a pessoa que você um dia foi. Existe uma frase relativamente famosa, uma pequena provocação, na verdade, que eu gosto bastante: “a criança que você foi um dia teria orgulho do adulto que você é hoje?” Tom Sawyer é o tipo de obra que nos leva a pensar sobre isso. A pensar sobre nossa própria infância. Sobre nossas brincadeiras entre amigos. Sobre uma visão mais inocente e irresponsável, mesmo idealizada, do mundo. E, sobretudo, sobre os caminhos que escolhemos e porquê os escolhemos. Podemos ver isso claramente na Haru. Tendo deixado a cidade na juventude por não aguentar mais viver em meio ao preconceito dos cidadãos e ao descaso da mãe, ela entra em uma faculdade para cursar artes. Porém, ela deixa o curso, incerta se isso era mesmo o que desejava, passando a viver aparentemente de pequenos bicos. Seu retorno à cidade, porém, muda isso. Voltando a desenhar pela primeira vez em tempos, o passar por essa “segunda infância” e o deixar a cidade apenas quando realmente sabia o que queria fazer são elementos que levam a jovem por um novo caminho. Não nos é mostrado esse novo caminho, mas ao final ela parece certamente bem mais feliz do que quando chegara à cidade. Ao não tentar fugir, ao não tentar esquecer o que passou, a personagem foi capaz de seguir em frente da forma que lhe era mais apropriada.

Justamente por isso eu diria que esta não é uma obra para crianças. Não que seja uma obra com temáticas demasiado adultas, ou recheadas de violência ou qualquer coisa do tipo. Não, em fato é exatamente o contrário. Mas é uma história que, sobretudo, provoca ao leitor. Uma história que pretende dar uma sensação de nostalgia, ao mesmo tempo em que faz o leitor pensar no quanto ele já não havia esquecido. Esquecido como é brincar, inconsequente e inocentemente. Esquecido o quanto mesmo as coisas mais simples poderiam parecer fantásticas. Ou mesmo como as mais razoáveis poderiam parecer duras ou injustas. Em suma: esquecido de como era ver o mundo pelos olhos de uma criança. Longe de dizer que a infância deve ser abandonada, a história encerra em uma nota que propõe a contínua rememoração de uma fase definidora de nossas vidas. Deve ser superada? É, sim. Mas esquecida, abandonada e renegada? Isso, de forma alguma.

Imagens (na ordem em que aparecem)

Tom Sawyer (Site da Editora JBC)

Tom Sawyer, de Shin Takahashi, pela JBC

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