Review – Hourou Musuko (Mangá)

Hourou Musuko Capas dos volumes 1, 2 e 3
Hourou Musuko
Capas dos volumes 1, 2 e 3

Lançado em dezembro de 2002 e finalizado em agosto de 2013, Hourou Musuko, mangá de autoria de Takako Shimura e publicado originalmente pela revista seinen Comic Beam, foi certamente uma obra bem sucedida. Em seus pouco mais de dez anos de publicação, a obra não apenas atraiu um bom público, com mais de um milhão de cópias do mangá estando em circulação em 2013, como ainda foi um bom sucesso de críticas, sendo nominada para o Japan Media Arts Festival de 2006, bem como para a lista de “Melhor Graphic Novel para Adolescentes” da Young Adult Library Services Association, em 2012. E, pessoalmente, posso dizer que toda essa atenção é devidamente merecida. Tendo lido os 15 volumes do mangá, eu posso dizer que Hourou Musuko é uma obra única, e isso em mais de um aspecto. Seus personagens, sua narrativa, suas temáticas, não seria exagero meu dizer que é difícil encontrar paralelo para esta obra. Obviamente, ela não é isenta de alguns defeitos, mas eu sinceramente acredito que as qualidades em muito os superam.

Sobre o que é a obra, então? Bom… Hourou Musuko é um slice of life que segue a história de duas crianças transexuais, Shuuichi Nitori e Yoshino Takatsuki, sendo que ao longo da trama vamos acompanhando a estes personagens conforme eles atravessam o segundo ciclo do enino fundamental e todo o ensino médio. Percorrendo quase dez anos da vida destes personagens, a história mostra como seus personagens lidam não apenas com a própria transexualidade, como também com questões como identidade de gênero, puberdade, sexualidade, conflitos familiares, bullying, e outros tantos temas que raramente encontramos em uma mesma história, ao menos com o mesmo grau de detalhamento. Sim, pois este é talvez o principal mérito de Hourou Musuko: é uma obra que soube tratar destes temas com o devido respeito, e também com a devida profundidade. E isso sem abdicar de forma alguma do trabalho em cima de seus personagens, sendo o cast do manga alguns dos personagens mais realistas que eu já vi. Uma boa mescla de comédia e drama, com temáticas provocativas e um ótimo grupo de personagens principais e secundários, Hourou Musuko é definitivamente uma obra que vale a pena ser lida. Falar mais do que isso, porém, irá exigir entrar em spoilers, então fiquem avisados caso decidam continuar a leitura.

Capa dos volumes 4, 5 e 6
Capa dos volumes 4, 5 e 6

Começando então a review, eu vou iniciar falando do que foi, para mim, o único real defeito da obra. Isso porque esse defeito aparece justamente no começo do mangá, ocupando praticamente todo o primeiro volume: a sua estrutura narrativa. No começo do mangá, mais especificamente ao longo de todo o primeiro volume, é muito difícil diferenciar claramente entre eventos do presente e flashbacks. Para piorar, muitas vezes os personagens tem conversas sobre assuntos que eles não deveriam ter como saber, e que só é melhor explicado como eles sabem em um flashback posterior (um dos exemplos é quando Takatsuki, que acaba de conhecer Niroti, sabe que sua irmã, Shuuichi Maho, teve um acidente de bicicleta: só ficamos sabendo que Takatsuki estava no local do acidente quando temos um flashback depois). Além disso, as transições entre cenas podem ser bastante confusas, do tipo que vai te fazer voltar uma ou duas páginas atrás para ver se pulou alguma. Em menor grau, as transições entre capítulos sofrem do mesmo problema, e isso é algo que persiste no mangá inteiro. Isso muito se deve ao fato de que raramente um capítulo realmente parece “acabar”, e seria bem fácil enxergar a história como um único capítulo contínuo enorme, não fossem os títulos dos capítulos e as páginas de rosto de cada um que aparecem ao início do mesmo. Como eu disse, isso é um problema que diminui muito com o passar do mangá, seja pela autora ter melhor desenvolvido a sua capacidade narrativa, seja pelo leitor ir se acostumando com aquela estrutura, mas é um começo confuso, que poderia facilmente afastar alguns leitores desavisados.

Isso dito, enquanto as transições entre cenas e o uso de flashbacks podem incomodar um pouco no começo, tem um outro aspecto narrativo da obra que eu achei, sem exagero, genial, e algo que eu pelo menos nunca tinha visto algum mangá usar: cenas simultâneas. E quando eu falo simultâneas eu me refiro a literalmente duas cenas ocorrendo no exato mesmo quadrinho. A grande maioria destas cenas é usada dentro das casas dos personagens, geralmente com grupos de três ou mais personagens no quadrinho. Assim, em uma mesma cena podemos ter Nitori vendo televisão, ou falando com alguém, enquanto no fundo temos a Maho falando com a mãe ou o pai. Cenas como essa estão espalhadas por todo o mangá, e dão uma sensação contínua de que há mais coisas acontecendo naquele mundo do que apenas o que o quadrinho enfoca. Isso se reforça, ainda, por muitas vezes serem cenas completamente destoantes ocorrendo em um mesmo espaço, como duas conversas absolutamente paralelas, a título de exemplo. Isso torna o ambiente do mangá algo… “Vivo”, “orgânico”, nós vemos que realmente existem pessoas ali, levando suas vidas cada um a seu jeito, e lidando com seus próprios problemas, angustias, círculos de amizade, e tudo mais. Além de adicionar uma alta carga de realismo ao ambiente, algo que me parece ser normalmente negligenciado. Enquanto a maioria das obras parecem se focar em fazer algo mais “linear” e claro ao leitor, criando um ambiente artificial onde apenas o personagem que fala tem o foco, aqui a fragmentação foi adotada de forma a criar o tipo de ambiente que verdadeiramente esperaríamos de uma cena se passando, por exemplo, em uma casa com quatro pessoas.

Capa dos volumes 7, 8 e 9
Capa dos volumes 7, 8 e 9

Mas nem de longe o realismo da obra se limita ao cenário. Com toda certeza o ponto mais forte do mangá são os seus personagens, muito bem trabalhados e bastante realistas, sobretudo no que diz respeito à forma como se expressam. Tal como nos cenários, aqui a autora soube usar um recurso que eu muito raramente vejo em qualquer obra que seja, e que inclusive passei a notar ainda mais a falta deste recurso em outras obras depois de ver Hourou Musuko: as variações de humor. É um recurso simples, mas que aqui teve um papel fundamental em tornar esses personagens muito mais humanos. Temos cenas onde o personagem vai dormir a noite praticamente chorando e lamentando a própria existência, mas no dia seguinte é capaz de sorrir e falar normalmente com seus amigos. Eu acho interessante que isso poderia ser facilmente confundido com inconsistência, justamente porque estamos muito acostumados a ver os personagens sustentarem apenas um traço de humor por um longuíssimo período de tempo. Shounens, especialmente aqueles de batalha, são o principal exemplo disso, onde o personagem pode passar anos com cara de raiva. Mas não é assim que as pessoas funcionam! Temos todo um espectro de emoções que variam mesmo ao longo de um dia. Aliás, mesmo ao longo de algumas horas! Porque emoções passam. A raiva e o ódio talvez se transformem em rancor para com uma ou outra pessoa, mas você não vai deixar de sorrir quando estiver com os seus amigos. E chorar a noite pode ser exatamente o que se precisa para acordar um pouco melhor. Parece inconsistente porque o ser humano é inconsistente, e o mangá reconhece e abraça isso sem temor.

Outra coisa a se notar é como os personagens podem parecer, ao mesmo tempo, contraditórios e condizentes. Um exemplo que vale a pena citar é a Maho, irmã de Nitori. É muito curioso notar que ela é a primeira a tirar sarro, atormentar e atacar o irmão, ao mesmo tempo que é a primeira a se levantar para defendê-lo. Mais de uma vez ela critica Nitori por usar roupas femininas, olhando torto, mesmo recomendando que pare, mas quando Seya, um garoto por quem ela inclusive tem certo interesse romântico, pergunta, em tom bastante reprobatório, se tem algo de “errado” com Nitori, por se vestir daquela forma, a reação da Maho é acertar um chute na cara do menino. Outro personagem curioso foi o Doi, que começa o bullying contra Nitori, e que conforme o mangá vai avançando ambos vão se aproximando cada vez mais e se tornam… bom, talvez não exatamente “amigos”, mas certamento no mínimo bons conhecidos. Ou, ainda, temos Fumiya, um garoto que guarda certo ressentimento do Nitori (basicamente porque Chiba, a garota de quem ele gosta, gosta do Nitori) e que, em seus pensamentos, acha completamente estranho ele gostar de se vestir como menina. Ainda assim, ele guarda seus pensamentos para si e é de longe um dos personagens que mais incentivam ao Nitori, abertamente falando (para a Chiba, inclusive), que se é o que ele quer, então era melhor que usasse. E isso são apenas três exemplo, vindos de três personagens secundários, mas que mais uma vez mostra como o mangá não hesita em abraçar essa natureza contraditória do ser humano. Em situações diferentes, com pessoas diferentes e em contextos diferentes, nós agimos de forma de diferente. Podemos ter pensamentos contraditórios (como Fumiya, que se acha estranho Nitori se vestir como garota, também acha que ele deve ser livre para tanto), ou atitudes contraditórias (como Doi, que se aproxima do Nitori sem nem ele mesmo saber porque), e por ai vai. E ver esses personagens agindo assim adiciona todo um novo nível de tridimensionalidade a estes que é difícil de encontrar paralelo.

Capa dos volumes 10 e 11
Capa dos volumes 10 e 11

Tudo isso cria personagens que são consistentes em suas contradições, o que os torna excepcionalmente interessantes de descrever. Normalmente, podemos descrever um personagem usando um pequeno punhado de adjetivos, que formam a “base”, normalmente clichê, a partir da qual a personalidade emerge. Aqui, essa base é um pouco mais ampla. Maho, por exemplo, é ciumenta e invejosa, carente de atenção de uns, ao mesmo tempo que quer ser deixada de lado por outros; é também protetora e preocupada, sobretudo com o irmão, além de ter um pouco de dificuldade em entender aos próprios sentimentos; fora isso, é também impulsiva e pouco pensa antes de agir. Nitori, por sua vez, é egocêntrico e mesmo um pouco egoísta, embora vá perdendo esse lado conforme cresce (como qualquer criança, aliás); é também corajoso, e quando toma uma decisão raramente volta atrás, ainda que seja também introvertido e raramente diga o que pensa; além disso, tem a escrita de histórias como seu principal hobby, embora não seja o melhor nisso. Takatsuki, por sua vez, se preocupa constantemente com o que os outros irão pensar, o que a faz hesitar bastante em assumir certos desejos ou gostos, mesmo para seus amigos; apesar disso, é decidida, e ainda que hesitante e cuidadosa acaba sempre procurando um meio de alcançar seus objetivos, e quando necessário costuma escolher as próprias vontades ao julgamento dos outros. E eu poderia facilmente continuar essas “listas” com cada um dos personagens que aparecem. Claro, os personagens mais “terciários” tenderão a ter menos de sua personalidade mostrada, mas eu não consigo realmente dizer que algum seja estereotipado ou mal desenvolvido, exceto por talvez um ou dois casos.

Mas tem mais um elemento sobre os personagens que eu acho que vale a pena mencionar, e que de novo é algo que eu nunca tinha visto em uma obra, qualquer que fosse (isso está começando a soar repetitivo, né? rs). E isto é: o crescimento físico dos personagens. Sério, vejam a capa do volume 15, mais abaixo, para terem uma ideia. Alguém desavisado poderia pensar que são os protagonistas adultos abraçando seus filhos, mas não: são os protagonistas ao final da adolescência em comparação com como eram no começo do mangá. A diferença é gritante, mas isso nem é o mais impressionante. O que realmente me surpreendeu é que se não fosse por essa capa, eu provavelmente se quer teria percebido a diferença! Enquanto você está lendo, é muito difícil perceber essas mudanças. Nós nos acostumamos com esses personagens, fisicamente falando, eu digo, ao ponto de que quando a mudança é pequena, como um delineamento um pouco mais “quadrado” do rosto, ou uma pequena mudança na altura, coisas assim, o leitor não percebe. Mas elas estão ali, e vão se acumulando. E quando vemos a capa do volume 15, é como quando comparamos uma foto de nós mesmos com uma foto nossa de quando crianças. E detalhe: isso ainda é reforçado pelo fato da história não ter nenhum grande time-skip. Não é como se de um capitulo para outro se passassem dois ou três anos, como muitos mangás de fato fazem. O máximo que acontece é se passar alguns dias ou algumas semanas e é isso, ao menos até onde me lembro. Então nós nunca temos realmente um “choque” para com a aparência dos personagens, exceto por uma única vez que é quando Nitori corta o cabelo (mas ai é um choque inclusive para os personagens do mangá, então em nada quebra a naturalidade com a qual os personagens vão crescendo e se desenvolvendo).

Capas dos volumes 12 e 13
Capas dos volumes 12 e 13

Agora, antes de deixar de falar dos personagens, é preciso mencionar um único problema que eu tenho com o desenvolvimento de uma personagem em particular da obra: Takatsuki. Ao final do mangá, ou mais ou menos no que seria o “arco final” da obra, digamos assim, Takatsuki “muda de ideia”. Todo o conflito final da personagem é que ela começa a aceitar a sua fisionomia feminina, bem como começa a se interessar pelo uso de roupas femininas, chegando inclusive a ingressar em uma agência de modelos. E isso gera na personagem um sentimento de culpa como se “traísse” a sua amizade com Nitori, que começou justamente pelos dois desejarem usar roupas do outro sexo. Agora, para todos os efeitos, a ideia de todo o dilema da Takatsuki era apenas uma “fase” não é realmente irreal, ou mesmo impossível, ao menos até onde entendo. E sim, esse dilema final muito bem se “ata” ao começo da obra: toda a obra começou com os personagens querendo usar um certo tipo de roupa e se sentindo mal por isso, então terminá-la com este mesmo tema foi uma boa forma de “fechar o ciclo”, por assim dizer. Apesar disso, eu pessoalmente não gostei da decisão da autora. Teve um bom bild up em cima, foi bem trabalhada, gerou bons temas, não quebra o realismo da obra, tudo isso é verdade, mas realmente me pareceu um pouco forçado. Takatsuki era possivelmente a personagem com maior descontentamento pelo seu corpo, e a que parecia mais emotiva e estressada com toda essa questão. Ela simplesmente começar a “mudar de ideia” me soou um tanto quanto forçado, e mesmo desnecessário. Pareceu mais que a autora simplesmente sentiu a necessidade de colocar um conflito final para a personagem, então colocou isso. Mas com relação ao desenvolvimento dos personagens, essa talvez seja a minha única crítica à obra.

Tudo isso dito, eu não poderia passar essa análise sem comentar nos temas do mangá. Agora, eu não vou me estender muito aqui, porque muito do que eu poderia falar eu já falei quando da minha review do anime de Hourou Musuko, e não tenho realmente muito para acrescentar. Toda a temática da transexualidade é muito bem abordada, incluindo ai as suas mais diferentes facetas. Temos, inclusive, um transexual adulto, já provavelmente na casa dos quarenta, e que apenas recentemente começou a usar roupas femininas; e ainda que seja um personagem que só apareça bem para o final do mangá (e justamente por isso ele não aparece no anime), foi muito interessante ver os dilemas que alguém nessas condições poderia ter, inclusive todo o medo do julgamento social e coisas do tipo. Além disso, o mangá também toca algumas vezes na questão da homossexualidade, e é legal como essa questão se “mescla” com a da transexualidade ao olharmos os casos de Nitori e Mako: ambos nascidos meninos, ambos com desejo de se tornarem meninas, mas Nitori parece ter uma maior atração sexual por mulheres, enquanto Mako tem maior atração sexual por homens. É uma situação que expõe muito interessantemente o quão complicado questões como a sexualidade ou a identidade de gênero podem ser. E por falar em gênero, diversas vezes o mangá consegue dar ótimas “alfinetadas” nas questões de papéis de gênero, rendendo ótimos momentos para reflexão (talvez o meu momento favorito do tipo é quando Doi descobre que Nitori usava inclusive calcinhas, e diz que isso era “ainda mais gay”, por assim dizer, do que apenas as roupas externas, ao que o Nitori responde perguntando ao Doi porque era ele quem decidia isso). De modo geral, eu diria que o mangá soube desenvolver bem suas temáticas, e soube desenvolver de forma sutilmente profunda, bem como com o devido cuidado e respeito (algo raro em obras de ficção, e não apenas nas vindas do Japão, que fique claro).

Capa dos volumes 14 e 15
Capa dos volumes 14 e 15

Mas já que eu mencionei o anime (e a minha review do mesmo), acho que vale a pena um comentário sobre a relação entre as duas obras. Isso porque eu penso que esta é uma relação bastante “ímpar”. O anime foi lançado em 2011, enquanto que o mangá somente foi finalizado dois anos depois, então como seria de esperar nem todo o mangá foi adaptado. Mas mais ficou de fora do que normalmente se pensaria. Em fato, o anime adapta (muito livremente, diga-se de passagem) os eventos que vão, grosso modo, do volume 5 ao volume 10 do mangá, mais ou menos. Como resultado, o começo do anime é bem diferente, seu “meio” toma várias liberdades para com a obra original, adicionando e cortando cenas, e o final encerra mais ou menos no ponto onde não tinha ainda muito mais o que adaptar. Ainda assim, é importante dizer: o anime se fecha em si mesmo muito bem. Ele foi pensado e planejado para durar apenas uma temporada, e conseguiu ser uma obra fenomenal, isso para dizer o mínimo. Mas fica então a pergunta: qual é melhor? O mangá, como normalmente ocorre? Ou será esse um dos poucos casos em que o anime é melhor? Honestamente… Nenhum dos dois. Ambas as obras são bem diferentes, e ambas entenderam muito bem a sua própria mídia, usando de todas as ferramentas disponíveis para criar algo excelente. Ambos são ótimos, e embora eu talvez prefira um pouco mais o anime, sobretudo pelo uso de coisas como coloração e trilha sonora (que não encontramos em um mangá), eu não penso que seja possível dizer qual é objetivamente melhor. Ambos são excelentes, e certamente mais do que recomendáveis, embora eu diria que o mangá é um pouco mais “pesado” em alguns momentos (não muito, honestamente, mas ele toma sim alguns riscos a mais do que o anime, especialmente ao lidar com a puberdade de seus personagens).

Sinceramente, como um todo essa obra é fantástica. É uma bela mistura de comédia e drama, com temáticas extremamente relevantes (e que muito raramente são devidamente abordadas, vale dizer), personagens muito bem trabalhados, uma arte que perfeitamente cumpre o seu papel… E eu tenho plena consciência que de forma nenhuma poderia “esgotar” as coisas que podem ser faladas desta obra. O que eu posso dizer é: ela vale a pena. Tanto o mangá como o anime. Irá agradar a todo mundo? Bom, não. É um slice of life, afinal. É uma obra bem mais “parada” e “calma”, e tem um forte caráter introspectivo. Além disso, o começo um tanto quanto confuso possivelmente pode desencorajar muitas pessoas. E claro, se você não gosta ou não consegue lidar com temas como identidade de gênero, transexualidade, homossexualidade e outros semelhantes, são boas as chances de que essa obra não irá lhe agradar (embora esse tipo de gente talvez fosse quem mais precisasse ver esse mangá, vale dizer…). Óbvio: nenhuma obra conseguirá agradar a todos. Ainda assim, vale a pena tentar. Dar uma chance e julgá-la pela sua própria experiência. É uma obra diferente do convencional, isso em vários aspectos, e que justamente por isso merece alguma atenção.

Imagens:

Hourou Musuko – Capas dos volumes 1 a 15

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5 comentários sobre “Review – Hourou Musuko (Mangá)

  1. Primeiramente, gostaria de lhe agradecer pela recomendação (ainda que não tenha sido feita de forma direta) e lhe parabenizar pela excelente análise dessa obra tão rica.

    Eu tive muita dificuldade com a experiência de leitura deste mangá. Sim, o começo é bem confuso, principalmente por não ter exatamente uma grande apresentação de personagens, como ocorre em certos animes quando lhe jogam o nome completo dos mesmos, seguido de diálogos expositivos explicando melhor o ambiente em que você está entrando. Porém, ressalto que a estrutura narrativa, pra mim, até o final da obra continuou sendo um desafio. A passagem de tempo (mesmo que pouco), a constante troca de ambiente, o foco de cada capítulo normalmente não sendo em apenas um personagem, etc; sempre me mantiveram atento as pequenas nuances da obra. O que de certa forma é algo singular e interessante, mas também fez com que eu, um simples conhecedor de obras com fórmulas narrativas clichês (incluindo alguns Slice of Lifes), ficasse perdido em diversas situações.

    Entretanto, tirando a condução narrativa peculiar da autora, que realmente dá um “que” a mais no desenvolvimento de situações, mas também torna a fluxo da leitura um tanto confuso, os temas abordados pela obra são excepcionais. Como você bem ressaltou na análise, os personagens demonstram uma naturalidade enorme em cada pequena ação do dia a dia. A troca de emoções, a confusão de ideias, o peso de cada ação, tomada muitas vezes sem um maior cuidado (afinal, são crianças), tudo isso dá um ar mais natural ao que estamos presenciando.

    Em questão de personagens, não foram poucos os que realmente vi um maior desenvolvimento natural. Boa parte do grupinho secundário da escola serviram apenas como os nossos olhos, o de prováveis espectadores que não possuem ou entendem os conflitos da transexualidade. Mas ainda cumpriram bem seus papeis, em nos mostrar as várias facetas das pessoas quando presenciam algo diferente do “senso comum”. As vezes eu ficava um pouco incomodado com uma perda de tempo razoável em cima de personagens que não pareciam estar realmente tendo uma função naquilo tudo. Poderia citar a Chi-san e sua amiguinha ciumenta, que foram mais um alívio cômico. Contudo, apesar do menor trabalho em cima deles, quase todos tiveram sua parcela de significância no dia a dia dos nossos protagonistas.

    Não quero ficar me estendendo aqui, então darei logo minha opinião sobre os personagens. Começando pelos que menos me importei, como o garoto que aparecia de vez em quando, sempre provocando as pessoas quando se tratava do maior tema deste mangá (aquele que se tornou amigo de Mako mais pra frente, mas tinha problemas em aceitar a transexualidade do garoto). Fumiya foi um personagem inicialmente interessante, que mostrava uma dualidade de pensamentos sobre o transexualismo, mas que ao longo da obra ficou meio de canto e infelizmente teve um desfecho bem sem graça, também tivemos a Sasa-chan que sempre me pareceu deslocada quanto aos conflitos de seus amigos, e o Doi, que teve um amadurecimento legal conforme a progressão de idade e convívio com o Nitori, mas que ficou um tanto jogado durante algumas partes da obra, portanto sendo menos explorado.

    Claro que com um elenco de personagens tão diverso como o desse Slice of Life, se torna uma tarefa difícil desenvolver cada mínimo detalhe nos personagens de suporte. E mesmo assim quase todos cumpriram bem sua função na narrativa.

    Bom, indo pros personagens com maior aprofundamento, gostei bastante da construção de Anna, passando de uma menina egocêntrica e fria, para umas das que mais se preocupa sobre os problemas de Nitori e também começa a perceber seus próprios defeitos. Todo o enfoque na Chiba desde quando eram bem jovens, com seu ciúme doentio em cima do amor que nutria pelo protagonista e sua forma de pensar, sempre sendo a causadora de problemas para a maior parte dos personagens jovens, até ela amadurecendo e entendendo melhor a peculiaridade de seus amigos (apesar de ainda manter um jeitão mais frio), foi bem legal na condução da história.

    Mako-chan foi um dos personagens mais vivos durante a obra, sempre se questionando sobre cada ação que tomaria, os conflitos que isso poderia gerar e se mostrando bem humano com sua constante inveja no que tange a beleza e atitude de seus amigos (principalmente o Nitori). Mas fiquei um pouco triste por ele ter perdido um pouco de espaço mais pro final da obra. Já a Maho foi sempre a personagem insuportável, que assim que aparecia já me causava certa repulsa, haha. No entanto, achei bem interessante como os personagens iam crescendo e amadurecendo, enquanto ela sempre manteve uma personalidade mais agressiva, tendo dificuldades em aceitar a maneira com que seu irmão pensava e agia, e também tendo uma certa inveja por ele ter uma maior facilidade em fazer amizades. Aquele pequeno arco onde Nitori vai pra escola vestido como menina, e isso causa problemas pra sua família, onde ele aprende o peso que suas ações podem causar, principalmente em sua irmã, foi fantástico e me fez pela primeira vez entender um pouco os conflitos internos da Maho.

    Bom, ainda não citei o casal Yuki e Shii, que são um bom exemplo de adultos que tiveram problemas similares aos dos protagonistas. Gostei como eles sempre os incentivaram a seguir seus corações, mas sempre os alertando dos problemas sociais que suas atitudes poderiam gerar. E o menino Seya, que foi o primeiro grande desafio de Nitori, quando estava descobrindo seu gosto por roupas femininas. Foi bem legal ver como a descoberta de que sua primeira paixão foi um garoto fofo o afetou e que aos poucos soube entender o individualismo de Nitori e aceitá-lo bem como pessoa.

    Então chegamos aos protagonistas. Takatsuki foi a personagem que logo de cara mais admirei, por suas atitudes bruscas, destoantes as do Nitori, mas tendo um maior problema em compreender seus gostos. Sua personalidade gentil, preocupando-se com o bem estar das pessoas a sua volta e também sempre como eles a viam, etc. Gosto bastante do começo, onde por influência da Chi-san ela começa a agir com maior liberdade, sempre desrespeitando as regras da escola ao ir com gravata masculina ou até com o uniforme completo. Até a influência que isso teve em Nitori, que sempre nutriu um profundo respeito e carinho por ela.

    E por fim, Nitori, o menino mais fofo da história dos mangás. Todo o seu amadurecimento é o ponto mais forte da obra. Seus diversos conflitos internos e externos, suas constantes mudanças de emoções, principalmente durante a infância, e suas atitudes inconsequentes, foram os fatores principais pro desenrolar dos maiores problemas na história. Ele é sem dúvidas a pessoa que mais influenciou e foi influenciado, o personagem mais vivo da obra, que passou por diversas situações complicadas, nunca tendo o apoio da família (o que serve até de crítica a sociedade japonesa), etc.

    Já me estendi demais aqui. Não tenho o dom de formular textos detalhadíssimos como o seu, mas fiz questão de deixar meu parecer sobre essa obra tão única, que trabalha de forma excelente diversos temas pesados da sociedade. Só ressalto que apesar de um tanto clichê, gostei de a ligação narrativa do que acompanhamos, com a história que Nitori escreve no final. A passagem de tempo sendo feita aos pouquinhos, realmente é algo bem próprio dessa obra. Com certeza é uma história que deveria ser lida por todos, inclusive já deveria ter sido lançada por aqui. Ainda preciso dar uma olhada no anime, que me chama bastante a atenção pelo seu estilo de colorização.

    PS: Fiquei muito puto com aquele relacionamento forçado entre Doi e Chiba, lá no finalzinho da obra. Me pareceu tão deslocado a maior interação dos personagens naquele momento. Se puder, gostaria de saber sua opinião sobre essa passagem.

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    • Fico feliz que tenha gostado da obra, e a primeira coisa que digo é que concordo muito com uma coisa: esse mangá devia ser lançado aqui. Infelizmente, dado o tradicionalismo e conservadorismo da nossa sociedade, aliado ao fato de que otakus num geral sabem ser bem transfóbicos, machistas e homofóbicos (todos temas que o mangá de certa forma tenta criticar rs), lançar isso aqui seria um tiro no pé na editora, infelizmente =( Mas quem sabe, talvez um dia, quando tivermos um meio com uma mentalidade um pouquinho mais avançada (rs).

      Agora, sobre os personagens. Eu acho interessante como alguns personagens acabam ficando mais “escanteados” em parte pela sensação de realismo que isso traz. Muitos desses personagens são mais “amigos de amigos” do que propriamente centrais (vide o amigo do Mako lá. O relacionamento dele com a trama se ata tão somente por ele conhecer o Mako e o Doi), e essa espécie de “teia” de relações (não temos UM grupo de amigos ali, são vários sub-grupos de pessoas que meio que se conhecem porque tem alguns amigos em comum) eu acho fenomenal no mangá… mas sim, acaba deixando alguns personagens de lado, o que é uma pena, mas um tanto quando inevitável, eu acho rs. Ah, e sobre aqueles que acabaram de lado mais pro final do mangá, acho que ali foi um pouco mais proposital para mostrar mesmo o afastamento das pessoas conforme vão crescendo (não querendo, com tudo isso, criar uma desculpa para o escanteamento, exatamente, mais dizendo que mesmo isso traz alguma coisa pra obra, seja proposital ou não xD)

      E eu vou ter que discordar de uma coisa: eu gosto da Maho! xD Sim, ela é invejosa, ela é chata e irritante, mas ao mesmo tempo eu gosto de como ela se importa com o Nitori. Tipo ela dando uma bicuda no Seya quando ele fala mal do Nitori. Ou uma outra cena que eu gosto muito que é quando ela ta MUITO irritada, ela parece que vai xingar o Nitori e o Mako por se travestirem, mas ela para no último segundo. O Mako inclusive nota isso, que ela estava prestes a causar um baita dano e parou no segundo exato. Meio que mostra que mesmo ela não aprovando ou sentindo ciumes do Nitori, ainda tem uma linha que ela não se deixa cruzar. Ela é uma personagem bem falha, sim, mas eu achei ela extremamente humana ainda assim.

      E sobre o relacionamento do Doi com a Chiba: sendo bem sincero, eu nem lembrava dele até você mencionar ^-^’ E nem lembro dos detalhes, de como começa e como termina. Mas não lembro de achar forçado. A obra inteira envolve toda sorte de relações e correlações amorosas e os personagens acabarem criando uma paixonite por outros ou se aproximando mais meio que sempre fez parte do mangá, então acho que foi “ok”. Mas se um dia eu parar para reler o mangá eu presto mais atenção nessa parte pra ver se repenso melhor isso rsrs

      Ah sim, e para finalizar: veja o anime sim, é excelente também, embora acaba sendo bem mais focado no Nitori do que nos demais personagens, além de ser bem diferente do mangá em algumas cenas (ele adapta literalmente o “meio” do negócio, acho que vai mais ou menos do volume 5 até o volume 10, ou coisa assim, e nisso tiveram que mudar muita coisa pra explicar algumas coisas). Ainda assim, vale a pena, mais que recomendável ^-^/

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      • Obrigado pela resposta! Realmente essa obra precisa ser publicada um dia por aqui. Vejamos se um dia essas amarras sociais de nossa nação cessarão, e assim teremos um acervo maior de obras que abranjam essas temáticas.

        Sobre a Maho, confesso que realmente entendo todo o trabalho em cima dela, que a torna tão crível. Só fiquei extremamente incomodado toda santa vez que ela aparecia e não demonstrava um grande amadurecimento. Mas isso também serve pra enfatizar uma peculiaridade de cada indivíduo. Ela sempre teve problemas pra se relacionar e penou com esse conflito até o final.

        Bom, quanto ao relacionamento Chiba x Doi, me lembro de ambos trocarem palavras apenas em raras ocasiões. Eles possuem uma personalidade mais introspectiva, fria, e as vezes soltavam verdades na cara um do outro. Talvez esse seja um singelo ligamento entre seus modos de pensar e agir, mas a autora nunca se aprofundou nesse tipo de relação. A Chiba aceitou muito “do nada” se relacionar amorosamente com o Fumiya, depois de tanta insistência, só que houve um maior tempo gasto entre os encontros deles na igreja, até a mudança de visão do garoto, pra se adequar à maneira com que Chiba pensa.

        No caso do Doi foi muito espontâneo a forma com que o garoto declarou ter interesse na menina, depois dela revelar que não estava mais envolvida com Fumiya. Sei lá, eu achei tão jogado a maneira com que eles se relacionam no último capítulo, com a declaração de Doi e pela primeira vez o claro interesse amoroso de Chiba por ele.

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      • Eu fui dar uma olhada no final do mangá pra ver essa cena do Doi se declarando. E… Olha, eu to bem ok com ela xD O Doi sempre foi talvez O mais impulsivo dos personagens ali (e isso é dizer muito, considerando o povo desse mangá kkkkk), e suas ações muitas vezes não fazem sentido nem pra ele mesmo. Eu realmente estou bem de boas com ele simplesmente decidir que gosta da Chiba. Já a Chiba… sei lá, talvez ela só tenha interesse em finalmente achar um garoto que não está tremendo de medo cada vez que ela aparece. No final, a insistência do Fumiya mais irritava ela do que outra coisa, e eu acho que ela só tentou dar uma chance a ele para tentar “superar” o Nitori. Viu que não deu certo e deve ter percebido que precisa de alguém que faça mais que adulá-la, e nisso o Doi cai bem. Sei lá, eu engulo, até pelo fato de serem adolescentes xD Eu concordo que não foi bem trabalhado, e soa mesmo como algo tirado do nada só pra tentar dar uma conclusão à personagem (é drama, afinal, obras assim gostam de terminar com o maior número de casais possível mesmo kkkkk), mas eu não achei TÃO forçado assim, levando em conta a personalidade dos dois.

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  2. Terminei agora o mangá,e gostei muito do seu texto. No final das contas valeu a pena conhecer o anime,pq sem ele eu nem chegaria no mangá,não que eu tivesse achado ruim,só não curti o ritmo. O mangá me fez entrar de cabeca na cabeca dos personagens e refletir bastante sobre os temas abordados. Enfim,muito obrigado

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