Review – Hourou Musuko (Mangá)

Hourou Musuko // Review 14/01/2016 // 1
Hourou Musuko. Capas dos volumes 1, 2 e 3

Lançado em dezembro de 2002 e finalizado em agosto de 2013, Hourou Musuko, mangá de autoria de Takako Shimura e publicado originalmente pela revista seinen Comic Beam, foi certamente uma obra bem sucedida. Em seus pouco mais de dez anos de publicação, a obra não apenas atraiu um bom público, com mais de um milhão de cópias do mangá estando em circulação em 2013, como ainda foi um bom sucesso de críticas, sendo nominada para o Japan Media Arts Festival de 2006, bem como para a lista de “Melhor Graphic Novel para Adolescentes” da Young Adult Library Services Association, em 2012. E, pessoalmente, posso dizer que toda essa atenção é devidamente merecida. Tendo lido os 15 volumes do mangá, eu posso dizer que Hourou Musuko é uma obra única, e isso em mais de um aspecto. Seus personagens, sua narrativa, suas temáticas, não seria exagero meu dizer que é difícil encontrar paralelo para esta obra. Obviamente, ela não é isenta de alguns defeitos, mas eu sinceramente acredito que as qualidades em muito os superam.

Sobre o que é a obra, então? Bom… Hourou Musuko é um slice of life que segue a história de duas crianças transexuais, Shuuichi Nitori e Yoshino Takatsuki, sendo que ao longo da trama vamos acompanhando a estes personagens conforme eles atravessam o segundo ciclo do enino fundamental e todo o ensino médio. Percorrendo quase dez anos da vida destes personagens, a história mostra como seus personagens lidam não apenas com a própria transexualidade, como também com questões como identidade de gênero, puberdade, sexualidade, conflitos familiares, bullying, e outros tantos temas que raramente encontramos em uma mesma história, ao menos com o mesmo grau de detalhamento. Sim, pois este é talvez o principal mérito de Hourou Musuko: é uma obra que soube tratar destes temas com o devido respeito, e também com a devida profundidade. E isso sem abdicar de forma alguma do trabalho em cima de seus personagens, sendo o cast do manga alguns dos personagens mais realistas que eu já vi. Uma boa mescla de comédia e drama, com temáticas provocativas e um ótimo grupo de personagens principais e secundários, Hourou Musuko é definitivamente uma obra que vale a pena ser lida. Falar mais do que isso, porém, irá exigir entrar em spoilers, então fiquem avisados caso decidam continuar a leitura.

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Ghost In The Shell S.A.C. – Do Efeito Copycat ao Stand Alone Complex

Ghost in the Shell // Análise 01/04/2015 // 1
“Major” Kusanagi Motoko, líder de operações da Seção 9

Originalmente publicado na revista Weekly Young Magazine, em 1989, o mangá de Masamune ShirowKōkaku Kidōtai, daria início à franquia que ficaria mundialmente conhecida pelo seu subtítulo: The Ghost In The Shell. Acumulando diversas adaptações, do cinema aos vídeo games, este post se focará sobretudo na série animada, Ghost In The Shell: Stand Alone Complex, escrita e dirigida por Kenji Kamiyama e produzida pelo estúdio de animação Production I.G. Na série, que teve sua primeira temporada em 2002 e a segunda em 2004, acompanhamos os agentes do Setor 9 de Segurança Pública do Japão, uma unidade especializada em contra-atacar atentados de cyber-terrorismo. Ambientada no Japão de meados do século XXI, onde a integração entre o corpo humano biológico e as máquinas chegou a níveis nunca antes vistos, a série foi geralmente bem recebida, sendo criticamente aclamada desde por sua animação e trilha sonora até pela história e ambientação realista, ao menos para os padrões de uma obra de ficção científica.

Mas deixemos agora as considerações sobre as alegadas qualidades do anime e nos centremos no foco deste texto: suas questões de fundo. Em ambas as temporadas, o anime levanta diversas questões (algumas de forma mais sutil do que outras), que vão da inteiração homem e máquina até questões de políticas de estado. Mas há uma questão que é central em ambas as séries. Tão central que justamente dá o nome ao anime: a ideia de um “Stand Alone Complex” (algo como “complexo que se levanta por si só”, em tradução livre). Ao longo deste texto, farei algumas explanações sobre o conceito tal e qual aparece na série, bem como algumas contra-partidas, tanto teóricas como práticas, que podemos encontrar no mundo real. Para tanto, obviamente será necessário recorrer à spoilers, então se você for do tipo que não gosta de qualquer forma de revelação de conteúdo, e ainda não viu o anime, eu sugiro que pare a leitura por aqui. Juntando todos os episódios das duas temporadas, a série conta com um total de 52 episódios, e certamente vale a pena ser vista, até mesmo para melhor entender as considerações que serão feitas aqui.

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