Hourou Musuko – Identidade de Gênero e Transexualidade

Menino ou menina: de que é feito o gênero?
Menino ou menina: de que é feito o gênero?

Em março de 2011, chegava às televisões japonesas um anime que só pode ser descrito como único de seu tipo. Baseado no mangá homônimo de Takako Shimura, uma mangaka conhecida por suas obras envolvendo temáticas LGBT, Hourou Musuko (algo como “Filho Errante”, em tradução livre) é um anime de 12 episódios produzido pelo estúdio AIC e com direção de Ei Aoki, atualmente mais conhecido por seu envolvimento em séries como Fate/Zero e Aldnoah.Zero. E em sua trama somos apresentados ao dia-a-dia de duas crianças… diferentes, por assim dizer. Shuichi Nitori, protagonista do anime, é biologicamente um menino, porém demonstra um forte desejo por se tornar uma menina, tendo mesmo o hábito de usar roupas femininas sempre que possível. Yoshino Takatsuki, co-protagonista junto a Nitori, por sua vez, é seu completo oposto: biologicamente uma menina, apresenta um forte desejo de se tornar um menino, demonstrando mesmo intenso desgosto pela sua fisionomia feminina. Ao longo da história, acompanhamos a entrada destes dois no que seria o nosso equivalente a um “Ensino Fundamental II”, ou “Ginasial”, e observamos como eles interagem uns com os outros, quais seus círculos de amizade, bem como lentamente vão desenvolvendo de forma clara e precisa essa insatisfação para com o próprio corpo e como lidam com isso. E por simples que seja essa proposta, eu posso dizer que este é um dos melhores animes que eu já assisti, muito possivelmente entrando naquele pequeno rol de obras que chegam o mais perto possível de serem “perfeitas”.

Contudo, já adianto que este texto não será uma review. Inclusive porquê eu já escrevi uma, então quem quiser ver as minhas opiniões sobre este anime pode apenas seguir o link. Não, neste texto eu irei partir do anime para discutir aquilo que é a sua questão basilar, o assunto sobre o qual toda a obra está assentada: a transexualidade. O que é. O que não é. Porque existe. Como se manifesta. E, é claro, como o anime a aborda. E estejam avisados: esse texto será grande. Para tratar propriamente deste tema, vamos ter de falar de uma série de outros assuntos que perpassam as mais diversas áreas do conhecimento. Da psicologia à biologia. Da sociologia à história. Da antropologia à genética. Se queremos fazer justiça a uma temática que é em si absurdamente complexa (e bom, ao menos eu quero [rs]) fazer algo assim é o mínimo necessário. Então eu vou dizer isso agora: neste texto, eu irei tratar de assuntos que são, no mínimo, desconfortáveis para a maioria. Identidade de gênero, sexualidade, orientação sexual… Se você realmente tem problema com estas temáticas, talvez seja uma boa ideia ir ler algum dos outros textos deste blog. Além disso, dadas as temáticas apresentadas esse texto provavelmente seria mais indicado para aqueles com um pouco mais de idade, então eu vou recomendar bom senso por parte dos leitores. Finalmente, e como último aviso, haverá spoilers. Apesar de eu ter tentado evitar falar qualquer maior reviravolta do roteiro, não dá para falar sobre este assunto a partir do anime sem falar do anime, então se você ainda não viu Hourou Musuko e tem problemas com spoilers talvez seja melhor ir assistir a obra primeiro. E dados todos os avisos, vamos então começar.

Nitori e sua irmã, Maho.
Nitori e sua irmã, Maho.

Mas antes de entrarmos no assunto propriamente dito, eu quero ter certeza de que todos nós estamos mais ou menos no “mesmo pé”, por assim dizer, no que se refere a sobre o que eu vou falar pelos próximos parágrafos. Então vamos lá: segundo o site Psychology Today, em sua entrada sobre o Transtorno de Identidade de Gênero, a transexualidade (em si a forma mais extrema do que é conhecido como Disforia de Gênero), “se define por um sentimento forte e persistente de identificação com o gênero oposto e desconforto para com o seu sexo”. Ou, como coloca Amanda Athayde, do Instituto Estadual de Diabetes e Endocrinologia Luiz Capriglione (IEDE), neste texto sobre o transexualismo masculino, “O transexualismo” é “a forma mais extrema de distúrbio de identidade sexual. Também chamado de disforia de gênero, é uma incompatibilidade entre o sexo anatômico de um indivíduo e a sua identidade de gênero”. Por exemplo, um indivíduo que nasceu com o corpo biologicamente masculino, mas se identifica como mulher (ou, é claro, o oposto: um indivíduo que nasceu biologicamente feminino, mas se identifica como homem). E eu vou aproveitar este momento para fazer duas rápidas distinções. Primeiro, “transexualidade” nada tem a ver com “travestismo”. O primeiro é o sentimento de pertencer ao gênero oposto, enquanto que o segundo é tão somente o uso de roupas do gênero oposto. Sim, é possível que um transexual seja um travesti e vice-versa, mas uma cousa não necessariamente implica na outra. E em segundo lugar, “transexualidade” nada tem a ver com a “homossexualidade”. De novo, transexualidade é o sentimento de pertença ao gênero oposto, enquanto que a homossexualidade é a atração sexual por pessoas do mesmo sexo. Um transexual pode perfeitamente ser homo, hétero, bi ou assexual sem qualquer problema, mas eu deixo pra falar mais disso mais para o final do texto.

Mas se você olhar o título deste texto, verá que a transexualidade não é o único assunto que será tratado aqui. Sendo a transexualidade uma incongruência entre o sexo e a identidade de gênero de uma pessoa, eu sinto que é no mínimo necessário para a discussão que falemos, antes, exatamente sobre isso. O que significa ser um homem? Ou uma mulher? Como você define o gênero de uma pessoa? E vejam, eu sei que, a princípio, essa pergunta parece fácil. Mas acreditem: ela é muito mais complicada do que parece, tanto socialmente falando quanto biologicamente falando. Eu não vou entrar em detalhes agora porque, bom, é pra isso que tem esse monte de palavras ai pra baixo (rs), mas eu vou, ao invés disso, fazer um pedido: por favor, leiam este texto com a mente aberta. Não estou pedindo que aceitem tudo o que eu vou dizer aqui, sintam-se a vontade para discordar, inclusive. Mas não comecem lendo esse texto já pensando em como contrariá-lo. Esse é um assunto bastante complicado, bastante sensível e que meche inclusive com o nosso senso comum. Enquanto seres humanos, temos uma mentalidade binária bastante óbvia, que separa as coisas sempre em pares de opostos (bom e mal, certo e errado, em cima e em baixo, mulher e homem, etc), mas para discutir questões como identidade de gênero, transexualidade e tudo mais vamos precisar abandonar, o máximo possível, esse pensamento binário rígido. E eu sei o quanto isso soa estranho, mas é por isso que eu peço: me de a chance de me provar certo. Leia sem pré-conceitos, ou ao menos o mais afastado deles que você puder. E se no final realmente achar que eu falei alguma bobagem, sinta-se mais do que a vontade para apontar qualquer erro que encontrar, sério. E terminada aqui esta “pequena” introdução, vamos então ao assunto.

Sem título
Da esquerda para a direita: Yoshino Takatsuki, Shuichi Nitori e Saori Chiba. Medicamente falando, a transexualidade se caracteriza pelo desejo ou crença de pertença ao sexo oposto ao seu de nascimento.

Para começar, vou parafrasear aqui a primeira frase que o anime nos apresenta. Falada no começo do primeiro episódio, antes mesmo que apareça qualquer personagem, quando a tela ainda está completamente preta, a frase nos pergunta algo como “de que são feitas as meninas?”. Algum tempo depois, o anime nos apresentaria uma contrapartida a esta pergunta, desta vez algo como “do que são feitos os meninos?”. Eu menciono aqui estas duas perguntas porque, ao menos a princípio, como eu havia dito, elas parecem simples e fáceis de responder. Contudo, como eu também havia dito, a verdade é que as coisas não são tão simples assim (e já aviso que esta é uma frase que vocês provavelmente lerão bastante ao longo desse texto, diga-se de passagem [rs]). Vamos lá: em 1910, o médico alemão Magus Hirschfeld, um dos pioneiros no campo da sexologia, publicou seu livro Transvestites: the Erotic Drive to Cross-Dress (algo como “Travestis: a compulsão erótica pelo crossdressing“, em tradução livre), no qual o autor procurou argumentar que o desejo por vestir roupas do sexo oposto (cross-dress) não poderia ser reduzido a coisas como a homossexualidade ou o fetichismo pura e simplesmente. Para o momento, porém, o que nos interessa é uma pequena consideração que ele tece a respeito das diferenças entre homens e mulheres. Para o autor, ambos diferem em quatro pontos essenciais: 1) os órgãos sexuais (é claro), 2) as demais características físicas (o que normalmente chamamos de “características sexuais secundárias”, como os seios nas mulheres ou a barba nos homens), 3) o desejo sexual (e já digo que aqui ele não está falando em homossexualidade ou heterossexualidade, mas eu vou comentar isso mais a fundo depois) e 4) outras características emocionais [1].

Agora… Para Hirschfeld, é a coerência entre estes quatro pontos que dita se uma pessoa é um homem ou uma mulher. Um homem terá características sexuais primárias e secundárias masculinas, uma postura ativa e dominante durante o ato sexual e se comportará como se espera que um homem se comporte. Já a mulher será o exato oposto, tendo características sexuais femininas, uma postura mais passiva e submissa, e se comportará de forma mais emotiva. Simples, certo? Bom, só tem um pequeno problema: para Hirschfeld, tais combinações não existem. Citando aqui ao próprio autor: “tais representações absolutas de seus sexos são, porém, primeiro de tudo apenas abstrações, extremos inventados; na realidade eles ainda não foram observados, mas ao invés disso pudemos provar que em todo homem, ainda que apenas em um grau mínimo, há sua origem da mulher, e em toda mulher o correspondente restante de origem masculina” [2]. Nesse sentido, todo ser humano, ou no mínimo do mínimo uma considerável maioria, possui, em algum nível, uma mescla de características masculinas e femininas, seja esta mescla física, emocional, psicológica, ou o que for. Em suma: para Hirschfeld, “homem” e “mulher” são extremos de um vasto espectro, no qual encontramos toda sorte de combinações possíveis entre características de um e de outro. E o motivo de eu trazer esse caso de mais de cem anos atrás é porque essa questão do gênero enquanto dentro de um espectro, ao invés da divisão binária ou homem “ideal” ou mulher “ideal”, será de fundamental importância para entender praticamente tudo o que eu vou dizer abaixo.

Nitori e Takatsuki
Nitori e Takatsuki caminham e conversam.

Ok, guardem essas questões na mente e vamos avançar um pouco no tempo, até meados de 1955. Isso porque nessa época John Money, psicólogo e sexólogo, introduziu no meio acadêmico a diferenciação entre “gênero” e “sexo“, uma divisão que é aquela usada hoje no campo de estudos de gênero. “Mas qual a diferença?” alguns de vocês poderiam perguntar. Bom, respondendo da forma mais clara possível, “sexo” diferencia entre machos e fêmeas, enquanto que “gênero” diferencia entre homens e mulheres. Pode parecer uma divisão sem importância, mas o que é preciso entender é que essa distinção entre sexo e gênero é, fundamentalmente, uma distinção entre o que é biológico e o que é social. Para que isso fique mais claro cito aqui a definição de “gênero” usada pela Organização Mundial da Saúde: “gênero se refere às características socialmente construídas de homem e mulher – tais como normas, papéis e relações de e entre grupos de mulheres e homens”. Em outras palavras: ser “homem” ou ser “mulher” significaria submeter-se a uma série de diferentes padrões. Padrões de aparência, padrões de vestimenta, padrões de comportamento. De que cores deve gostar, com que brinquedos deve brincar, que empregos deve ter. E embora a situação venha mudando nas últimas décadas, especialmente por iniciativa de movimentos feministas, durante a maior parte da nossa história aquilo que era apropriado a uma mulher podia ser radicalmente diferente daquilo que era apropriado a um homem. Tanto é que em seu livro The Second Sex (“O Segundo Sexo”, em tradução livre; de 1949, por isso o uso do termo “sexo”, ao invés de “gênero”), intelectual e filósofa francesa Simone de Beauvoir coloca uma ideia que viria a nortear as questões feministas no mínimo pelo meio século seguinte: a de que uma pessoa não é uma mulher, mas sim se torna uma, através da conformação a certas normas sociais. E a essas normas nós damos o nome de “papéis de gênero“.

Vamos lá, até aqui eu cuspi tanta informação, nomes e datas que alguns provavelmente nem se lembram que era para estarmos falando de tudo isso com base em um anime, para começo de conversa (rs). Então vamos aproveitar exatamente o anime para dar alguma materialidade ao que eu disse acima, a respeito dos papéis de gênero. Isso porque em suas respectivas buscas para se verem (e serem vistos, claro) como pertencentes ao gênero com o qual se identificam, Nitori e Takatsuki assumem comportamentos que são estereotípicos de feminilidade e masculinidade, respectivamente. Nitori, por exemplo, o faz nas vestimentas, buscando sempre usar saias ou vestidos. Já Takatsuki tem o excelente exemplo de seu cabelo, que procura sempre manter curto. E eu trago aqui estes exemplos em especial para notar o seguinte: mesmo quando poderiam optar por elementos neutros, ambos escolhem buscar pelo que é socialmente visto como mais identificado com o gênero ao qual sentem pertencer. Explicando essa frase: Nitori escolhe, sempre que pode, o uso de vestidos e saias, embora calças também venham em modelos femininos; já Takatsuki escolhe manter o cabelo curto, ainda que, e isso até mesmo Chiba aponta, meninos também possam ter cabelo longo. De certa forma, nós podemos dizer que roupas são muito mais do que apenas tecidos: elas são símbolos. Ao longo da história humana, roupas foram usadas para expressar todo tipo de coisa, como status social, pertencimento a uma casta e, é lógico, gênero. Um vestido é símbolo de feminilidade, da mesma forma que cabelo curto é símbolo de masculinidade.

Uma peça de roupa é mais do que puro tecido: elas também podem representar coisas. Um vestido, por exemplo, é um símbolo de feminilidade.
Uma peça de roupa é mais do que puro tecido: elas também podem representar coisas. Um vestido, por exemplo, é um símbolo de feminilidade.

É por isso que em seu livro Gender Trouble (“Problema de Gênero”, em tradução livre), de 1990, a filósofa americana Judith Butler defende que, em essência, “gênero” é uma performance. De certa forma retomando Beauvoir, para Butler “gênero” não é algo com que se nasce, mas sim algo que a pessoa se torna. E se torna mediante a conformação a certas normas sociais. Que tipos de roupas vestir. Que corte de cabelo usar. Com que brinquedos brincar. De que desenhos gostar. De que cor gostar. Lentamente as pessoas vão sendo “moldadas” a se encaixarem nos padrões tidos como apropriados para o seu gênero. Mas agora eu pergunto ao leitor: isto (estes padrões) é natural? Ok, vamos tirar isso do caminho: eu acredito que nenhum de nós irá discordar que é o mais comum. Mas reforço: é natural? Bom… não. Peguemos as roupas como exemplo. Em si, mesmo as roupas não são algo natural: ninguém nasce com roupas, nem está inscrito no DNA humano que devemos fabricá-las. Mas é verdade que apesar disso quase toda sociedade humana desenvolveu algum conceito de vestimenta, ainda que mínimo. De simples tangas a intrincadas armaduras, é difícil pensarmos em uma só sociedade que nunca tenha desenvolvido nada remotamente parecido com uma peça de roupa. E, ao menos, até onde sei, a vasta maioria das sociedades confeccionou roupas diferentes para homens e para mulheres. Então ainda que não natural, o conceito de vestimenta é muito possivelmente universal na espécie humana, com o conceito de roupas diferentes de acordo com o gênero de uma pessoa estando também bem próximo do universal. Mas enquanto isso é verdade, também é verdade que as diferenças nas roupas podem variar drasticamente de cultura para cultura. Um vestido é um artigo tipicamente feminino na nossa cultura, mas batinas, togas e yukatas, estruturalmente bastante semelhantes aos nossos vestidos longos, são intrinsecamente unissex. E enquanto uma saia curta é também um artigo tipicamente feminino para nós, no Egito antigo uma espécie de saia curta era um artigo tipicamente masculino.

É justamente por isso que temos declarações como o já mencionado verbete da Organização Mundial da Saúde, que define “gênero” como sendo as “características socialmente construídas de homem e mulher”. O que é apropriado a um homem e o que é apropriado a uma mulher, na vasta maioria dos casos, é algo socialmente construído. Ou seja, é algo particular a uma sociedade, que de forma nenhuma é universal ou mesmo atemporal. Pelo contrário! Peguemos, por exemplo, a associação do rosa com a feminilidade. Rosa é cor de menina. Simples, certo? Bom… lembram que eu disse que vocês iam ler bastante ao longo desse texto a frase “não é tão simples assim”? Pois é: em um interessante artigo para o site Mental Floss, intitulado When Did Pink Become a “Girl” Color? (“Quando Rosa se Tornou uma Cor de Menina?”, em tradução livre), nós podemos ver que durante algum tempo o que ocorreu foi o exato oposto: durante grande parte da história dos Estados Unidos, rosa ser uma cor “de menina” poderia depender de onde você morava. Enquanto algumas regiões de fato adotavam o sistema que conhecemos hoje (azul para meninos e rosa para meninas), outros faziam o oposto (azul para meninas e rosa para meninos). O artigo inclusive cita um outro artigo, de 1918, que defendia que o rosa, por ser uma cor derivada do vermelho (uma cor associada com a agressividade), deveria ser uma cor tipicamente masculina. É somente depois do final da Segunda Guerra Mundial, lá para as décadas de 1950 e 1960, que o rosa efetivamente se institui como uma cor feminina. Ou seja rosa é uma “cor de menina” há pouco mais de sessenta anos! Essa é a própria definição de algo socialmente construído! E se fossemos pesquisar a história de outras coisas e comportamentos que consideramos “tipicamente femininos” ou “tipicamente masculinos” provavelmente poderíamos encontrar o ponto em que esse comportamento surgiu e a sociedade na qual surgiu.

O que é
O que é “de menina” e o que é “de menino”? A verdade é que isso pode variar de acordo com o tempo e o local.

É a isso que muitos acadêmicos se referem quando dizem que “gênero” é socialmente construído. Retomemos a pergunta que iniciou toda essa divagação: do que são feitos os garotos e garotas? Bom, um dos “ingredientes” (por assim dizer) é definitivamente social. Uma pessoa é um “homem” enquanto age de acordo com aquilo que a sociedade coloca como padrões de masculinidade, e é uma “mulher” conforme age de acordo com os padrões de feminilidade. E como o que é propriamente masculino e o que é propriamente feminino pode variar de cultura para cultura, a noção de “homem” e “mulher” também o pode. Inclusive, sendo gênero uma performance, como coloca Butler, ele não está limitado a apenas dois papéis: mais de uma cultura já instituiu o conceito de um “terceiro gênero“, no sentido de instituir práticas, comportamentos e representações que não são próprias nem a homens, nem a mulheres, mas sim a um terceiro grupo de pessoas (ou mesmo a um quarto ou quinto grupos, como é o caso do povo Bugis, na Indonésia, cuja cultura possui a noção de 5 gênero, cada qual com seus próprios atributos e papéis sociais). Possivelmente os Hijra, encontrados sobretudo na Índia e no Paquistão, são o caso mais famoso do tipo, mas diversos outros existem. Mas isso não é tudo! Enquanto cada sociedade tem seus padrões de comportamento para homens e mulheres, podemos lembrar o aviso de Hirschfeld de que ambos são apenas extremos de um espectro. Inclusive, extremos quase inexistentes: todo homem teria em si algo de feminino, e toda mulher algo de masculino. Justamente por isso, é fácil encontrarmos pessoas que estão em algum lugar “no meio” deste espectro, ainda que imagino que a maioria tenda com mais força para um ou outro extremo. E algo interessante a se notar: no anime, praticamente todos os personagens se enquadrariam, em algum nível, no que Hirschfeld chamou de “intermediários”: aqueles que não são nem 100% masculinos, nem 100% femininos (ou seja, praticamente todo mundo, ao menos na lógica de Hirschfeld [rs]). Mas falo mais disso depois.

Agora… como eu disse, um dos “ingredientes” é social. Mas se nos lembrarmos rapidamente do que eu havia mencionado sobre a divisão proposta por John Money, que praticamente instituiu “gênero” como um campo de estudos sociais, a ideia dele foi a de separar gênero de uma outra coisa: o sexo biológico. Passamos os últimos parágrafos falando do que é “gênero”, mas e quanto ao sexo? Certamente a distinção entre macho e fêmea deve ser simples, clara e exata, correto? Bom… Acho que a maioria de vocês já espera esta resposta, mas aqui vai de qualquer forma: não. Em fato, quando Hirschfeld coloca a ideia de sexo como um espectro, ele se refere decididamente ao sexo de fato, não ao gênero (embora, justiça seja feita, escrevendo em 1910 ele nem poderia ter conhecimento desta divisão, então suas colocações misturam elementos biológicos e comportamentais). Pode parecer chocante, mas a verdade é que nossas divisões entre “macho” e “fêmea” pode ser bem mais artificial do que gostaríamos de pensar. Tanto é, que no já mencionado livro Gender Trouble, de Butler, a autora defende que sexo é exatamente como gênero: socialmente construído. E sim, eu sei o quanto essa frase parece forçada. Calma! Me dê pelo menos alguns parágrafos para me explicar antes de ir direto para a seção de comentários me xingar (XD). E para tratar disso, eu vou me referir não a Butler, mas à Hirschfeld.

Taktsuki sugere comprar um sutiã para Nitori.
Taktsuki sugere comprar um sutiã para Nitori. Qual o papel da biologia na formação da identidade de gênero de uma pessoa?

No seu já mencionado livro Transvestites: the Erotic Drive to Cross-Dress, Hirschfeld estabeleceu quatro critérios para a determinação do sexo de uma pessoa. Os dois primeiros dizem respeitos às características sexuais primárias e secundárias, o terceiro se refere ao desejo sexual e o quarto a outras características emotivas. Cada um destes quatro pontos, porém, cria em si um espectro. Mas foquemos nos dois primeiros por hora, completamente biológicos. Embora estejamos acostumados a pensar na espécie humana como dividida rigidamente entre dois sexos claramente distintos, isso não é exatamente verdade. Tal como diversas outras espécies de animais, a espécie humana pode apresentar diversos níveis de intersexualidade, indivíduos que podem apresentar características sexuais (primarias e/ou secundárias, inclusive) de ambos os sexos. E embora, ao menos até onde eu saiba, a espécie humana ainda não tenha visto um caso de pleno hermafroditismo, com um indivíduo tendo ambos os órgãos sexuais perfeitamente desenvolvidos e sendo capaz de produzir ambos os gametas (ou seja, óvulo e espermatozoide, para os que estavam dormindo nas aulas de biologia do ensino médio [tipo eu -q]), nós encontramos diversos níveis de intersexuais, desde, digamos, uma pessoa com corpo tipicamente feminino, mas com um pênis (ou o contrário, um corpo mais próximo do masculino, mas com uma vagina), até casos mais óbvios, como indivíduos possuindo, digamos, um testículo e um ovário, por exemplo. Eu não quero entrar em detalhes até para não deixar esse texto talvez explícito demais no linguajar, mas acho que já puderam pegar a ideia. Ao dividir as pessoas em “homens” e “mulheres” com base na genitália, ignora-se completamente este outro grupo de pessoas. É por isso que depois Butler irá dizer que mesmo o sexo é algo socialmente construído: nossa noção de que todo e qualquer indivíduo obrigatoriamente sempre será ou biologicamente homem ou biologicamente mulher, é falsa. Ou, na melhor das hipóteses, uma meia verdade.

E, abrindo aqui um rápido parênteses, para um intersexual, essa divisão rígida e monolítica entre homem e mulher pode até mesmo ser perigosa. Isso porque não faltam casos na literatura médica mundial de indivíduo nascidos com algum nível de intersexualidade e que, ainda na infância, passaram por alguma cirurgia para que seus copos se adequassem a um ou outro gênero. E qual seria o problema nisso? Simples: você não pode fazer a mínima ideia de com qual gênero um bebê vai se identifica no futuro, o que, imagino, poderia abrir margem para o desenvolvimento posterior de disforia de gênero. Mas não apenas isso: medicamente falando, normalmente a condição de intersexualidade não traz nenhum risco de vida para a pessoa, o que significa que forçar uma cirurgia significa obrigar o indivíduo a passar por um procedimento cirúrgico bastante invasivo única e exclusivamente porque, para a sociedade, a pessoa tem de ser um ou outro, ou homem “ideal” ou mulher “ideal”. É justamente por isso que nós temos algo como os Princípios de Yogyakarta, que já em seu 3º Princípio atesta que ninguém pode ser forçado a passar por uma cirurgia de mudança de sexo. Inclusive, aliás, os transexuais: a decisão de passar ou não por uma cirurgia do tipo é inteiramente do indivíduo. Alguns escolhem a cirurgia; outros escolhem apenas o tratamento hormonal; e alguns simplesmente preferem não realizar nenhuma mudança em seus corpos. E é importante dizer: embora estas diferentes decisões expressem diferentes níveis de descontentamento com o próprio sexo biológico, todos continuam sendo casos de transexualidade. Passar ou não por uma cirurgia de troca de sexo não define em nada se a pessoa é transexual ou não, é importante ter isso em mente.

Chiba pergunta se Nitori pretende realizar uma operação de mudança de sexo quando crescer.
Chiba pergunta se Nitori pretende realizar uma operação de mudança de sexo quando crescer.

“Ta, pera um pouco!” (poderia dizer o leitor) “eu lembro sim das aulas de biologia do colégio, ok? E apesar de todos esses meio-termos sociais e biológicos ai, na genética nós vemos claramente uma divisão em dois e apenas dois: homens são XY e mulheres são XX, simples assim, não é?” Bom… não! Vamos lá: justiça seja feita, ainda não foi encontrada uma só espécie no planeta que tivesse mais do que dois tipos dos chamados “cromossomos sexuais”. Nesse ponto, a divisão em dois está tecnicamente certa, uma pessoa só pode ter, como cromossomos sexuais, X ou Y, ok até aqui. Porém, e isso mostra como muitas vezes o que nós aprendemos na escola está distante das pesquisas mais recentes do meio acadêmico, a noção de que uma pessoa sempre será XX ou XY está errada (o que nós aprendemos na escola, vide aquela enorme lista de “variações” genéticas que você provavelmente teve que decorar para passar na prova, onde víamos combinações genéticas como uma pessoa XXX ou mesmo X0), e a noção de que todo indivíduo XY será do sexo masculino e todo indivíduo XX do feminino também está. Tanto é que a Intersex Society of North America mantém em seu site o texto Does having a Y chromosome make someone a man? (“Ter um cromossomo Y torna a pessoa um homem?”, em tradução livre), com a resposta da pergunta-título sendo um claro e sonoro “não“. Agora, o texto é levemente carregado em jargões, especialmente do campo da genética, mas eu vou tentar “traduzir” o que ele diz da forma mais clara que eu puder. Basicamente, o que o texto aponta é que se a pessoa será fenotipicamente um homem ou uma mulher é algo decidido através da produção de certas proteínas. A combinação XX irá produzir as proteínas responsáveis por formar uma mulher, enquanto que a XY aquelas necessárias para a formação de um homem. Só que: 1) os cromossomos X e Y não são os únicos responsáveis pela diferenciação sexual (em fato, o texto aponta para um mínimo de 30 genes envolvidos nesse processo, sendo que destes 30 [pasmem] apenas 3 estão localizados no cromossomos X e 1 no Y), e 2) é possível que a ação dos genes responsáveis pela diferenciação sexual que estão nos cromossomos X ou Y seja inibida, resultando em alguém XX com um corpo tipicamente masculino, ou alguém XY com um corpo tipicamente feminino.

Tudo isso para dizer: se você tentar dizer o gênero de uma pessoa tomando por base apenas a sua fisionomia ou a sua genética, bem… são boas as chances de algo dar muito errado ai. Digo, é verdade que para a maioria das pessoas isso não seria tão problemático: é preciso reconhecer que a vasta maioria daqueles que nasceram XY e possuem uma fisionomia masculina irão se identificar como homens, por exemplo. Mas o ponto a ser feito aqui é que uma coisa não necessariamente segue a outra. Tentando ser o mais claro possível: a sua aparência e a sua genética não determinam o seu gênero mais do que as roupas que você usa. Não é tão simples assim. Mas então… o que determina? Demos uma volta imensa e voltamos ao ponto de partida: o que torna uma pessoa um menino ou uma menina? Nada? A pessoa simplesmente acorda um dia e diz “de hoje em diante, eu vou ser uma mulher”, ou coisa do tipo? Eu não acho que alguém aqui concorde com essa colocação, mas o problema se mantém! O que torna uma pessoa um homem ou uma mulher?! Bom… O que eu vou dizer agora pode parecer estranho a princípio, mas é bastante possível que a transexualidade em si possa nos ajudar a melhor entender o que nos faz… bom, nós. Mas para entender isso nós precisamos deixar de lado essas “coisas” que nós normalmente pensamos quando falamos em identidade de gênero (roupas, fisionomia, genética, etc.) e voltarmos nossa atenção para aquele que é o órgão mais importante na formação da identidade de um indivíduo: o cérebro.

Diferentes, porém iguais: nossos cérebros certamente tem grande importância em moldar o nosso comportamento e personalidades. Teria ele um papel determinante na nossa identidade de gênero?
Encarregados de escreverem o roteiro para uma peça de sua escola, os personagens se reúnem na casa da Chiba para começaram o trabalho.

Em seu artigo de 2008, intitulado A sex difference in the hypothalamic uncinate nucleus: relationship to gender identity (Ta… o dia que eu descobrir o que é um “hypothalamic uncinate nucleus” eu tento traduzir esse título ‘-‘), 

Amigo de Chiba, Fumiya acidentalmente deixa escapar para todos que Nitori gosta de usar roupas femininas
Amigo de Chiba, Fumiya acidentalmente deixa escapar para todos que Nitori gosta de usar roupas femininas

Em uma interessante palestra, realizada em 2015 para o Center for Values in Medicine, Science, and Technology, intitulada Sex, Brain, and Culture: The Science and Pseudoscience of Gender Difference (“Sexo, Cérebro e Cultura: a Ciência e a Pseudociência da Diferenciação de Gênero”, em tradução livre), neurocientista Lise Eliot apresenta diversos estudos que vêm comprovando que, em primeiro lugar, a diferença entre os cérebros “masculinos” e “femininos” é absurdamente menor do que se costuma enunciar (ao ponto da palestrando falar com todas as letras que não existe um “cérebro masculino” e um “cérebro feminino”) e, em segundo lugar, a vasta maioria das diferenças comportamentais e psiquiátricas referentes a gênero, nos seres humanos, começam a aparecer somente após uma certa idade, a dizer, mais ou menos por volta dos 2 ou 3 anos de idade. Cedo, sim, sem dúvida nenhuma. Mas, ainda assim, não cedo o bastante para que possamos considerar como “de nascença”. Então… é, ao que parece nós “aprendemos” a sermos meninos ou meninas da mesma forma que aprendemos a falar ou a andar: cedo, mas não nascendo saber. Bom… Ao menos a maior parte. Porque, e isso é interessante, alguns comportamentos de fato mostram algum nível de diferenciação sexual desde bem cedo. Por exemplo, existe uma tendência a meninos serem mais agressivos do que as meninas, e essa diferença pode ser notada desde bem cedo, embora ela vá sendo acentuada conforme as crianças crescem. E eu levanto a questão da agressividade porque, e isso é interessante de notar, é curioso como o anime trabalha essa questão. Dentre a nossa dupla protagonista, Nitori e Taktsuki, Takatsuki demonstra bem mais agressividade, inclusive que outros meninos do anime. Já Nitori, por sua vez, apresenta uma postura bem mais calma e contida. Em fato, pensando aqui em extremos estereotípicos, eu diria que Nitori é talvez a personagem mais estereotipadamente feminina do anime, enquanto que Takatsuki seria a mais estereotipadamente masculina, ao menos no que diz respeito ao comportamento de ambos (bom, o comportamento e as vestimentas, como eu mencionei bem lá em cima).

Mas como nota final nesse assunto do cérebro e o comportamento, é válido lembrarmos o aviso de Hirschfeld. Lembram como eu disse que o autor propôs quatro pontos que, em coerência, perfazem o que entendemos por “homem” e “mulher”? Dois desses pontos, biológicos, eu abordei mais acima, mas agora é um bom momento para retomar os outros dois. Isso porque ambos (a lembrar, o desejo sexual e outras características emocionais) dizem respeito justamente ao comportamento: se estamos diante de um indivídio de personalidade mais agressiva e ativa (seja no ato sexual, ou no dia a dia), ou se estamos diante de um indivíduo de postura mais passiva e submissa (de novo, seja na cama ou no dia a dia). E enquanto tendemos a ver o primeiro grupo como os homens e o segundo grupo como as mulheres, Hirschfeld aponta que não é tão simples assim. Em fato, é bastante comum encontrarmos mulheres de personalidade mais forte e agressiva, bem como homens de personalidade mais passiva e submissa (e eu aposto que o leitor consegue pensar em pelo menos um amigo ou conhecido assim, isso se você próprio não o for). E, interessantemente, o anime bem nos mostra essa nuance: com eu disse antes, praticamente todos os personagens do anime apresentam traços de personalidades que seriam mais esperados do gênero oposto, sem, porém, demonstrarem qualquer descontentamento com seu sexo, com o caso mais óbvio sendo, certamente, o de Sarashina (auto-declarada menina, explicitamente atesta que não tem nenhum interesse em mudar seu sexo, mas ainda assim frequentemente usa um uniforme masculino para a escola, além de possuir talvez uma das personalidades mais ativas e agressivas do anime, e certamente a mais extrovertida).

Do núcleo principal de personagens, Takatsuki demonstra ter uma personalidade relativamente mais agressiva.
Do núcleo principal de personagens, Takatsuki demonstra ter uma personalidade relativamente mais agressiva.

Retomemos, pela última vez, a pergunta que deu início a tudo isso: o que torna uma pessoa um homem ou uma mulher? Sem querer, de forma alguma, dar uma resposta definitiva, eu vou dizer aqui a minha opinião com base em tudo o que eu pesquisei e li a respeito. Ao que me parece, o primeiro ponto a considerar é que a identidade de gênero precede os papéis de gênero. Ou seja: primeiro a pessoa se identifica como pertencente a um gênero, e depois expressa esse gênero das mais variadas formas (inclusive: sejam essas formas condizentes ou não com o que a sociedade esperaria daquele gênero, embora eu diria que na maioria das vezes elas serão). Ademais, eu também consideraria que a identidade de gênero de uma pessoa é algo, em essência, desgarrado da sua anatomia sexual (ou seja, de qual é o órgão sexual da pessoa), bem como da sua genética (ou, no caso, dos chamados “cromossomos sexuais”). E sim, é óbvio que, para a vasta maioria das pessoas, a um (sua biologia) segue o outro (seu gênero), mas o que pude ver é que este não é necessariamente sempre o caso, esse é o ponto aqui. Ao que me parece, nossa identidade de gênero é, sobretudo, cerebral. Porém, a questão da plasticidade do nosso cérebro torna muito difícil (isso se não praticamente impossível) dizer quais características ditas como “típicas” de cada gênero são de fato características intrínsecas a cada sexo (se alguma) e quais seriam fruto da nossa convivência em sociedade (de novo, se alguma). Porém, fica bastante evidente que, qualquer que seja o caso, a nossa identidade de gênero já está muito bem formada ainda bem cedo na nossa vida, por volta dos dois ou três anos de idade. É por isso, aliás, que muitos transexuais (ainda que nem todos, que fique claro) já apresentam sinais de desconforto com seu gênero desde a infância. Neste sentido, a escolha do anime de trabalhar o tema a partir de um grupo de crianças foi bastante feliz, apresentando ao espectador a noção de que nossa identidade de gênero não é algo que escolhemos ao bel prazer, mas sim algo que já está conosco desde bem cedo em nossas vidas.

Inclusive, e isto fica como uma espécie de “nota final” em toda essa discussão de gênero e transexualidade, o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (“Manual Diagnóstico e Estatístico de Distúrbios Mentais”, em tradução livre), coloca o Transtorno de Identidade de Gênero em Crianças como tendo o seu próprio verbete, no qual o transtorno é descrito praticamente da forma que o vemos no anime: aparecendo mesmo antes da puberdade e caracterizado por um forte desejo de pertencer ao sexo oposto, bem como um descontentamento para com o próprio sexo (embora, verdade seja dita, na maior parte do anime ambos os personagens provavelmente receberiam o já mencionado diagnóstico de disforia de gênero, dado que o anime praticamente começa com eles prestes a entrarem na puberdade). Mas antes de encerrar o texto propriamente dito, tem mais dois rápidos assuntos que eu gostaria de tratar, o primeiro deles sendo a questão da orientação sexual. Agora, eu não vou me estender nesse assunto em especial, tanto porque já dei uma rápida introdução no começo deste texto, como porque eu já fiz alguns comentários um pouco mais aprofundados na minha review de Hourou Musuko, cujo link está lá no segundo parágrafo. Eu só queria mesmo reforçar que orientação sexual não tem nenhuma relação direta e intrínseca com a identidade de gênero. Da mesma forma que um homem ou uma mulher podem ser héteros ou homossexuais, o mesmo vale para os transexuais: qualquer que seja o gênero com o qual se identificam, isso não necessariamente nos diz qual a sua orientação sexual (algo que, inclusive, o anime soube mostrar bem, colocando Nitori como se apaixonando inicialmente por Takatsuki e, posteriormente, pela Anna, uma amiga de sua irmã). O último assunto, porém, vai exigir um outro parágrafo, mas é um assunto que um texto destes não poderia simplesmente ignorar: as dificuldades e perigos enfrentados pelos transexuais.

Nitori e Anna
Nitori e Anna

Agora, sendo bem sincero, de forma geral o anime é bastante “gentil” ao tratar da forma como a transexualidade é encarada pelas pessoas. Por ser um anime com uma preocupação mais psicológica do que social (sua preocupação é mostrar como os personagens encaram a si mesmos, e não como encaram o mundo), a questão do preconceito só aparece mais para o final do anime, quando Nitori se torna alvo de bullying por parte de sua classe. Mas mesmo esse conflito não leva nem dois episódios para ser “resolvido” e serve bem pouco como parâmetro para qualquer coisa. E assim: é totalmente possível que essa seja realmente a situação dos transexuais no Japão, um grupo que vai encontrar alguns problemas na infância e adolescência, mas que não será efetivamente mal tratado por adultos. Infelizmente, a verdade é que eu não tenho a menor ideia de até que ponto o anime retrata fielmente a sociedade japonesa ou não, mas saindo do Japão e vindo aqui para o ocidente… as coisas não estão indo nada bem, isso eu posso dizer. Em fato, em seu episódio sobre transexualidade para o programa Last Week Tonight, o apresentador John Oliver nos apresenta alguns dados que são no mínimo preocupantes, no que se refere aos transexuais dos EUA: dos participantes envolvidos nas pesquisas, 12% relataram já ter sofrido violência sexual, 35% relatam terem sido fisicamente agredidos, 41% já tentaram suicídio, e 78% relatam algum tipo de assédio. E se vocês acharem isso ruim, o que dizer então desta noticia do portal Terra, de 2014, que nos informa que o Brasil, segundo pesquisas de uma ONG, é o país com o maior número de assassinatos de travestis e transexuais no mundo, com 486 mortes entre 2008 e 2013? E parem para pensar no seguinte: essa pesquisa contou apenas as mortes relatadas. Mortes não relatadas e qualquer outra forma de discriminação ou ataque a esses grupos não foram contadas, então apenas imaginem a situação geral quando temos dados que indicam quase 100 mortes ao ano. Isso dá quase um travesti ou transexual sendo assassinado a cada quatro dias! Faço minhas as palavras de John Oliver: “estas estatísticas são tão deprimentes que bastam para te deixar irritado com o próprio conceito de números”.

Mas… fiquemos por aqui, por mais triste que talvez seja encerrar o texto em uma nota não lá muito agradável. Ao final, o que podemos concluir de tudo o que foi dito é que as questões de identidade de gênero e transexualidade são muito mais complicadas do que poderíamos supor a princípio. E, de certa forma, não poderia ser de outro jeito. Afinal, estamos falando de identidades aqui. Quem e o que eu sou, bem como qual o meu lugar neste mundo. A maioria de nós já deve ter se feito perguntas do tipo e aposto que a maioria não conseguiu chegar a uma resposta única e definitiva para todas elas. Normal. O ser humano é complicado, e muito. Mas… em certo sentido, é isso que nos torna tão interessantes (bom… ao menos eu acho [rs]). Somos todos diferentes, e ainda assim fazemos todos as mesmas perguntas em busca das mesmas respostas. Perto do final do anime, Chiba diz que via Nitori como um menino especial, mas que estava começando a repensar isso. A este comentário, Takatsuki responde que… bom, talvez ele fosse. E a Chiba, e todos os demais. Todos são especiais, de alguma forma. O que é talvez clichê de se dizer, mas, bem, não deixa de ser verdade. Hirschfeld, no seu já mencionado Transvestites: the Erotic Drive to Cross-Dress, chega a dizer, quando se refere ao espectro de gênero, que tal como não se encontram duas folhas iguais em uma árvore, cada ser humano é diferente um do outro. Longe de demonizar ou atacar as diferenças, o que deveríamos fazer é aceitá-las e abraçá-las. Ou, no mínimo, ao menos respeitá-las.

Notas:

1 – Susan Stryker e Stephen Whittle, “The Transgender Studies Reader“, pág. 35

2 – Idem. (no original: “These kinds of absolute representatives of their sex are, however, first of all only abstractions, invented extremes; in reality they have not as yet been observed, but rather we have been able to prove that in every man, even if only to a small degree, there ir his origin from the woman, in every woman the corresponding remains of manly origins”)

Imagens (na ordem em que aparecem):

01 – Hourou Musuko – Episódio 1

02 – Hourou Musuko – Episódio 1

03 – Hourou Musuko – Episódio 1

04 – Hourou Musuko – Episódio 1

05 – Hourou Musuko – Episódio 3

06 – Hourou Musuko – Episódio 4

07 – Hourou Musuko – Episódio 4

08 – Hourou Musuko – Episódio 4

09 – Hourou Musuko – Episódio 5

10 – Hourou Musuko – Episódio 5

11 – Hourou Musuko – Episódio 5

12 – Hourou Musuko – Episódio 11

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6 comentários sobre “Hourou Musuko – Identidade de Gênero e Transexualidade

  1. Esse tema certamente é muito mais complexo do que eu jamais imaginei. Até bem pouco tempo atrás eu colocava todas as “anomalias” sexuais numa caixinha só, era tudo a mesma coisa pra mim. E é muito impressionante, e até mesmo assustador, ver o quão enganado eu estava e quão vasto e incerto é o tema da sexualidade.

    E o anime traz o assunto da melhor forma que eu consigo imaginar, sem julgar os personagens ou seus problemas, mas tratando a transexualidade como um fenômeno natural. Não é culpa de ninguém e com certeza não é uma escolha. Apenas acontece. E como foi bem destacado na review é essa leveza e naturalidade que torna a obra tão boa. Uma das passagens que eu acho muito boa é logo depois do Nitori ter ido à escola vestido de menina e os pais dele sentam com ele na mesa pra falar sobre o acontecido. Seria muito fácil criar um verdadeiro dramalhão nisso (e seria totalmente compreensível se isso acontecesse), mas não, o assunto é negligenciado. E o que normalmente é um demérito, aqui a coisa acontece de maneira tão natural que fica incrível. Afinal, é só se colocar no lugar dos pais pra perceber que a resposta não é nada simples.

    Agora, eu fico curioso pra saber como será a vida do Nitori. No final do anime fica implícito que ele aceita as mudanças que acontecerão no seu corpo. Isso, aliado a atração que ele sente pela Anna (não sei se cabe a generalização para todas as meninas, já que ele via a Takatsuki como menino) poderia indicar que ele aceitaria viver como um homem, mesmo descontente em um certo nível?

    Excelente texto, parabéns.

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    • Bom, primeiramente, que bom que gostou do texto ^^

      Sobre esse último parágrafo, eu recomendaria dar uma lida no mangá. O anime adapta literalmente o meio do mangá (acho que pega dos volumes 5 ao 12, se não estiver muito enganado), e do pouco que eu sei do mangá ele segue até a vida adulta do Nitori. Vale a pena dar uma olhada, acho que lá explica melhor como ele passa a ver o próprio gênero a partir desse ponto do final do anime (embora eu to praticamente chutando, eu mesmo to bem no começo do mangá ainda kkkkk)

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  2. Nossa, texto excelente, didático – embora eu tenha pulado algumas linhas aqui e ali, então desculpe-me caso eu comente algo já mencionado de alguma forma.

    Minha única ressalva é quanto à parte biológica mesmo. O cérebro, por mais interferências sociais que sofra, faz parte do corpo – ele é o corpo. Somos seres bio-psico-sociais (ou algo próximo a isso), afinal. Com isso quero dizer que o comportamento de um ser humano pode ser X e, de acordo com suas experiências, modelar-se a partir dos mais diversos motivos, enquanto o corpo [humano] não consegue acompanhar esse processo.

    A divisão social entre ser homem ou mulher atrapalha bastante a noção de que uma pessoa pode identificar-se com um gênero “80% feminino e 20% masculino”, exemplificando brutalmente. É pertinente comparar incoincidência entre identificação de gênero e sexo com animais – mais precisamente os com ausência de genitália externa – que conseguem ‘trocar de sexo’ durante a vida. A esponja é um ser que consegue fazer isso com facilidade, teoricamente, pois pode regular sua produção hormonal para que as características físicas sejam compatíveis com as comportamentais. É nisto que eu queria colocar foco: a questão comportamental é biológica, apesar de nossas definições sociais de homem e mulher (e o fato em si de só termos dois gêneros genéricos para basear nossas concepções) acabarem afetando seu desenvolvimento.

    O jogo de cintura seria compartilhar com as pessoas a ideia de que cada indivíduo é único e igualmente complexo. Abrir mais portas de identificação, ‘desconstruir padrões’, como gostamos de falar. Porque, por exemplo, um homem transexual pode ter um gosto ou outro – seja por influência social ou não – que seja comumente relacionado mais ao gosto feminino. Isso acaba incomodando porque a primeira coisa que a maioria pensa quando uma mulher diz que gosta de futebol é que ela é homossexual. Nossas ideias sociais em relação a atividades masculinas ou femininas têm relação com nosso passado biológico, porém não indicam, necessariamente, características definitivas de cada gênero; e sim, justamente, ignorância e uma simplificação quanto à magnitude do assunto.

    Ah, no estudo citado (da Alicia Garcia-Falgueras e Dick F. Swaab), você trocou a definição de homem trans. É a essa pesquisa mesmo que eu queria me referir quando falo sobre comportamento estar associado à genética, a quando nós nascemos. Algo como: eu sou o que sou, e isso não me impede de criar a minha identidade da forma que eu quiser. Claro, os problemas psicológicos surgem quase inevitavelmente em pessoas trans, isso Hourou Musuko trabalha relativamente bem <33

    Obrigada pelo texto, e desculpe qualquer erro. See ya.

    ~kisus

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    • Bom, em primeiro lugar, obrigado o aviso sobre a confusão com termos lá no estudo de Alicia e Dick ^^ Já editei o texto pra arrumar esse problema (é tenso, as vezes releio esses textos várias vezes mesmo depois de publicar e mesmo assim alguns erros ainda passam desapercebidos kkkkkk).

      Sobre a questão biológica, eu realmente não sei bem o que pensar a esse respeito. Vale lembrar que o estudo citado foi feito com cérebros já de adultos, se bem me lembro, enquanto que os argumentos em favor de uma espécie de “socialização do gênero”, de que comportamentos tipicamente femininos ou masculinos vem da socialização no meio ao invés da biologia intrínseca, apontam sobretudo para os primeiros anos de vida para mostrar a pouca diferenciação entre os sexos. É uma questão complicada ainda em debate, eu precisaria estudar bem mais pra conseguir formar uma opinião definitiva no assunto x_x Mas por agora eu sinceramente acho que o social talvez seja UM POUCO mais influente do que o biológico nos primeiro anos de vida, quando a plasticidade cerebral ainda é maior. Depois desses anos acho que ai a questão se inverte e o biológico plenamente desenvolvido toma a primazia (espero que isso tenha feito sentido kkkk), mas claro, como disso ainda é um assunto que eu precisa pesquisar bem mais pra ter uma opinião mais consistente.

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  3. No final o texto traz mais duvidas doq respostas kkk (afinal, oq o conhecimento traz q n seja vc saber q n sabe de nada?), quando eu comecei a ler o texto eu pensava q ia ser um ataque contra os LGBTs ou um ataque contra quem ataca os LGBTs (ficou um pouco confuso mas td bem), e vejo aqui um artigo científico explicando os motivos de alguem q nasce com os cromossomos XY, e que supostamente deveria ter o sexo e genero masculino, e o contrario tb (alguem q nasce com os cromossomos XX supostamente ter o genero e sexo feminino) tendo o sexo, ou o genero, ou os dois, do sexo oposto, e realmente, isso é “utilidade pública” kkk.
    Apesar da pergunta principal n ter sido respondida, uma coisa é, no caso, q o respeito por essas pessoas é algo obviamente necessário, e uma pena q os numeros de ataques contra eles sejam tão altos, principalmente aqui no Brasil …

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    • Sem dúvidas é um assunto bem complicado, e que bem mostra o quão pouco ainda sabemos sobre como funciona o ser humano. É como vc disse, quanto mais sabemos de algo, mais sabemos que não sabemos é nada kkkkk.

      E com certeza o respeito é fundamental. Independente dos motivos que levem à transexualidade (ou mesmo outras questões de gênero ou de sexualidade fora da “curva comum”, por assim dizer), todos merecem respeito e é de fato uma pena o que os números vem mostrando =/

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