Review – Summer Wars (Mangá)

"Summer Wars", volumes 1, 2 e 3. Editora JBC.
“Summer Wars”, volumes 1, 2 e 3. Editora JBC.

Em 2009 chegava aos cinemas japoneses o filme Summer Wars, do conhecido diretor Mamoru Hosoda, com animação feita pelo estúdio Madhouse. No filme, temos uma trama relativamente simples: Koiso Kenji, um garoto ensino médio com um talento anormal para matemática, é chamado por Shinohara Natsuki, sua veterana, para um “bico” de alguns dias, que aparentemente consistia em acompanhá-la em uma viagem ao interior. Animado com a ideia, ele aceita sem perguntar maiores detalhes, somente para depois descobrir que o verdadeiro objetivo de Natsuki era conseguir um namorado falso para apresentar à sua família no aniversário de 90 anos de sua bisavó. Mas ter de bancar o namorado será o menor dos problemas de Kenji. “Oz”, um mundo virtual que se tornou praticamente um sinônimo da internet, por meio do qual absolutamente tudo pode ser feito, de transações bancárias ao controle dos vários sistemas de uma cidade, desde o de transporte até o controle de emergências e a distribuição de água. Na sua primeira noite na casa dos parentes de Natsuki, Kenji recebe em seu celular uma sequência de mais de 2000 dígitos numéricos, com o título “resolva-me”. A decifrar o código e enviar sua resposta, Kenji tem sua conta em Oz roubada. Mas não apenas isso: o que ele acabara de decifrar era justamente o sistema de segurança de Oz, permitindo a alguém invadir e hackear o sistema. Agora, o mundo inteiro corre perigo enquanto o aparentemente inofensivo Oz se mostra a mais perigosa arma já desenvolvida.

Em um geral, o filme foi muito bem recebido pela crítica e pelo público, tendo um enorme sucesso não apenas no Japão como também em diversos outros países. Mas… Não estou aqui para falar do filme, como podem imaginar. Apenas três meses após a exibição do filme, uma versão em mangá, de autoria de Iqura Sugimoto, começou a ser serializada na revista mensal seinen Young Ace. O nome da adaptação se manteve como Summer Wars e a trama é virtualmente idêntica à do filme, tendo resultado em um total de 3 volumes, que chegaram a ser publicados no Brasil pela editora JBC em 2011. Bom, nesse momento alguns devem estar se perguntando porque eu pretendo falar do mangá, ao invés de fazer uma resenha do filme, que é a obra original. O motivo disso é porque, bem, o mangá é simplesmente melhor. Sim, trata-se de um daqueles raríssimos casos onde temos uma adaptação que efetivamente consegue superar a obra original, ao menos na minha opinião. Para falar mais a respeito eu vou precisar começar a entrar em spoilers, então acho melhor ir parando por aqui. Tanto o filme como o mangá são obras excelentes e bastante divertidas, que definitivamente valem a pena serem vistos, então vá dar uma conferida se ainda não o fez. Isso dito, spoilers a partir daqui, prossiga por sua conta e risco (rs).

Antes de qualquer coisa, eu prefiro começar esta review já tirando uma pedra do caminho, que é o motivo de eu considerar o mangá como sendo melhor do que o filme: tempo. Por melhor que tenha sido, o filme precisou contar toda a sua história em pouco menos de duas horas de animação, incluindo nisso créditos de abertura e créditos finais. O mangá, por outro lado, pode contar com 13 capítulos de em torno de 40 páginas (o padrão para um mangá mensal), distribuídos em três volumes. É um ritmo completamente diferente, com o mangá tendo muito mais tempo para se desenvolver do que o filme. Como resultado, o mangá conseguiu adicionar algumas cenas que ou não existiam na animação original, ou tiveram de ser cortadas para diminuir a duração do filme. E estas cenas fazem a diferença, podem acreditar. Graças a elas, este mangá consegue fazer uso de um recurso que eu gosto bastante, mas que é bem difícil de ser utilizado: foreshadowing. Para quem não sabe, essa “técnica”, se podemos chamar assim, consiste em colocar no começo de uma obra, de forma bastante sutil, elementos que viriam a ser mais utilizados posteriormente, de forma que quando eles re-aparecem não soam como algo forçado ou de última hora. E este mangá sabe fazer isto com maestria. Desde pontos relativamente mais “bobos” (como o Kazuma treinando artes marciais com um dos tios da Natsuki antes de ser revelado que ele é o “King Kazma”, o melhor lutador de artes marciais de Oz) até elementos que depois se mostram fundamentais para a trama posteriormente (como a profissão de cada um dos tios e parentes da Natsuki), difícil é achar algo neste mangá que não é mencionado mais cedo, ao menos se você prestar atenção.

Mas não é apenas por isso que eu considero o mangá como sendo melhor do que o filme, é claro. O tempo extra permitiu ao mangá trabalhar algo que, honestamente, o filme trabalhou de forma bem mais apressada: os personagens e suas relações uns com os outros. No mangá, temos um começo onde já fica pré-estabelecido que Kenji gosta da Natsuki, ao passo que no filme isso fica mais implícito do que qualquer outra coisa. Dizer com todas as letras o quanto Kenji é apaixonado pela veterana dá um peso completamente diferente quando, mais tarde, a “vovó” (em fato a bisavó de Natsuki) pergunta a ele se ele estaria disposto a arriscar a vida pela menina, ao que ele responde que sim. Inclusive, de modo geral o relacionamento dos dois personagens é muito bem trabalhado, com o romance entre eles se desenvolvendo de uma forma relativamente natural (ou pelo menos bem mais natural do que no filme). Mas não apenas a relação entre estes dois personagens. Todas as relações entre todos os personagens são bem trabalhadas, no mínimo o bastante para que, mesmo que com um elenco de personagens absurdamente enorme, sejamos capazes de entender como pensam, como se sentem e como interagem cada um dos membros dessa família. Mesmo no plano individual, os personagens são muito bem trabalhados e recebem um pouco mais de profundidade na história.

O complexo de inferioridade do Kenji é bem mais explorado, mas é esse complexo que permite que ele se identifique com o “vilão” da trama, Wabisuke, dando um pequeno discurso para a “vovó” que permite mesmo ao leitor melhor entender (e mesmo perdoar) o antagonista. O perfeccionismo e auto-cobrança de Kazuma também é levemente mais aprofundado no mangá, dando um peso bem grande à tristeza que ele sente por seu fracasso vencer o vírus Love Machine e proteger sua mãe e irmã por nascer. Wabisuke também ganha algumas cenas a mais no mangá, que contam seu passado e complexo de inferioridade, que novamente cumprem o papel do ajudar o leitor a entender (e perdoar) as falhas do personagem, Finalmente, temos Natsuki, que aqui pareceu ganhar uma importância bem maior do que tem no filme. Não no quesito de trama ou mesmo de tempo em cena, mas sim dentro daquela família. Fica implícito, no mangá, que com a morte da “vovó” será a Natsuki a “herdeira” natural do posto de matriarca da família. Ela parece ser a pessoa que ainda é capaz de manter aquela família unida, de entender e ouvir aos demais e de guiá-los conforme for possível. Quando é ela que recebe a responsabilidade de parar a Love Machine e proteger a própria família, simplesmente… faz sentido. Ela não é a protagonista. Mal consegue ser uma coadjuvante direito. Mas dentro daquela família, ela é o laço que mantém e manterá a todos unidos, uma singela metáfora para a nova geração assumindo o posto da antiga (e mesmo se encarregando de proteger a antiga).

Natsuke e sua família apostam suas contas em um jogo de Hanafuda.
Natsuke e sua família apostam suas contas em um jogo de Hanafuda contra a Love Machine.

E aproveitando o gancho, falemos exatamente disso: das pequenas metáforas e mensagens que o mangá nos passa. Deixando de lado a trama, quais são os assuntos deste mangá? A temática dele? Bom… A uma primeira olhada, parece óbvio: família. Todo o mangá é, assim como o filme, intrinsecamente sobre família. Sobre os laços e relações que os unem, as interações que têm uns com os outros, as desavenças, a conciliações… Toda a história procura nos passar o que seria a imagem de uma família “ideal”, no sentido de uma família que, sim, brigam e discutem, mas que ainda se mantém unidos e procuram sempre se ajudar e se apoiar mutuamente. Mas… eu acho que podemos ir um pouco além disso. Quando a Love Machine faz seu primeiro “ataque”, a “vovó” faz algumas ligações para tentar ajudar a acalmar o caos. Vinda de uma família de samurais e com quase 90 anos de uma vida muito bem vivida, a “vovó” não liga apenas para sua família, filhos e netos, mas também para conhecidos, amigos, ex-alunos e colegas… Mais para o final da história, quando Natsuki está apostando as contas de sua família contra a Love Machine, 13% dos usuários de Oz entregam suas contas a ela, para que pudessem ser usadas para salvar as famílias de todos de um iminente desastre nuclear. Não apenas sobre família, para mim esse mangá fala sobretudo sobre o pertencimento à uma comunidade. Parentes, amigos, conhecidos, colegas… É interessante ver como a história vai progressivamente expandindo. Começamos com nosso casal protagonista, Natsuki e Kenji. Expandimos então para a família da Natsuki, reunida na casa da sua bisavó. Após o ataque da Love Machine expandimos de novo para todos os conhecidos da “vovó”. E terminamos a trama com usuários de Oz do mundo todo prestando seu apoio à Natsuki. Um agrupamento de pessoas, unidas em torno de um objetivo comum. Tendo ou não laços de sangue, mesmo estando ou não no mesmo lugar, sabem que podem contar uns com os outros. Isto, para mim, é a perfeita definição do que é uma comunidade, não apenas uma família.

Claro, em um menor grau a história também pode ser considerada uma crítica à internet e aos riscos que ela pode trazer. Toda a situação de iminente desastre só pode chegar àquele ponto pois as pessoas aceitaram reunir absolutamente tudo em Oz, desde lojas virtuais até serviços do governo tão perigosos quanto o setor militar. Mas enquanto algo como Oz está certamente bem longe da nossa realidade, a internet em si é bastante semelhante. Cyber-terrorismo é um termo real e um perigo igualmente real. O uso da internet para compartilhar e armazenar informações também possibilita o roubo de informações, que podem levar a consequências ainda inimagináveis. É verdade que serviços governamentais importantes muitas vezes estão protegidos por excelentes sistemas de segurança, isso quando não possuem sistemas próprios completamente à parte da internet, mas todo esse investimento em proteção só prova o quão perigoso poderia ser se tais sistemas pudessem ser burlados ou invadidos. Ao final, quanto mais dependentes da tecnologia nós ficamos, maiores serão os problemas caso algum dia ela venha a dar algum defeito. Coincidência ou não, a IA Love Machine tem um nome bem parecido com um vírus bem poderoso do começo dos anos 2000, o ILOVEYOU (“I Love You”, do inglês “Eu Te Amo”), que chegou a infectar aproximadamente 10% de todos os computadores com acesso à internet no mundo, re-enviando cópias de si mesmo por e-mail. Pessoalmente, eu sempre pensei que o nome da IA fosse por conta do desejo do Wabisuke de reparar seus erros e poder voltar para a família. Sempre desejando a apreciação dos outros, parece simplesmente natural dar esse nome ao programa que ele esperava que o garantisse isso, mas não deixa de ser uma coincidência digna de nota (isso se não for efetivamente uma referência, o que é bem possível, dado o impacto e a força desse vírus).

Tudo isso dito, tem apenas uma crítica que eu gostaria de fazer à obra. Apesar de ter personagens interessantes com um ótimo entrosamento e uma trama leve, mas com algumas mensagens um pouco mais profundas, o meu maior problema com Summer Wars é que tudo na história parece… conveniente demais. Começamos o mangá com um dos maiores gênios da matemática que aquele mundo pode oferecer, o que será fundamental na trama mais adiante. Logo em seguida, ele é convenientemente chamado pela garota na qual tem um interesse romântico para fingir ser o seu namorado por pouco menos de uma semana. Quando a Love Machine ataca, descobrimos que King Kazma, o maior lutador de artes marciais de Oz, é um dos membro da família da Natsuki presentes no encontro familiar. Logo depois, descobrimos que o criador da Love Machine também é um membro da família da Natsuki. E quando Kenji, Kazuma e alguns adultos preparam um plano de contra-ataque à Love Machine, temos que alguns parentes da Natsuki conseguem um verdadeiro super-computador de última geração, um enorme barco para geração de energia, e uma antena modular para transmissão de micro-ondas (seja lá o que for isso…)! Mesmo mais para o final, a carta-testamento da “vovó” surge justamente no momento em que precisávamos de um motivo para a família não odiar o Wabisuke. Isso sem contar a própria existência de Oz, como eu mencionei mais acima. Individualmente eu conseguiria plenamente engolir um ou dois desses pontos, mas todos juntos… Eu diria assim: a história é boa e bem conduzida o bastante para você aceitar essas conveniências, mas fica na mente aquela sensação de “deus ex-machina“, mesmo com toda a questão do foreshadowing que eu mencionei no começo desse texto.

Mas sinceramente, essa a única crítica que eu teria para fazer. Num geral, o mangá é uma excelente história, com personagens bem desenvolvidos e interessantes e uma trama que te mantém grudado na história até o final. Eu li os três volumes de uma vez só e definitivamente valeu a pena a leitura. Não apenas faz jus à obra original como ainda consegue ser melhor do que ela em muitos aspectos. Quer você conheça ou não o filme, esse é um mangá que vale a pena por si só e é uma leitura mais do que recomendada. E claro, se você ainda não viu o filme eu posso dizer que também vale muito a pena. Animação impecável e excelente trilha sonora, apesar de em termos de narrativa e desenvolvimento dos personagens eu realmente preferir o mangá, tem coisas que somente uma animação pode te proporcionar, afinal.

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Site da editora JBC

2 – Summer Wars (Filme)

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