Antigamente era melhor?

Clássicos e influentes, Neon Genesis Evangelion (1995) e Mahou Shoujo Madoka Magica (2011) marcaram época.
Clássicos e influentes, Neon Genesis Evangelion (1995) e Mahou Shoujo Madoka Magica (2011) marcaram época.

Frequentemente, ressurge, de novo e de novo, o conhecido debate entre o hoje e o ontem. Tal e qual o antigo mito grego, onde a uma era de ouro sucede uma de prata e depois outra de bronze, em uma continua decadência da humanidade, aparentemente alguns fãs assim veem a industria de animes: em um continuo declínio onde antigamente era tudo muito melhor. Seria, talvez, efeito de pura nostalgia, do tipo que leva a uma pessoa que cresceu brincando na rua com peões e pipas a olhar com desdém para as crianças que, hoje, passam seu tempo em frente à televisão e ao computador? Seria talvez puro desconhecimento e falta de informação, do exato mesmo tipo que leva, hoje, a coisas como protestos pela volta da ditadura militar? Ou, por que não, estariam eles certos? Não seria o passado realmente melhor? Não é como se o progresso fosse obrigatório ou uma lei natural, aplicável a absolutamente todas as coisas e todas as esferas da existência. As coisas podem piorar, não há nada que impeça isso, então será que é este o caso? Será que realmente antigamente era melhor? Pelo menos no caso dos animes, dado que este blog é voltado justamente para isso: será que antigamente era melhor do que hoje? Bom… como quase toda pergunta, podemos dar uma resposta curta e simples: é complicado. Já para a resposta longa e detalhada… bom, é pra isso que serve o resto desse texto (rs).

O grande problema dessa questão é que para respondê-la nós precisamos definir (e muito bem definido, diga-se de passagem) dois conceitos: o de “antigamente” e o de “melhor”. Quanto tempo eu preciso voltar para ser considerado “antigamente”? Até a temporada passada de animes? Cinco anos atrás? Dez anos atrás? Trinta anos atrás? O mais provável, verdade seja dita, é que cada um que usa desse argumento de que “antigamente era melhor” está pensando em uma data diferente. Aqueles que nasceram nos anos 1980 possivelmente se referem aos animes de finais da década de 80 e início dos anos 90. Já os que nasceram na década de 1990 possivelmente se referem a obras que vão até, grosso modo, o começo dos anos 2000. E se concordam que estas eram melhores que as atuais, possivelmente discordariam de qual seria a melhor época, se os anos 1980, 1990 ou 2000. E o conceito de “melhor” não é nem um pouco menos complicado. Melhor em que? Animação? História? Personagem? Traço? De novo, o mais comum é que cada pessoa estará pensando em um ponto ou conjunto de pontos diferentes. Alguns podem argumentar que preferem o traço, designe e coloração dos animes de antigamente, enquanto outros podem apontar que as tramas eram melhor construídas, melhor trabalhadas e com menos clichês. Mas novamente, podem discordar em outros pontos. Nestes meus dois exemplos, o primeiro pode achar as tramas atuais mais inovadoras, enquanto o segundo pode achar o traço atual bem mais bonito. Como eu disse: é complicado!

Astro Boy (1963); Mobile Suit Gundam (1979); Cowboy Bebop (1998) e Fullmetal Alchemist: Brotherhood (2009). O quanto é preciso voltar para ser considerado
Astro Boy (1963); Mobile Suit Gundam (1979); Cowboy Bebop (1998) e Fullmetal Alchemist: Brotherhood (2009). O quanto é preciso voltar para ser considerado “antigamente”?

Mas esses não são os únicos problemas do argumento de que antigamente os animes eram melhores, de forma nenhuma. Outro problema tão grave quanto é o que eu chamaria de “efeito afunilamento”. Peguemos uma época antiga qualquer, digamos, meados da década de 1990. De todos os animes que foram produzidos nessa época, apenas uma pequena fração veio para o Brasil, seja por meio de alguma distribuidora, de algum canal de televisão, ou mesmo de forma pirata, em fitas de VHS copiadas nos fundos da casa de alguém. Isso significa que já houve uma seleção prévia daquilo que pudemos ver. E, e aqui está o problema, quando alguém fala de animes dessa época (anos 90, 80, 70, antes da popularização de fansubs e muito antes ainda de serviços legalizados como o Crunchyroll e o Netflix), grandes são as chances que ele está pensando em animes que chegaram ao Brasil por meio exatamente dessa seleção prévia. E ainda que eu queira evitar de insinuar que esta foi uma seleção perfeita, na qual só a nata da nata dos animes veio para o Brasil (o que definitivamente não é verdade), são boas as chances que as maiores porcarias efetivamente não vieram. Inclusive, se você for daqueles que acredita que antigamente os animes eram melhores, eu gostaria que fizesse um teste. Pegue qualquer temporada de animes e se pergunte quais deles nunca passariam na TV aberta. E logo depois se pergunte quais animes daquela temporada você acha ruins. Se houver ai uma sobreposição e a maioria dos animes que você considera ruins provavelmente não passariam na TV aberta, já pode começar a imaginar que muito provavelmente foi o que aconteceu há vinte ou trinta anos atrás.

Mas esse não é o único afunilamento! Além de termos de falar em termos dos animes que vieram para o Brasil, ainda precisamos falar em termos dos animes que as pessoas viram e gostaram. Obras que agradaram ficam na memória, enquanto aquelas que não lhe chamaram a atenção você provavelmente deixou de ver ainda quando criança mesmo, de forma que provavelmente não vai se lembrar delas agora, dez ou vinte anos depois. Aliás, isso me leva ao terceiro afunilamento: o tempo. Mesmo que uma obra tenha vindo para o país e você tenha gostado quando criança, isso ainda não garante que você vá se lembrar dela agora! Na verdade, quantas vezes você não viu o nome ou uma imagem de um desenho que você adorava quando criança, mas simplesmente havia se esquecido? E é aqui que chego no meu ponto: quando alguém fala dos animes “de antigamente” está falando de uma fração de uma fração de uma fração do todo! Será que dá mesmo para fazer um comparativo disso com hoje, onde tanto serviços legalizados quanto irregulares garantem o acesso à vasta maioria das obras lançadas no Japão? Que tipo de comparação seria essa? É mesmo justa? E olha que eu nem entrei aqui no ponto da quantidade bruta. Atualmente existem muito mais animes do que antes, então é simplesmente lógico se imaginar que hoje vai ter muito mais porcaria, basicamente porque tem muito mais de tudo! Para a comparação ser justa, o ideal seria que pudéssemos observar a proporção, quantas obras boas para quantas ruins. Mas fazer essa proporção se torna mais e mais difícil quanto mais para trás no tempo voltamos, justamente por conta daqueles três filtros que eu mencionei. Então como fica? É pura e simplesmente impossível fazer uma comparação? Bom… não exatamente.

Cavaleiros do Zodiaco, exibido pela Rede Record, e Dragon ball, exibido pelo SBT: antigamente, dependíamos bastante das emissoras para ter acesso aos animes.
Cavaleiros do Zodiaco, exibido pela Rede Record, e Dragon ball, exibido pelo SBT: antigamente, dependíamos bastante das emissoras para ter acesso aos animes.

O problema fundamental aqui é a amostra. Se formos querer analisar a qualidade geral de uma época com base em todas as suas obras, ou mesmo com base na relação entre obras boas e ruins, eis ai uma tarefa hercúlea que provavelmente é, além de impraticável, fadada ao fracasso. Mas podemos diminuir a amostra! A ideia aqui seria não mais olhar cada anime individualmente e concluir se ele é bom ou ruim, mas sim procurar nos animes certos padrões e recorrências que nos ajudem a ter uma visão geral da época em que ele foi produzido. Notem bem: uma visão geral, não completa. Por exemplo, não precisamos ver todas as adaptações de shounen dos anos 1990 e 2000 para traçarmos a conclusão de que havia uma tendência geral na época por animes mais longos, enquanto que eu também não preciso ver cada anime lançado nos últimos cinco anos para concluir que atualmente prevalece uma média de 12 a 24 episódios. Isso da pra fazer. Mas (sempre tem um, né?), isso nos traz um problema de outra ordem. Constatações não tem valor avaliativo. Antigamente os animes eram mais longos. Ta, e? Isto é o que eu chamaria de uma constatação vazia de sentido. É como apontar para o céu ensolarado ao meio dia e dizer que o céu é azul. Está correto, mas que raios eu faço com essa informação? E ai que está: enquanto esse método permite alguma comparação, em que medida esses elementos comparados afetam a qualidade geral das obras de uma época é bastante subjetivo. Uma pessoa pode achar melhor que os animes tenham menos episódios, enquanto que outra prefere animes mais longos. Quem tem razão e por quê? Isso que esse é apenas um debate que poderia surgir de uma comparação destas, imaginem fazer isso para cada ponto passível de ser comparado. Entendem agora por que eu disse que responder a uma questão dessas é complicado?!

Tudo isso para dizer: o mais provável é que uma discussão desse assunto irá cair em puro gosto pessoal e nostalgia. Você gosta mais da meia duzia de animes que viu quando tinha 12 anos do que dos animes atuais? Então é claro que vai achar que antigamente era tudo melhor. Mas pera, você não tem nenhum interesse pelos animes de antigamente, mas cada nova temporada de animes está vendo 4 ou 5 obras? Então obviamente irá achar que hoje está muito melhor. Em suma, é tudo muito subjetivo! E é subjetivo porque fazer uma comparação objetiva seria absurdamente difícil! E sinceramente… mesmo que tivéssemos a paciência de fazer comparativos temáticos entre, sei lá, a década de 1980 e os anos 2000, o mais provável é que veríamos que, de maneira geral, os animes melhoraram em algumas coisas, pioraram em outras, apenas mudaram em algumas, e não mudaram em nada em outras. Por exemplo, animação. Com os recursos tecnológicos atuais, uma obra de grande orçamento, hoje, tem maiores chances de ter uma animação mais fluida do que uma obra de grande orçamento de vinte ou trinta anos atrás. Mas ai levanta a questão: enquanto indubitavelmente as técnicas de animação se aprimoraram, podemos ser tão categóricos em dizer que os animes de antigamente tinham uma animação ruim sem levar em conta a sua época? Mesmo que o anime tenha tido uma animação excepcional se justamente levarmos em conta a sua época? Seria justo exigir de uma época algo que era absolutamente impossível para ela conseguir?

Os avanços tecnológicos permitiram o surgimento de excelentes animações, como bem mostra o anime Fate/Zero, de 2011
Os avanços tecnológicos permitiram o surgimento de excelentes animações, como bem mostra o anime Fate/Zero, de 2011

Fora que, como eu disse, algumas coisas apenas mudaram. Nem para a melhor, nem para a pior, apenas mudaram. Traço, por exemplo. Muito se reclama do traço atual, que é, considerando a maioria das obras lançadas, mais puxado para o moe, o “fofo”, o “bonitinho”. Mas antigamente também havia um “traço que mais se destacava”, se assim podemos chamar. Tanto é que os animes se popularizaram como aquelas obras com personagens de rostos arredondados e olhos enormes, um estereótipo que, arriscaria dizer, se mantém até hoje. Como dizer qual traço é melhor? É puro gosto pessoal. Você pode preferir um ou outro, é claro, mas eu desafio qualquer um a me dizer, objetivamente, porque um seria melhor do que o outro. E isso pode ser aplicado a diversos outros elementos! Coloração é um deles, obras antigas tendiam a uma palheta de cores mais fortes e mais escuras, enquanto que as atuais tendem a ter cores mais leves e vibrantes. De novo, qual é o melhor? Vai do gosto de cada um. Isso ainda sem contar os elementos que não mostram qualquer mudança significativa. Trilha sonora é um exemplo: talvez o elemento que mais pode variar de obra a obra, justamente por isso fica difícil perceber tendências e, por consequência, mudanças ao longo do tempo.

E sim, é verdade, houve mudanças ao longo do tempo que nós poderíamos dizer que foi para a pior. Um exemplo que me vem à mente é a tendência moderna de se adaptar, em um anime curto, obras ainda inacabadas, o que normalmente implica em animes de 12 ou 25 episódios com um final em aberto, onde nada é explicado ou concluído. Sim, muitas vezes já há uma segunda temporada em produção (“Magi: The Labirinth of Magic” e “Log Horizon”, por exemplo, já tinham sua segunda temporada prenunciada logo ao final da primeira), mas outras vezes não. Em muitos casos, é a popularidade do anime o fator decisivo para uma próxima temporada, mas essa popularidade pode ser demorada de se medir. “Shingeki no Kyojin” estreou em 2013 e só ganhará uma segunda temporada em 2017. “Durarara” é de 2010 e só teve uma segunda temporada em 2015. E esses são os casos em que houve uma próxima temporada, muitas vezes o final em aberto é o único final que teremos. Mas um ou outro ponto de uma possível “piora” não elimina outros pontos de clara melhora. No final, acaba que se os animes “melhoraram” ou “pioraram” com o tempo vai depender do critério de julgamento que a pessoa tem e dos pontos que ela considera mais importantes na hora de avaliar uma obra. De novo: se torna algo bastante subjetivo!

Mesmo com sua enorme popularidade, a segunda temporada de Shingeki no Kyojin está marcada para ter início somente em 2016, 3 anos depois da estéria da primeira.
Mesmo com sua enorme popularidade, a segunda temporada de Shingeki no Kyojin está marcada para ter início somente em 2016, 3 anos depois da estreia da primeira.

Sendo bastante sincero, eu mesmo não consigo gostar dos rumos que os animes andam tomando atualmente. A verdade é que estamos em um momento bastante delicado para a indústria de animes como um todo. Em primeiro lugar, pelos estúdios claramente não terem os mesmos recursos financeiros que tinham antigamente, o que resulta em obras mais curtas (e com finais em aberto, como eu já mencionei acima) e, muitas vezes, de baixa qualidade técnica para os padrões atuais. Mas além disso, tudo têm indicado que a industria de animes tem se voltado mais e mais para o nicho otaku, procurando produzir obras que agradem a este nicho em específico. Dai termos uma quase overdose de obras focadas em moe, ecchi e harém, já que é o tipo de obra que mais permite a venda de produtos licenciados (e por “produtos” entendam “estatuetas das personagens femininas em roupas de banho”). O problema é que ao se focar num nicho a industria passa a depender da reprodução orgânica daquele nicho. Se isso não acontece ou não acontece a uma velocidade que substitua os atuais consumidores, em breve a industria irá quebrar, simples assim. Claro, uma frase assim é absurdamente fatalista e eu de forma nenhuma acredito que isso vá acontecer. Apenas quis mencionar o fim último de se ater a agradar apenas a um grupo, ao invés de se buscar atender o máximo de pessoas que for possível. Mas eu também preciso dar o braço a torcer e pensar que para essas pessoas, que gostam do moeecchi e tudo mais, essa agora possivelmente seria a melhor época para se ver animes. No final, é tudo uma questão de ponto de vista.

Então… Antigamente era melhor? Depende de cada um. Do que cada um valoriza, do que cada um prefere, das experiências na infância e agora. E na minha opinião, sinceramente, qualquer tentativa de dar uma resposta definitiva a esta questão está, desde o início, fadada ao fracasso. Em fato, a própria tentativa de querer categorizar uma época como melhor ou pior do que a outra já é, em si mesma, falha. “Melhor” e “pior” não são conceitos objetivamente definidos, mas algo que pode variar drasticamente de pessoa a pessoa. L. P. Hartley certa vez escreveu: “the past is a foreign country: they do things differently there” (algo como “o passado é um país estrangeiro: as pessoas fazem as coisas de forma diferente por lá”, em tradução livre). E ai está o ponto: nem melhor, nem pior, apenas diferente. Os animes de antigamente eram melhores? Não. Mas também não eram piores. Tinham pontos positivos e negativos, assim como os animes atuais. Muita coisa boa, muita porcaria. Boas tendências e tendências ruins. Podemos tentar apontar pontos específicos de melhora e piora, mas em última análise não é possível dizer, objetiva e decisivamente, qual época era ou é a melhor.

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – (da esquerda para a direita) Neon Genesis Evangelion – Episódio 1 e Mahou Shoujo Madoka Magica – Episódio 1.

2 – (da esquerda para a direita) Astro Boy (1963), Mobile Suit Gundam (1979), Cowboy Bebop (1998) e Fullmetal Alchemist: Brotherhood (2009).

3 – (da esquerda para a direita) Os Cavaleiros Do Zodiaco (Verão Brasileira) – Episódio 1 e Dragon Ball – Episódio 1

4 – Fate/Zero – Episódio 1

5 – Shingeki no Kyojin – Episódio 1

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