Uma Breve Análise – Youjo Senki: Conclusão Temática

Tanya Degurechaff

Existe mais de uma forma de se concluir uma história, e enquanto eu assumidamente aprecio muito mais conclusões narrativas, nas quais todas as pontas soltas da trama são amarradas em um todo coeso, eu também posso apreciar um final aberto, mas que conclui a obra ao menos tematicamente. E Youjo Senki, anime de 12 episódios produzido pelo estúdio NUT, tem um final exatamente assim.

Rapidamente, lembremos sobre o que é, de fato, a história de Youjo Senki. No episódio 1, somos introduzidos à nossa protagonista, Tanya, uma garotinha que parece ter galgado posições no exército de seu país. Isso por conta de seus poderes mágicos, úteis na guerra que está sendo travada entre duas nações, uma das quais o Império do qual Tanya é cidadã. Dito isso, a motivação da menina claramente passa longe de qualquer ideal patriótico, e ela por vezes soa como uma pura sadista. Antes de dizer mais, porém, é bom deixar o aviso: spoilers a frente, incluindo ai spoilers do final da obra.

O segundo episódio, por sua vez, nos fornece o backstory da personagem, mostrando que ela é, em fato, a reencarnação de uma outra pessoa: um assalariado do Japão moderno, que, ao estar prestes a morrer, tem uma breve conversa com Deus. Nessa conversa, Deus, enfadado, lamenta como falta fé ao homem moderno, ao que o assalariado responde que isso é apenas natural, dado um mundo no qual a ciência e a tecnologia podem prover todas as necessidades humanas.

Deus, então, decide fazer um teste, fazendo esse homem reencarnar em um mundo imerso no caos e na destruição, a fim de ver se uma situação desesperadora poderia despertar a fé de alguém. Assim chegamos à Tanya, que, no entanto, decide, teimosa, que fará de tudo para permanecer independente e autossuficiente, a fim de nunca precisar confiar em Deus.

Uma história sobre a irracionalidade humana.

Pulando para o final do anime, é interessante considerar como, no quadro maior, praticamente nada mudou, seja aquele mundo, seja a Tanya. Talvez soe injusto dizer isso, dado que de fato houve mudança. Uma aparente vitória do Império na guerra fez o conflito escalonar para a primeira guerra mundial daquele universo, ao passo que é possível dizer que a própria Tanya se tornou bem mais sociável, ao menos para com seus colegas de batalhão.

Mas é como eu disse, eu me refiro aqui ao quadro maior. A guerra pode ter aumentado, mas o estado de guerra permanece. E, ao final, Tanya segue tão teimosa para com Deus quanto começou. Tudo isso, porém, não ocorre sem propósito.

Ao final, Youjo Senki se mostra uma obra sobre a tolice humana. A conversa final de Tanya com Erich von Rerugen enfatiza justamente esse ponto, de como a humanidade é formada por indivíduos irracionais, que tomam decisões movidos pelas paixões do momento. E, pouco depois, em um monólogo próprio, Tanya ainda tece algumas considerações sobra a contradição fundamental da guerra: si vis pacem, para bellum; se queres paz, te prepara para a guerra.

Tais considerações servem justamente para explicar porque a guerra não poderia acabar. Para uma espécie movida pelas paixões e que busca até mesmo a paz por meio da violência é mais do que natural que o conflito não poderia ter fim. Nesse sentido, o final mais apropriado é justamente aquele no qual a guerra não acaba.

No final, Tanya é humana também.

Semelhantemente, a falta de avanço na relação entre Tanya e Deus pode ser encarada de forma similar. Ela é, afinal, humana, sujeita às mesmas paixões e irracionalidades que os demais, quer ela reconheça isso ou não. E se ela pode parecer calma e controlada na frente de seus subordinados, na presença de Deus ela expõe esse seu lado mais violento e emotivo – portanto, seu lado mais humano.

Claro, há de se argumentar que o final do anime se deve tão somente ao fato da obra não adaptar a toda a light novel original, e certamente há uma grande verdade nisso. Ainda assim, escolher onde terminar uma adaptação quando da impossibilidade de se adaptar tudo é também a marca de um roteiro competente, e nisso Youjo Senki conseguiu escolher talvez o melhor ponto possível para terminar.

E sim, há de se argumentar que a mensagem final se revela então bastante pessimista, no mínimo. Mas isso não necessariamente é uma coisa ruim. Gostemos ou não do que o anime diz, há de se concordar que ele tem um ponto. Mas esse é o ponto de partida: o que fazer após isso, fica a critério de cada um. Pode dar de ombros e concordar que assim caminha a humanidade, ou pode discordar e fazer algo a respeito. Afinal, ninguém é obrigado a aceitar as ideias da obras que assiste.

Em todo caso, e voltando ao ponto inicial, agora para finalizá-lo, enquanto Youjo Senki se mantém aberto narrativamente, a obra consegue tornar mesmo esse seu final aberto em uma faceta de sua mensagem final, assim a fechando ao menos tematicamente. Talvez para alguns esse final não soe como tão satisfatório, mas ei, há de se apreciá-lo também… Bom, ao menos eu acho isso.

Outros artigos que podem lhe interessar:

Review – Ginga Eiyuu Densetsu

Vamos falar sobre animação

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Youjo Senki, episódio 1

2 – Youjo Senki, episódio 12

3 – Youjo Senki, episódio 12

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s