Review – Fune wo Amu (Anime)

Fune wo Amu

Você já se perguntou como é feito um dicionário? Quais as diferentes etapas que vão na produção de um, quanto tempo essa produção pode demorar, e quais as pessoas envolvidas nesse trabalho? Eu vou chutar e dizer que muito provavelmente você nunca deu muita atenção a essas perguntas. Em fato, você talvez nem tenha tido muito contato com dicionários em primeiro lugar. No passado, era muito mais simples apenas perguntar a alguém o que uma palavra significava, e hoje a internet está ai, mais que capaz de lhe dar a resposta a dúvidas do tipo. Assim, é compreensível que a premissa de Fune wo Amu não tenha chamado a atenção de lá grande parcela do meio otaku. Uma produção em 11 episódios do estúdio Zexcs, com direção de Toshimasa Kunoyanagi e roteiro de Takuya Sato, o anime de 2016 adapta ao livro homônimo de Shion Miura sobre uma pequena equipe da editora Genbu Shobo que deseja criar um novo e atualizado dicionário: A Grande Passagem. Acontece que um dos membros está deixando a equipe, e precisa encontrar alguém pra substituí-lo. E é aqui que entra o nosso protagonista, Majime Mitsuya.

Tal sinopse, porém, faz pouco em termos de capturar o real apelo do anime. Fune wo Amu foi ao ar no bloco noitaminA, um quadro da Fuji TV voltado para animes que busquem ter apelo para além do meio otaku, e tal concepção fica bastante aparente na obra. É um anime claramente mais voltado para o público adulto, lidando com dramas e situações comuns a essa faixa etária. Tematicamente, é uma história que trabalha com a comunicação, e o papel vital das palavras nesse processo. E como anime, é uma obra que sabe muito bem como usar da mídia em que está inserida, com ocasionais metáforas visuais e trilha sonora que sabe dar o tom da cena. E claro, tudo isso se complementando com um elenco de personagens carismáticos, cujas interações conseguem soar incrivelmente naturais. Quem ainda não conhece esse anime, fica a minha recomendação para que o faça. Mesmo que a premissa pareça tediosa, vamos lembrar que o Japão já se provou mais que capaz de tornar até as mais mundanas situações em algo interessante. Além disso, fica o aviso de sempre: haverá spoilers a partir daqui.

Majime Mitsuya

Em primeiro lugar, demos um pouco de atenção ao que o anime tem de melhor: a sua trilha sonora. Honestamente, não é exagero quando digo que esta talvez seja a melhor parte de Fune wo Amu, e isso muito por conta de como o anime sabe usar dela. No meu texto O que faz uma boa trilha sonora? eu procurei argumentar como a resposta para a pergunta título era o quão “presente” ela de fato era na cena. Se uma dada cena seria basicamente a mesma sem o acompanhamento musical, então temos aqui uma trilha sonora ruim: é apenas ruído, estando ali pura e simplesmente porque nos acostumamos com a ideia de “trilha sonora” a tal nível que o puro silêncio parece estranho e desconfortável (não a toa, quando uma obra de fato usa do silêncio são normalmente estas impressões que ela busca evocar). No caso específico de Fune wo Amu, a música serve muitas vezes como um reflexo das emoções dos personagens, e o seu propósito na cena é fazer com que o espectador sinta o mesmo que eles. Algo que fica evidente sobretudo em momentos nos quais a trilha sonora assume aspectos quase épicos, tornando até as mais mundanas situações em algo grandioso.

Esta é, afinal, uma história sobre fazer um dicionário. E, para todos os efeitos, o mundo do trabalho de forma geral não é exatamente um universo dos mais emocionantes. E mesmo que tenhamos personagens extramente comprometidos com o seu trabalho, passar esse comprometimento ao espectador poderia ser bem difícil. Na pior das hipóteses, isso poderia fazer os personagens soarem demasiado artificiais, animados e empolgados com algo que ninguém realmente se importar. Nesse contexto, a trilha sonora consegue fazer o espectador se empolgar junto dos personagens, e uma vitória para eles se torna também um momento de catarse do próprio espectador. Ironicamente, porém, talvez o momento que melhor exemplifica o que quero dizer com essa última frase seja um que nada tem a ver com a produção do dicionário, ou ao menos não diretamente. Trata-se do último encontro que Nishioka tem com o professor Oda, onde, após já ter se dobrado repetidas vezes às exigências do arrogante acadêmico, Nishioka consegue virar a mesa a seu favor. O momento é acompanhado de um instrumental que muito bem enfatiza a sua vitória, e é uma cena bastante catártica para o espectador.

Nishioka confronta o professor Oda

Mas se estamos falando de aspectos técnicos, que podemos dizer do visual deste anime? Algo interessante a se notar é que Fune wo Amu bem poderia ter sido um dorama. Inclusive, antes da adaptação em anime o livro já havia sido adaptado em um filme live action. De certa forma, a decisão de fazer uma animação é uma que bem expressa a especificidade dos animes frente a outras animações, sobretudo as ocidentais. É a consciência de que desenhos animados não precisam ser apenas para crianças e pré-adolescentes, e que é possível produzir algo bom para o público adulto também. Sim, existem desenhos ocidentais voltados para adultos, mas eles normalmente são apenas versões mais “pesadas” do formato tradicional dos antigos desenhos de comédia episódicos. O slapstick continua, só que agora com sangue, palavrões e talvez algum comentário político aqui e ali: estruturalmente, conserva-se a essência dos desenhos infantis. Já os animes voltados para adultos estão muito mais próximos, em estruturas, dos seriados e novelas, e Fune wo Amu certamente se encaixa nisso.

Contudo, isso não significa que a obra não se justifique enquanto anime. Visualmente falando, ela certamente sabe usar das vantagens de sua mídia, o que fica evidente sobretudo nas eventuais metáforas visuais envolvendo o “oceano de palavras”, sobre o qual flutua um barco, disposto a auxiliar as pessoas a navegarem por aquelas águas. O simbolismo é mais do que evidente: é fácil se afogar nas próprias palavras, não conseguindo se expressar com clareza e transmitir a sua mensagem, e é para isso que podem ser úteis os dicionários ferramentas que podem lhe ajudar a escolher as melhores palavras de forma a melhor se expressar. Mas por óbvio que seja a metáfora, ela ainda é visualmente bem empregada ao longo do anime, e é algo que dificilmente poderia ser feito sem o recurso da animação. Obviamente, com a verba apropriada até daria para fazer algo semelhante em live action (e talvez o filme o tenha feito: não sei, não cheguei a assisti-lo), mas o resultado dificilmente soaria tão natural quanto soa no anime.

Palavras que pairam sobre os personagens. O anime sabe bem como usar das vantagens de sua mídia.

Deixando então os aspectos técnicos, falemos um pouco dos personagens. Agora, para todos os efeitos, os personagens em Fune wo Amu são bem caracterizados, com todo o elenco se mostrando carismático e bastante humano. O único real problema com eles seriam algumas instâncias de personagens subaproveitados, vide a Kaguya. Mas desse elenco, eu diria que dois personagens chegam a se destacar com mais intensidade: Nishioka e Majime. Inclusive, estes são os dois que mais se destacam na obra. Majime, obviamente, por seu caráter de protagonista, mas também pelas dificuldades que enfrenta para conseguir se comunicar apropriadamente. Inclusive, como nota, eu já cheguei mesmo a ver algumas pessoas comentando que o Majime talvez tivesse algum grau de autismo, dado o seu comportamento, um pensamento que eu bem consigo entender de onde vem, mas queo como o anime nunca explicitamente declarou eu prefiro não assumir. Já o Nishioka se destaca inicialmente por sua personalidade extrovertida, mas depois também por conta de seus conflitos tanto com relação ao pertencimento à equipe como com relação ao seu orgulho próprio. Mas enquanto o elenco como um todo é gostável e estes dois em particular são bem trabalhados, eu ainda diria que é nas relações entre os personagens onde o anime realmente brilha.

A amizade entre Majime e Nishioka progride de forma bastante natural, conforme ambos são se conhecendo melhor e vai surgindo um respeito mútuo entre os dois. Vemos também o respeito e o carinho que a equipe como um todo tem pelo professor Matsumoto. E claro, eu não poderia deixar de mencionar o relacionamento do Nishioka com sua namorada, Remi, com ambos tendo uma química que é difícil de encontrar nos animes, algo que os torna ao mesmo tempo um casal ideal e também bastante real. Talvez a única relação que poderia ter sido melhor trabalhada fosse a do Majime com a Kaguya. Por um lado, a rapidez com que ela progride é uma lufada de ar fresco em uma mídia que parece definida pela expressão popular “chove e não molha”. Por outro, ela talvez tenha sido rápida até demais. Digo, os dois personagens chegam a ir a literalmente um encontro antes de se declararem um para o outro, e enquanto nós vemos desde a cena na varanda como o Majime se apaixonou pela Kaguya a primeira vista, nós sabemos muito menos dos sentimentos da própria Kaguya, o que faz a confissão dela soar um tanto quanto abrupta. Embora eu acho que o fato de serem dois adultos permite que as coisas se desenvolvam sem boa parte da enrolação típica da adolescência, talvez [rs].

Os relacionamentos entre os personagens são certamente um dos pontos altos do anime

Mesmo assim, ainda é levemente desapontante como, após a declaração de ambos, nós nem chegamos a ver eles saindo juntos ou coisa do tipo. Pouco depois do episódio em que ambos começam a namorar nós temos um episódio focado no relacionamento do Nishioka, onde também trabalha a questão do orgulho próprio que comentei anteriormente, e após isso nós temos um time skip de 13 anos! Após o qual, vale dizer, Majime e Kaguya já estão casados, bem como o Nishioka com a Remi. Eu não vou mentir, parece que fica faltando alguma coisa ai, e eu realmente gostaria que o anime tivesse tido só um episódio a mais para resolver de forma mais conclusiva os conflitos colocados antes do time skip. Ah, mas não entendam mal, eu não tenho nada contra o time skip em si. Desde o começo essa história foi sobre fazer um dicionário, e também desde o começo foi deixado claro que esse seria um trabalho de mais de uma década. A conclusão mais satisfatória que a obra poderia entregar seria aquela na qual o dicionário, A Grande Passagem, ficasse pronto, e para tanto um time skip era completamente necessário. E vale dizer, a sutileza com que ele foi feito foi bem impressionante, transmitindo o que ocorreu através, sobretudo, de conversas casuais e do envelhecimento visível dos personagens.

“Natural” é um bom adjetivo para descrever Fune wo Amu. Mesmo que com talvez um ou outro momento ligeiramente mais inverossímil (é uma ficção, afinal), como um todo ele ainda é uma história bastante real. E talvez a cena que melhor ilustre isso seja a da morte do professor Matsumoto: informada ao Majime, por telefone, pela esposa do falecido. Existem diversas formas pelas quais essa cena poderia ter sido feita de forma a soar muito mais dramática. Outra obra talvez fosse ao extremo de fazer os personagens terminarem o dicionário apenas para que um deles pudesse levar uma cópia ao professor, que então veria os frutos de seu trabalho antes de morrer, com todo o elenco chorando ao seu entorno. Ou, se for para manter a ideia do telefonema, outra obra poderia facilmente fazer os personagens caírem aos prantos, talvez com o Nishioka deixando a sala de reuniões em que estava dando uma apresentação quando recebeu a mensagem da morte do professor. Qualquer uma dessas escolhas seria mais dramática, mas também bem menos realista. Fune wo Amu, porém, escolhe a versão mais verossímil: os personagens se abalam, sim, mas a vida segue. O trabalho não pode parar. E a melancolia pode esperar até que cheguem em casa.

Uma pequena ode aos dicionários

Antes de terminar a review, vale a pena comentar brevemente a temática de Fune wo Amu., embora já a tenha tangenciado ao longo deste texto. Em essência, esta é uma história sobre comunicação, e não por acaso foca em um protagonista que tem nisso o seu maior defeito. Novamente, é a metáfora do oceano de palavras, do indivíduo que tenta cruzá-lo, mas acaba por se afogar no meio do caminho, incapaz de se expressar com a clareza necessária. Nesse contexto, o dicionário aqui é bastante glorificado como a ferramenta capaz de ajudar as pessoas a se expressarem, o “barco” que permite realizar esta “grande passagem” (fune wo amu). Anacrônico? Talvez. É inegável que na era da informática publicações como os dicionários perderam muito de sua força. Mas a ideia em si de que somente saber um monte de palavras não garante que você consiga se expressar com clareza é uma que eu acho bastante válida de ser apontada. Até porque, palavras são fluidas. Mudam de significado, caem em desuso, são substituídas por outras… Em se tratando de comunicação, a forma pode ser tão – ou até mais – importante quanto o conteúdo, e nisso é bom saber com que palavras se expressar.

Fune wo Amu é um caso interessante em sua mídia. Desde o começo de 2016 temos tido consistentemente ao menos um anime por temporada que parece tentar se voltar para o público mais adulto, e Fune wo Amu cumpriu exatamente este papel. É uma história madura e bem desenvolvida, mas sem ser excessivamente complexa ou complicada. Sabe muito bem usar das especificidades de sua mídia, com excelente uso de trilha sonora e algumas metáforas visuais bem empregadas, mas para contar a história de um ambiente de trabalho até que bastante convencional. É uma obra realista, ao mesmo tempo que consegue manter o espectador interessado no que virá a seguir, em boa parte graças a um elenco de personagens carismáticos e com boas interações. E vale dizer, eu adoro como esse anime é incrivelmente bem fechadinho, com praticamente nada ali sendo inútil. Até as sequências com dicionários em formato chibi tem uma função, quando o anime revela que um destes dicionários era basicamente o mascote para A Grande Passagem. Uma obra bem escrita, bem dirigida e gostosa de assistir.

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Fune wo Amu, episódio 1

2 – Fune wo Amu, episódio 1

3 – Fune wo Amu, episódio 7

4 – Fune wo Amu, episódio 2

5 – Fune wo Amu, episódio 7

6 – Fune wo Amu, episódio 11

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