Kino no Tabi, 1º filme – “Agora, eu sou Kino”


Para fazer alguma coisa


Saindo em fevereiro de 2005, Kino no Tabi: Nanika wo Suru Tame Ni -Life Goes On- chega aos cinemas japoneses quase dois anos após o final da série animada (em julho de 2003).

Servindo de prequel para o anime, o filme de aproximada meia hora de duração foi produzido pelo mesmo estúdio daquele, A.C.G.T., mas com outro diretor (curioso, considerando que esse quadro se inverteria com o segundo filme). Assim, tomando o posto de Ryutaru Nakamura, temos aqui Takashi Watanabe na direção.

A história se passa após os eventos do quarto episódio da série, onde aprendemos sobre o passado da Kino. Aqui, vemos um pouco da sua vida cotidiana com a Mestra, referenciada de passagem em diversos episódios do anime, bem como a culpa que a garota sente pela morte do Kino.

É um filme que explora bem mais a personagem da Kino do que qualquer tema maior, ainda que haja aqui um importante comentário sobre não se prender demais ao passado. Como indica o subtítulo: life goes on, a vida continua. E é esta a lição que nossa protagonista precisará aprender aqui.

Então, e sem mais delongas, entremos de uma vez na análise.

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Mestra


A primeira vez que ficamos sabendo da existência da Mestra foi já no primeiro episódio do anime, quando, durante o prólogo, Hermes diz que ainda não era tarde para voltarem à casa dela.

Nas semi-finais do arco do coliseu, ela é mencionada de passagem ainda outra vez, durante a luta da Kino. Mas sua primeira aparição de fato só se dá no décimo primeiro episódio, onde vemos que ela salvou a Kino de ser atacada por um lobo, não muito depois desta ter fugido do seu país natal.

Mesmo nesse ponto, porém, que tipo de relação as duas tiveram ou como foi o convívio delas são perguntas que ficam, como a própria Kino coloca, para uma outra história. Pois bem: esta outra história chegou. O que, então, o filme nos diz sobre quem a Mestra é e qual a sua relação com a Kino?

Da primeira pergunta, só temos algumas pistas. Sabemos que ela própria foi por um bom tempo uma viajante e atiradora exímia. Não só por ser a mestra da Kino, que se provou ela mesma uma prodígio com a arma, mas também pela sua fama na região, sendo aquela a quem as pessoas dos países próximos vêm pedir ajuda.

Agora, porém, ela está aposentada, e nada inclinada a voltar à ativa, recusando não apenas os pedidos de ajuda, mas também preferindo se manter vivendo relativamente isolada, na floresta. E eu digo “relativamente” porque não parece se tratar de desdém pelas pessoas. Bem o contrário, até.

A Mestra recebe a todos e trata a todos com educação, por mais que se recuse a ajudar quando o pedido requer que ela deixe a floresta. Tanto no décimo primeiro como no décimo segundo episódio do anime, Kino comenta como ela aprecia o encontro com as pessoas, e imagino que a Mestra não iria discordar.

Que ela goste de cozinhar é algo interessante. Uma armadilha bastante comum de se cair quando criando uma personagem feminina “forte” é torna-la quase que um estereótipo de masculinidade. Que a Mestra possa apreciar uma atividade vista como tipicamente feminina, enquanto ao mesmo tempo incentivando sua aluna a derrubar uma árvore com uma metralhadora, a torna uma personagem divertidamente multifacetada.

Ao mesmo tempo, agora entendemos onde a própria Kino deve ter aprendido a cozinhar, como a vemos fazer no segundo episódio do anime.

A relação das duas personagens é também uma bem interessante de se reparar.

Em muitos aspectos, Kino talvez seja muito como uma filha – ou neta – para a Mestra. Todo o começo do filme mostrando a garota cumprindo com o que poderíamos esperar serem as tarefas comuns de uma criança vivendo numa cabana no meio da floresta. Pegar água, pôr a mesa, estender a roupa, etc.

Mas a Mestra também faz jus ao próprio título, ensinando à Kino o manejo das armas. Não fica claro o porquê, exatamente, dela ter decidido ensinar isso a essa criança, mas podemos especular. Talvez fosse apenas uma questão de “é bom saber”, dado o mundo em que vivem. Ou, talvez, ela já previsse que, eventualmente, a Kino pudesse desejar partir na própria viagem.

Vemos que a Mestra respeita bastante a autonomia e independência da Kino. Quando perguntada se a garota viveria para sempre com ela, a Mestra apenas responde que isso era para a Kino decidir. E quando esta pede para viajar até um país próximo, longe de tentar dissuadi-la, a Mestra apenas pede um pouco de tempo para investigar melhor a questão e para treinar melhor a garota.

O que, diga-se de passagem, demonstra que ela está longe de não se importar com a segurança da menina. O que nos força a considerar uma estranha pergunta.

Ao final do episódio, não apenas aprendemos que a pessoa com quem a Kino foi falar – a pessoa com quem a Mestra mandou ela falar! – não apenas não é a mãe do Kino, como ainda por cima era uma assassina perigosa, com o povo daquele país já tendo pedido ajuda à Mestra para que esta fizesse algo a respeito.

Ela tinha que saber que não era o lugar certo. Mais: que seria extremamente perigoso. E, ainda assim, ela mandou a Kino para lá. Por quê?

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Quem é “Kino”?


Para responder à pergunta anterior, primeiro precisamos melhor entender a posição da Kino neste momento.

Não sabemos há quanto tempo ela mora com a Mestra, mas não parece ser muito. Também não parecer ser pouco: ela já está muito bem estabelecida em sua rotina, e interage com naturalidade com a Mestra. Mas o fato dela ainda parecer mais baixa do que na série, fora que suas habilidades com a moto ainda carecem de melhoras, podemos dizer que ela ainda está longe da viajante que iria se tornar.

Ponto em caso: aquilo pelo que a garota passou ainda deve ser uma memória recente. E se durante o dia ela age como uma menina alegre e despreocupada, na primeira noite nós podemos ver que ela ainda ainda não sabe bem o que pensar nem de si mesma.

Deitada na cama, Kino alterna entre “watashi” e “boku” enquanto treina se apresentar. Ambos significam “eu”, mas o primeiro tende a ser mais neutro enquanto que o segundo é mais usado por garotos. E nisso, Kino declara: “boku” combina mais com “Kino”, seu tom dando a entender que esse nome ainda não parece seu.

Ela vira a cabeça no travesseiro e olha para o sobretudo pendurado na parede. De certa forma, a garota está passando aqui por uma pequena crise de identidade. Ela abandonou a vida antiga, renunciando mesmo ao seu nome. Mas a nova identidade ainda não parece sua. No final, ela ainda não se sente como “Kino”.

Vemos aqui que ela ainda é assombrada pelas coisas pelas quais passou. Nenhuma surpresa: estranho mesmo seria não se traumatizar com seus pais tentando te matar.

Quando Hermes pergunta o que ela quer fazer indo até o país do Kino, ela diz que quer encontrar as pessoas próximas a ele e se desculpar. E na conversa com a “mãe” do Kino, ela mesma diz: se não tivesse dito o que disse sobre a operação… Kino ainda estaria vivo – é o que ela quer dizer, mas não consegue.

Ela se culpa pelo que aconteceu, e talvez justamente por isso o nome “Kino” lhe soe tão distante. Ela o tomou para si em um momento de impulso, mas agora ele só a faz lembrar o que se deu em seu país e como aquilo foi, na visão dela, tudo culpa sua. E enquanto ela estiver presa ao seu passado, essa dupla identidade não irá se resolver.

Talvez seja por isso, afinal, que a Mestra a mandou para onde mandou…

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A fim de seguir em frente


O título deste filme é Nanika wo Suru Tame Ni, que numa tradução mais literal ficaria como “pelo bem de fazer algo”.

Durante a conversa com a Mestra, quando Kino pede para poder sair em busca do país do Kino, ela diz que sente que se não fizer isso, não conseguirá fazer mais nada. Como ela está agora, ela não consegue seguir em frente. De alguma forma ela precisa por um fim ao passado.

A fala da Mestra que antecede essa declaração, porém, é talvez a mais interessante. Ela diz que não sabe se essa busca pelo país do Kino é algo bom ou ruim, deixando claro que se ela não é contra a partida da Kino, ela também não é particularmente a favor.

A mulher que Kino visita é, em certo aspecto, similar a ela própria. Também uma pessoa presa ao passado – no seu caso, a perda de seu filho. Ela é, porém, um exemplo muito mais extremo das consequências disso, perdendo muito da sanidade e se tornando uma pessoa violenta.

Seus olhos, logo que abre a porta, já prenunciam que algo ali estava errado. Seu comportamento ao ver o sobretudo do Kino já a denuncia como uma pessoa instável e propensa à violência (dada a forma como arranca o sobretudo dos braços da Kino). E ai temos toda a sequência seguinte, das fotos.

Conforme ela vai contando as memórias de seu filho, Kino está o tempo todo pedindo desculpas. Em nenhum momento, porém, a mulher faz algo para insinuar que a garota não tinha do que se desculpar.

É interessante. Durante o anime, era comum o uso do sol forte como um sinal de perigo, uma força onipresente que pinta todo o cenário de branco. Nesta cena, tons de vermelho vêm cumprir o mesmo papel, uma cor inclusive muito mais associada ao perigo do que o branco. Sua origem, porém, ainda é o sol – o sol poente, no caso.

A mulher envenena a Kino, e então tenta matá-la com uma faca. A garota, por sua vez, primeiro apenas se protege. Imagino que, por dentro, havia nela alguma hesitação em atirar na mãe da pessoa que a salvou. Mas quando a situação é crítica e a moeda presa na manga da sua jaqueta cai, ela revista – como que por instinto, tal e qual a sua Mestra a treinou.

É uma cena bem forte, que traz em si uma carga simbólica bem grande.

Em primeiro lugar, há o fato de que, enquanto é atacada, Kino tem visões de seus pais, gritando que ela era um fracasso. Atirar naquela mulher é, também, atirar no próprio passado, finalmente se libertando dessas lembranças terríveis. E é nesse momento que ela consegue seguir em frente.

Quando vai atirar, Kino declara: “agora, eu sou Kino”. Usando aqui o termo boku. Nesse momento, uma imagem dela mais velha se sobrepõe à da garota, como que dizendo que é ali que a Kino “nasce” de verdade. Finalmente ela consegue aceitar o novo nome – e assumir a própria identidade. Antes de partir, ela ainda corta o cabelo, tão comum símbolo de “virar a página”.

Imagino que, para alguns, o twist final do filme soe um tanto quanto anti-climático. Eis que a “mãe” do Kino não era realmente a mãe do Kino, mas apenas uma maluca assassina qualquer. Torna tudo bem sem propósito, não? Então: não.

Na verdade, eu diria que esse twist final é parte do ponto que o episódio tenta fazer. De certa forma, é a mesma mensagem que o décimo terceiro episódio do anime passou: não devemos nos prender demais ao passado.

Não importa se a mulher era a mãe ou não do Kino. O que importa é que ela representa o tipo de pessoa que alguém pode se tornar quando não consegue seguir em frente – um aviso que a Kino parece ter entendido. O passado deve ficar no passado. Como o subtítulo aponta: life goes on.

Talvez fosse essa a mensagem que a Mestra buscou passar à sua discípula. Que ela aponte que a Kino cortou o cabelo no mínimo sugere que ela entendeu o que se passou. E parece satisfeita com o resultado.


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