Kino no Tabi, OVA – “Neste país, aquela torre é tudo”


País da Torre


Lançado em outubro de 2005, Kino no Tabi: Tō no Kuni -Free Lance- veio como um episódio bônus incluso no DVD do primeiro filme. Infelizmente, não parece haver muito mais informações disponíveis sobre esse OVA.

Na Wikipédia, ele é contado como o “episódio 0” da série de TV. No My Anime List ele tem uma entrada própria, mas na área da staff os únicos mencionados são os dubladores da Kino e do Hermes. E, do que pude pesquisar, ele nem aparece no banco de dados do Anime News Network.

É fácil dizer que o especial foi produzido pelo estúdio A.C.G.T.: não só por, até este ponto, eles terem sido os únicos a animarem Kino no Tabi, mas também pelo especial ter vindo, como mencionei, junto ao DVD do primeiro filme, feito por este estúdio. Quem o dirigiu, porém, é uma incógnita.

Com apenas pouco mais de 12 minutos de duração, é uma história bem curta, similar às esquetes menores de episódios como o terceiro, quinto ou décimo primeiro da série de TV. Ainda assim, há algumas coisas a se comentar aqui, então avancemos de uma vez com a análise!

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Episódio 0


Acho que antes de entrarmos na análise propriamente dita dos temas do OVA, cabe refletir um pouco sobre esse seu status de “episódio 0”. Porque ainda que de forma alguma ele seja um substituto à excelente introdução que é o primeiro episódio do anime, nem eu recomendaria assistir a ele antes deste, ainda temos aqui uma bem competente re-introdução à Kino no Tabi.

Logo no começo do especial, Hermes questiona se a Kino achava que a torre iria desaparecer enquanto ela dormia, ao que esta responde que não gostaria disso, pelo menos não até que ela a visse com seus olhos. É, ao mesmo tempo, um inteligente foreshadow do que viria ao final, com a torre desabando, bem como um momento de caracterização da Kino como alguém que viaja para ver o mundo.

Pouco depois, após a Kino já ter perguntado às pessoas o porque delas erguerem a torre, temos que em outra conversa com o Hermes ela diz que se perguntassem porque ela viaja, a resposta seria “porque sou uma viajante”. Uma fala que lembra um pouco uma bem similar no primeiro episódio, e que reforça como, para a Kino, “viajante” é parte integrante da sua identidade.

Quando o homem invade seu quarto de noite, vemos como a Kino sabe muito bem como se defender, rapidamente imobilizando-o e lhe apontando a arma. O fato de que ela sabia que estava sendo seguida só deixando ainda mais claras as suas habilidades.

Finalmente, temos a sua postura neutra, que já começa quando esta diz, quando Hermes tenta especular o propósito da Torre, que não se deve tirar conclusões precipitadas. Isso continua quando ela se recusa a levar o homem consigo, e termina quando ela diz que não sabe dizer se o povo é mesmo louco por seguir a própria tradição. Kino é, afinal, uma observadora, que raramente faz algum juízo de valores do que vê.

Por fim, é um episódio que apresenta alguns temas similares aos que vimos na série de TV. A própria questão da tradição, por exemplo, ou a questão do trabalho.

Dado que o especial saiu mais de dois anos após o final do anime, além de junto do filme que serve de prequel para a série, acredito que ele foi mesmo feito pensando em ser uma reintrodução a estes personagens, suas dinâmicas, personalidades, além de nos reapresentar Kino no Tabi enquanto essa série de histórias curtas que deixam o espectador com algo sobre o que pensar.

E falando em pensar…

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A Torre


Sendo bastante sincero, esse é talvez um dos episódios mais fascinantes do anime, e isso muito por conta do quão imponente é a imagem da torre.

Antes mesmo de entrar no país, ela já era visível a quilômetros de distância. E uma vez que você entra, a torre fica como essa estrutura imensa que paira sobre a região. Sempre visível. Sempre presente. Uma imagem que permeia todos os aspectos da vida daquelas pessoas (vide mesmo as crianças brincando de construir uma torre), e que serve de ponto axial daquela comunidade, literal e metaforicamente.

Reparem no caráter circular do país, com a torre no centro. Tudo ali é pela e para a torre. Todo o trabalho é em prol de fazê-la crescer. Todos os recursos são destinados a ela. Uma estrutura que é, inclusive, mais antiga do que todos ali vivos. Ninguém sabe porque ela existe, mas ainda assim seguem exercendo seu papel de mantê-la e aumentá-la. Apenas para, eventualmente, a verem cair, desabando sobre si mesma.

Diga-se de passagem, é tentador pra mim interpretar a torre como uma metáfora ou alegoria para o capitalismo, mas mesmo que o leitor não compre essa interpretação em específico da coisa, não é difícil de imaginá-la enquanto essa literal superestrutrura econômica, social, política, que, como eu disse, permeia cada faceta da vida das pessoas que vivem literalmente à sua sombra.

É um tema comum em Kino no Tabi. Histórias de indivíduos que vivem baixo a pressão de um sistema muito maior do que eles. Uma tradição qualquer. Um costume antigo. Governantes maquiavélicos. A torre aqui inclusive lembra um pouco a torre que vemos no nono episódio. Ainda que seu propósito fosse diferente, sua posição como símbolo do regime em voga é bem similar à que vemos neste especial.

Diante disso, a resposta final da Kino soa quase que cínica, se pararmos para pensar. O homem diz que não quer passar a vida trabalhando na torre, e Kino então diz que se ele não quer construir ele pode fazer algo diferente, como pintar ou esculpir os blocos.

Não parece, porém, que o homem sai muito satisfeito disso, ainda que ao final vemos que ele de fato passou a esculpir nos blocos. No fim, a torre continua ali. Ela caiu uma vez, o que pode representar um momento de crise no sistema, mas as pessoas nem consideram abandoná-la. Mesmo diante do colapso, a estrutura resiste não na pedra, mas no ideal das pessoas.

É claro que um dissidente não poderia fazer muito. No fim, a mudança que ele traz é quando muito simbólica. Um novo trabalho foi criado, claro, mas ele ainda serve a torre. Uma pequena concessão que mantém a estrutura maior. E nisso o sistema absorve mesmo aqueles contrários a ele. O que, diga-se de passagem, joga nova luz ao subtítulo “Free Lance“. Mesmo que pareça que você está fora do sistema, isso nada mais é que uma ilusão.


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Um comentário sobre “Kino no Tabi, OVA – “Neste país, aquela torre é tudo”

  1. A Torre me pareceu mais uma metáfora para nação, sobretudo pensando no diálogo do início do episódio ”Você não acredita que as vezes a ansiedade cria nações?”, a ideia dela existir antes dos cidadãos nascerem, e de todos trabalharem para seu crescimento ainda que sem motivo, e sendo ela destruída o que fazem os habitantes é edificar uma outra.

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