Kino no Tabi, 2º Filme – “Pra que tipo de país você quer ir agora?”


País da Doença


Saindo em abril de 2007, dois anos depois do primeiro filme, Kino no Tabi: Byouki no Kuni -For You- viria a se tornar a última animação da franquia até o lançamento do segundo anime, dez anos depois.

O curta-metragem de aproximadamente meia hora de duração foi exibido durante do Festival de Filmes da Dengeki Bunko, junto dos filmes de Shakugan no Shana e Inukami, além de um pequeno curta de 3 minutos que mostrava os protagonistas das três obras indo ao cinema.

Por conta disso, podemos muito bem pensar esse filme como algo bastante isolado, com apenas uma ligação bastante frágil com a série de 2003. Seu diretor é o mesmo, Ryutaro Nakamura, mas desta vez a produção ficou por conta do estúdio Shaft, e o visual foi consideravelmente modificado.

Em história, o filme ainda é distintamente Kino. Então cortemos por aqui o preâmbulo e comecemos de uma vez a análise deste que é o último filme de Kino no Tabi.

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O Visual


Antes de comentar o país da vez, acho que vale dedicar aqui alguns parágrafos ao visual desse filme. Isso porque ele está numa posição meio estranha, se distanciando consideravelmente do visual da série para a TV, mas não ao ponto de você não reconhecer as duas obras como pertencentes a uma mesma franquia.

O cartão de título usado aqui é idêntico ao tipo usado no anime, e ainda que o visual da Kino tenha sofrido uma ligeira modificação, ainda é fácil aos fãs da série reconhecerem a protagonista titular. Ao mesmo tempo, diversas mudanças parecem ter sido feitas a fim de modernizar o visual para o filme.

A mais óbvia delas será a ausência, aqui, daquelas linhas que imitam uma televisão de tubo, algo que mesmo o filme anterior havia preservado.

Pessoalmente falando, eu gosto delas. Entendo quem as veja como “poluição visual”, mas penso que elas ajudam a criar certo distanciamento entre espectador e obra. Um que ajuda a comunicar a mensagem de que esta não é uma obra preocupada com a imersão do espectador – bem o contrário, até.

O segundo elemento de mudança foi a paleta de cores, que aqui parece um tanto quanto mais clara que na série animada. Esse ponto, porém, pode muito bem ter lá seu propósito. É como se tivessem descolorido o anime, criando um visual “oxigenado” que combina com a temática hospitalar do filme.

Finalmente, temos o uso ostensivo de CG. Um que tem lá aspectos positivos e negativos.

Começando com os positivos, o uso da computação gráfica nos cenários permite que o filme seja bem mais animado do que a série, e use de movimentos de câmera impossíveis para aquela. Além disso, o aspecto artificial que ele trás ao ambiente combina bem com a ideia de que aquele é um espaço artificial. O “céu” nada mais é do que um monte de monitores, afinal!

Mas é inegável que a disparidade entre cenário 3D e personagens 2D é por vezes bem forte. Há uma cena logo no começo, quando a Kino deixa a sala de desinfecção e entra num salão, onde vemos que o cenário praticamente “desliza” debaixo dela. Intencional ou não, é uma cena bem distrativa. Mesmo para os padrões de 2007, é um CG mediano, se estiver sendo honesto.

E diga-se de passagem, todo o cenário daquela sala de vigilância, com telões pendurados exibindo cenas do país, é bem “Shaft”. O tipo de arquitetura bizarra, quase abstrata, que viria a se tornar a marca registrada do estúdio, se é que já não o era nesse ponto.

Não diria que o visual é melhor ou pior que o do anime. As decisões tomadas têm lá seus aspectos negativos, mas todas também trazem algo de positivo, e no mínimo demonstram o interesse da equipe de fazer algo diferente com essa propriedade. Se agrada ou não, ai vai de cada um.

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País da Doença


Nesta história, Kino e Hermes chegam a um país construído inteiramente abaixo da terra. O motivo disso, porém, fica ligeiramente no ar.

Nós aprendemos que no passado uma parte considerável da população foi atingida por uma nova doença incurável, mas não parece que esse é o motivo da descida do país às profundezas. Primeiro porque não fica claro que esta tenha ocorrido depois daquela. E dado que a Inertia tem a doença, podemos mesmo especular que não, que aquele povo já vivia no subsolo mesmo antes dela aparecer.

Além disso, se fosse apenas essa doença o motivo, seria bem mais sensato manter os doentes em isolamento, ou colocando apenas eles em alguma instalação subterrânea, ou os mandando para a superfície. Considerando que esse não é o caso, o que me parece é que estamos mesmo lidando ou com toda uma sociedade de germofóbicos, ou então com um povo de saúde bastante frágil já naturalmente.

E dentro desse cenário, o filme parece nos apresentar duas questões centrais. A primeira, e também aquela que toma o maior tempo de tela, sendo uma curiosa equivalência entre esse ambiente altamente sanitarizado e uma prisão.

Em diversos momentos o filme chama a nossa atenção para a artificialidade daquilo tudo.

Durante toda a estada da Kino naquele país, o design de som enfatiza um eco no ambiente. Em uma cena a própria Kino chama atenção pra isso, apontando que, mesmo estando “do lado de fora”, numa praça aberta, ainda há um eco que denuncia que estão dentro de uma estrutura fechada.

Em dado momento, Kino chega até o “cenário de fundo” daquele país, construído para dar a ilusão de que o espaço é muito maior do que realmente é. E quando ela sobe até o observatório junto da garota, a cena foca nos monitores que compõem o “céu” daquele lugar.

E é interessante também como os espaços são sempre muito amplos. O primeiro salão ao qual a Kino chega após a desinfecção é bem grande, assim como o são o quarto do hospital e demais ambientes fechados, sem mencionar as ruas e praças do país. E ainda assim nada parece tão amplo e tão vasto quanto a superfície. Como se os habitantes estivessem tentando compensar pelo que não podem ter.

Tudo isso cria um ambiente meio claustrofóbico, que muito se liga ao conflito da Inertia. Doente, acamada, confinada apenas ao hospital, seu único contato com o mundo externo sendo as cartas do garoto com o qual se corresponde e, agora, as histórias da Kino.

O nome da garota é literalmente “inércia”, não da pra ser mais claro do que isso.

E claro, há o simbolismo do pássaro, tipicamente associado com a busca pela liberdade. Inclusive, o filme faz aqui uma pequena referência ao anime, com a Kino citando ainda mais uma vez a frase “dizem que quando as pessoas veem um pássaro, elas sentem vontade de sair em uma viagem”, do primeiro episódio da série.

Mas é claro: não seria Kino no Tabi sem algum twist que nos fizesse reconsiderar a pretensa utopia que é aquele país. E este vem logo que Kino tenta entregar a carta da Inertia ao garoto Logan.

Quando a Kino entra no país, aprendemos sobre os “pioneiros”, que, tendo a melhor saúde dentre os habitantes, teriam sido mandados à superfície para colonizá-la. O que já deveria ter nos soado estranho, porém, é o fato da Kino não ter encontrado nenhuma dessas supostas colônias quando chegou ao país.

Do momento que ela atravessa as muralhas, até quando ela chega aos limites do domo, tudo que a Kino encontrou foi uma construção abandonada. E isso, junto ao clima curiosamente melancólico do restante do filme, já prenuncia que algo ali não está certo.

twist, então, é que aqueles enviados para a superfície são na verdade cobaias humanas para a preparação de um medicamento contra a misteriosa doença, o que por si só levanta toda sorte de dilemas possíveis.

Claro, o que aconteceu com essas pessoas é horrível, mas ao menos suas vidas são o que permitiu avançar em direção a uma possível cura. Logan já não está mais entre nós, mas graças ao seu sacrifício ao menos Inertia continua viva. Se as coisas continuarem assim, talvez ela possa mesmo um dia deixar aquele hospital… Ou pelo menos é isso que o vigia diz à Kino.

Não entendam mal, não acho que ele estivesse mentindo. Mas ele próprio está claramente em conflito quanto a essa situação toda, e diz tudo isso quase que como querendo convencer a si próprio de que aquilo que faz é de fato o correto. Um rápido flashback até nos mostra que ele parecia ter algum tipo de relação com o garotinho Logan, ainda que não fique claro qual ela era, então seu comportamento é compreensível.

Kino, porém, nada diz. Como sempre se dá com a personagem, ela apenas escuta. Ela é, afinal, uma viajante, só de passagem.

Fica no ar como se deu o final do duelo entre os dois. Que uma nova carta tenha chegado até a Inertia sugere que o homem ainda está vivo, mas claro que a própria Kino segue muito bem. Que cada um dê a própria interpretação do que se passou aqui: sei tanto quanto vocês.

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“Pra que tipo de país você quer ir agora?”


“Um lugar onde todos, sem exceção, vivem felizes seria legal.”

“Um viajante que evita enxergar a realidade não pode ser feliz, Kino.”

Eu gosto bastante dessa última troca de palavras entre a Kino e o Hermes. De fato, não há um lugar assim, algo que o anime nos mostrou múltiplas vezes. Utopias não passam de ilusões. Toda nação tem seus esqueletos no armário. E as pessoas são frequentemente oprimidas por algum sistema maior do que elas. Então, Kino conclui:

“Nesse caso, um lugar com boa comida seria legal, mesmo que o resto fosse ruim.”

Kino no Tabi não é cínico. Terminamos o primeiro episódio com os dizeres “o mundo não é bonito, por isso ele o é”. Em meio a toda a feiura do mundo, ainda há algo que faz a Kino querer continuar viajando. Uma profunda admiração por esse mundo. E um desejo de conhecê-lo, em todas as suas facetas, boas e ruins.

“Isso a gente deve conseguir.”

É com essa última fala do Hermes que o filme termina.

E é também aqui que terminamos essa série de artigos.

Espero que todos tenham gostado. Kino no Tabi é, afinal, o meu anime favorito, e espero que tenha conseguido passar ao menos um pouquinho do porquê com esses textos.

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E pra finalizar: dez anos após o lançamento desse filme, em 2017 foi lançado um novo anime: Kino no Tabi: The Beautiful World -The Animated Series-. Uma espécie de “semi-reboot”, que adapta outras histórias da light novel original. Quem quiser meus comentários sobre ele, cobrimos o título na primeira edição do Café com Anime, então deem uma lida por lá!


<- OVA

Um comentário sobre “Kino no Tabi, 2º Filme – “Pra que tipo de país você quer ir agora?”

  1. Agora que finalizei minha leitura de todos os textos desse “especial: Kino no Tabi”, venho dizer que adorei cada um deles! Deve se lembra que vi tudo isso contigo em um Clube do Anime há alguns anos. Com preguiça de rever tudo, decidi acompanhar assim mesmo seus artigos, me lembrando da série conforme os lia e aprendendo um pouco mais sobre cada história.

    Foi uma grata experiência e pude perceber ainda mais o quanto você ama essa obra! Admiro o tamanho empenho que empregou nesses textos. De coração, agradeço o esforço, mesmo que as coisas não estejam tão fáceis.

    Curtido por 1 pessoa

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