Afinal: Qual o Ponto? | Especial de 5 Anos


Vamos terminar numa nota positiva.


Soa curiosamente apropriado encerrar esse especial de cinco anos do blog com um quinto texto. Juro que foi acidental, mas é um acidente bem vindo. Essas rimas numéricas são sempre divertidas de se ver, e mesmo fazem a coisa toda soar muito melhor planejada do que ela realmente foi. Bom, se bem que, parando pra pensar, acho que esse meu último parágrafo meio que quebra a ilusão… Oh bem.

Foi um mês diferente, para dizer o mínimo. Esses artigos não foram tão distantes do que eu costumo fazer. Mas foram, sim, bem mais “jogados”. Menos estruturados. Mais improvisados. Quase como nem-tão-pequenos desabafos, o que de fato o eram. E, nisso, talvez um pouquinho mais depressivos do que o padrão. Tematicamente, porém, eu sabia muito bem o que pretendia com eles.

Disse isso no primeiro texto dessa série, e torno a repetir aqui: cinco anos é muito tempo. Diga-se, tempo este que mal vi passar. Mas que, talvez paradoxalmente, ainda senti bastante seus efeitos.

Com estes artigos, eu queria explorar e refletir um pouco sobre a minha relação com algumas coisas. Com a escrita. Com essa nossa comunidade. Com essa mídia que são os animes. E agora, no texto final dessa série, acho que é hora de pensar um pouco sobre a minha relação com este blog. Muito do que vou falar aqui já pincelei ao longo desta série. Ainda assim, espero que seja uma boa leitura.

Desde já eu agradeço a todos que acompanharam o blog até aqui. E não se preocupem: apesar do tom deste artigo, reitero não tenho intenção nenhuma de parar. Talvez precise de uma semana pra me recuperar desse especial [rs], mas quero continuar por aqui. Então, sem mais delongas, avancemos.

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Valor

Quantas vezes você já se perguntou se aquilo que faz tem algum valor? Porque essa tem sido a minha mais recente crise existencial. No fim do dia: que valor tem este blog?

Eu olho o mundo lá fora e o pouco que vejo me causa uma enorme ansiedade para com o futuro. Aquecimento global a pleno vapor (no pun intended). A ascensão da extrema direita (e de uma extrema direita ainda por cima burra pra cacete, no nosso caso). Parafraseando um tweet já antigo: estamos economicamente quebrados, socialmente isolados e psicologicamente ferrados. E a solução a tudo isso não parece a despontar no horizonte.

Num cenário de literal crise global nos mais variados níveis (ou pelo menos assim parece), será que é mesmo o melhor momento para ficar analisando desenhos? Não que eu acredite que se eu fosse falar de algum desses outros tópicos faria alguma diferença, a começar pelo fato de eu não ter nem a competência nem o know-how necessários para se tocar nesses assuntos. E ainda assim, não é pequena a vontade de fazer algo.

Acho que é parte da natureza humana. Queremos sentir que estamos no controle. Nisso, diante de um problema só nos ocorrem duas soluções: ignorar ou fazer algo a respeito. O problema é quando ignorar não é uma opção (seja pela gravidade do problema, seja pela sua onipresença na mídia e no discurso), mas também não há muito que você possa fazer, ainda mais sozinho. Às vezes parece que só nos resta ver o mundo pegar fogo, agora literalmente, até.

Ponto é: diante desse cenário, o que diabos eu estou fazendo aqui?

De que serve este blog? O que ele acrescenta, a quem quer que seja? Alguns minutos de entretenimento na semana? É o suficiente para justificar o tempo e esforço investidos aqui? Não sei.

Ao mesmo tempo, eu penso bastante sobre o futuro. É como eu disse no primeiro texto desta série. Não me imagino com 60 anos escrevendo sobre a última temporada. Mas quando, nesse meio do caminho que vai daqui até o futuro distante, será que irei parar? E quando parar, que diferença será que terá feito?

Não é que eu quisesse ou esperasse que esse blog se torne algum tipo de legado meu, nem nada do tipo. Ao mesmo tempo, é meio triste pensar em quanto trabalho eu invisto em algo que, em última instância, já nasceu condenado a eventualmente se perder nos recantos da internet.

Não me entendam mal, eu tendo a ser bastante cínico com essa forma de tratar as coisas, como se tudo precisasse ser um meio para um fim muito maior. Que um projeto precisa “se justificar”, ou que algo precisa “ter valor”, como em “ser útil” ou “fazer a diferença”. É uma forma utilitarista e capitalista demais de se tratar a vida, se me perguntarem. E mesmo assim eu não consigo não aplicar esse pensamento a este blog. É estranho.

Mas talvez parte do problema seja que nunca tive muito claro o que exatamente eu quero para este blog…

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Intenção

Já disse diversas vezes ao longo desta série, e também em momentos anteriores, que abri esse blog pensando em gerar discussão. Mas há de se admitir que este é um motivo um tanto quanto vago. E que não necessariamente corresponde ao que eu venho de fato fazendo aqui.

Olhando para os quadros do blog, eles são todos bastante variados, talvez até demais. Em diversos aspectos, este é um blog de opinião. Meus ensaios, reviews, listas, são todos a minha visão pessoal sobre algo. Em outros, e em muitos aspectos se sobrepondo ao anterior, este é um blog de análises. Uma forma de olhar criticamente para os animes que consumo e considerar o que eles dizem – direta ou indiretamente. Mas pelo menos em parte esse é também um blog educativo, sobretudo quando faço resumos de livros acadêmicos ou trato de algum título histórico.

É um escopo bem amplo, até, ao menos na teoria. Ao mesmo tempo, esse escopo é afunilado por certa intransigência minha. Eu não quero falar do que todos estão falando, ou fazer o que todos estão fazendo. Não é um princípio que eu defenda a unhas e dentes – tenho lá minha parcela de títulos populares que cobri aqui no blog, ou de formatos bastante comuns -, mas ainda é um que eu tenho sempre em mente na hora de começar um novo texto.

Se for ser sincero, diria que este blog existe para eu falar do que quero falar. Uma tema que me veio à mente. Um anime que esteja assistindo. Ou o que quer que seja. E gosto de pensar que essa variedade seja um dos apelos do blog, se mais nada.

Ao mesmo tempo, eu me pergunto que caminho eu deveria seguir com isto aqui. Correndo o risco de soar repetitivo, o meu investimento aqui, em termos de tempo e de esforço, é bastante considerável. Posso mesmo justificar tanto investimento e ainda continuar dizendo que trata-se de apenas um hobby? E de novo retomo essa palavrinha: “justificar”.

Deveria tentar fazer disso aqui algo mais do que um hobby? Parte de mim certamente vê apelo na ideia de tornar isto aqui um trabalho de fato. Se vou passar horas pensando sobre um tema ou anime qualquer, e mais algumas horas ainda lutando contra a ansiedade para tentar escrever algo com o que fique minimamente satisfeito, tanto melhor se puder tirar uns trocados disso, não? Ao mesmo tempo, não consigo afastar o pensamento de que isso simplesmente não é pra mim.

Eu tentei, por um breve período (foi o que, dois ou três meses, se tanto?) abrir um Padrim para o blog, e não posso dizer que tenha dado muito certo. Mas fracasso financeiro é o de menos: sou um blog (e um canal) bem pequeno ainda, não esperava mesmo muito retorno disso. O problema real foi a pressão que eu senti que isso me fez colocar em mim mesmo. Para alguém que já é naturalmente ansioso, e que em muitos aspectos já trata este blog como uma espécie de obrigação (por exemplo, tendo de postar toda semana), não sei dizer se a experiência me fez bem.

Ao mesmo tempo, é um pouco chato quando a vida e as obrigações cotidianas me impedem de tocar o blog como gostaria. E quando começo a ter de escolher entre assistir anime ou falar sobre anime, a própria existência desse espaço começa a me soar um tanto quanto paradoxal…

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Fama

Cabe reiterar aqui: este ainda é um blog bem pequeno. Recebo em torno de 150 visitantes por dia. Um avanço considerável em relação aos nem 20 que eu tinha por semana quando o blog primeiro começou, lá em 2014. Mas no âmbito geral da coisa, eu ainda sou total e completamente inexpressivo.

Talvez o leitor já tenha ouvido que quando se escreve por hobby o melhor é escrever para si mesmo. Faça o que preferir e não pense muito em métricas. Que diferença faz um leitor ou uma centena, não é? Bom, com todo respeito a quem pensa assim, mas minha resposta a isso sempre foi que se fosse para escrever pra mim mesmo, eu o faria num arquivo de Word e deixaria salvo em alguma pasta no meu computador. Se publico, é porque quero ser lido.

Mas ser lido é equivalente a ser famoso? Em algum nível, admito. Mas acho que ainda são objetivos bem diferentes.

Eu quero que as pessoas leiam o que eu quero escrever. Fama, por outro lado, é algo completamente diferente. E, se me permitem a sinceridade, eu não tenho a vontade, a motivação, e muito menos o tempo para jogar o jogo da popularidade.

Não quero ter de ficar escolhendo meus assuntos a dedo a fim de casar com algum tópico do momento. Nem quero comentar apenas aqueles dois ou três títulos mais populares porque falar de qualquer outra coisa significa poucas visualizações. E eu definitivamente não quero ter de deixar meus textos mais curtos para que atraiam mais pessoas. Há instâncias em que já os acho curtos até demais, a depender do assunto abordado.

Fama pode ser legal, mas do que eu observo ela pode também muito bem se tornar uma camisa de força. O que é aceitável para quem quiser fazer disso a sua profissão, mas eis ai outro motivo pelo qual não acho que isso seja pra mim. Quero escrever sobre o que quero escrever, e se não é popular… bom, paciência. Tenho certeza que para muitos dos leitores isso é parte do apelo do blog.

Ao mesmo tempo, eu não vou mentir: é complicado quando parece que falamos com o vento. É desencorajador quando esforço não equivale a reconhecimento. Passar às vezes uma semana ou mais elaborando um texto para que então ele tenha ai 20 visualizações, se tanto.

Não me entendam mal: como criadores de conteúdo é sempre importantes não nos iludirmos com a ideia de que de alguma forma merecemos a atenção das pessoas, como se o público nos devesse isso. Não é o caso, e ponto final. E quando o que fazemos não atrai tantas pessoas, podemos mudar para tentar agradar mais gente, ou continuar como estamos e aceitar o lugar que ocupamos. E eu sempre escolhi o segundo.

Além disso, eu sei que é hipocrisia minha pedir por algo como comentários ou algum tipo de feedback. Eu mesmo raramente dou algum, mesmo quando gosto bastante do conteúdo da pessoa. Que moral eu tenho pra falar qualquer coisa nesse aspecto?! E mesmo assim…

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Dificuldade

Considerando quantas vezes eu já falei isso ao longo do texto, essa seção deve soar redundante ao leitor. Ainda assim, me deixem enfatizar, agora pela última vez, que manter este blog não é uma tarefa fácil.

A princípio, há as dificuldades normais de se produzir conteúdo. Muitos dos meus textos exigem uma pesquisa considerável. E mesmo quando este não é o caso, escrever é por si só uma tarefa difícil. Mesmo neste formato, onde eu essencialmente apenas vomito no teclado o que me vem à mente (com o perdão do vocabulário), eu ainda tenho uma média de 1000 palavras por hora. Com cada texto tendo em torno de duas mil… bom, é uma conta bem fácil. Mas de novo: isso nesse formato.

Já falei a respeito disso no segundo texto dessa série, mas meu processo de escrita é sempre bastante demorado. Eu escrevo e reescrevo o mesmo parágrafo uma dezena de vezes, buscando torná-lo o mais agradável possível à leitura.

Minha ansiedade também não ajuda. Não raras vezes escrever se torna uma tarefa bem mais complicada do que precisava ser. Será que o texto está ficando bom? Está muito confuso? Será que as pessoas vão ler? Será que vou terminar a tempo? E se não terminar, eu pulo essa semana? Público um dia depois? Mas e semana que vem, o que eu lanço? E o canal, eu vou ter tempo de fazer um vídeo novo? Será que posso não postar lá essa semana? O algoritmo vai me ferrar muito?

No pior dos casos eu às vezes preciso parar e só… ir fazer outra coisa. Porque o estresse que essa cobrança totalmente auto imposta cria pode às vezes ser um pouquinho demais. Mas claro, complica quando esta não é uma opção. Tudo que escrevi no último parágrafo é o que estou pensando agora mesmo, mas eu tenho cerca de meia hora pra terminar este texto antes de ter de sair para o trabalho. Ansiedade ou não, isso tem que ficar pronto.

E a isso se soma tudo o que eu já discuti nesse último mês. Meu desânimo para com essa comunidade. Meu afastamento dos animes. E tudo que escrevi ai pra cima.

Qual o ponto de tudo isso? Por que eu continuo com esse blog, afinal? “Gerar discussão?” Bonito na fala, mas não acontece na prática. Dinheiro? HA HA HA HA HA. Fama? Então era mais fácil recomeçar do zero.

O que diabos eu estou fazendo aqui?

Pra ser sincero, eu não sei.

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Mas ainda assim!

Apesar do caráter de desabafo dessa série, e do fato de que eu busquei, sim, expressar muito do desânimo e inseguranças que ando sentindo nos últimos tempos, eu me recuso a encerrar esse texto numa nota negativa! Porque, apesar de tudo o que eu escrevi nesse mês, eu ainda adoro essa mídia.

Posso não ter uma história muito longa com os animes, nem posso alegar que tenham de alguma forma me mudado. Ainda assim, eu estaria mentindo se negasse o impacto que essas histórias tiveram em mim. Talvez não tenha sido nada tão profundo, mas ainda são histórias que me emocionaram, que me deram sobre o que pensar, que moldaram o meu gosto para ficção, e que eu sigo apreciando hoje tanto quanto anos atrás.

Eu primeiro comecei este blog porque queria partilhar do meu ânimo para com essa mídia. E, se absolutamente mais nada, no mínimo isso permanece, mesmo cinco anos depois.

Eu não sei se o que eu escrevo tem algum valor.

Não sei o que quero com o blog daqui pra frente.

Nem sei ao certo porque o mantenho.

É trabalhoso.

É difícil.

E mesmo um pouquinho ingrato.

Mas ainda assim: eu quero continuar por aqui.

Partilhando minhas opiniões

E escrevendo o que me der na telha.

Muito obrigado a todos que me acompanharam nesses cinco anos.

E até o próximo texto.

Imagem: Danna ga Nani wo Itteiru ka Wakaranai Ken, episódio 1

2 comentários sobre “Afinal: Qual o Ponto? | Especial de 5 Anos

  1. Gosto muito do seu blog justamente por não falar apenas sobre aquilo que está em alta no momento. Falar sobre isso é fácil, e tem muito blog e canal no YouTube que fala só sobre mainstream. Por isso que admiro muito seu trabalho e continuo periodicamente lendo textos do seu blog desde o início de 2017, quando assisti PenguinDrum e encontrei a sua review enquanto pesquisava um texto sobre esse anime. Como uma pessoa que segue o blog, peço para que continue com ele. Não que eu esteja te obrigando, nem que você é obrigado a mantê-lo, mas, como um leitor do blog e que gosta do conteúdo, te peço isso. E que bom que você vai continuar.

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  2. Percebo que muitos críticos de anime tem se voltado para a plataforma do Youtube, creio que pelo alcance de público. Pelo menos é o caso do Digibro, chuto que o mais “famoso” entre os que fazem análises aprofundadas de anime. À verdade, ele próprio já foi melhor no conteúdo, e ultimamente, se olhar o canal dele, vê-se que está numa crise de identidade, até pela fase de transição tanto do canal como do Digi em si, que já está com 27 ou 28 anos. Creio que a idade e o tempo, digo, o zeitgeist disso, pesa muito em como essas coisas decorrem. Particularmente acho que blogs como o seu, por melhores que sejam, perdem para plataformas como o do Youtube, que faz o mesmo porém numa mídia mais palatável e acessível. É meio que “já passou a época” de tais coisas; você mesmo já escreveu isso num texto atrás. As pessoas não se engajam mais em discussões, tampouco querem passar o tempo destrinchando “meros desenhos” ou lendo muralhas de textos sobre. É uma coisa de formato também. Pra mim, o formato de review, está morto. Ninguém quer saber simplesmente da opinião do autor do texto, mas quer se informar do significado das técnicas usadas no episódio, de como a temática se associa a um aspecto cultural dos criadores, ou de que maneira o assunto é relevante aos tempos atuais. Ensaios, análises rebuscadas em pesquisa, textos dignos de artigos, acredito que seja o que as pessoas querem. Pelo menos posso dizer por mim mesmo: é o que eu quero.

    Nesse ponto, por exemplo, um youtuber que faz essas análises rebuscadas que gosto é um cara que não usa nome no “nome” do canal dele, mas que fez o famigerado vídeo “The Curse of Evangelion.” Aquela é uma puta de interpretação sobre os rebuilds de Evangelion que basicamente recontextualizam a importância desses filmes e da série no atual cenário “animístico” das duas últimas décadas. Ele faz um comentário social sobre o público de animes e o mal do escapismo, pois Evangelion é uma obra de um calibre que permite esse tipo de análise, e porque o que ele está investigando ali é o x da questão que o Anno provavelmente quis dizer com a franquia. Seu vídeo sobre Serial Experiments Lain é muito denso e cheio de referências acadêmicas, mas não menos relevante, sobretudo agora após o episódio do incêndio na Kyoani e a quase extinção de um site de hentai icônico da internet. São vídeos a respeito de obras fictícias mas que acabam falando do nosso mundo, denotando o quanto elas são por si só importantes porque no fundo fazem um diagnóstico da nossa realidade, embora sejam “só uns desenhos.” É como um professor meu sempre diz, um bom crítico não fala apenas da obra, fala também da vida através da obra.

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