Kino no Tabi, episódio 13 – “Kino, o que vai fazer agora?”


Uma Terra Gentil


Foi no primeiro episódio do anime que aprendemos sobre a regra de Kino de sempre ficar apenas três dias em um mesmo país. Nessa mesma cena, uma fala do Hermes corre o risco de passar despercebida. Houve apenas um país no qual Kino quis ficar mais do três dias. E mesmo assim, ela responde, eles ainda ficaram apenas o tempo usual.

No último episódio do anime, descobrimos afinal qual foi esse país, além das circunstâncias que levaram a Kino a querer ficar mais tempo – e porquê ela não pode. Uma história que, em vários aspectos, recupera muito do que já vimos no anime até aqui. Um episódio mais atmosférico, e talvez justamente por isso um final tão bom.

A série ainda não acabou, não completamente. Com o fim do anime em 2003, três especiais foram lançados nos anos subsequentes, dois em 2005 e um em 2007. Então não pensem que esse é o fim dessa série de artigos. Mas desses especiais nós falamos em momento oportuno.

Por agora, tratemos deste que é o final de Kino no Tabi: The Beautiful World

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Prenúncio de uma Tragédia


Como eu disse, esse é um episódio bem mais atmosférico. Muito como o décimo foi, diga-se de passagem. E tal como naquele, passamos a maior parte deste sentindo que algo estava errado. Desta vez, porém, com uma pequena diferença.

Quando da minha análise do décimo episódio, eu disse que apesar do clima de suspense e mistério ali presente, nós nunca temíamos pela segurança da Kino. Mas não posso dizer o mesmo deste episódio. Não sei quanto a vocês, mas a primeira vez que o assisti estava só esperando ela de alguma forma atrair a raiva da população local. Que o anime pudesse terminar com ela morrendo chegou mesmo a me passar pela cabeça.

Muito disso se deve aos paralelos que podemos traçar deste episódio com o quarto, onde temos o passado da Kino. O encontro dela com a Sakura espelhando o que ela teve antes com o Kino. Pelo contexto, fica mesmo implicado que este talvez fosse o nome verdadeiro da Kino. O nome de uma flor que, se ligeiramente alterado, se tornava um insulto – como ela descreve no quarto episódio.

O comportamento da população local também é no mínimo curioso. Ele não nos chama tanto a atenção porque nós já vimos outros países nos quais a chegada de um viajante era tratada como um grande evento, mas o contraste entre como aquele país é e como a Kino ouviu que ele era é um mistério que paira no ar durante todo o episódio. E durante todo ele, esperamos ruir essa imagem de utopia, como também já aconteceu em tantos outros países.

A direção é também bastante empenhada em passar a sensação de que algo não está certo, usando de truques já bastante conhecidos. O foco nos rostos, por exemplo, tanto no primeiro encontro da Kino com a Sakura quanto após esta mostrar à protagonista o seu “lugar secreto”, fazendo um longo discurso sobre como gostaria de trazer até aquele lugar futuros clientes. E nisso a câmera congela no seu rosto.

Esse recurso é usado ainda outra vez no episódio, logo após o casamento dos dois jovens, e força o espectador a prestar mais atenção nesses momentos. Assistindo pela primeira vez, pode parecer uma decisão arbitrária. Mas com o contexto maior, entendemos que se trata de enfatizar a tragédia da situação. De como a Sakura nunca trará clientes àquele ponto. E como aqueles jovens nunca viverão uma vida de casados.

Mas de longe o meu recurso do tipo favorito é o som do movimento dos ponteiros de um relógio, que ocorre em dois momentos do episódio. Primeiro, na primeira noite, se estendendo até o primeiro amanhecer. E segundo, durante a visita ao museu de história, após toda a explicação da Sakura. É um detalhe que pode mesmo passar despercebido, mas cuja mensagem é clara: o tempo está se esgotando. Só não sabemos ainda para o que.

A manhã do terceiro dia chega com a Kino sendo banhada por aquele sol intenso que tantas vezes associamos com o perigo. Nesse ponto, sua visita àquele país foi uma ótima experiência, e nada nos acontecimentos dos últimos dias sugere que ela está em perigo. E ainda assim algo não parece certo. E quando a Kino deixa o país, parece mesmo que foi fácil demais. Com o que, afinal, estávamos preocupados?

E então vem o pay off a todo esse bild up. Uma erupção vulcânica, que soterra o país em instantes. Como de costume, Hermes comenta o fato com um tom neutro, como de quem não se importa. A expressão no rosto da Kino, porém, diz tudo.

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O Que Poderia Ter Sido


Esse é um episódio trágico. Mas não penso que ele seja pura tragédia. Ou, melhor colocando, não penso que ele exista só pela tragédia. Em fato, acho que ele tem uma importância fundamental na caracterização da Kino.

Por que ficar apenas três dias em cada país? Hermes faz essa pergunta à Kino ainda no primeiro episódio, e ali a própria reconhece que o número é bastante arbitrário. Que na verdade ela só teme que se ficar tempo demais, vai acabar se acomodando. E assim, deixar de ser uma viajante. O que pensar, portanto, do fato dela querer ficar naquele país mais do que os três dias costumeiros?

Os paralelos entre a Kino e Sakura são bastante óbvios, e não passam despercebidos nem mesmo pela própria Kino. Ela certamente vê muito de si mesma na garota. Ou melhor: vê muito de quem ela poderia ter sido. Trabalhando de bom grado na hospedaria dos pais. Recebendo viajantes de todo o mundo com um sorriso no rosto. Não era o que ela queria, mas era uma possibilidade. Uma que foi cortada ainda enquanto estava sendo tecida.

Ao amanhecer do terceiro dia, vemos que a Kino dormiu demais. Qual o propósito de sua rotina matinal, se não o de se manter alerta? Sempre pronta para os possíveis perigos que encontra em sua viagem? Que a Kino durma demais é sem dúvida um indício de que ela estava se deixando acomodar. Estava se sentindo segura, e confortável. Um conforto que ela provavelmente não sente há vários anos.

O anime nunca chega a tocar na questão de se a Kino nutre ou não algum ressentimento pelos seus pais, ou pelo seu país natal. Na light novel fica claro que sim, mas aqui isso é muito mais ambíguo. Ainda assim, há algo de reconfortante no familiar. Sakura é quem a Kino poderia ter sido, e acho que ela queria se deixar levar um pouco mais por essa possibilidade. Mas ela não tem essa opção.

Esses três dias foram, para ela, um retorno ao passado. Mas não é sem motivo que o passado tem esse nome. A erupção vulcânica faz mais do que soterrar aquele país. Ela soterra também quem a Kino poderia ter sido. Aquela não é mais a sua vida, nem poderia voltar a ser.

O horror no seu rosto é toda informação de que precisamos. Já mencionei isso antes, mas as expressões da Kino tendem a ser mais contidas. Aqui, porém, suas emoções vêm com força total. E mesmo assim, só lhe resta aceitar e seguir em frente. O passado deve ficar no passado. Uma pequena visita é permitida, mas não podemos nos deixar levar pela nostalgia – queiramos ou não.

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E Agora: Todo o Resto!


E finalizamos a análise com a costumeira seção onde deixo tudo que não consegui encaixar no texto corrido. Espero que tenham gostado do anime, e vejo a todos na discussão dos especiais o/

  • Gosto bastante de como, na primeira manhã, vemos a Kino treinando com uma arma só. É uma forma bastante sutil de indicar que o episódio se passa no passado, algo que só notamos realmente quando ela recebe aqui a sua segundo arma.

  • O país é conhecido pela sua xenofobia, e acho que a visita ao museu histórico explica um pouco o porque dela. Afinal, é um povo cujos ancestrais foram rejeitados por todo lugar que passaram.

  • Ao mesmo tempo, ela dá contexto ao que a mulher fala em sua carta, sobre esta ser a única vida que conhecem. Kino diz “é o ego”, e acho que ela se referia ao país como o ego da sua população, que prefere morrer a deixá-lo.

  • Na maquete da região, no museu, podemos ver um vulcão ativo. Passa despercebido se você não estiver procurando por ele, mas é um excelente momento de foreshadow.

  • Terminamos exatamente onde começamos: de volta ao prólogo. Gosto bastante dessa sensação de “ciclo que se fecha” que o episódio passa.

  • Esse episódio tem que vir depois do passado da Kino. Vai se ferrar, adaptação de 2017!


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