Antiguidades – Katsudou Shashin: Os Primórdios da Animação Japonesa

Katsudou Shashin

Quando começa a história da animação japonesa? Qual foi, afinal, o primeiro anime? Essa é uma pergunta que muitos fãs da mídia já devem ter se feito, mas infelizmente ela também é uma sempre em aberto. Durante muito tempo acreditou-se que as primeiras animações japonesas datavam do comecinho de 1917, quando temos os primeiros desenhos animados japoneses feitos para o cinema. Em 2005, porém, um curta de apenas três segundos jogou as origens do anime para algum tempo antes, e a história da animação japonesa ganhou aqui um novo capítulo – ou, talvez seja mais apropriado dizer, um novo prefácio.

O curta em questão foi encontrado por Matsumoto Natsuki, especialista em iconografia da Universidade de Artes de Osaka, motivo pelo qual o curta é algumas vezes chamado de fragmento de Matsumoto (embora seja uma obra completa, não um fragmento). Apesar de encontrá-lo em janeiro de 2005, foi apenas em agosto daquele ano que notícias sobre “o anime mais antigo da história” começaram a circular pelo mundo. O jornal Asahi Shimbun fez uma matéria sobre o curta em 1º de Agosto, e no dia 7 foi a vez do site Anime News Network publicar a respeito dele. E desde essas primeiras divulgações a antiguidade do curta já estava evidente, com ele sendo colocado como provavelmente do final da era Meiji, que se encerrou em 1912.

Alguns frames do curta.

Infelizmente, bem pouco se sabe a seu respeito. Quem seria seu autor, que estúdio o teria produzido, mesmo seu título original permanece um mistério. Nele, um garoto usando um uniforme de marinheiro escreve na parede atrás de si as palavras “katsudou shashin” (“imagens em movimento”), para logo em seguira virar-se para o espectador e lhe tirar o chapéu, em sinal de mesura. É daí que vem o nome pelo qual o curta é mais conhecido, Katsudou Shashin, embora mesmo este seja apenas um improviso. Mas calma: isso também não significa que não haja nada para se falar sobre esse curta. Para o quão simples é esse filme, ele ainda pode nos dizer muito sobre o estágio inicial da animação japonesa.

Podemos começar com o fato de que Katsudou Shashin nunca foi exibido em um cinema, nem foi feito para tanto. Mesmo porque, na época em que foi criado o cinema ainda era uma raridade no Japão. Ao invés disso, o curta foi criado para uma espécie de projetor doméstico conhecido como Lanterna Magica, essencialmente o brinquedo de alta tecnologia da época. Com ele era possível projetar tanto imagens estáticas – através de slides normalmente em papel ou em vidro – como também filmes em loop, motivo pelo qual os filmes para estas máquinas costumavam ser bem curtos. E Katsudou Shashin é certamente curto. Com apenas 50 frames, o curta roda a 16 frames por segundo, daí a sua duração de apenas três segundos.

Outra questão digna de nota é o fato do filme ter cor. Quando pensamos no cinema de antigamente a maioria certamente pensaria em filmes em preto e branco. Entretanto, a verdade é que desde bem cedo existia a vontade de dar cor aos filmes, algo que resultou em toda sorte de experimentalismos. Nesse ponto vale a pena mencionar o artigo de Frederick S. Litten Japanese color animation from ca. 1907 to 1945, de 2014, onde o autor explora justamente isso: alguns dos primeiros métodos para se dar cor aos filmes e como tais métodos foram ou não aplicados no Japão.

Katsudō_Shashin
Frame de Katsudo Shashin, destacado.

No caso de Katsudou Shashin, sua coloração está ligada à sua forma de produção. O curta foi produzido pelo método conhecido como “animação por impressão”, onde os frames são impressos diretamente no papel ou na celulose. Já A coloração se deu pelo método kappazuri, uma forma de coloração por estêncil que já era bastante usada nos slides de vidro voltados para as lanternas mágicas. Isso por si só sugere que o filme estava longe de ser um exemplar único, mas sim que provavelmente foi algo produzido em “massa”.

Por quem é uma pergunta que, como eu bem disse no começo deste texto, permanece em aberta. Como Litten aponta, a baixa qualidade do curta e o uso da técnica kappazuri levou o próprio Matsumoto a apontar que o curta era provavelmente um produto de algum estúdio menor. Na época já havia estúdios maiores que tanto importavam quanto produziam filmes para as lanternas mágicas, e para Matsumoto a técnica usada em Katsudou Shashin não era típica deles. Litten, porém, aponta que isso pode muito bem apenas ter sido uma primeira tentativa de adicionar algo de local (leia-se, japonês) a um produto inerentemente importado: filmes e projetores.

Nesse sentido, é interessante apontar como a animação japonesa praticamente surge de alguma forma vinculada à animação ocidental. Litten mesmo coloca que Katsudou Shashin foi provavelmente inspirado em curtas similares de origem alemã, também voltados para as lanternas mágicas.

Katsudou Shashin

Infelizmente, se podemos traçar as inspirações deste curta, o impacto que ele próprio talvez tenha tido permanece desconhecido: numa nota de rodapé de outro de seus artigos, Some remarks on the first Japanese animation films in 1917, Litten coloca que ainda não está claro se tanto Katsudou Shashin quanto os curtas alemães que o inspiraram chegaram a ser vistos pelos pioneiros da animação japonesa para o cinema.

Que este curta tenha sobrevivido até o presente é talvez uma das maiores demonstrações de como a sorte pode ser um fator importante para a história como disciplina. Somos limitados pelas fontes de que dispomos, o que significa que se algo desaparece sem deixar nenhum registro é praticamente como se ele nunca tivesse existido em primeiro lugar. Não fosse pelo golpe de sorte de Matsumoto Natsuki, talvez nunca soubéssemos dessa contribuição japonesa para as lanternas mágicas.

Seria Katsudou Shashin a única destas contribuições? Ou haveria outras que se perderam nas areias do tempo? Seria este curta de fato o “primeiro anime”? Infelizmente não temos como responder essa pergunta, e justamente por isso estará sempre aberta a possibilidade de, algum dia, em algum outro golpe de sorte, alguém conseguir evidências de uma animação ainda mais antiga. Até lá, porém, Katsudou Shashin permanece como a mais antiga animação japonesa que conhecemos. Como e se ele se liga à história da animação japonesa de forma geral segue um mistério, mas é fato que aqui está ele, mais de cem anos depois.

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Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Katsudou Shashin

2 – Frames de Katsudou Shashin [Wikimedia Commons]

3 – Frame de Katsudou Shashin [Wikipedia]

4 – Katsudou Shashin

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