História – Ontem e Hoje: Anime e Mangá em Solo Brasileiro (Parte 1 – Animes)

Logotipo da Rede Manchete, um dos canais pioneiros em animações japonesas no Brasik
Logotipo da Rede Manchete, um dos canais pioneiros em animes no Brasil

Aquele que observar a situação atual da industria do anime e mangá no Brasil se deparará com uma situação dúbia. Por um lado, animes foram quase completamente eliminados das televisões brasileiras. Com ainda um ou outro título sendo exibido, a situação atual, porém, é radicalmente diferente das décadas de 1990 e 2000, quando os animes tiveram grande repercussão na televisão, tanto em canais fechados como na televisão aberta. Inversamente, nunca antes se publicaram tantos mangás, com cada mês trazendo às bancas uma série de novos títulos. Nessa linha, nunca antes os eventos de anime e mangá foram tão populosos, com números passando facilmente das cem mil pessoas em alguns eventos. Uma situação aparentemente esquizofrênica. Aquele que um dia foi a maior propaganda desses produtos (ou seja, o anime) desapareceu, levando consigo mesmo muitos dos materiais licenciados, como produtos escolares, brinquedos e por ai vai. Porém, a industria se mantém. E ainda consegue se renovar: é curioso notar enquetes sobre idade em grupos de otakus no facebook, que mostra que grande parte destes entram em uma faixa dos 12 aos 14 anos. Ou seja, são crianças que quando começaram a ver TV pegaram justamente a época em que os animes estavam desaparecendo.

Explicar como nasceu tal situação é algo problemático, até pela falta de fontes profundas a respeito do assunto. Justamente por isso, minha preocupação para este post foi principalmente a de fazer um panorama. Longe de me propor a explicar algo, desejo apenas mostrar. Mostrar como era a situação no passado, desde as primeiras produções japonesas a entrarem em solo brasileiro, já lá na década de 1960, até o verdadeiro “boom” do anime e mangá no Brasil, nas décadas de 1990 e 2000. E, em seguida, mostrar como é a situação atual. Obviamente, a definição de “atual” é imensamente questionável. Onde traçar a linha entre o ontem e o hoje é, de fato, algo bastante arbitrário e subjetivo, então não espero que a decisão de recorte tomada agrade a todos. Porém, e tomando como base especialmente as escassas fontes que consegui encontrar a respeito, decidi definir como “hoje” apenas o ano de 2014. Ou, ainda mais especificamente, os últimos meses deste ano: outubro e novembro.

Isto posto, é importante que eu já comente uma das possíveis críticas a este texto: a de que ao se comprimir a situação de duas décadas para se comparar com a situação de dois meses seria fácil forjar a imagem de que antes havia mais animes ou mangás em circulação, não levando em conta a situação específica de cada ano. Quem ainda não entendeu o problema, imaginem um trabalhador que produz dez camisetas por dia. Ao longo de duas décadas ele terá produzido muito mais do que ao longo de dois meses. Isso significa que sua produtividade caiu? Obviamente que não. Então é preciso cuidado: os dados podem não ser o que parecem ser. Isto dito, eu procurei tomar alguns cuidados para com este problema. A começar, sempre que possível procurei, sim, entender a situação específica de cada período, não simplesmente jogar duas décadas num mesmo bojo. Infelizmente, porém, o problema central está nesse “quando possível”. Nem sempre temos os dados que gostaríamos ou precisaríamos ter, de forma que especialmente a parte de animes ficou bem complicada de traçar divisões ou situações específicas. Neste caso, não há muito o que fazer, a não ser deixar essa problemática clara, a fim de que o próprio leitor possa olhar os dados que serão apresentados com maior desconfiança e cuidado, tirando deles suas próprias conclusões.

Uma última consideração metodológica antes de partirmos para a postagem em si: por mais que fosse meu desejo, não tive nem o tempo e nem a informação (ou seja, fontes) necessária para fazer um panorama de todo o Brasil. A grande maioria do que direi aqui se limita muito ao eixo Rio-São Paulo, de onde provém a maior quantia de fontes. Com algum esforço, deve ser possível estender as considerações aqui dadas para a região Sul-Sudeste, mas realmente não pretendo que a postagem consiga abarcar a todo o território nacional. Por isso, convido o leitor a postar a sua própria experiência com o anime e mangá, como era antigamente e o que é hoje, talvez apontando onde minhas considerações falham ou onde elas podem ser complementadas. E agora sim, feitas as devidas ressalvas, comecemos do começo.

Ao contrário do que pode ditar o censo comum, a popularidade das produções japonesas, no Brasil, não começou com os mangás. Na verdade, em grande parte do ocidente foram as produções animadas que serviram de porta de entrada para outras produções japonesas. No Brasil, porém, mesmo os animes chegaram em segundo lugar. Segundo uma pesquisa realizada por Pietro Francesco Leonardi para o site da revista Obvious, a primeira produção japonesa a estrear nas telas brasileiras foi o tukusatsu National Kid, exibido na extinta TV Tupi, parte integrante da Rede Tupi, primeira emissora de televisão brasileira e quarta do mundo. Ao longo das décadas de 1960 e 1970, porém, a TV Tupi seria responsável por trazer, também, uma série de animes para o Brasil. Neste ponto, é conveniente citar o site Anime News Network, que possui um excelente banco de dados sobre onde um dado anime foi exibido. Assim, em sua página sobre a TV Tupi podemos ver que a emissora foi responsável pela exibição de importantes clássicos, tais como “Cyborg 009”, “Kimba, o Leão Branco” e “A Princesa e o Cavaleiro”. Igualmente importante no período, ainda segundo o já mencionado artigo de Pietro Leonardi, teria sido a Rede Record de Televisão, fundada em 1953 (apenas três anos após a fundação da Rede Tupi). Infelizmente, especialmente por ser uma rede de televisão ainda em funcionamento, não consegui encontrar fontes que ajudassem a melhor datar possíveis “eras” ou “boons” da animação japonesa no canal. Assim como a TV Tupi, a Rede Record possui sua própria página no Anime News Network, onde podemos ver que ela foi responsável pela exibição de importantes títulos, dentre os quais “Speed Racer” é um nome que certamente desponta. Quais destes títulos são frutos das décadas de 1960 e 70, e quais vieram após o “boom” pós-anos 1990, porém, é complicado de precisar (exceto, talvez, para obras como “Pokémon”, cuja própria produção, no Japão, data do final da década de 1990).

Exibido na Rede Manchete, Cavaleiros do Zodíaco foi um fenômeno de audiência.
Exibido na Rede Manchete, Cavaleiros do Zodíaco se tornaria um fenômeno de audiência.

Até este ponto, porém, os animes eram um fenômeno raro, mesmo não identificado. Apesar de obras como National Kid, por conta de seu aspecto de tokusatsu (o que implica que eram produções com pessoas reais), deixarem clara sua origem japonesa, é difícil dizer até que ponto obras como Speed Racer ou A Princesa e o Cavaleiro foram percebidas como diferentes das animações então existentes. Isso muda drasticamente, porém, quando da primeira metade da década de 1990. A grande responsável por essa mudança foi a extinta Rede Manchete , criada em 1983 e que esteve em atividade até 1999. Nela, foi exibido aquele que pode ser considerado um dos animes mais bem recebidos no país: “Cavaleiros do Zodíaco”, exibido a partir de setembro de 1994. Em fato, poucas discordâncias há quanto à importância desse anime para o mercado de anime e mangá no Brasil. Junto de sua popularidade crescente vieram os mais variados produtos licenciados, com o mercado brasileiro definitivamente se abrindo para os produtos orientais relacionados ao anime e mangá. Mas a Rede Manchete não foi responsável por apenas este anime. Como sua página no Anime News Network bem indica, o canal trouxe ainda clássicos como “Sailor Moon” e “Yu Yu Hakusho”. Ainda nessa época vemos outras emissoras buscando a sua fatia nesse mercado das produções japonesas. Além da já mencionada Rede Record, a Rede Bandeiranes exibiu diversos títulos importantes ao longo da década de 1990, especialmente no campo dos tokusatsus. Mas foi também responsável pela exibição de animações que viriam a se tornar grandes clássicos, como mostra sua página no Anime News Network, que a coloca como responsável pela exibição do filme “Akira”. Além disso, a rede de televisão do milionário Silvio Santos, o canal SBT, também foi responsável por alguns títulos importantes, dentre os mais o famosíssimo “Dragon Ball”, como mostra sua página no Anime News Network

Com o fim da Rede Manchete em 1999, certamente a próxima grande novidade no mundo dos animes no Brasil veio com a Rede Record, responsável pela exibição do anime “Pokémon”. Sucesso de vendas, com dezenas de produtos licenciados, a série animada fez tanto sucesso que a então grande concorrente da Redord, a Rede Globo, se viu forçada a buscar uma obra que pudesse competir com o sucesso de Pokémon. Chegava ao Brasil, assim, Digimon, anunciado pela própria Globo como uma obra similar a Pokémon (e dando assim início à velha discussão deste ser cópia daquele, frequente ainda nos dias de hoje, mais de 10 anos depois). Obviamente, a Rede Globo foi responsável, também, por diversas outras produções, como mostra sua página no Anime News Network, com seu bloco para crianças, conhecido como TV Globinho, tendo apresentado ao Brasil obras como “Yu-Gi-Oh!”, “Beyblade” e, claro, “Dragon Ball Z”. Em certo sentido, podemos dizer que aqui chegamos ao ápice da exibição de animes na televisão aberta brasileira. Infelizmente, a partir deste ponto as coisas começam a mudar. Grosso modo, eu posso dizer que até aqui perfizemos mais ou menos até meados da década de 2000, e ao entrarmos na década de 2010 a situação se mostra bastante desfavorável não somente para os animes, como também para a programação infantil num geral.

Em primeiro lugar, como sua própria página na Wikipedia já informa, em 2012 o bloco infantil da Rede Globo, o TV Globinho, foi mudado para uma exibição apenas aos sábados. A partir de dezembro daquele ano, o bloco deixa de ter qualquer apresentador, se tornando apenas alguns desenhos exibidos em sequência. Ainda segundo sua página na Wikipedia, em 2013 o bloco aparentemente vê um aumento na audiência, mas mesmo isso aparentemente não impediu o desfecho já há tempos enunciado: conforme nos informa esta notícia do site Na Telinha, de autoria de Helder Vendramini, a emissora já declarou que em 2015 o bloco será definitivamente encerrado, cedendo seu espaço aos sábados para programas voltados para adultos. Mas isto não ocorre apenas com Rede Globo. Num geral, a programação infantil como um todo foi quase completamente extirpada da televisão aberta brasileira, com o último bloco infantil diário, o Bom Dia e Companhia do SBT, tendo deixado a televisão ainda esse ano, como nos informou que ocorreria esta notícia no site da UOL, de autoria de Flávio Ricco. Quanto ao motivo deste completo apagamento das programações infantis na televisão aberta, segundo a já mencionada notícia de Ricco, este seria que “Está comprovado de forma absoluta que programação infantil não gera mais audiência na TV aberta”. E ele definitivamente tem motivos para argumentar isso. Basta olharmos esta outra notícia publicada no site Notícias da TV, que nos informa que só o Bom Dia e Companhia do SBT viu uma queda de 46% em sua audiência na última década.

Mas história da animação japonesa no Brasil não pode ser restringida aos canais de televisão aberta, por mais importantes que estes tenham sido para a difusão do gênero. Principal concorrente das redes de televisão aberta (e possivelmente um dos motivos da queda de audiência da programação infantil nos canais abertos), os canais da televisão paga também foram responsáveis por trazerem ao país diversas séries japonesas. Assim, é preciso também fazer um breve panorama do que ocorreu nestes canais, começando por um canal que foi importante em muitos aspectos no que diz respeito à exibição de animes no Brasil: o canal Locomotion. Fundado em novembro de 1996 (lembrando, apenas dois anos após o “boom” que a exibição de Cavaleiros do Zodíaco, pela Manchete, havia causado), no ano seguinte o canal já define a sua programação como voltada para animações direcionadas ao público adolescente e adulto. Entretanto, é apenas a partir de 2000 que se começa a exibição de séries de animes, com estreias de peso como “Neon Genesis Evangelion”. Nessa linha, a primeira metade da década de 2000 vê uma vasta gama de animes sendo exibidos, incluindo obras como “Cowboy Bebop” (em novembro de 2001), Akira (em junho de 2002), “Ghost in the Shell” (novembro de 2002) e “Serial Experiment Lain” (janeiro de 2004). Em 2005, porém, o canal é comprado pela Sony Pictures, sendo substituído pelo primeiro canal latino americano voltado exclusivamente para animes: o Animax, que foi responsável pela exibição de animes consagrados, a exemplo do popular “Death Note”.

A partir de 2009, porém, mesmo o Animax começa a mudar sua grade, reposicionando aos animes em horários matinais ou noturnos e reservando seu horário nobre para outros tipos de programas, embora ainda tentando manter um direcionamento ao público jovem. Finalmente, em 2011 a Sony anuncia que removeria completamente os animes da grade do canal, que tem seu final decretado ainda no mesmo ano, sendo substituído pelo canal Sony Spin em maio de 2011. É conveniente apontar, porém, que a mudança do enfoque do canal não significou a completa eliminação das animações japonesas do mesmo. Por ainda pertencer à Sony, o canal Sony Spin herdou algumas das animações que o Animax exibira, com os horários da madrugada e manhã contando com obras como o já mencionado “Death Note” e outras como “Blood +”. Em julho de 2014, porém, e alegando baixa audiência, o Sony Spin é oficialmente descontinuado. Mas isso não significa que todas as produções do canal foram perdidas. Tendo perdido espaço na televisão, parte da programação foi direcionada para o site de stream online Crackle, de propriedade da Sony Pictures Entertainment. Infelizmente, no Brasil o site atualmente conta com apenas três títulos categorizados oficialmente como animes: “Astro Boy”, “Bleach” e “Karatê Kid”.

Bastante popular no Brasil, Death Note foi exibido originalmente no canal pago Animax
Bastante popular no Brasil, Death Note foi exibido originalmente no canal pago Animax

Mas apesar do pioneirismo do Animax, os canais mais importantes para os animes no Brasil não foram aqueles dedicados integralmente a estes, mas sim os canais infantis que eventualmente exibiam alguns animes em suas grades, fosse de forma mais aleatória, fosse em blocos próprios para a programação, pois permitiam um “primeiro contato” das crianças e adolescentes com esse tipo de animação, que preenchia os horários entre os programas infantis e as séries adolescentes. E possivelmente um dos melhores exemplos de canais do tipo foi outro que hoje também já não existe mais: a Fox Kids. Para quem quiser um panorama mais detalhado do canal, eu recomendo que deem uma olhada neste vídeo do canal Você Não Sabia, no youtube, mas aqui eu vou dar a a versão “too long; didn’t read” da coisa, a começar da fundação do canal, ou melhor, do bloco “Fox Kids”.

Originalmente, a Fox havia feito uma parceria com a Disney para que a última pudesse exibir alguns desenhos na grade horária da primeira, o que resultou no bloco chamado “disney afternoon”. Após uma quebra de contrato por parte da Disney, que levou suas produções para outro canal, a Fox decide criar um bloco infantil dentro de sua grande, o que resultou na “Fox Kids”. Mas enquanto nos Estados Unidos a Fox Kids ficou limitada a apenas um bloco, na América Latina ela já surge como um canal. E ao longo de sua existência, contou com a presença de animes que se tornariam boas memórias de infância para toda uma geração,  tais como toda a franquia “Digimon”, “Musculo Total”, “Super Pig”, “Shaman King”, “Medabots” e diversos outros, como podemos ver na página do canal no Anime News Network. Contudo, a marca “fox kids” viria a ser vendida para a Disney, que em 2002 renomeia tanto ao bloco americano como os canais latino-americanos para Jetix. Para os animes, porém, isso não significou uma mudança tão brusca: tendo herdado grande parte da programação da Fox Kids, o canal ainda contava com uma quantia nada desprezível de animes sendo exibidos ao longo do dia. A situação começa a mudar, porém, quando o próprio Jetix passa por uma repaginada, convertendo-se, em 2009 em Disney X D (dado curioso: ao contrário da Fox Kids e do Jetix, que eram blocos em outros canais, o Disney X D surge, nos Estados Unidos, como um canal próprio, substituindo ao Toon Disney, um dos canais onde passava o bloco Jetix).

Ao contrário do Jetix, que alterou bem pouco do “estilo” de seu antecessor (poderíamos falar que a maior mudança da Fox Kids para o Jetix foi a logomarca), a passagem do Jetix para o Disney X D marca uma mudança bastante drástica. Assim, temos que o novo canal deixa de lado seu enfoque anterior nas animações para se focar bem mais em seriados infantis e infanto-juvenis (não que a Fox Kids ou o Jetix já não tivessem séries do tipo, a exemplo de “Colégio do Buraco Negro” e “Goosebumps”, mas em sua maioria esses seriados era “atirados” para os horários de fim da tarde e noite, além de terem um enfoque mais adolescente, diferentemente dos seriados que a Disney X D viria a exibir). Já as poucas animações que sobraram eram sobretudo produções originais da Disney, com bem pouco espaço sendo dedicado a animações vindas de outros lugares. Ademais, o conteúdo mostra que o canal se direcionava sobretudo para crianças e pré-adolescentes, o que certamente dificultava ainda mais a exibição de animes, normalmente mais voltados para o público adolescente. Ainda assim, o canal foi responsável pela exibição de alguns animes importantes, como “Digimon Data Squad” (5º série da franquia Digimon) e “Dinossauro Rei”. Até pouco tempo atrás, o canal ainda exibia o anime “Beyblade Metal Fury”, continuação direta do anime “Beyblade Metal Fusion”, também exibido pela Disney X D. Contudo, o anime não aparece na grade horária prevista para o mês de dezembro de 2014, o que pode indicar o fim efetivo do último anime do canal, ou apenas um pequeno hiato (como já aconteceu antes, conforme nos mostra esta notícia do ANMTV), algo possível até pelo fato do anime ainda constar no site do canal como uma de suas séries.

Finalmente, o último canal que irei mencionar aqui é o Cartoon Network. E antes que critiquem eu deixar diversos outros canais de fora, eu já me defendo dizendo que falar de absolutamente todo canal que já exibiu algum anime no país simplesmente deixaria esse post ridiculamente longo (bom, ainda mais, eu digo rs). Eu vou, portanto, deixar aqui uma menção honrosa sobretudo ao canal Nickelodeon, que foi o responsável pela exibição do anime “Yu-gi-oh!”, cujo jogo de cartas se tornou uma verdadeira febre nos anos 2000. No mais, digo apenas que o leitor é livre para deixar nos comentários outros canais responsáveis pela exibição de animes no Brasil, portanto fiquem a vontade. Mas voltemos agora ao Cartoon Network, interessante justamente por ser o segundo tipo que eu mencionei mais acima: se na Fox Kids os animes ficavam relativamente “jogados” na programação, o Cartoon Network desde muito cedo procurou restringir os animes a blocos específicos do canal. Se isso era reflexo dos animes serem percebidos como animações distintas daquelas de outros países, ou se foi esta separação o “primeiro passo” para levantar essa percepção, não temos como saber, mas muito possivelmente existe ai alguma ligação.

O primeiro bloco do tipo, assim, foi o bloco Talismã, que nasce já em 2001, exibindo animes como “Dragon Ball Z”, “Pokemon” e outros. Em dezembro de 2002, porém, o Talismã sai do ar e em seu lugar entre o Toonami, possivelmente um dos blocos de animes mais conhecidos. Originalmente, o bloco tinha uma duração de duas horas, começando às 17h e terminando às 19h, sendo responsável por diversos animes, tais como o já mencionado “Dragon Ball Z”, bem como “Samurai X”. Nessa época, ainda existia, também, um outro bloco, o Caleidoscópio, responsável sobretudo pela exibição do anime “Sailor Moon”, além de alguns filmes. Em 2004, porém, Sailor Moon passa para o Toonami, o que extinguiu o bloco até 2006, quando foi retomado somente para ser novamente extinto um ano depois. Já o próprio Toonami, em 2005 o bloco passa para um horário mais noturno, se tornando um bloco de quatro horas que ia das 22h de um dia até as 02h da madrugada seguinte. Em 2008, o bloco é oficialmente extinto, segundo a Wikipedia por conta de reclamações quando a violência excessiva presente em seu conteúdo. Mas isso ainda não significaria o fim dos animes no canal: em 2010, surgia um novo bloco, o Animaction, um bloco de duas horas exibido às quartas feiras, às 18h, no qual estiveram presentes animes como “Pokemon”, “Bakugan” e “Meninas Super Poderosas: Geração z”. Em 2011, o canal passa a exibir alguns animes a partir da meia noite, mas ao que parece o “bloco” foi extinto já no mesmo ano em que nasceu. Infelizmente, porém, o maior enfoque do canal no público infantil fez com que os animes fossem sendo progressivamente abandonados. Até novembro de 2014 (como pode ser observada nas planilhas da programação veiculada pelo canal), o Cartoon Network só exibia dois animes: Pokemon e Digimon Fusion, sendo que aparentemente ambos ainda estão em exibição.

Outro grande sucesso de audiência, além de exibido pela Rede Globo o anime Dragonball Z também passava no Cartoon Network
Outro grande sucesso de audiência, além de exibido pela Rede Globo o anime Dragon Ball Z também passava no Cartoon Network

O que podemos ver, assim, é uma progressiva eliminação dos animes também dos canais da televisão paga, embora aqui por um motivo inteiramente diferente daquele da televisão aberta. Se neste os animes deixaram de ser exibidos em prol de uma programação voltada para adultos, naqueles o fim dos animes está diretamente relacionado com uma mudança do canal para a busca de um público mais infantil. Para onde foram os animes, então? Possivelmente foram espalhados entre aqueles poucos canais que ainda tentam se voltar para o público jovem (ou seja, nem infantil, nem o adulto), a exemplo do canal Play TV, que, segundo esta notícia do ANMTV, já confirmou algumas estreias de animes para 2015, além, claro, da manutenção daqueles que o canal já vinha exibindo, como “Bleach” e “Death Note”. Além disso, com o advento da internet se tornou cada vez mais comum a existência de sites de streaming online, ainda que no Brasil o segmento ainda seja bem pequeno. Ainda assim, sites como o Netflix e o Crunchyroll (este último inteiramente dedicado a produções japonesas) vêm se mostrando os novos pioneiros em termos de trazer novos animes para o país.

Finalmente, o cinema vez ou outra ainda volta a exibir animes, como vimos com a vinda dos filmes de Dragon Ball (“A Batalha dos Deuses”, 2013) e Cavaleiros do Zodíaco (“A Lenda do Santuário”, 2014), mas também fora das grandes telonas dos grandes cinemas obras consagradas ainda são eventualmente exibidas, como nos mostra esta postagem do facebook feita pela página da Caixa Cultural São Paulo e que anuncia, para todo o mês de dezembro de 2014, seções de filmes dos autores Miyazaki, Otomo e Kon. Obviamente, no caso do cinema o que temos são “ilhas”, pequenos e breves momentos de exibição de uma ou outra obra que só está lá por conta da fama e popularidade que ou sua obra original (no caso dos filmes de animes que foram exibidos no país), ou seu autor (no caso da mencionada seção de filmes da Caixa Cultural) adquiriram no Brasil. Ainda assim, estão ali.

Feitas estas considerações, eu vou encerrar esta parte da postagem por aqui, até mesmo pelo tamanho que o texto já tomou. Na Parte 2 deste post, mudaremos um pouco de mídia, passando das obras televisivas para as de papel, observando sobretudo o cenário dos mangás no Brasil. Além disso, aproveitarei essa segunda parte também para falar do fenômeno editorial referente a animes como um todo, tratando brevemente também sobre Light Novels (em face de sua recente re-introdução no mercado brasileiro, por conta sobretudo da editora New Pop) e sobre as revistas dedicadas a animes (um fenômeno raro hoje, mas que já teve bastante força em meados da década de 1990 e nos anos 2000). Mas, por agora, espero que tenham gostado deste pequeno panorama histórico de como surgiu e evoluiu o anime em território brasileiro. E uma última coisa, antes de encerrar em definitivo a postagem: como eu já havia mencionado no começo do texto, por diversos motivos esta postagem ficou bastante restrita a uma certa região do país, portanto gostaria de reforçar o convite ao leito que complemente o que aqui foi mostrado conforme a sua própria região, falando se faltou eu falar de algum canal em específico, se onde você mora ainda existe algum canal, seja aberto ou fechado, que exibe animes, e por ai vai. Assim, quem sabe, e com o devido tempo, não se torne possível em algum momento fazer um panorama dos animes em todo o território nacional.

Imagens (na ordem em que aparecem):

1 – Logotipo da Rede Manchete de Televisão

2 – “Os Cavaleiros do Zodíaco”, Episódio 1 – As Lendas de uma Nova Era.

3 – “Death Note”, Episódio 1 – Renascer.

4 – “Dragon Ball Z”, Episódio 1 – Surge um Mini-Goku! Seu Nome é Gohan.

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