Review – Gyakkyou Burai Kaiji: Ultimate Survivor (Anime)

Kaiji: Ultimate Survivor
Kaiji: Ultimate Survivor

Baseado no mangá de Nobuyuki Fukumoto, “Tobaku Mokushiroku Kaiji”, em 2007 chegava às televisões japonesas a animação “Gyakkyou Burai Kaiji: Ultimate Survivor“, com 26 episódios num total, ao passo que o ano de 2011 traria a segunda temporada da série, intitulada “Gyakkyou Burai Kaiji: Hakairoku-hen”, também com 26 episódios. Nesse anime, a história acompanha ao personagem principal, Kaiji Itou, um desempregado que passa a maior parte de seu tempo fazendo pequenas apostas em jogos de azar e bebendo cerveja. Um dia, chega à sua porta Yuuji Endou, que vem para lhe cobrar a dívida de um amigo, naquele momento desaparecido. Vendo a enorme dívida que acabara de conseguir, Kaiji entra em desespero, pensando em como poderia fazer para pagar uma soma tão alta sem nem mesmo ter um emprego. Mas para este problema Endou lhe oferece uma solução: participar de um jogo que ocorreria no luxuoso navio Espoir. A simples participação já significaria a quitação de suas dívidas e, ainda mais, caso Kaiji se saísse bem no jogo ainda seria capaz de ganhar altas somas de dinheiro. Obviamente, o que Endou não fala é do preço a se pagar caso perca o jogo, algo que Kaiji só irá descobrir quando for tarde demais.

Num geral, Kaiji, como o anime é popularmente abreviado, se encaixa naquela categoria de “animes de jogos”. Tal como séries como “Yugioh”, “Phi Brain: Kami no Puzzle” (que já teve sua review neste blog, inclusive), ou o mais recente “No Game No Life”, os conflitos em Kaiji se resolvem por meio de jogos. O diferencial desta série, porém, é que a maioria os jogos mostrados em Kaiji são, fundamentalmente, jogos de azar. Isso significa dizer que são jogos que exigem uma grande medida de sorte, bem como são, muitas vezes, jogos criados especificamente para causar a derrota daqueles que os jogam. Mas engana-se quem pensar que, por conta disso, o anime será permeado de jogadas milagrosas, que dão a vitória ao protagonista puramente porque ele é o protagonista. Num geral, o que a série se propõe em fazer é justamente mostrar como Kaiji é capaz de contornar o fator fundamental “azar” desses jogos, usando de sua astúcia e inventividade para tornar mesmo a situação mais desfavorável e injusta numa luta que pode ser ganha. Isso não significa, porém, que ele sempre irá ganhar, o que adiciona uma boa dose de tensão à trama. Dito isto, é melhor eu parar essa sinopse por aqui. Deste ponto em diante, haverão spoilers do enredo e mesmo do final da série, portanto se não gosta de levar spoilers eu sugiro que deixe essa review de lado e vá assistir esse anime logo, porque definitivamente vale a pena. Aos que ficarem, desejo uma boa leitura o/

Logo de início, o que chama a atenção em Kaiji é a arte. Apesar de eu não gostar de usar, ao contrário de diversas reviews e comentários sobre o anime que encontrei internet afora, o termos “feio” para descrever a arte desse anime, ela é definitivamente algo que não vemos todo dia. Os personagens têm os traços bem angulosos, com ombros retos e rostos pontiagudos ou quadrados, algo bem diferente do traço mais redondo que costumamos encontrar nos animes de hoje. Além disso, num todo a colocação é bem escura. Com a enorme maioria das cena se passando em locais fechados ou a noite, grande parte da série passa bem longe das cores vibrantes com as quais estamos acostumados. A meu ver, porém, tudo isso tem um propósito claro: mostrar que estamos vendo algo que não deveria ser visto. Estamos nos terrenos do submundo, da máfia japonesa, dos jogos de azar e das apostas que podem lhe custar a vida. Não é uma situação bonita. Pelo contrário: é algo que pode lhe causar a destruição. E, ao mesmo tempo, é algo obscuro, realizado sob quatro paredes, fechadas à sete chaves. Desde o começo, assim, o anime nos passa uma mensagem bem clara: o que será mostrado a seguir é feio. E… Realmente é.

Kaiji certamente não é um shounen. Todos os possíveis estereótipos sobre o triunfo do bem, a derrota do mal, o valor da amizade e por ai vai são completamente desvirtuados nessa obra. Kaiji irá vencer, sim, mas toda vitória traz um preço. A sobrevivência ao navio espoir certamente lhe quita a dívida, mas o faz sair de lá com uma maior ainda, que só poderá ser paga com o envolvimento em outros desses jogos perigosos do submundo, fazendo o personagem se afundar cada vez mais em um fosso que o levará direto para o trabalho semi-escravo. Ah sim, e não esperem uma derrota do grande antagonista. A primeira temporada termina em uma nota bastante pessimista, com Kaiji perdendo em todos os sentidos possíveis, saindo ainda mais endividado para com seu oponente, bem como perigosamente ferido. E embora a segunda tenha terminado com um tom mais otimista, nosso antagonista sai relativamente impune, salvo pela perda de alguns milhões que certamente não lhe farão falta. Quanto ao valor das amizades, a primeira temporada é, novamente, mais cruel do que a segunda, com todos os amigos que Kaiji faz o traindo ou, no pior dos casos, morrendo. E ainda que a segunda tenha um tom mais otimista nesse quesito também, ela ainda faz questão de mostrar que quando dinheiro está envolvido até aqueles que lhe prometem amizade incondicional não hesitarão em o abandonar.

Depois dessas descrições, o leitor que chegou até aqui possivelmente já deve ter uma boa ideia do que é Kaiji. Um anime “dark“, sombrio, cruel, onde ninguém é confiável e todos perdem algo. Um anime para completamente destruir qualquer possível fé na humanidade que a pessoa ainda tenha, certo? Bom… errado. Na verdade, isso é praticamente o oposto da realidade. Longe de ser uma profunda crítica à natureza humana, à cobiça ou mesmo ao submundo dos jogos de azar, Kaiji é, antes de tudo, um anime para divertir ao espectador. Como outras obras do gênero de “animes de jogos”, o triunfo final do protagonista é, via de regra, algo dado. Quando tudo estiver em jogo, quando for vencer ou morrer, a vitória virá, certamente. Nesse sentido, o real entretenimento do anime está não no resultado final, previsível na maioria dos casos, mas sim no caminho que será seguido até lá. Isso não significa, porém, que o protagonista seja infalível, como já mencionei. Kaiji perde, e perde bastante. O final da primeira temporada é exemplar: longe de criar um milagre, Kaiji é derrotado, herdando uma imensa dívida em dinheiro e, ainda por cima, tendo seus dedos decepados. Contudo, em Kaiji a derrota normalmente vem como uma forma de aprendizado. Por meio dela, o personagem é capaz de entender onde falhou, onde foi superado e, mesmo, onde foi trapaceado. Depois, ergue-se novamente, desta vez com um plano capaz de lhe assegurar a vitória, uma fórmula que será peculiarmente frequente na segunda temporada.

Itou Kaiji, protagonista do anime.
Itou Kaiji, protagonista do anime.

Com isso em mente, o anime de Kaiji é, acima de tudo, extremamente over the top e exagerado, em vários sentidos. A começar, já temos o narrador, que é por si só a encarnação em voz do exagero. A seu cargo ficam as descrições das emoções de Kaiji, e para tanto o mesmo emprega de diversas metáforas visuais, normalmente figurando o protagonista afundando em um oceano ou se atolando num lamaçal. Quanto ao protagonista em si, Kaiji é extremamente emocional e suas expressões faciais deixam isso bem claro: dos dentes rangendo em frustração aos verdadeiros rios de lágrimas de derrama quando em desespero, em mais de uma vez suas expressões beiram ao cômico e ao cartunesco. Novamente: um anime feito para divertir, não para deprimir, ao ponto em que, arrisco dizer, o expectador possivelmente se pegará rindo ou sorrindo em mais de uma ocasião.

Mas não tiro essas conclusões sobre a leveza da série apenas com base em um estilo narrativo ou em expressões faciais. Tiro, também, da nota relativamente otimista com a qual o anime avança, sintetizada na figura de Kaiji. Sim, o mundo de Kaiji é um mundo cruel. É um mundo onde amigos o trairão ainda que você seja o único responsável pela sobrevivência deles. Um mundo onde poderosos se deleitam com o desespero humano e onde verdadeiros jogos de morte são organizados apenas para a diversão daqueles capazes de pagar. O mundo da máfia, do trabalho escravo, em suma, do submundo. Que faz Kaiji diante de um mundo assim? Em grande medida, ele não se dobra. Ainda que alguns amigos o traia, ele nunca desiste de fazer amizades ou de ajudar àqueles em necessidade. Kaiji não é seu herói típico, isso é verdade. Não que seja do tipo egoísta, que pensa apenas em si próprio, ou que não se importa com as consequências de suas ações. Ele é apenas… normal. Se frustra, se irrita, se enoja com a feiura do mundo que vê. Mas também não consegue nunca abandonar uma bondade que lhe parece inata, ajudando mesmo àqueles que o traíram ou aqueles que mal conhece.

Síntese disso é o segundo jogo da primeira temporada: uma espécie de corrida realizada em uma barra de metal a alguns metros do chão, Kaiji se vê diante de um dilema, tendo de empurrar a pessoa à sua frente para avançar (o que faria a pessoa cair da barra, quebrando alguns ossos no melhor dos casos). Caso não empurre, Kaiji não apenas não conseguirá chegar em primeiro como, ainda, correrá o risco de que aquele que está atrás de si o empurre (levando Kaiji, assim, a uma queda com consequências nada agradáveis). Neste ponto, Kaiji já havia retornado do navio espoir, já tendo sido traído por praticamente todos aqueles que ele havia considerado um amigo, e se vendo novamente em um jogo doentio para o divertimento da alta sociedade. Apesar de tudo isso, e sabendo dos riscos que corre, Kaiji ainda assim, em meio ao choro, se recusa a empurrar aquele que está na sua frente. A dureza de seu mundo não é capaz de endurecer sua pessoa ao ponto de quebrar a mais fundamental norma do convívio social: não ferir a outro ser humano. É neste sentido que digo que o anime mantém uma nota otimista em meio a todo o desespero pelo qual o protagonista passa, nota esta que é a principal responsável por não faz deste anime algo extremamente sombrio.

Pois bem, feitos os elogios resta apenas fazer breves considerações sobre os problemas desse anime. Em primeiro lugar, o fato de Kaiji ser constantemente traído significa que a grande maioria das personagens só aparecerão para seus respectivos arcos, mal sendo mencionadas no restante da obra, exceção feita basicamente apenas para o vilão da série. Pessoalmente, porém, eu não posso dizer que as personagens são mal aproveitadas ou mal desenvolvidas. Pelo contrário, elas são desenvolvidas justamente na medida certa para o expectador se importar com elas. Já outro problema que eu tenho para com a obra diz respeito ao caráter excessivamente formulístico da segunda temporada. Com apenas dois jogos sendo realizados nesta, a história consegue reproduzir a exata mesma fórmula em ambos: Kaiji tenta vencer, é derrotado, descobre que estava sendo trapaceado, bola uma estratégia contra a trapaça e, finalmente, triunfa. Isso acaba tornando a história repetitiva, sobretudo em seu segundo arco, quando aquela fórmula literalmente acabou de ser usada no primeiro. Talvez por conta disso, o arco final acaba parecendo extremamente arrastado, o que certamente não é o que se espera encontrar no anime nem é o que o anime entrega em seu início.

Num geral, eu diria que este anime é ideal para aqueles que gostam do estilo de animes de jogos. Com uma boa execução, o anime consegue criar suspense e tensão na medida ideal para manter o espectador preso à tela, torcendo cada vez mais pela vitória do protagonista. Isso dito, não se trata de um anime de ação ou aventura. Grande parte da obra se resume a diálogos e exposições, de maneira que aqueles que não gostam desse tipo de história podem achar Kaiji bastante tedioso. Além disso, apesar de ter o comum “final feliz” para o protagonista, não é um anime em que o inimigo sai exatamente derrotado, o que talvez possa frustrar àqueles que esperam o tradicional embate final entre o bem e o mal (cofcoftipoeucofcof). Já para aqueles que nunca tiveram contato com animes de jogos, Kaiji pode ser uma boa introdução ao gênero, sobretudo pelo caráter simples dos jogos apresentados, que facilitam a compreensão e imersão do espectador. Então se você nunca viu um anime do tipo e está curioso para saber como é, minha recomendação serIa para dar uma conferida nesse anime, até para saber se o gênero faz ou não o seu estilo.

Imagens: Kaiji, Episódio 1 – Embarque.

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