Review – Fune wo Amu (Anime)

Fune wo Amu

Você já se perguntou como é feito um dicionário? Quais as diferentes etapas que vão na produção de um, quanto tempo essa produção pode demorar, e quais as pessoas envolvidas nesse trabalho? Eu vou chutar e dizer que muito provavelmente você nunca deu muita atenção a essas perguntas. Em fato, você talvez nem tenha tido muito contato com dicionários em primeiro lugar. No passado, era muito mais simples apenas perguntar a alguém o que uma palavra significava, e hoje a internet está ai, mais que capaz de lhe dar a resposta a dúvidas do tipo. Assim, é compreensível que a premissa de Fune wo Amu não tenha chamado a atenção de lá grande parcela do meio otaku. Uma produção em 11 episódios do estúdio Zexcs, com direção de Toshimasa Kunoyanagi e roteiro de Takuya Sato, o anime de 2016 adapta ao livro homônimo de Shion Miura sobre uma pequena equipe da editora Genbu Shobo que deseja criar um novo e atualizado dicionário: A Grande Passagem. Acontece que um dos membros está deixando a equipe, e precisa encontrar alguém pra substituí-lo. E é aqui que entra o nosso protagonista, Majime Mitsuya.

Tal sinopse, porém, faz pouco em termos de capturar o real apelo do anime. Fune wo Amu foi ao ar no bloco noitaminA, um quadro da Fuji TV voltado para animes que busquem ter apelo para além do meio otaku, e tal concepção fica bastante aparente na obra. É um anime claramente mais voltado para o público adulto, lidando com dramas e situações comuns a essa faixa etária. Tematicamente, é uma história que trabalha com a comunicação, e o papel vital das palavras nesse processo. E como anime, é uma obra que sabe muito bem como usar da mídia em que está inserida, com ocasionais metáforas visuais e trilha sonora que sabe dar o tom da cena. E claro, tudo isso se complementando com um elenco de personagens carismáticos, cujas interações conseguem soar incrivelmente naturais. Quem ainda não conhece esse anime, fica a minha recomendação para que o faça. Mesmo que a premissa pareça tediosa, vamos lembrar que o Japão já se provou mais que capaz de tornar até as mais mundanas situações em algo interessante. Além disso, fica o aviso de sempre: haverá spoilers a partir daqui.

Continuar lendo

Review – Ginga Eiyuu Densetsu (Anime)

Ginga Eiyuu Densetsu

Ginga Eiyuu Densetsu (ou Legend of The Galactic Heroes, como ficou mais conhecido no ocidente). Dentre os animes, poucos títulos possuem o mesmo peso que este. Baseados na série de livros de ficção científica escrita por Yoshiki Tanaka, os 110 OVAs que perfazem a série foram lançados entre 1988 e 1997, em um total de quatro temporadas. A primeira delas, que vai do episódio 1 ao episódio 26, foi produzida pelos estúdios Artland e Madhouse, mas a partir da segunda temporada a produção ficou a cargo da Artland junto do estúdio Magic Bus. Em sua história, que se passa no distante futuro, Ginga Eiyuu Densetsu nos mostra uma galáxia dividida entre duas enormes nações em guerra: o monárquico Império Galáctico e a republicana Aliança dos Planetas Livres. O foco da trama, porém, é colocado em dois protagonistas, cada qual um militar de alta patente no exército de sua nação: respectivamente, Reinhard von Lohengramm e Yang Wen-li.

Mas não espere desta obra uma visão demasiado maniqueísta das coisas. Tematicamente falando, Ginga Eiyuu Densetsu é essencialmente sobre como cada sistema de governo pode ter as suas vantagens e desvantagens. Certamente que a ditadura pode trazer imenso mal ao povo quando seu governante é um déspota, mas é inegável que ela pode trazer mudanças muito mais rapidamente do que outros sistemas. Já a democracia representativa pode dar poder ao povo, mas se este só escolhe os mais corruptos, inaptos e egoístas, que vantagem trouxe esse poder? Perguntas do tipo são levantadas ao longo de toda o anime, sem nunca termos uma resposta realmente clara: é algo para cada um considerar. Mas antes de seguir em frente, eu vou parar por aqui para deixar o costumeiro aviso de spoilers: quem ainda não viu o anime, eu altamente recomendo que o faça.

Continuar lendo

Review – Sarusuberi: Miss Hokusai (Anime)

Sarusuberi: Miss Hokusai

Sarusuberi: Miss Hokusai é um caso no mínimo curioso em termos de adaptação. Produzido pelo estúdio Production I.G., com direção de Keiichi Hara e lançado em 2015, o filme adapta ao mangá Sarusuberi, escrito e ilustrado por Hinako Sugiura. O curioso aqui está no fato de Sarusuberi, o mangá, foi lançado na revista semanal Manga Sunday, entre 1983 e 1987, com quase 30 anos separando-o de sua adaptação. Já um pouco menos surpreendente, mas ainda interessante de apontar, é o fato de que aparentemente o filme fez algumas mudanças em relação à obra original. O traço é a mais óbvia, com o mangá buscando um traço mais próximo àquele do japão do período onde se passa a história – o período Edo -, enquanto que os traços do filme são claramente mais modernos. Mas saindo da estética e entrando na história, parece que o filme introduz algumas cenas próprias, além de dar uma maior atenção a personagens que, no mangá, são bem mais secundários. O essencial, porém, foi mantido, e a premissa de ambos se mantém a mesma.

A história é focada no dia a dia de O-Ei, artista e filha de Katsushika Hokusai. Ambos são figuras históricas reais, com Hokusai (1760 – 1849) muitas vezes sendo apontado como o primeiro a usar do termo “mangá” para descrever o seu trabalho, em particular a sua série de pinturas Hokusai Manga. Claro, até que ponto podemos considerá-lo “biográfico” é algo que irei discutir mais adiante, mas é bom ter em mente que orbas desse tipo não devem ser de cara entendidas como um perfeito retrato do passado (ou das pessoas) que representam. E é importante salientar que aqui não há exatamente uma trama propriamente dita, com o filme assumindo um formato muito mais de slice of life, mostrando alguns momentos na vida de O-Ei. Isso em si mesmo pode afastar muitas pessoas, sobretudo aqueles que procurem uma estrutura narrativa mais convencional. Mas ainda recomendaria que dessem uma conferida no filme. É uma obra excelente, que se utiliza muito bem de seu tempo. Além disso, a partir daqui o texto terá spoilers, então considere esse o seu aviso.

Continuar lendo

Review – Time Travel Shoujo: Mari Waka to 8-Nin Kagakusha-tachi (Anime)

Time Travel Shoujo: Mari Waka to 8-Nin Kagakusha-tachi
Time Travel Shoujo: Mari Waka to 8-Nin Kagakusha-tachi.

Eu já disse isso antes em outras reviews minhas, mas acho que é algo que vale a pena reiterar: uma obra qualquer (um filme, um livro, uma série…) ser para crianças não é um demérito, e nem isso deve ser usado como desculpa para se fazer uma obra ruim. Claro, é óbvio que a logística por trás de se fazer uma obra para crianças será diferente daquela de se fazer uma para adultos: públicos diferentes implicam em conteúdos, temas, técnicas, mesmo clichês diferentes, e não há nada de errado nisso. Ainda assim, é plenamente possível fazer algo bom e memorável para crianças, e mesmo de quando em vez saem aquelas obras legitimamente “para todas as idades”, capazes de agradar e encantar a crianças e adultos. O anime foco desta review é um destes casos: não apenas um bom anime “para crianças”, Time Travel Shoujo: Mari Waka to 8-Nin Kagakusha-tachi é um bom anime (ponto).

Com um título que se traduz por algo como “Garota que Viaja no Tempo: Mari, Waka e os 8 Cientistas”, a produção de 12 episódios do estúdio WAO World tem uma origem bem curiosa: ele é baseado em um livro didático de 1983, intitulado Jishaku to Denki no Hatsumei Hakken Monogatari, cujo autor é o educador Kiyonobu Itakura. O livro faz parte de uma série sobra variadas descobertas científicas, e se foca na questão do magnetismo e a eletricidade. Já o anime, sua premissa é a da nossa protagonista, Mari, descobrindo um misterioso livro capaz de mandá-la de volta no tempo, porém apenas para algumas épocas em específico e apenas durante um curto espaço de tempo. O que chama a atenção da garota ainda mais, porém, é a possibilidade desse livro estar ligado ao desaparecimento de seu pai, três anos atrás. Infelizmente, para falar mais desse anime eu terei de entrar em spoilers, então considere este o seu aviso. Se ainda não viu o anime, fica aqui a minha recomendação para que o faça: acredite, ele vale a pena.

Continuar lendo

Review – Kimi no Na Wa (Anime)

Kimi no Na Wa
Kimi no Na Wa

Tendo assistido toda a obra do Makoto Shinkai lançada até a data desta review, eu devo dizer que, embora eu goste bastante de seus curtas, seus filmes nunca “clicaram” para mim. Não que os ache ruins, nem de longe. Muito pelo contrário: são todos bons. Mas também apenas isso: bons, nunca excelentes ou excepcionais. Certamente a presentação visual é incrível, mas isso sempre me pareceu o que mais se destaca em seus filmes. E como alguém que, por mais maravilhado que fique com a beleza dos cenários, espera mais do que isso de um filme, as histórias desse diretor nunca realmente ressoaram comigo. Então eu sinceramente não esperava grandes coisas de seu mais recente filme, Kimi no Na Wa (mais conhecido pelo seu título ocidental, Your Name), produção de 2016 do estúdio CoMix Wave Films. Mesmo com – e admitidamente talvez até por conta de – todo o hype que cercou o filme.

A sinopse também não ajuda, ao menos não para mim. Mitsuha, que mora em uma cidade pequena no interior do Japão, e Taki, que mora no grande centro urbano que é Tokyo, inexplicavelmente começam a trocar de corpos. Inicialmente, isso lhes parece apenas um sonho, sobretudo quando no dia seguinte eles estão de volta a seus corpos normais. Logo, porém, fica claro que aquilo foi bastante real, e agora eles precisarão lidar com esse misterioso evento, dado que ambos seguem trocando de corpos de forma aparentemente aleatória. Não é exatamente uma premissa que eu goste, e eu vou explicar porque depois. Mas antes de mais nada, preciso dizer o seguinte: apesar de tudo isso, esse filme me surpreendeu. Ele é, de fato, excelente, e o hype que o cerca é, arrisco dizer, merecido. Mas para explicar porque, eu terei de entrar em spoilers, então fica aqui o aviso.

Continuar lendo

Review – Michiko to Hatchin (Anime)

Michiko to Hatchin
Michiko to Hatchin.

Quando se fala sobre representações do Brasil nos animes, é quase inevitável que cedo ou tarde surja o nome de Michiko to Hatchin. Uma história original em 22 episódios do estúdio Manglobe, de 2008, a obra tem roteiro de Takashi Ujita e direção de Sayo Yamamoto, se passando em um país fictício canonicamente localizado na América do Sul. A inspiração no Brasil dos anos 1960 e 1970, porém, é mais do que evidente. Da língua escrita à geografia, população e música, a representação do nosso país que esse anime dá seria de fazer inveja a muitas novelas nacionais, e eu digo isso sem um pingo de exagero. Isso dito, a obra também se reserva ao direito de tomar certas liberdades, e se o cenário é majoritariamente inspirado no Brasil ainda existem partes claramente baseadas em outros países da América latina.

Mas vamos à sinopse logo: na história, Michiko Malandro acaba de fugir da prisão de Diamandra, após onze anos presa. Ela parte em busca da menina Hana Morenos, de nove anos, e após resgatá-la de seu lar adotivo abusivo, diz para ambas partirem em busca do pai de Hana, Hiroshi Morenos, antigo namorado de Michiko, ex-integrante da organização criminosa Monstro Preto, e que havia sido dado como morto desde que Michiko estava presa. As duas então partem em uma viagem através do país, enquanto são perseguidas pela detetive Atsuko Jackson, que está decidida a colocar Michiko de volta atrás das grades. É um anime bem divertido, e quem não viu ainda eu recomendo que ao menos dê uma olhada. Até porque, a partir daqui, o texto terá spoilers, então siga por sua conta e risco.

Continuar lendo

Review – Serial Experiments Lain (Anime) [Corrente de Reviews 2016]

Serial Experiments Lain
Serial Experiments Lain

Desde já, quero deixar avisado que este artigo será um pouco diferente da maioria daqueles publicados aqui, e isso por uma série de motivos. A começar pelo fato dele ser a primeira participação do blog na Corrente de Reviews, projeto anual do blog Anikenkai. Para mais informações sobre o que é a corrente em si, bem como para ver as demais resenhas dos demais blogs que participam da brincadeira, clique neste link aqui. Já para saber quem continuará a corrente, desça até o último parágrafo deste texto para ver quem é o próximo.

A Corrente teve início na última quarta-feira (12/10), com o pessoal do Otaku Pós-Moderno, que a abriram com uma review de Hibike! Euphonium, aclamado anime de 2015 do estúdio Kyoto Animation. E foi nesse texto que eles me indicaram para falar de um dos poucos animes que conquistaram fama mundial como uma espécie de “clássico cult” da animação japonesa: Serial Experiments Lain, produção original de 1998 do estúdio Triangle Staff, com direção de Ryutaro Nakamura, roteiro de Chiaki Konaka, produção de Yasuyuki Ueda, e design de personagem de Yoshitoshi Abe.

Na obra, a história começa com Iwakura Lain, uma garota aparentemente normal, ainda que introvertida e desinteressada em tecnologia, que ouve suas colegas de classe falarem do suicídio de uma garota da mesma escola, bem como de um misterioso e-mail, supostamente enviado por essa menina, que diversas crianças daquela escola teriam recebido. Curiosa, ao chegar em casa Lain liga ao seu Navi (basicamente, um computador) e vê que ela também recebeu esse e-mail. E nele, Chisa, a menina que se matou, diz que apenas abandonou seu corpo físico, tendo então ido para algum lugar onde ela encontrou com Deus.

O que se segue a partir daqui é uma série de eventos estranhos que não apenas farão Lain questionar quem ela realmente é, como também tornam cada vez mais difícil de dizer o que é real e o que não é, conforme a barreira que separa a Wired (basicamente, a internet) do mundo real vai se desfazendo. E isso é tudo o que eu posso explicar sem dar spoilers, então siga com o texto por sua conta e risco [rs].

Continuar lendo