É só um desenho?

O quanto uma obra pode nos influenciar? A resposta: mais do que imaginamos.
O quanto uma obra pode nos influenciar? A resposta: mais do que imaginamos.

Antes de dar um início propriamente dito a este texto, eu quero contar a vocês duas pequenas e rápidas anedotas envolvendo um mangá que foi bastante popular no Japão ao em finais da década de 1960 e começo dos anos 1970: Ashita no Joe. Agora, para quem não conhece, o título (que pode ser traduzido como “Joe do Amanhã”) narra a história de Joe Yabuki, um jovem que, por seus motivos, se vê entrando no mundo do boxe profissional. A primeira anedota que eu conto aconteceu em março de 1970, após a morte de um personagem no mangá (que eu não digo qual por motivos de spoiler). Após sua morte, um funeral organizado por fãs foi feito, reunindo mais de 700 pessoas para homenagear o “falecido”, incluindo ai um monge budista que supervisionou os ritos. Já a segunda anedota é um pouco menos “tocante” e aconteceu alguns anos antes, em 1968 (ano de lançamento do mangá, inclusive): após sequestrar um avião que ia para a Coréia do Norte, o grupo terrorista responsável pelo incidente, chamado “Sekigun” (Arma Vermelha), fez um pronunciamento à imprensa no qual eles diziam “nós somos os Joe do Amanhã” [1].

“Ta, e daí?” eu ouço alguns de vocês comentarem. Bem… como colocar isso de uma forma que não soe sensacionalista? Vamos lá: nos últimos anos, tem despontado um discurso de que livros, desenhos animados, filmes, etc., são “só [alguma coisa]”. “É só um livro”, “é só um filme”, “é só um desenho”, e por ai vai. E a meu ver, esse discurso vem sobretudo por conta da polêmica em volta dos vídeo-games. Isso porque esse discurso que eu menciono tenta justamente argumentar contra alegações de que “vídeo-games deixam as pessoas violentas” ou coisa do tipo. Ou mesmo argumentar contra alegações que visam proibir a exibição de certos comportamentos: “se mostrar pessoas fumando, o espectador vai virar fumante”, “se mostrar um casal gay o espectador vai virar gay”, e por ai vai. Contra esse tipo de argumentação, gamers, geeks, mesmo otakus dirão “gente, menos: é só entretenimento, não é real e em nada me influencia”. O que, ao meu ver, não é exatamente verdade. Agora, antes de mais nada, eu quero deixar claro que eu não pretendo de forma nenhuma dizer que jogos deixam as pessoas violentas ou que uma cena de beijo entre homossexuais na novela tornará as pessoas gays, ou qualquer coisa do tipo. O que eu quero tentar mostrar, porém, é que dizer “é só um desenho” e agir como se estas obras não pudessem ter absolutamente nenhum impacto no mundo real é… problemático, isso para dizer o mínimo.

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