Sobre argumentos vazios.

“Ah, mas o protagonista desse anime é muito overpower”. Ta… E daí?

No meu ensaio Tropes e clichês: nada é original, mas isso não é desculpa para não tentar eu procurei argumentar sobre como alguns autores se deixam levar pelos clichês, adotando-os sem reflexão e, nisso, gerando histórias que mais parecem cópias de alguma outra coisa. Aqui, eu quero argumentar que escritores de ficção estão bem longe de serem os únicos afetados por esse tipo de mentalidade, e que em fato muitos de nós se deixam levar por lugares comum inclusive na hora de se analisar ou comentar uma obra.

Algo que vem me incomodando nas discussões sobre anime e mangá é como parece ter despontado nos últimos tempos uma série do que eu vou chamar aqui de “argumentos vazios”. “Vazios”, no caso, eu digo de sentido mesmo. São argumentos que, se tivessem o contexto adequado, poderiam ser críticas e apontamentos bastante válidos, mas como isso raramente acontece nós terminamos com uma série de buzzwords que as pessoas apenas repetem acriticamente. Nisso, a própria discussão vai se tornando menos e menos significativa.

O ponto que eu quero trazer aqui é que não importa qual seja a sua crítica a uma obra, você precisa deixar bastante claro porquê ela é válida em primeiro lugar. Dizer que um personagem é “overpower“, por exemplo, não significa absolutamente nada se você não puder explicar porque isso é um problema naquela história em específico. Mais nisso em breve, mas antes de mais nada eu quero deixar claro o seguinte: eu não faço essas considerações para uma pessoa ou grupo de pessoas em particular, mas sim para todos aqueles que comentam, debatem e criticam animes.

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Toda interpretação é válida? O papel do autor na interpretação de sua obra.

Funfact: Kazuya Tsurumaki, diretor assistente em Neon Genesis Evangelion, já chegou a dizer que o simbolismo religioso no anime estava ali só para distingui-lo de outros animes de robôs gigantes.

Qual a importância do que diz o autor na hora de se interpretar uma obra de arte qualquer? Sinceramente, essa é uma pergunta bem difícil de responder. Nós tendemos a ver o autor como a máxima autoridade sobre a sua obra, mas isso pode ser bastante complicado de sustentar. Por outro lado, já houve aqueles que tentaram romper por completo com essa visão, a exemplo do crítico literário francês  Roland Barthes. Em 1967, Barthes publicou seu ensaio A Morte do Autor, onde advoga por uma separação entre o autor e a sua obra. Para ele, tentar explicar a segunda pelo primeiro seria limitar a própria obra. Mas enquanto eu vejo valor no argumento de Barthes, eu vejo nessa teoria um salto lógico grande demais. Tudo bem que é útil ter algum cuidado ao tratar a palavra do autor como verdade absoluta, mas isso também não significa que devemos concluir que toda interpretação é igualmente válida. É uma situação na qual extremos me parecem bem pouco úteis, francamente falando.

O que me leva ao propósito desse texto. Sendo bem sincero, não é nem de longe a minha intenção resolver toda essa problemática. Ao invés disso, o que eu quero é justamente explaná-la. Há bons argumentos para se duvidar do que diz o autor, e há bons argumentos para se evitar cair no pleno relativismo. Longe de querer dizer qual lado é o melhor, eu pretendo expor a ambos de forma que leitor possa traçar as suas próprias conclusões. Dito isso, eu imagino que pelo menos alguns leitores provavelmente irão querer saber de que lado desse debate eu me posiciono, isso se já não o perceberam pelo parágrafo anterior. Em todo caso, como alguém que vê a arte como uma forma de comunicação, eu tendo a dar bastante importância para as intenções do autor. Dito isso, nem sempre estas serão claras, e no final do dia o melhor que eu posso fazer é dizer que a interpretação do autor é a mais correta, exceto quando ela não é.

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Tropes e clichês: nada é original, mas isso não é desculpa para não tentar.

Trope: Accidental Pervert (Pervertido por Acidente) – Auto-explicativo, quando um personagem age como um pervertido acidentalmente, como o Kirito pegando nos peitos da Asuna quando ela cai sobre ele.

Então, o meu último texto, “clichês, estagnação e o problema dos animes“, recebeu reações… mistas, por assim dizer. Houve quem elogiasse, mas também houve quem criticasse. E, francamente, não sem certa razão. Para todos os efeitos, aquele texto ficou horrível, estrutural e argumentativamente falando, parte disso devido a forma como ele surgiu. Como eu explico no começo, originalmente eu pretendia fazer uma lista com alguns clichês que vinham me incomodando, mas depois decidi transformar o texto em uma argumentação sobre clichês de forma geral. E o resultado foi uma bagunça, com exemplos tomando muito mais da metade do texto e o ponto em si só aparecendo bem para o final. Em essência o que eu queria argumentar era que os animes vêm sofrendo do problema de se tornarem convencionais demais, com certos clichês aparecendo porque parece haver um zeitgeist sempre presente de que é assim que anime deve ser – maior exemplo disso sendo os diversos arquétipos femininos: a tsundere, a yandere, a kuudere e por ai vai. Mas até chegar nesse ponto eu dei tantos exemplos de diferentes clichês – muitos deles, diria até a maioria, nem se quer específicos dos animes, uma crítica que recebi e que é bastante válida – que a conversa que o artigo gerou, sobretudo em grupos no Facebook, onde costumo divulgar meus textos, acabou se focando muito mais justamente nos clichês citados, e não no que eu queria que fosse o ponto central do texto.

Paciência: nem sempre o que parece uma boa ideia na teoria o é de fato na prática. Ainda assim, a experiência me deixou com vontade de falar um pouco mais sobre clichês. Desta vez, porém, de forma um pouco mais… completa. Eu já explorei algumas facetas do tema em textos passados – por exemplo, no meu texto “alguns pensamentos sobre originalidade“, ou no artigo “pensamentos soltos sobre o overexposure” -, mas sobretudo a resposta que meu último texto trouxe me deixou com vontade de sistematizar melhor a minha opinião no tema. Porque, bem francamente, esse é um assunto muito mais complexo do que pode parecer a uma primeira olhada, e em si mesmo é um tema que se relaciona a aspectos culturais, sociais, econômicos, mesmo psicológicos. Falando assim até pode parecer que estou exagerando, mas é para demonstrar estes pontos que temos o restante de todo esse texto. Antes, porém, eu quero deixar absolutamente clara a minha opinião com relação a clichês de forma geral: como conceito, “clichê” não será sempre e invariavelmente ruim, ao menos não se assumirmos a definição em português do termo (mais sobre isso em breve). Contudo, existem alguns de fato problemáticos, na medida em que quebram a imersão na história, e mesmo os demais ainda precisam ser bem executados – como, bem, literalmente tudo em uma história -, do contrário podem soar apenas preguiçosos. Cada caso é um caso, mas dito isso eu pessoalmente ainda prefiro histórias que tendam a quebrar convenções do que histórias que as sigam com maestria (mas isso, novamente, é puramente pessoal).

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Clichês, estagnação e o problema dos animes.

Quando o anime parece interessante, mas é só a mesma pilha de clichês de sempre.

Originalmente, eu pretendia fazer um artigo listando alguns dos clichês que mais vêm me irritando nos últimos tempos, do tipo que faz você revirar os olhos e se perguntar se realmente vale a pena continuar acompanhando aquela história. Inicialmente a lista teria apenas cinco entradas e depois eu pensei em aumentar para dez, quando então eu percebi que praticamente todas elas se referiam a uma mesma “coisa”: os personagens. Suas personalidades, seus comportamentos, e por ai vai.

Por exemplo, um dos clichês que eu pretendia citar nessa lista era como o protagonista parece sempre precisar de um motivo altamente pessoal para agir ou fazer o que for. A perda de algum ente querido, algum outro evento traumático no passado… Recentemente eu li o mangá Carnaval Glare, publicado no Brasil pela editora Nova Sampa (com uma das piores traduções e diagramações que eu já vi em um mangá, mas isso não importa agora). Na história, existem estes seres que causam mortes e destruição conhecidos como Bruxas, e que só podem ser combatidos por humanos especiais capazes de empunhar armas especiais. Tais humanos formam uma espécie de força policial que lida com incidentes envolvendo Bruxas, e nosso protagonista é o capitão dessa força. E ele luta contra as Bruxas porque uma delas matou a sua irmã mais nova no distante passado.

Várias obras fazem algo do tipo, onde você tem uma ameaça a praticamente toda a humanidade, e ainda assim a obra sente que precisa dar uma motivação mega pessoal ao protagonista para justificar ele lutar. Nisso, a decisão do Eren de enfrentar os Titãs, em Shingeki no Kyojin, vem após a morte de sua mãe, ao passo que a vontade de Gon de lutar contra as formigas quimeras, em Hunter x Hunter, vem sobretudo por um desejo de salvar o Kaito. E isso só para dar alguns exemplos de um dos clichês que eu pretendia citar.

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Sobre discutir animação

E se eu disser que a animação de Byousoku 5 Centimeter é bem menos impressionante do que as pessoas fazem parecer? Leia o texto e entenda porquê.

Falar sobre animação é complicado, e ainda assim é um dos assuntos mais recorrentes no meio otaku. Verdade seja dita, o que normalmente vemos é o consenso: para o elogio ou para a crítica, via de regra as pessoas tendem a concordar sobre se um dado anime qualquer tem ou não uma boa animação. A palavra-chave aqui, porém, é tendem. Em tempos relativamente recentes, discussões sobre a animação de Pokemon Sun & Moon, ou de Kono Subarashii Sekai ni Shukufuku wo 2, mostraram que, em raras ocasiões, uma forte polarização pode muito bem se instaurar. No caso de Pokemon, inclusive, comentários sobre a animação de sua série mais recente chegaram a variar entre aqueles que a acharam barata e mal feita e aqueles que a acharam genial e a melhor animação que a franquia já teve, um espectro no mínimo interessante de se observar. Digo, se existe um elemento da análise de um anime que todos parecemos concordar que pode ser objetivamente medido este provavelmente seria a animação, e ainda assim vez ou outra vemos discussões como as já mencionadas. Por quê? De onde vem tamanha disparidade de opiniões sobre algo que, idealmente, qualquer um com bons olhos deveria ser capaz de perceber?

Bom, vamos lá, parte disso é certamente algum nível de desinformação. Sobre Pokemon Sun & Moon, para manter o exemplo, o canal The Canipa Effect chegou a fazer um excelente vídeo demonstrando que chamar a animação da nova série de “barata” ou “mal feita” não é apenas injusto, mas também é factualmente incorreto. Entretanto, e o vídeo reconhece isso, o principal problema se encontra no fato de que algo bom do ponto de vista da produção de um anime não será necessariamente percebido como bom pelo público em geral. Eu vou entrar em maiores detalhes ao longo do texto, mas o que eu quero argumentar aqui é que a palavra “animação”, no contexto atual do meio otaku, se tornou, em fato, um termo guarda-chuva que abarca sob si mesmo uma gama bastante variada de elementos. Em conjunto, coisas como movimento, coreografia, design, coloração, e outros, formam aquilo que normalmente chamamos de “animação”, e por vezes discussões sobre a qualidade de uma animação qualquer divergem justamente porque esses elementos internos atingem diferentes graus de sucessos em agradar ao público e em corresponder à proposta da obra. Se isso parece muito confuso agora, tudo bem: vamos com mais calma, olhando alguns desses diversos elementos e seus possíveis usos.

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O que você pode aprender com animes?

É possível aprender algo com animes e mangás?

Você já aprendeu algo assistindo animes? Essa é uma pergunta que reaparece com algumas frequência no meio otaku de tempos em tempos, e que normalmente angaria todo tipo de respostas. Alguns, talvez já um pouco cansados de a verem tantas vezes, já partem logo para a brincadeira e a “zoeira”, e disso surgem respostas que ridicularizam clichês e estereótipos da mídia, como, digamos, “aprendi que se eu correr pela rua com uma torrada na boca vou trombar com a pessoa que gosto”, ou “aprendi que numa luta vence quem gritar mais alto”, dois clichês relativamente comuns dos mangás shoujo de romance e shounen de ação, respectivamente. Outros já tendem a dar respostas um pouco mais sérias. Nisso, alguns enfatizam eventuais curiosidades que aprenderam com alguma anime, como decorar os signos do zodíaco graças a Saint Seiya, ou os planetas do sistema solar graças a Bishoujo Senshi Sailor Moon. Já outros enfatizam mais lições de moral ou conceitos um pouco mais “abstratos”, como a importância da amizade, do companheirismo, da perseverança, e por ai vai. Curiosamente, vale apontar, talvez a resposta mais incomum seja o puro e simples “não”.

Por um lado, tanto a existência dessa pergunta como as respostas mais sérias me parecem surgir de uma espécie de desejo por validação. Um meio de autoafirmação mesmo, como que tentando dizer “isto importa” (“isto”, no caso, sendo o anime, mangá, etc.), fruto talvez de uma sociedade pragmática onde tudo precisa ter alguma utilidade para ter algum valor. Mas numa nota um pouco mais positiva, acho que parte disso vem também de uma própria autorrealização: das pessoas notarem que saíram deste ou daquele anime um pouco diferentes do que quando o começaram, e então querem saber se mais alguém teve uma experiência do tipo. O que, de certa forma, me lembra um pouco do anime Gallery Fake [review], em cuja análise do mesmo eu procurei comentar sobre como a visão de arte do anime se resume em “aquilo que fica conosco”. Arte, ou pelo menos boa arte, seria aquilo que impacta, e que por isso mesmo permanece em nossa mente por um bom tempo: seja um quadro, uma escultura, mesmo um objeto mecânico ou uma joia rara, quando bem feita a arte transforma aquele que a vê, mesmo que talvez só um pouquinho.

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O que faz uma boa paródia?

“Eu vou por fogo nessa p*rra”

No momento em que escrevo este texto, acabo de assistir ao 11º episódio do abridge de Sword Art Online, uma produção do canal no YouTube Something Witty Entertainment. Para quem não sabe o que é um abridge, a palavra vem da língua inglesa e literalmente se traduz por “encurtar”. Trata-se de um gênero de paródia na qual fãs redublam uma dada série de forma que seus diálogos se tornem mais voltados para a comédia, ao mesmo tempo em que editam a obra de forma a adicionar ou remover cenas. O produto final acaba sendo normalmente mais curto do que o original, daí o porquê do termo: o próprio SAO Abridge comprimiu os 14 episódios do arco de Aincrad de Sword Art Online, cada um com aproximadamente 22 minutos, em 11 episódios com uma média de 15 minutos cada (com alguns maiores e outros menores do que isso, o próprio episódio final tendo mais de 30 minutos). E que série foi essa… Impressionantemente melhor do que o original em praticamente todos os aspectos: personagens, história, desenvolvimento, com ainda por cima diversas piadas de ótimo timing. Tudo isso enquanto conseguindo trazer momentos genuinamente emocionantes, e completamente merecendo tais momentos!

Agora, para que esse texto não se torne essencialmente eu falando bem da minha nova série de internet favorita [rs], ainda que eu certamente vá retornar a esse abridge ao longo do texto, eu acho que esse tipo de obra nos permite refletir um pouco sobre um tipo bastante específico de comédia: a paródia. Afinal, séries do tipo são paródias por excelência e por essência, se definindo inteiramente no refazer de uma série prévia. E, ainda assim, conseguem se tornar imensamente populares quando bem feitas, além de muito bem recebidas. A pegadinha está, porém, nesse “quando bem feitas”: enquanto séries como DragonBall Z Abridged, do canal no YouTube TeamFourStar, ou Yu-Gi-Oh The Abridged Series, do canal Little Kuriboh, conseguem atrair centenas de milhares de pessoas, há também outras tantas séries similares que simplesmente não conseguiram atingir qualquer audiência. Então… O que os faz tão bons? Certamente há ai um aspecto técnico: enquanto a maioria das séries abridge tem uma produção bem mais amadora e rústica (são feitas por fãs como um hobby, afinal), as séries que mais se destacam são realmente bem mais profissionais, em praticamente todos os sentidos. Mas será apenas isso? Afinal: o que faz uma boa paródia?

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