O apelo do slice of life: muito mais do que histórias sobre nada.

Falemos um pouco sobre o slice of life.

Como definir o slice of life? Sendo um texto que busca expressar o apelo do gênero, defini-lo certamente seria útil. Afinal, seria bom sabermos sobre o que estamos falando antes de começarmos a listar seus méritos, não? Mas aqui um detalhe interessante: falando estritamente do gênero tal como ele se aplica ao anime e mangá (como falarei ao longo de todo este texto, salvo explicitado o contrário), ainda que ele seja um dos mais prolíficos nessas mídias, ele é também um bem mal definido. Digo, todo mundo parece ter uma vaga noção de o que caracteriza o slice of life, mas comparando diferentes definições fica claro que, enquanto há alguns pontos de intersecção, há também bastante discordância. Toda definição que encontrei me pareceu de alguma fora insuficiente, e se de um lado temos o povo que imediatamente associa o gênero com “garotas fofinhas fazendo coisas fofinhas”, de outro temos definições tão ridiculamente amplas que permitem que mesmo Mob Psycho 100 seja listado como um “slice of life” em sua entrada no My Anime List. Ao mesmo tempo, não é como se eu tivesse uma definição melhor…

É um assunto complicado, e um ao qual eu irei voltar muito em breve. Mas para fechar essa introdução, toda essa problemática sustenta – e mesmo ilustra – muito bem o ponto que eu queria fazer com este texto: o de que amplo como é o gênero, as razões pelas quais alguém pode gostar de um slice of life são bem mais variadas do que “garotas fofinhas”, ao mesmo tempo que o gênero em si é capaz de entregar histórias bem mais profundas, mesmo bem mais complexas (ao menos em questões temáticas), do que o popular jargão de serem histórias sobre “nada”. Sim, o slice of life é um gênero que lida com o mundano, mas dito isso: 1) o que exatamente esse “mundano” significa pode variar enormemente de obra a obra (novamente, para este texto estou falando do slice of life como ele configura entre os animes e mangás somente), e 2) mesmo partindo dessa premissa ainda é possível criar toda miríade de histórias interessantes, provocativas, ou mesmo puramente divertidas. E dito tudo isso, vamos então abrir a caixa de pandora.

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O Facebook é ruim, precisamos de uma alternativa, mas provavelmente não há uma.

O Facebook certamente nos permitiu entrar em contato com toda sorte de pessoas, mas talvez não da melhor das maneiras…

Qual foi a última vez que você entrou em um grupo no Facebook? Com isso eu quero dizer: qual foi a última vez que você foi até a barra lateral da plataforma e conscientemente clicou em um grupos que talvez ali estejam? Agora, para explicar o porquê dessa pergunta eu preciso comentar sobre como eu utilizo esses grupos. Vejam, este é um blog sobre anime e mangá, afinal. Como tal, a vasta maioria dos grupos em que estou – praticamente todos, na verdade – são sobre anime e mangá: locais onde eu possa divulgar o meu conteúdo. Houve um tempo ainda no início da maior popularização do Facebook que eu também havia entrado em grupos de memes e de debates variados, mas há muito que o cansaço para com os primeiros e a queda na qualidade dos segundos me afastaram de praticamente todo grupo ao qual eu não possa dar um uso imediado – novamente, ferramenta de divulgação. É um tanto quanto irônico, porém, que eu raramente divulgue meus textos em grupos. Apesar de dar um bom retorno quando eu comecei essa prática, este retorno foi diminuindo, e após um tempo simplesmente não valia mais o esforço. Bom, recentemente eu decidi conferir cada grupo no qual eu já havia entrado, e digamos que deu para ter uma boa ideia do porquê dessa queda em cliques – bom, ou ao menos parte do motivo.

A vasta maioria dos grupos nos quais eu havia entrado estavam praticamente mortos. Ainda havia uma ou duas postagens por dia, mas quase sempre apenas alguém promovendo a própria página ou canal – sem nenhum comentário ou reação nessas publicações. Agora, os grupos de anime e mangá no Facebook nunca foram bastiões da excelência de conteúdo – bem pelo contrário, na verdade. Em novembro de 2016 eu publiquei meu artigo O meio otaku no facebook e os meus problemas com ele, onde critico questões como o overexposure a meia dúzia de animes, a preponderância de imagens como “curte para X, comente para Y”, o excessivo cinismo e ironia em grupos com fãs um poucos mais experientes na mídia, e toda uma sorte de problemas que basicamente só fizeram piorar desde então, para ser bastante sincero. Mesmo assim, ter tantos grupos, muitos deles com membros na casa dos milhares, simplesmente morrerem foi um pouco… estranho. Embora bastou procurar novos grupos para descobrir que esse meio continua tão ativo quanto nunca – para o bem e para o mal. Dito isso, a experiência me fez pensar algumas coisas não tanto sobre o meio otaku no Facebook, mas sim sobre o Facebook de maneira geral.

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Algumas críticas aos serviços de streaming de anime.

No passado, a televisão era nossa fonte primária de animes. E conforme esse papel passa para a internet, novos problemas vão começando a surgir.

Falar sobre serviços de streaming, ou mais especificamente sobre os problemas e defeitos que eles possuem, é quase sempre um tópico espinhoso. As pessoas tendem a ficar bastante defensivas discutindo esse tópico, e não raras vezes qualquer crítica a esses serviços é tratada como apologia à pirataria travestida. Isso muito possivelmente é fruto da retórica moralista que normalmente se usa para defender esses serviços, sendo muito mais comum ouvir que as pessoas usam deles por ser “o certo” ou para “ajudar o mercado” do que realmente por serem um bom produto. O importante, assim, se torna mostrar que você é moralmente superior, pouco importa a real qualidade do produto que você consome: um comportamento tóxico não apenas para o meio de fãs de anime e mangá, mas também para os próprios serviços de streaming. Afinal, uma retórica do tipo nada mais é do que uma carta branca para a estagnação, na medida em que se espera que você use desses serviços não pelo mérito de suas qualidades, mas sim tão somente pelo mérito da sua pura existência. Um ideal que vai se tornar cada vez mais difícil de se sustentar em uma industria em franco crescimento, onde novos serviços do tipo vão surgindo regularmente.

Sim, existem aqueles que simplesmente não possuem o capital necessário para investir em um serviço do tipo, e sim, existem aqueles que não o fazem por questões muito mais ideológicas. Para esses dois grupos nenhuma melhora desses serviços será o bastante, mas vale também dizer que nenhum argumento moral os irá convencer. Em todo caso, um cenário do tipo ainda não significa que devemos ser complacentes com os problemas que cercam os serviços legais de streaming, muito menos significa que eles próprios não deveriam buscar melhorar como puderem. Antes de mais nada, eu quero pedir ao leitor que deixe as suas noções pré-concebidas de lado e não veja este texto como uma defesa da pirataria – ele não o é. O que eu quero fazer aqui é tão somente apontar algumas áreas nas quais eu gostaria de ver os serviços de streaming melhorarem, bem como reais problemas que precisarão eventualmente ser resolvidos de alguma forma se os serviços hoje existentes esperam continuar ativos daqui alguns anos. Assim sendo e finalizado todo esse preambulo, vamos então ao texto.

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O quão viável é uma revista sobre anime hoje?

Parte integrante da cultura otaku japonesa, no Brasil também já tivemos nossas revistas sobre anime e mangá. Mas seria possível elas voltarem um dia?

Quem viveu entre meados dos anos 1990 e meados dos anos 2000 pode presenciar o surgimento, boom e eventual declínio das revistas de anime. Tal como animes na televisão aberta, tazos de Yu-Gi-Oh! nos salgadinhos da Elma Chips e bonecos falsificados dos personagens de Dragon Ball Z, hoje essas revistas são lembradas com um misto de nostalgia e melancolia. Fizeram parte da infância e adolescência de muitos, sim, mas seu declínio é também um triste lembrete do declínio dos animes de forma geral aqui no Brasil. O ano de 2017, porém, viu até o momento deste artigo pelo menos duas iniciativas no mínimo inusitadas. De um lado, a revista Animax está para ganhar uma edição comemorativa especial, que poderá ser adquirida tanto em formato digital como em formato físico, ao passo que, do outro lado, temos o retorno da revista Ultra Jovem, em formato impresso. E ainda que pontuais, acho que esses dois eventos levantam uma questão que vale a pena ser discutida: o quão viável é uma revista sobre anime e mangá nos dias atuais?

Não podemos negar: o mundo hoje é um lugar muito diferente do que era algumas décadas atrás. Sobretudo o avanço da internet mudou bastante a forma como consumimos conteúdo, e também o tipo de conteúdo pelo qual estamos dispostos a pagar. Sites de notícias sobre anime e mangá já existem às dezenas, mais até se você souber outra língua para além do português, e há poucas informações mais gerais que não podem ser encontradas com apenas alguns minutos na Wikipédia. Nem mesmo os jornais, com sua periodicidades diária, conseguem competir com o ritmo frenético da internet, que chance então possuem as revistas de variedades ou de notícias? Por conta disso, quando surge o debate sobre revistas de anime e mangá há sempre aquele que faz uma pergunta talvez até mais pertinente que a do parágrafo anterior: como você justifica uma publicação do tipo?

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Sobre argumentos vazios.

“Ah, mas o protagonista desse anime é muito overpower”. Ta… E daí?

No meu ensaio Tropes e clichês: nada é original, mas isso não é desculpa para não tentar eu procurei argumentar sobre como alguns autores se deixam levar pelos clichês, adotando-os sem reflexão e, nisso, gerando histórias que mais parecem cópias de alguma outra coisa. Aqui, eu quero argumentar que escritores de ficção estão bem longe de serem os únicos afetados por esse tipo de mentalidade, e que em fato muitos de nós se deixam levar por lugares comum inclusive na hora de se analisar ou comentar uma obra.

Algo que vem me incomodando nas discussões sobre anime e mangá é como parece ter despontado nos últimos tempos uma série do que eu vou chamar aqui de “argumentos vazios”. “Vazios”, no caso, eu digo de sentido mesmo. São argumentos que, se tivessem o contexto adequado, poderiam ser críticas e apontamentos bastante válidos, mas como isso raramente acontece nós terminamos com uma série de buzzwords que as pessoas apenas repetem acriticamente. Nisso, a própria discussão vai se tornando menos e menos significativa.

O ponto que eu quero trazer aqui é que não importa qual seja a sua crítica a uma obra, você precisa deixar bastante claro porquê ela é válida em primeiro lugar. Dizer que um personagem é “overpower“, por exemplo, não significa absolutamente nada se você não puder explicar porque isso é um problema naquela história em específico. Mais nisso em breve, mas antes de mais nada eu quero deixar claro o seguinte: eu não faço essas considerações para uma pessoa ou grupo de pessoas em particular, mas sim para todos aqueles que comentam, debatem e criticam animes.

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Toda interpretação é válida? O papel do autor na interpretação de sua obra.

Funfact: Kazuya Tsurumaki, diretor assistente em Neon Genesis Evangelion, já chegou a dizer que o simbolismo religioso no anime estava ali só para distingui-lo de outros animes de robôs gigantes.

Qual a importância do que diz o autor na hora de se interpretar uma obra de arte qualquer? Sinceramente, essa é uma pergunta bem difícil de responder. Nós tendemos a ver o autor como a máxima autoridade sobre a sua obra, mas isso pode ser bastante complicado de sustentar. Por outro lado, já houve aqueles que tentaram romper por completo com essa visão, a exemplo do crítico literário francês  Roland Barthes. Em 1967, Barthes publicou seu ensaio A Morte do Autor, onde advoga por uma separação entre o autor e a sua obra. Para ele, tentar explicar a segunda pelo primeiro seria limitar a própria obra. Mas enquanto eu vejo valor no argumento de Barthes, eu vejo nessa teoria um salto lógico grande demais. Tudo bem que é útil ter algum cuidado ao tratar a palavra do autor como verdade absoluta, mas isso também não significa que devemos concluir que toda interpretação é igualmente válida. É uma situação na qual extremos me parecem bem pouco úteis, francamente falando.

O que me leva ao propósito desse texto. Sendo bem sincero, não é nem de longe a minha intenção resolver toda essa problemática. Ao invés disso, o que eu quero é justamente explaná-la. Há bons argumentos para se duvidar do que diz o autor, e há bons argumentos para se evitar cair no pleno relativismo. Longe de querer dizer qual lado é o melhor, eu pretendo expor a ambos de forma que leitor possa traçar as suas próprias conclusões. Dito isso, eu imagino que pelo menos alguns leitores provavelmente irão querer saber de que lado desse debate eu me posiciono, isso se já não o perceberam pelo parágrafo anterior. Em todo caso, como alguém que vê a arte como uma forma de comunicação, eu tendo a dar bastante importância para as intenções do autor. Dito isso, nem sempre estas serão claras, e no final do dia o melhor que eu posso fazer é dizer que a interpretação do autor é a mais correta, exceto quando ela não é.

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Tropes e clichês: nada é original, mas isso não é desculpa para não tentar.

Trope: Accidental Pervert (Pervertido por Acidente) – Auto-explicativo, quando um personagem age como um pervertido acidentalmente, como o Kirito pegando nos peitos da Asuna quando ela cai sobre ele.

Então, o meu último texto, “clichês, estagnação e o problema dos animes“, recebeu reações… mistas, por assim dizer. Houve quem elogiasse, mas também houve quem criticasse. E, francamente, não sem certa razão. Para todos os efeitos, aquele texto ficou horrível, estrutural e argumentativamente falando, parte disso devido a forma como ele surgiu. Como eu explico no começo, originalmente eu pretendia fazer uma lista com alguns clichês que vinham me incomodando, mas depois decidi transformar o texto em uma argumentação sobre clichês de forma geral. E o resultado foi uma bagunça, com exemplos tomando muito mais da metade do texto e o ponto em si só aparecendo bem para o final. Em essência o que eu queria argumentar era que os animes vêm sofrendo do problema de se tornarem convencionais demais, com certos clichês aparecendo porque parece haver um zeitgeist sempre presente de que é assim que anime deve ser – maior exemplo disso sendo os diversos arquétipos femininos: a tsundere, a yandere, a kuudere e por ai vai. Mas até chegar nesse ponto eu dei tantos exemplos de diferentes clichês – muitos deles, diria até a maioria, nem se quer específicos dos animes, uma crítica que recebi e que é bastante válida – que a conversa que o artigo gerou, sobretudo em grupos no Facebook, onde costumo divulgar meus textos, acabou se focando muito mais justamente nos clichês citados, e não no que eu queria que fosse o ponto central do texto.

Paciência: nem sempre o que parece uma boa ideia na teoria o é de fato na prática. Ainda assim, a experiência me deixou com vontade de falar um pouco mais sobre clichês. Desta vez, porém, de forma um pouco mais… completa. Eu já explorei algumas facetas do tema em textos passados – por exemplo, no meu texto “alguns pensamentos sobre originalidade“, ou no artigo “pensamentos soltos sobre o overexposure” -, mas sobretudo a resposta que meu último texto trouxe me deixou com vontade de sistematizar melhor a minha opinião no tema. Porque, bem francamente, esse é um assunto muito mais complexo do que pode parecer a uma primeira olhada, e em si mesmo é um tema que se relaciona a aspectos culturais, sociais, econômicos, mesmo psicológicos. Falando assim até pode parecer que estou exagerando, mas é para demonstrar estes pontos que temos o restante de todo esse texto. Antes, porém, eu quero deixar absolutamente clara a minha opinião com relação a clichês de forma geral: como conceito, “clichê” não será sempre e invariavelmente ruim, ao menos não se assumirmos a definição em português do termo (mais sobre isso em breve). Contudo, existem alguns de fato problemáticos, na medida em que quebram a imersão na história, e mesmo os demais ainda precisam ser bem executados – como, bem, literalmente tudo em uma história -, do contrário podem soar apenas preguiçosos. Cada caso é um caso, mas dito isso eu pessoalmente ainda prefiro histórias que tendam a quebrar convenções do que histórias que as sigam com maestria (mas isso, novamente, é puramente pessoal).

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