Uma Rápida Review – Kokoro ga Sakebitagatterunda

Review originalmente publicada na página do blog no facebook, em 29/01/2017

Quando criança, Naruse vê o pai saindo de um “palácio” (em fato, um motel) com outra mulher. Ingênua, ela comenta isso com a mãe. Os pais se divorciam, e quando ela tenta entender o porquê o pai é o mais explícito: porque ela é uma tagarela. Chorando, eis então que aparece para ela um ovo vestido de príncipe, e coloca um zíper em sua boca: uma maldição que a impede de falar.

A premissa é idiota? É, não vou discutir. Mas eu vou dizer que o trailer totalmente conseguiu me vender o filme, e assim eu decidi assisti-lo para a review da semana. E olha, que filme gostosinho de se assistir. Mesmo batendo as duas horas, seu pacing nunca o torna chato ou entediante, fluindo de forma que a coisa toda passa bem rápida.

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Uma Rápida Review – Junkers Come Here

Junkers Come Here é um filme que, chuto eu, a maioria de vocês lendo esta review provavelmente nunca ouviu falar. E após tê-lo terminado, eu posso complementar essa primeira afirmação com uma outra: o que é uma pena. Uma história de premissa fantasiosa – uma garota e seu cão falante, que se declara capaz de realizar três “milagres” – sendo usada para tratar de um tema que não realmente se vê com tanta frequência assim nos animes: uma criança que precisa lidar com o iminente divórcio de seus pais.

Vamos começar com o que o filme tem de melhor. Seu cenário é um que já vimos à exaustão, mesmo em mídias ocidentais. Pais de classe alta que, imersos como estão em suas carreiras, acabam inadvertidamente negligenciando sua filha – e também um ao outro. Mas o que Junkers Come Here faz de interessante é adicionar um pouco de nuance a toda essa questão. A começar pelos pais, que ocupados como são nunca chegam a ser de fato negligentes, e podemos ver que eles se esforçam para estarem presentes na vida da filha, ainda que infelizmente falhando mais vezes do que provavelmente gostariam.

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[Vídeo] Indicação – Futatsu no Spica

Vídeo da quinzena :D Agora uma singela indicação do excelente Futatsu no Spica: um anime que (quase) ninguém viu e que justamente por isso merecem mais atenção. Uma dessas pérolas que se perderam nas areias do tempo, ao ponto de hoje ser até difícil de encontrar legendado (alta qualidade então, nem pensar). Ainda assim, é um anime que vale muito a pena conhecer. E claro, caso já o conheça, não deixe de dar uma lida na review dele aqui no blog.

Uma Rápida Review – Piano no Mori

A história de Piano no Mori começa quando Amamiya Shuuhei se muda junto de sua mãe para o interior, a fim de morarem por algum tempo com sua avó materna. Vindo de uma família de pianistas, o garoto sonha em se tornar um ele próprio, e uma vez na sua nova escola ele fica sabendo sobre um misterioso piano quebrado abandonado no âmago da floresta próxima à cidade. Ichinose Kai, porém, lhe assegura: o piano ainda toca.

O que se segue a partir daqui é a história da amizade que se desenvolve entre Shuuhei e Kai, bem como a história de duas diferentes perspectivas quanto ao tocar: para Amamiya, o piano é seu “inimigo”, e praticar é tão somente o seu dever como filho de seu pai; já para Ichinose, o tocar do piano é nada mais que um hobby, um divertimento que o afasta de seus problemas como filho de uma mãe solteira pobre.

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Uma Rápida Review – Perfect Blue

Review originalmente publicada na página do blog no facebook, em 08/01/2017

Agora, eu tenho de ser bem honesto: eu não gosto do estilo do Kon. Para quem não conhece o diretor – já falecido, aliás -, as obras dele giram muito em torno da brincadeira com o que é real e o que é algum tipo de “ilusão” (desde ilusões de fato, loucura, até pura memória, por exemplo). E esse é realmente um estilo que não me agrada.

E… é, Perfect Blue é um filme bem “Kon”, não da pra negar. Ele ainda começa “normal”, como um thriller de suspense – o que ele se mantém até o final, não me entendam mal -, mas logo a coisa degringola para os campos mais malucos possíveis. Até porque a história é, em boa medida, essencialmente sobre a protagonista perdendo a sanidade aos poucos, conforme sucumbe às pressões da industria do entretenimento (passando de cantora Idol para atriz) e se sente em conflito entre o que ela de fato quer fazer e o que seria melhor para a sua carreira.

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Uma Rápida Review – Anne no Nikki

O Diário de Anne Frank. Poucos são aqueles que nunca tenham se quer ouvido falar dele – quer saibam do que se trata ou não. Um diário escrito por uma adolescente judia holandesa, narrando seu dia a dia enquanto vivia escondida das autoridades nazistas durante a ocupação da região, e que se encerra abruptamente quando ela, sua família e as demais pessoas que viviam com eles foram descobertos e levados para variados campos de concentração – para nunca mais retornar.

De certa forma, a própria existência de uma adaptação em anime dessa história é no mínimo curiosa. Há diversos animes que tratam da Segunda Guerra Mundial, sim, mas normalmente apenas da perspectiva japonesa. Uma história sobre o sofrimento daqueles baixo o julgo alemão – que eram, é válido lembrar, aliados dos japoneses durante a Guerra – fica então como no mínimo um ponto fora da curva. E que seja a segunda adaptação em anime da história é ainda mais curioso (a primeira é de 1979, a propósito).

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Review – Futatsu no Spica (Anime)

Twin Spica

Chega a ser trágico como, com o passar dos anos, muitas boas obras vão caindo no esquecimento. Claro, muitas outras seguem sendo lembradas com bastante carinho por muitos – temos animes dos anos 1970 e para trás que seguem sendo apontados como grandes clássicos dessa mídia -, mas sempre haverá um ou outro que acaba se perdendo nas areias do tempo. Futatsu no Spica é um destes títulos: mesmo no exterior são poucos aqueles que se dedicaram a falar dessa obra, e os que fizeram tenderam muito mais a falar do mangá. O que tem lá algum sentido, é verdade. Escrito por Kou Yaginuma, ele foi publicado na revista seinen mensal Comic Flapper entre 2001 e 2009, resultando em um total de 16 volumes. Em contraste, o anime foi uma produção do estúdio Group TAC, com direção de Tomomi Mochizuki e roteiro de Rika Nakase, com uma duração de 20 episódios entre 2003 e 2004. Dos 89 capítulos do mangá, o anime adapta menos de 30, o que talvez explique porque os poucos que decidem falar dessa série o fazem comentando sobre o mangá.

Em termos de uma sinopse, nossa história em fato começa cinco anos antes, quando o foguete japonês Shishigo explode no ar após ser lançado, com seus restos caindo sobre a cidade de Yuigahama. No local do acidente estava a mãe de Kamogawa Asumi, a menina ainda apenas um bebê. Tendo a maior parte do corpo queimada, sua mãe entra em um como profundo, vindo a falecer cinco anos depois, sem nunca acordar. Após a cremação do corpo, Asumi decide levar as cinzas de sua mãe até um templo próximo, onde ela então encontra o auto-proclamado fantasma Lion. Logo descobriremos que ele é de fato um fantasma, o espirito de um dos astronautas que estava no foguete quando ele caiu na cidade. Lion e Asumi acabam formando uma singela amizade, e a garota declara que um dia ela se irá se tornar uma “motorista de foguete”, mas eu paro essa sinopse por aqui e deixo então o aviso de sempre: spoilers adiante. É um anime que eu altamente recomendo, um drama bem construído com personagens carismáticos, então se você não o assistiu ainda fica aqui a minha indicação.

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O apelo do slice of life: muito mais do que histórias sobre nada.

Falemos um pouco sobre o slice of life.

Como definir o slice of life? Sendo um texto que busca expressar o apelo do gênero, defini-lo certamente seria útil. Afinal, seria bom sabermos sobre o que estamos falando antes de começarmos a listar seus méritos, não? Mas aqui um detalhe interessante: falando estritamente do gênero tal como ele se aplica ao anime e mangá (como falarei ao longo de todo este texto, salvo explicitado o contrário), ainda que ele seja um dos mais prolíficos nessas mídias, ele é também um bem mal definido. Digo, todo mundo parece ter uma vaga noção de o que caracteriza o slice of life, mas comparando diferentes definições fica claro que, enquanto há alguns pontos de intersecção, há também bastante discordância. Toda definição que encontrei me pareceu de alguma fora insuficiente, e se de um lado temos o povo que imediatamente associa o gênero com “garotas fofinhas fazendo coisas fofinhas”, de outro temos definições tão ridiculamente amplas que permitem que mesmo Mob Psycho 100 seja listado como um “slice of life” em sua entrada no My Anime List. Ao mesmo tempo, não é como se eu tivesse uma definição melhor…

É um assunto complicado, e um ao qual eu irei voltar muito em breve. Mas para fechar essa introdução, toda essa problemática sustenta – e mesmo ilustra – muito bem o ponto que eu queria fazer com este texto: o de que amplo como é o gênero, as razões pelas quais alguém pode gostar de um slice of life são bem mais variadas do que “garotas fofinhas”, ao mesmo tempo que o gênero em si é capaz de entregar histórias bem mais profundas, mesmo bem mais complexas (ao menos em questões temáticas), do que o popular jargão de serem histórias sobre “nada”. Sim, o slice of life é um gênero que lida com o mundano, mas dito isso: 1) o que exatamente esse “mundano” significa pode variar enormemente de obra a obra (novamente, para este texto estou falando do slice of life como ele configura entre os animes e mangás somente), e 2) mesmo partindo dessa premissa ainda é possível criar toda miríade de histórias interessantes, provocativas, ou mesmo puramente divertidas. E dito tudo isso, vamos então abrir a caixa de pandora.

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Uma Breve Análise – Just Because: A Sutil Importância dos Círculos de Amizade.

Just Because

Você já teve a experiência de assistir um anime e achá-lo um tanto quanto… vazio? Não em conteúdo, temas ou ideias, mas em “vida” mesmo, como se as única pessoas que existissem naquele mundo fossem os personagens principais – e talvez meia dúzia de figurantes lá no fundo do quadro. Não tem nada de estranho em uma história ter um grupo central de personagens, boa sorte tentando escrever uma sem um, mas acho que existe uma linha que separa você ter um foco em um grupo de personagens de você ter esse grupo de personagens.

Just Because, de 2017, é um anime que me impressionou, dentre outras coisas, justamente por não cair nessa situação, mesmo com um roteiro que tende mesmo a favorecê-la. A história é sobre um grupo de cinco estudantes do ensino médio que estão agora nos seus últimos meses de colégio, com a faculdade e o mercado de trabalho já batendo às portas de cada um deles. É essencialmente um drama adolescente com elementos do slice of life e uma boa dose de romance, e como um todo uma produção bem sólida e bem fácil de recomendar.

Agora, quando o anime começa, esses cinco protagonistas são, quando muito, conhecidos uns dos outros. Estudam na mesma escola, alguns já haviam mesmo estudado juntos no ensino fundamental, mas num geral ninguém mantém uma relação próxima com ninguém. Como esses personagens vão se conhecendo melhor e formando lanços entre eles é basicamente a história desse anime, e em parte é o motivo pelo qual eu digo que é um cenário que poderia facilmente cair no que comentei no primeiro parágrafo.

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Review – Flag (Anime)

Flag // Review 17/11/2017 1
Flag

Si vis pacem para bellum. Se quer a paz, prepara-te para a guerra. Um velho provérbio de um povo que construiu todo um império com guerras preventivas cujo propósito seria garantir a paz: os romanos. É uma frase que expressa uma profunda contradição humana: somos uma espécie marcadamente violenta, mas que ainda assim almeja pela paz, mesmo que a força. Ao mesmo tempo, ela é uma frase que deixa de lado uma triste verdade, sobretudo nos dias atuais: nem toda guerra visa a paz. Instrumento político, instrumento econômico, mesmo instrumento religioso: a guerra pode trazer benefícios o bastante a certas pessoas a tal ponto que ela pode se tornar um fim em si mesma. Anime não é muito bom em retratar guerras, muito menos as sutilezas que a engendram. Sim, a guerra já apareceu como cenário em incontáveis obras, mas quase sempre ela é apenas isso: cenário. Quando muito temos junto disso alguma mensagem sobre os horrores da guerra ou a tolice humana, uma mensagem que, sim, é sempre atual, mas cuja repetição já a tornou apenas mais um lugar-comum narrativo.

Flag foi lançado em 2006, no formato de uma série de 13 episódios para a internet. Uma obra original do estúdio Answer, com roteiro de Toru Nozaki e direção de Ryosuke Takahashi e Kazuo Terada. A história se passa no país fictício de Uddiyana, onde uma guerra civil entre duas facções religiosas já ocorre há algum tempo. Fotojornalista, Saeko Shirasu é enviada para cobrir o evento, e em um golpe de sorte tira uma foto que viria a se tornar um símbolo de paz e esperança para o povo de Uddiyana. Com a intervenção das Nações Unidas no país, um acordo de paz está para ser assinado, mas eis então que a bandeira que aparece na foto de Shirasu, e que se tornou ela mesma um símbolo de paz, é roubada por um grupo terrorista extremista. Uma equipe é então montada para ir atrás da bandeira, e as Nações Unidas querem que Shirasu documente todo o evento com sua câmera. Como sempre, não há muito mais que eu possa dizer sem entrar em spoilers, então considere esse o seu aviso. Esse é um anime que realmente vale a pena assistir, e se ainda não o fez fica aqui a minha recomendação.

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