Toda interpretação é válida? O papel do autor na interpretação de sua obra.

Funfact: Kazuya Tsurumaki, diretor assistente em Neon Genesis Evangelion, já chegou a dizer que o simbolismo religioso no anime estava ali só para distingui-lo de outros animes de robôs gigantes.

Qual a importância do que diz o autor na hora de se interpretar uma obra de arte qualquer? Sinceramente, essa é uma pergunta bem difícil de responder. Nós tendemos a ver o autor como a máxima autoridade sobre a sua obra, mas isso pode ser bastante complicado de sustentar. Por outro lado, já houve aqueles que tentaram romper por completo com essa visão, a exemplo do crítico literário francês  Roland Barthes. Em 1967, Barthes publicou seu ensaio A Morte do Autor, onde advoga por uma separação entre o autor e a sua obra. Para ele, tentar explicar a segunda pelo primeiro seria limitar a própria obra. Mas enquanto eu vejo valor no argumento de Barthes, eu vejo nessa teoria um salto lógico grande demais. Tudo bem que é útil ter algum cuidado ao tratar a palavra do autor como verdade absoluta, mas isso também não significa que devemos concluir que toda interpretação é igualmente válida. É uma situação na qual extremos me parecem bem pouco úteis, francamente falando.

O que me leva ao propósito desse texto. Sendo bem sincero, não é nem de longe a minha intenção resolver toda essa problemática. Ao invés disso, o que eu quero é justamente explaná-la. Há bons argumentos para se duvidar do que diz o autor, e há bons argumentos para se evitar cair no pleno relativismo. Longe de querer dizer qual lado é o melhor, eu pretendo expor a ambos de forma que leitor possa traçar as suas próprias conclusões. Dito isso, eu imagino que pelo menos alguns leitores provavelmente irão querer saber de que lado desse debate eu me posiciono, isso se já não o perceberam pelo parágrafo anterior. Em todo caso, como alguém que vê a arte como uma forma de comunicação, eu tendo a dar bastante importância para as intenções do autor. Dito isso, nem sempre estas serão claras, e no final do dia o melhor que eu posso fazer é dizer que a interpretação do autor é a mais correta, exceto quando ela não é.

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Como fazer uma (boa) review negativa?

Falando sobre críticas negativas.

O que define uma boa review negativa? Para mim, isso se resume ao efeito que ela causa. Idealmente falando, apontar os defeitos e problemas de uma dada obra deveria servir para incentivar ao pensamento crítico, além de nos fazer refletir um pouco mais sobre o que faz uma boa e uma má obra de ficção. E notem: eu não digo que todos precisam concordar com a review. É plenamente possível discordar dos pontos apresentados após ponderação, ao mesmo tempo que, para aqueles que gostem da obra criticada, é também possível concordar com os defeitos levantados e ainda seguir gostando daquela história. O ponto aqui é menos a busca de um consenso e mais a ideia de que essa review deveria trazer algo de positivo. Algo que, infelizmente, muitas vezes não acontece. Não é raro encontrarmos reviews negativas que só encontram eco entre aqueles que já não gostavam do anime em primeiro lugar, bem como deve ser ainda mais fácil encontrar tais reviews sendo recebidas com puro desdém e irritação por parte daqueles que gostem da obra analisada. E é aqui, a meu ver, que temos as reviews negativas ruins.

Para alguns, essa minha distinção talvez soe como injusta. Afinal, não é como se o autor pudesse controlar a reação à sua crítica, não é verdade? Bom… Enquanto há certamente alguma verdade nisso (também não sou ingênuo: sei muito bem que há pessoas que não suportam ver aquilo que gostam ser criticado negativamente, por mais ponderada e bem argumentada que seja a crítica), eu ainda não seria tão rápido em isentar ao autor. Isso porque eu acredito que existem algumas estratégias discursivas que podem em muito minimizar qualquer possível reação negativa, estratégias estas que eu mesmo busco usar nas raras vezes em que vou falar mal de algo. Não vou dizer que sejam fáceis de aplicar, e eu mesmo penso que fazer uma boa review positiva é um trabalho bem mais fácil que fazer uma boa review negativa (dai tão poucas reviews minhas nesse sentido). Mas para aqueles que eventualmente se interessarem, ficam então estas considerações.

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Uma pequena crítica à crítica.

Aquele que com frequência lê blogs, assiste vlogs ou interage em redes sociais voltadas para o anime e mangá, talvez perceba uma ou outra similitude entre as coisas que são ditas nestas diferentes mídias. Mais especificamente, talvez percebe como a crítica (entendida aqui como sinônimo de “análise”, não como o “falar mal” de algo) é normalmente executada de formas bastante semelhantes. Qualquer um pode notar: existe um padrão que rege a crítica. Algo que exige daquele que critica mais do que a sua pura e simples opinião. Afinal, o que diz a opinião? Que valor pode o gosto individual ter? Via de regra: nenhum. “Gosto não se discute”, é o que diz o dito popular. Mas a crítica se discute. Se diverge. Se contesta. Ou, mesmo, se concorda. Em todos estes movimentos, temos uma constante: a crítica pode ser criticada, a opinião não. E isso por conta da própria natureza da crítica, que se propõe ser, acima de tudo, objetiva. Como tal, ela deve seguir uma série de regras. O mal emprego destas regras, por sua vez, é o que permite que a crítica seja contestada. Dizer que não gosta de um personagem é uma opinião, que não pode ser contestada. Dizer que ele foi mal desenvolvido, porém, é uma crítica, que exige, idealmente, uma prova. E se o crítico falha em provar sua análise, é neste momento que surge a crítica à crítica. Você afirma que um personagem é mal desenvolvido. Eu afirmo o contrário e exponho o porque de achar isso. Neste momento, pode se instaurar um debate que leve a uma nova conclusão, ou o crítico criticado pode rever sua posição, ou mesmo a crítica à crítica pode ser sumariamente ignorada. O ponto final não importa, na verdade. O que é interessante de verdade é o fato dessa discussão ser possível.

Esta é a base da crítica tal e qual a conhecemos hoje. Ela é mais do que a opinião de quem a tece. Ela segue regras pré-definidas, busca responder questões pré definidas (este personagem é bem desenvolvido? Esta trilha sonora é bem executada? Esta história é consistente?) e, acima de tudo, pode ser contestada por qualquer um que se prove capaz de expor um argumento melhor. Agora eu pergunto ao leitor: isso não lembra alguma outra coisa? Quando posto nestes termos (objetividade, método a ser seguido, problemática a ser resolvida, contestabilidade), não parece que, ao invés da crítica de animes e mangás, estamos a tratar de alguma outra coisa? A mim parece. E digo o nome dessa outra coisa: ciência. Tratamos a crítica (seja a literária, seja a de filmes, ou, finalmente, a de animes e mangás) como tratamos a ciência. E, na minha opinião, isso não é pura coincidência. Walter Benjamin, em seu texto sobre o narrador, nos informa da morte do mesmo. No mundo moderno, a narração cedeu espaço à informação. Neste sentido, o contar algo deu lugar ao provar algo. Pensando sobre isso, vejo que vivemos em um mundo onde impera a dúvida. E sendo assim, tudo precisa ser provado. Cada testemunho exige prova. Cada comentário exige embasamento. Cada opinião exige algo que lhe de respaldo. A forma científica, caracterizada pela objetividade, pela verificabilidade e pela universalidade da experiência, penetrou profundamente na nossa sociedade. E uma expressão disso é a crítica: opinião travestida de método objetivo.

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