O apelo do slice of life: muito mais do que histórias sobre nada.

Falemos um pouco sobre o slice of life.

Como definir o slice of life? Sendo um texto que busca expressar o apelo do gênero, defini-lo certamente seria útil. Afinal, seria bom sabermos sobre o que estamos falando antes de começarmos a listar seus méritos, não? Mas aqui um detalhe interessante: falando estritamente do gênero tal como ele se aplica ao anime e mangá (como falarei ao longo de todo este texto, salvo explicitado o contrário), ainda que ele seja um dos mais prolíficos nessas mídias, ele é também um bem mal definido. Digo, todo mundo parece ter uma vaga noção de o que caracteriza o slice of life, mas comparando diferentes definições fica claro que, enquanto há alguns pontos de intersecção, há também bastante discordância. Toda definição que encontrei me pareceu de alguma fora insuficiente, e se de um lado temos o povo que imediatamente associa o gênero com “garotas fofinhas fazendo coisas fofinhas”, de outro temos definições tão ridiculamente amplas que permitem que mesmo Mob Psycho 100 seja listado como um “slice of life” em sua entrada no My Anime List. Ao mesmo tempo, não é como se eu tivesse uma definição melhor…

É um assunto complicado, e um ao qual eu irei voltar muito em breve. Mas para fechar essa introdução, toda essa problemática sustenta – e mesmo ilustra – muito bem o ponto que eu queria fazer com este texto: o de que amplo como é o gênero, as razões pelas quais alguém pode gostar de um slice of life são bem mais variadas do que “garotas fofinhas”, ao mesmo tempo que o gênero em si é capaz de entregar histórias bem mais profundas, mesmo bem mais complexas (ao menos em questões temáticas), do que o popular jargão de serem histórias sobre “nada”. Sim, o slice of life é um gênero que lida com o mundano, mas dito isso: 1) o que exatamente esse “mundano” significa pode variar enormemente de obra a obra (novamente, para este texto estou falando do slice of life como ele configura entre os animes e mangás somente), e 2) mesmo partindo dessa premissa ainda é possível criar toda miríade de histórias interessantes, provocativas, ou mesmo puramente divertidas. E dito tudo isso, vamos então abrir a caixa de pandora.

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Review – Mahoujin Guru Guru (Anime)

Mahoujin Guru Guru // Review 29/12/2017 1
Mahoujin Guru Guru

Em 1992, a revista Gekkan Shounen Gangan começava a seriar o mangá de Hiroyuki Eto Mahoujin Guru Guru. Em publicação até 2003, o mangá resultou em um total de 16 volumes encadernados, e teve sua primeira adaptação para anime já em 1994, pelo estúdio Nippon Animation. Essa adaptação correria por 45 episódios, sendo finalizada em 1995, e excetuando-se um filme de 30 minutos em 1996 a franquia só teria um novo anime em 2000, quando é lançado Doki Doki Densetsu Mahoujin Guru Guru, agora com 38 episódios e finalizando ainda em 2000. Com o fim do mangá, nove anos se passam antes que, em 2012, começa a ser seriada a continuação do mesmo: Mahoujin Guru Guru 2, em publicação até hoje. Assim, após todo este histórico nós finalmente chegamos na obra foco dessa review: o reboot de 2017 do anime, agora uma produção em 24 episódios do estúdio Production I.G.

Na trama, o Rei Demônio Giri acaba de se libertar após 300 anos selado. Partindo para derrotá-lo temos o relutante herói Nike e a ingênua, ainda que adorável, maga Kukuri, a última remanescente do clã Migu Migu, cuja magia, o Guru Guru, foi o que selou Giri no passado. Percorrendo dungeons, enfrentando monstros e fazendo novas amizades, ambos terão muito de evoluir antes de confrontarem o vilão final. E se isso pareceu um tanto quanto clichê e infantil, bom… esse é meio que o ponto. Mahoujin Guru Guru é uma paródia dos jogos de RPG do final do século passado, e uma muito bem feita, diga-se de passagem. É um anime hilário, que funciona mesmo para aqueles nada familiarizados com o gênero que está sendo parodiado (tipo eu). Uma recomendação fácil para literalmente qualquer um, tenham em mente que a partir daqui a review contará com spoilers da série toda.

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Review – Ansatsu Kyoushitsu (Manga)

Ansatsu Kyoshitsu // Review 08/12/2017 1
Ansatsu Kyoshitsu. Capas dos volumes 1, 2 e 3

Então, aqui a premissa da história. Tudo começa quando 70% da Lua é destruído em uma explosão. Na Terra, uma criatura que mais parece um polvo antropomórfico de pele amarela assume a responsabilidade pelo desastre, e ainda diz que fará o exato mesmo com o planeta azul dali exatamente um ano. Tomando assim o mundo todo como refém, ele faz então uma exigência: ele gostaria de ser o professor de uma certa turma de alunos, e diz que, enquanto exercer a profissão, seus alunos ainda estariam livres para tentar assassiná-lo. Não querendo perder a chance de manter essa criatura em um lugar só, o governo japonês concorda, e é assim que a turma 3-E do colégio Kunigigaoka recebe seu mais novo professor, um capaz de se mover à uma velocidade 20 vezes mais rápida do que a do som, desviando de uma saraiva de balas enquanto ainda faz a chamada. Os alunos o apelidam de Koro-sensei, um trocadilho com as palavras sensei, “professor”, e korosenai, “impossível de matar”, e logo ele se provará o melhor professor que essa turma já teve.

Se tudo isso lhe pareceu um tremendo absurdo, você não está sozinho. Chamar a premissa de Ansatsu Kyoushitsu de “inusitada” ainda não lhe faria justiça. Mais conhecido no ocidente pelo título Assassination Classroom, o mangá é de autoria de Yusei Matsui, e foi originalmente seriado na revista Shounen JUMP entre 2012 e 2016, resultando em um total de 21 volumes além de uma adaptação para anime em duas temporadas, a primeira em 2015 e a segunda em 2016. Sucesso de público e de vendas, Ansatsu Kyoushitsu é certamente um ótimo mangá, que começa como uma excelente comédia e termina como uma montanha russa de emoções incrivelmente satisfatória, além de ainda trazer algumas temáticas bastante dignas de discussão. No Brasil, o mangá foi publicado na íntegra pela editora Panini, começando em 2014 e finalizando em 2017. Quem ainda não leu, fica aqui a minha recomendação, inclusive porque a review terá spoilers. E para os que ficaram, vamos então falar um pouco sobre esse mangá. Continuar lendo

Antiguidades – Namakura Gatana e o 100º Aniversário da Animação Japonesa

Namakuragatana // Antiguidade 04/11/2017 1
Namakura Gatana

Em 2017 os animes completam 100 anos de existência, ou ao menos é o que nos diz o site Japanese Animated Film Classics. O site foi criado pelo Centro Nacional de Cinema, do Museu Nacional de Arte Moderna de Tóquio, em comemoração a essa data. O propósito do mesmo é o de streaming de filmes clássicos da animação japonesa, sobretudo aqueles produzidos entre as décadas de 1920 e 1940, e segundo notícia do Anime News Network o site deve ficar no ar apenas até o final deste ano.

A data obviamente não foi escolhida ao acaso: 1917 foi certamente um ano seminal para os animes. Enquanto Katsudo Shashin demonstra que experimentos com a mídia já ocorriam há um tempo, 1917 foi o ano em que a animação japonesa efetivamente chegou ao cinemas, e isso graças ao trabalho pioneiro de três indivíduos que viriam a ser conhecidos como os “pais” do anime: Shimokawa Oten, Kitayama Seitaro e Kouchi Jun’ichi. Infelizmente, porém, quase tudo dessa época se perdeu.

Muito do que sabemos sobre os anos iniciais da animação japonesa vem de fontes secundárias. No melhor dos casos encontramos notícias da época anunciando a exibição de um ou outro filme, ao passo que em situações menos favoráveis só podemos contar com os relatos daqueles envolvidos na produção dos filmes, relatos estes muitas vezes dados décadas após o lançamento efetivo dessas animações. Há, porém, duas exceções notáveis, uma das quais sendo o primeiro filme de Kouchi Jun’ichi, Namakura Gatana.

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Uma Breve Análise – Gamers: Como Criar Desentendimentos.

Gamers // Análise 16/10/2017 1
Nenhum clichê é ruim se você souber como utilizá-lo.

Dentre os tropes que mais me irritam na ficção, “constantes desentendimentos que poderiam ser resolvidos com uma simples conversa” é um que está bem próximo do topo da minha lista. Não diria que é que mais me irrita (acho que personagens femininas arquetípicas ainda tomam o primeiro lugar), mas definitivamente é um trope do qual eu prefiro distância. O que torna bastante surpreendente o fato de eu ter adorado um anime que se baseia exatamente nisso.

Anime de 2017 do estúdio Pine Jam, adaptando a light novel homônima escrita por Sekina Aoi e ilustrada por Saboten, a trama de Gamers! começa quando a idol do colégio, Tendou Karen, tenta convidar o introvertido Amano Keita para o clube de videogames da escola. O que começa de forma bastante inocente – mesmo um pouco genérica – logo, porém, espirala em uma constante de hilários desentendimentos amorosos envolvendo o quinteto principal da história.

Falando assim não parece grande coisa, e mesmo os primeiros episódios do anime não são exatamente uma obra prima, mas o saldo final dessa obra ainda é um bastante positivo, não apesar dos constantes mal entendidos, mas inclusive por conta deles e da forma como o anime os utiliza. Quem ainda não o assistiu eu definitivamente recomendo que ao menos dê a ele o teste dos três episódios, mas se quiser decidir após ler a análise fique a vontade: desta vez não há spoilers aqui.

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[Vídeo] Uma Breve Indicação – Demi-chan wa Kataritai

Mais novo vídeo do canal, desta vez sobre o anime deste ano Demi-chan wa Kataritai. Possivelmente uma das minhas maiores surpresas dessa primeira season de 2017, assistam ai ao vídeo para saber o que você pode esperar desse anime (e porque vale a pena assisti-lo).

[Vídeo] Uma Breve Análise – K-ON!

E depois de um mês sem uma nova análise, o quadro do canal retorna com uma sobre o melhor anime sobre nada já feito /o/ Mas em toda seriedade agora, K-ON! é um ótimo anime, e um do meus prediletos. Divertido, engraçado, mas também com seus momentos tocantes. Espero que gostem da análise, e se você já assistiu o anime não deixe de dar uma conferida também na review do mesmo, aqui no blog o/

[Vídeo] Uma Breve Análise – Kono Bijutsubu ni wa Mondai ga Aru

Já assistiu o novo vídeo lá do canal? Aqui, damos uma pequena olhada em como o anime Kono Bijutsubi ni wa Mondai ga Aru lida com a passagem do tempo de uma forma bastante orgânica. Se você viu o anime, de lá uma conferida e não deixe de curtir e compartilhar o vídeo e de se inscrever no canal o/

[Vídeo] Uma Breve Análise – Uchuu Patrol Luluco

Mais novo vídeo do canal, desta vez uma leve “adaptação” de uma análise daqui do blog, sobre Uchuu Patrol Luluco. Se curtirem o vídeo, não se esqueçam de curtir e de se inscrever no canal para mais conteúdo ;)

Uma Breve Análise – Jinrui wa Suitai Shimashita: Uma Obra Satírica

Jinrui wa // Análise 04/09/2016 // 1
Jinrui wa Suitai Shimashita

(Esta análise foi originalmente publicada na página do blog no facebook)

É curioso que, parando para pensar, não costumam aparecer muitos animes efetivamente satíricos. Isso que o Japão possui uma longa história de obras de arte de cunho satírico, que em períodos mais antigos ridicularizavam até aos vícios dos nobres. Felizmente, ser raro não significa ser inexistente.

Lançado em 2012, Jinrui wa Suitai Shimashita se passa no distante futuro, no qual a humanidade vem decaindo em números. Nesse mundo, uma nova espécie desponta como aquela que irá herdar a Terra: pequenas criaturinhas conhecidas como “fadas”.

Nossa protagonista – que, assim como a maioria dos personagens, não recebe nenhum nome próprio – é a Mediadora enviada pelas Nações Unidas para estabelecer boas relações entre humanos e fadas. E com as fadas sendo normalmente as responsáveis pelas maiores maluquices, a garota está constantemente no epicentro dos mais variados problemas.

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