Uma Breve Análise – Slow Start: Ansiedade

Algumas palavras sobre ansiedade.

Quando primeiro li a sinopse de Slow Start, confesso que fiquei um tanto quanto confuso. Anime de 2018 que adapta ao mangá yonkoma homônimo de Tokumi Yuiko, publicado na revista seinen mensal Manga Time Kirara, a história de Slow Start começa quando nossa protagonista perde a data do seu exame de admissão no ensino médio devido a estar doente no dia. Um ano se passa, o período de matrículas retorna, e Ichinose Hanna está agora bastante preocupada de ir para o colégio local, onde todos saberiam que ela ficou um ano para trás.

Sua mãe assim sugere que ela vá morar sozinha, num complexo de apartamentos gerido pela sua prima, onde Hanna poderia se matricular numa escola na qual ninguém saberia da sua condição. E assim toca a história: um nichijoukei bastante básico onde vemos Hanna fazendo amizade com algumas garotas em sua nova escola enquanto tentando manter em segredo o fato de ser um ano mais velha que todas. O que fez eu me perguntar: ficar um ano para trás é mesmo algo tão grave assim no Japão?

Nós sabemos que a cultura japonesa é uma que vive pela máxima “prego que se destaca é martelado primeiro”, mas… Isso? Nem foi culpa da própria Hanna para começo de conversa! Francamente, essa situação mais soava como um exagero do roteiro para ter algum tipo de conflito que distinguisse minimamente esse anime de outros no mesmo gênero. Contudo, se você se prestar a assistir esse anime, vai logo perceber algo bastante curioso: Hanna é uma garota ansiosa.

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Review – Comic Girls (Anime)

Comic Girls

Foi em maio de 2014 que começou a seriação do mangá de Kaori Hanzawa Comic Girls, na revista seinen mensal Manga Time Kirara Max, da editora Honbunsha Quatro anos depois, em abril de 2018, o mangá recebe a sua adaptação em anime, uma produção em 12 episódios do estúdio Nexus, com direção de Yoshinobu Tokumoto.

Nossa história começa com Moeta “Kaos” Kaoruko, adolescente aspirante a mangaka que acaba de ter seu primeiro trabalho duramente criticado pelos leitores da revista na qual conseguira publicar. Sua editora, porém, vê potencial na menina, e decide então recomendar a ela que se mude para um dormitório feminino para jovens mangaka, na esperança de que o convívio com outras pessoas ajudará a Kaos a crescer como artista.

Da decisão dela de aceitar o convite somos então introduzidos às outras garotas do elenco principal: a também iniciante e também recém chegada ao dormitório Koizuka Koyume, aspirante a artista de mangá shoujo, e duas outras adolescentes que já possuem trabalhos seriados, Irokawa Ruki, autora de mangá erótico, e Katsuki Tsubasa, autora de um mangá shounen.

O que se segue daqui é o seu típico nichijoukei, uma leve e singela comédia conforme vamos acompanhando o dia a dia dessas quatro garotas, em busca de suas aspirações como mangaka. Ainda assim, Comic Girls possui alguns traços que o elevam ligeiramente acima de outros títulos no mesmo gênero, e é sobre estes traços que pretendo tratar nesta review. E como sempre, spoilers a frente: se você ainda não viu o anime, fica a minha recomendação.

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Review – Yuru Camp (Anime)

Yuru Camp

O gênero nichijoukei (ou moe, ou slice of life, ou cute girls doing cute things, todos termos que possuem as suas próprias especificidades, mas que no vernáculo tendem a ser usados como intercambiáveis) surge como o conhecemos hoje lá pela metade dos anos 2000, e nessa quase uma década e meia de histórias do tipo nós já pudemos acompanhar toda sorte de variações da ideia de quatro ou cinco garotas do ensino médio interagindo umas com as outras. Por conta disso, não poucas pessoas tendem a simplesmente ignorar animes desse tipo, descartando-os como apenas mais uma ligeira variação em uma premissa já bastante conhecida. Dito isso, de quando em vez surgem aqueles animes que nos lembram que uma boa obra é determinada 10% pela sua premissa e 90% pela sua execução. Na temporada de inverno de 2018, dois foram os títulos que nos trouxeram esse lembrete, um deles sendo o aclamado Sora Yori Mo Tooi Basho, cuja premissa “quatro adolescentes indo para a Antártida” se desdobrou em um bonito coming of age que trouxe não poucos de seus espectadores às lágrimas.

Mas é ao segundo título do tipo que eu gostaria de dedicar uma reviewYuru Camp, uma produção do estúdio C-Station com direção de Kyogoku Yoshiaki, que adapta ao mangá homônimo de Afro, publicado na revista seinen mensal Manga Time Kirara Foward. A obra contou com um total de 12 episódios, cuja história começa em uma noite de inverno, quando a campista solo Shima Rin encontra com a hiperativa Nadeshiko. Um encontro fortuito, causado pela segunda ter se esquecido de ir para casa antes de anoitecer, e que termina com a Rin abrigando-a em seu acampamento até que a irmã mais velha da Nadeshiko viesse buscá-la. Daqui em diante vamos acompanhando as pequenas desventuras delas e algumas outras garotas mais, numa estrutura bem típica de um nichijoukei moderno. A força da obra, porém, está na sua execução, sobretudo no quão consistentemente ela consegue evocar um sentimento de conforto e relaxamento em seus episódios. É um anime que realmente vale a pena conferir, mas dito isso fica aqui então o aviso de sempre: spoilers a frente, então siga por sua conta e risco.

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[Vídeo] Uma Breve Indicação – Mahoujin Guru Guru

Mais novo vídeo do canal, agora falando um pouco de um dos meus animes favoritos do ano passado, mas que infelizmente foi também um dos mais ignorados pela maioria: Mahoujin Guru Guru. E se você já assistiu o anime, confira também a review completa dele aqui no blog.

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O apelo do slice of life: muito mais do que histórias sobre nada.

Falemos um pouco sobre o slice of life.

Como definir o slice of life? Sendo um texto que busca expressar o apelo do gênero, defini-lo certamente seria útil. Afinal, seria bom sabermos sobre o que estamos falando antes de começarmos a listar seus méritos, não? Mas aqui um detalhe interessante: falando estritamente do gênero tal como ele se aplica ao anime e mangá (como falarei ao longo de todo este texto, salvo explicitado o contrário), ainda que ele seja um dos mais prolíficos nessas mídias, ele é também um bem mal definido. Digo, todo mundo parece ter uma vaga noção de o que caracteriza o slice of life, mas comparando diferentes definições fica claro que, enquanto há alguns pontos de intersecção, há também bastante discordância. Toda definição que encontrei me pareceu de alguma fora insuficiente, e se de um lado temos o povo que imediatamente associa o gênero com “garotas fofinhas fazendo coisas fofinhas”, de outro temos definições tão ridiculamente amplas que permitem que mesmo Mob Psycho 100 seja listado como um “slice of life” em sua entrada no My Anime List. Ao mesmo tempo, não é como se eu tivesse uma definição melhor…

É um assunto complicado, e um ao qual eu irei voltar muito em breve. Mas para fechar essa introdução, toda essa problemática sustenta – e mesmo ilustra – muito bem o ponto que eu queria fazer com este texto: o de que amplo como é o gênero, as razões pelas quais alguém pode gostar de um slice of life são bem mais variadas do que “garotas fofinhas”, ao mesmo tempo que o gênero em si é capaz de entregar histórias bem mais profundas, mesmo bem mais complexas (ao menos em questões temáticas), do que o popular jargão de serem histórias sobre “nada”. Sim, o slice of life é um gênero que lida com o mundano, mas dito isso: 1) o que exatamente esse “mundano” significa pode variar enormemente de obra a obra (novamente, para este texto estou falando do slice of life como ele configura entre os animes e mangás somente), e 2) mesmo partindo dessa premissa ainda é possível criar toda miríade de histórias interessantes, provocativas, ou mesmo puramente divertidas. E dito tudo isso, vamos então abrir a caixa de pandora.

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Review – Mahoujin Guru Guru (Anime)

Mahoujin Guru Guru // Review 29/12/2017 1
Mahoujin Guru Guru

Em 1992, a revista Gekkan Shounen Gangan começava a seriar o mangá de Hiroyuki Eto Mahoujin Guru Guru. Em publicação até 2003, o mangá resultou em um total de 16 volumes encadernados, e teve sua primeira adaptação para anime já em 1994, pelo estúdio Nippon Animation. Essa adaptação correria por 45 episódios, sendo finalizada em 1995, e excetuando-se um filme de 30 minutos em 1996 a franquia só teria um novo anime em 2000, quando é lançado Doki Doki Densetsu Mahoujin Guru Guru, agora com 38 episódios e finalizando ainda em 2000. Com o fim do mangá, nove anos se passam antes que, em 2012, começa a ser seriada a continuação do mesmo: Mahoujin Guru Guru 2, em publicação até hoje. Assim, após todo este histórico nós finalmente chegamos na obra foco dessa review: o reboot de 2017 do anime, agora uma produção em 24 episódios do estúdio Production I.G.

Na trama, o Rei Demônio Giri acaba de se libertar após 300 anos selado. Partindo para derrotá-lo temos o relutante herói Nike e a ingênua, ainda que adorável, maga Kukuri, a última remanescente do clã Migu Migu, cuja magia, o Guru Guru, foi o que selou Giri no passado. Percorrendo dungeons, enfrentando monstros e fazendo novas amizades, ambos terão muito de evoluir antes de confrontarem o vilão final. E se isso pareceu um tanto quanto clichê e infantil, bom… esse é meio que o ponto. Mahoujin Guru Guru é uma paródia dos jogos de RPG do final do século passado, e uma muito bem feita, diga-se de passagem. É um anime hilário, que funciona mesmo para aqueles nada familiarizados com o gênero que está sendo parodiado (tipo eu). Uma recomendação fácil para literalmente qualquer um, tenham em mente que a partir daqui a review contará com spoilers da série toda.

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Review – Ansatsu Kyoushitsu (Manga)

Ansatsu Kyoshitsu // Review 08/12/2017 1
Ansatsu Kyoshitsu. Capas dos volumes 1, 2 e 3

Então, aqui a premissa da história. Tudo começa quando 70% da Lua é destruído em uma explosão. Na Terra, uma criatura que mais parece um polvo antropomórfico de pele amarela assume a responsabilidade pelo desastre, e ainda diz que fará o exato mesmo com o planeta azul dali exatamente um ano. Tomando assim o mundo todo como refém, ele faz então uma exigência: ele gostaria de ser o professor de uma certa turma de alunos, e diz que, enquanto exercer a profissão, seus alunos ainda estariam livres para tentar assassiná-lo. Não querendo perder a chance de manter essa criatura em um lugar só, o governo japonês concorda, e é assim que a turma 3-E do colégio Kunigigaoka recebe seu mais novo professor, um capaz de se mover à uma velocidade 20 vezes mais rápida do que a do som, desviando de uma saraiva de balas enquanto ainda faz a chamada. Os alunos o apelidam de Koro-sensei, um trocadilho com as palavras sensei, “professor”, e korosenai, “impossível de matar”, e logo ele se provará o melhor professor que essa turma já teve.

Se tudo isso lhe pareceu um tremendo absurdo, você não está sozinho. Chamar a premissa de Ansatsu Kyoushitsu de “inusitada” ainda não lhe faria justiça. Mais conhecido no ocidente pelo título Assassination Classroom, o mangá é de autoria de Yusei Matsui, e foi originalmente seriado na revista Shounen JUMP entre 2012 e 2016, resultando em um total de 21 volumes além de uma adaptação para anime em duas temporadas, a primeira em 2015 e a segunda em 2016. Sucesso de público e de vendas, Ansatsu Kyoushitsu é certamente um ótimo mangá, que começa como uma excelente comédia e termina como uma montanha russa de emoções incrivelmente satisfatória, além de ainda trazer algumas temáticas bastante dignas de discussão. No Brasil, o mangá foi publicado na íntegra pela editora Panini, começando em 2014 e finalizando em 2017. Quem ainda não leu, fica aqui a minha recomendação, inclusive porque a review terá spoilers. E para os que ficaram, vamos então falar um pouco sobre esse mangá. Continuar lendo