Nenhuma história é atemporal: e tudo bem.

Toda história é, em alguma medida, um produto de seu contexto.

“Atemporal” é um elogio comum de se fazer a uma história. Mesmo eu já usei o termo nesse sentido, em reviews passadas. Mas quanto mais reflito sobre ele, mais reconheço sua imprecisão. Deixemos uma coisa bem clara já de início: pouquíssimas coisas poderiam ser consideradas “atemporais”, e histórias, narrativas, arte num geral certamente não está entre essas coisas. Na medida em que tanto a arte quanto o artista que a cria são, antes de mais nada, um produto de seu tempo e contexto (social, político, histórico, cultural) é inevitável que as marcas destes transpareçam na obra. E isso não é realmente um problema.

Já disse isso em textos passados, mas para mim arte nada mais é que ainda outra forma de comunicação. Uma admitidamente muito mais indireta, mediada, com enorme espaço para interpretações outras que não a originalmente intencionada pelo artista, e que liga a si mesma propósitos outros para além do comunicar, como o entreter e o produzir lucro, mas uma forma de comunicação ainda assim. E é assumindo essa visão que fica fácil de ver qual a vantagem de aceitar essa posição temporal da ficção: a capacidade de se comentar, criticar, analisar, justamente o tempo ao qual a obra pertence.

Mas claro: encerrar o artigo aqui faria dele um tanto quanto curto demais. Sendo assim, vamos estender um pouco a discussão. De que formas a temporalidade de uma obra se apresenta? O que as pessoas de fato querem dizer quando falam que uma obra é “atemporal”, e haveria uma palavra melhor para descrever esse conceito? E vantagens de lado, a partir de que ponto abraçar plenamente a temporalidade da ficção pode ser um problema? São algumas questões que eu espero abordar nos próximos parágrafos, então avancemos.

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