Sobre discutir animação

E se eu disser que a animação de Byousoku 5 Centimeter é bem menos impressionante do que as pessoas fazem parecer? Leia o texto e entenda porquê.

Falar sobre animação é complicado, e ainda assim é um dos assuntos mais recorrentes no meio otaku. Verdade seja dita, o que normalmente vemos é o consenso: para o elogio ou para a crítica, via de regra as pessoas tendem a concordar sobre se um dado anime qualquer tem ou não uma boa animação. A palavra-chave aqui, porém, é tendem. Em tempos relativamente recentes, discussões sobre a animação de Pokemon Sun & Moon, ou de Kono Subarashii Sekai ni Shukufuku wo 2, mostraram que, em raras ocasiões, uma forte polarização pode muito bem se instaurar. No caso de Pokemon, inclusive, comentários sobre a animação de sua série mais recente chegaram a variar entre aqueles que a acharam barata e mal feita e aqueles que a acharam genial e a melhor animação que a franquia já teve, um espectro no mínimo interessante de se observar. Digo, se existe um elemento da análise de um anime que todos parecemos concordar que pode ser objetivamente medido este provavelmente seria a animação, e ainda assim vez ou outra vemos discussões como as já mencionadas. Por quê? De onde vem tamanha disparidade de opiniões sobre algo que, idealmente, qualquer um com bons olhos deveria ser capaz de perceber?

Bom, vamos lá, parte disso é certamente algum nível de desinformação. Sobre Pokemon Sun & Moon, para manter o exemplo, o canal The Canipa Effect chegou a fazer um excelente vídeo demonstrando que chamar a animação da nova série de “barata” ou “mal feita” não é apenas injusto, mas também é factualmente incorreto. Entretanto, e o vídeo reconhece isso, o principal problema se encontra no fato de que algo bom do ponto de vista da produção de um anime não será necessariamente percebido como bom pelo público em geral. Eu vou entrar em maiores detalhes ao longo do texto, mas o que eu quero argumentar aqui é que a palavra “animação”, no contexto atual do meio otaku, se tornou, em fato, um termo guarda-chuva que abarca sob si mesmo uma gama bastante variada de elementos. Em conjunto, coisas como movimento, coreografia, design, coloração, e outros, formam aquilo que normalmente chamamos de “animação”, e por vezes discussões sobre a qualidade de uma animação qualquer divergem justamente porque esses elementos internos atingem diferentes graus de sucessos em agradar ao público e em corresponder à proposta da obra. Se isso parece muito confuso agora, tudo bem: vamos com mais calma, olhando alguns desses diversos elementos e seus possíveis usos.

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Vamos falar sobre animação

Vamos aprender uma coisinha ou duas sobre animação.
Vamos aprender uma coisinha ou duas sobre animação.

Eu acho curioso como, nos últimos anos, julgar a animação de um anime se tornou incrivelmente comum, e alguns espectadores inclusive vão a extremos para “provar” que este ou aquele anime possui uma animação ruim (por exemplo, tirando um print de uma dada cena com personagens bem ao fundo, e então dando zoom nesses personagens para mostrar o quão “distorcido” é o desenho). Em parte, eu vejo que isso parece muitas vezes causado por simples ignorância quanto a como funciona a animação, o que não é nada para se ter vergonha: ninguém sabe de tudo, e mesmo eu, que estou a fazer este artigo, não sou nenhum especialista em animação, nem de longe. Mas acho que se você vai criticar – ou, mais precisamente, ridicularizar – algo, é bom você ter um conhecimento apropriado do tema do qual está falando. Então vamos começar esse texto com algumas palavras sobre talvez aquilo que eu menos me importo em um anime: tecnicalidades sobre animação [rs].

Assim, o que é importante ter em mente ao se falar de animação, é que toda forma de movimento que você vê em um anime é, antes de mais nada, uma ilusão. Em fato, isso não vale só para anime, mas também para filmes, seriados, jogos, etc., que seguem todos a um mesmo princípio: imagens levemente diferentes umas das outras que, passadas  em sequência, dão a ilusão de movimento. Esse é um princípio que já conhecemos há um bom tempo, e com o qual imagino que a vasta maioria dos leitores já deve estar familiarizado. Afinal, quem nunca deixou de prestar atenção na aula por alguns minutos para desenhar bonecos-palito nos cantos das folhas do caderno, apenas para vê-los se mexendo conforme as folhas passavam, não é? Mas o que eu acho que as pessoas se esquecem, por vezes, é que esse princípio nunca foi realmente abandonado, e o desenho quadro a quadro (ou, melhor dizendo, frame a frame) ainda é a norma… bom, ao menos tecnicamente falando.

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