Lista – 5 Adaptações Melhores que o Original

Quase sempre, a obra original é melhor do que qualquer uma de suas adaptações. Isso não é necessariamente um demérito para a adaptação em si: ao passar uma história de uma mídia para outra há tantos fatores a se considerar que pode parecer inevitável que uma adaptação saia pior que o original. E, ainda, muitas adaptações conseguem ser realmente boas por si mesmas, mesmo que ficando abaixo do original se comparados. A palavra chave aqui, porém, é “quase”: se essa máxima vale para a maioria das obras, ainda existem algumas exceções bastante notáveis.

Para essa lista, então, eu selecionei algumas dessas exceções. Agora, para ser bem sincero, o meu escopo de obras do tipo é até que bem pequeno. É raro eu consumir a mesma história em mais de uma mídia, então normalmente eu nem tenho o que comparar para dizer qual versão é a melhor. E nos raros casos em que eu de fato consumo ambas as versões, bom, normalmente fica aquela máxima: o original é melhor. Ainda assim, consegui reunir alguns exemplares aqui, e no final do dia essa lista é menos sobre essas obras em si e mais sobre o que faz suas adaptações tão melhores que o original. E feita essa ressalva, vamos então à lista.

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Pensamentos soltos sobre o overexposure.

Vocês não cansam de só falar disso, não?
Vocês não cansam de só falar disso, não?

Popularidade é um fenômeno curioso. Em vários aspectos ela é, claramente, boa. Mesmo desejável, sobretudo considerando a nossa sociedade atual, onde o lucro determina o que continua e o que é esquecido. E na indústria do entretenimento, popularidade repercute em vendas, que servem de incentivo para continuações, merchandising, e toda sorte de novidades. Mas a popularidade também pode ser uma faca de dois gumes. Mais e mais eu tenho percebido que as pessoas parecem ter um limite de tolerância ao quanto estão dispostas a serem expostas a algo, mesmo que seja algo que elas talvez gostem. E quando passamos desse limite, atingimos o que em inglês normalmente se chama de overexposure. E o que uma vez talvez fosse legal e interessante vai se tornando comum, monótono, e, em dado momento, até enfadonho.

Sabe quando você descobre uma musica nova e escuta ela até enjoar? Isso é overexposure. Ser exposto a algo novo é legal no começo, mas justamente por ser algo novo. E depois de um tempo de exposição você simplesmente sente que já teve o bastante. O problema é que no mundo informatizado atual raramente é você quem decide quando teve o bastante. Então você cansou de Dragon Ball? Bom, azar o seu, todos os grupos de animes só falam dele. Já não aguenta mais ouvir Let it Go? Bom, ninguém liga, aqui mais 5 paródias diferentes. Acha que não aguenta mais ouvir a abertura de Shingeki no Kyojin? Haha, aqui mais 7 vídeos misturando a musica com a abertura de algum outro anime. Não suporta mais discussões sobre se Naruto é melhor que One Piece? Bom, feche os olhos, porque aqui estão mais 47 imagens dizendo que  Luffy vence o Naruto. Ponto é, está se tornando cada vez mais difícil “parar” com algo que se gosta, pelo menos quando esse algo é popular.

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Review – Planetes (Mangá)

Planetes
Planetes

Originalmente lançado entre 1999 e 2004, Planetes foi o mangá de estréia de Makoto Yukimura, e devo dizer que foi uma estréia e tanto. A história, um slice of life de ficção científica, acompanha o dia a dia de um grupo de lixeiros espaciais, designados para a nave Toy Box. A função da equipe de três, e depois quatro, tripulantes sendo a de limpar a atmosfera terrestre dos detritos que sobram das viagens espaciais, desde partes de aeronaves e satélites desativados, até detritos bem menores. Isso porque à uma dada altura, a velocidade com que a qual estes objetos orbitam a Terra se torna imensa, de forma que mesmo o menor dos parafusos ainda poderia causar literalmente a queda de uma espaçonave. E com a humanidade dando os seus primeiros passos para fora da Terra, sobretudo na forma de bases permanentes na Lua e estações espaciais, a necessidade desses lixeiros fica bastante evidente.

Num geral, é uma obra bastante focada no desenvolvimento e crescimento de seus personagens, com cada capítulo funcionando muito bem isoladamente, ao menos no começo. E embora logo a obra ganhe uma narrativa um pouco mais “fechada”, na forma do protagonista, Hachimaki, tentando entrar para uma missão espacial que enviará um grupo de astronautas para Júpiter, a ideia de capítulos focados em um dado tema, que servem, por sua vez, de base para o crescimento de seus personagens, nunca é de fato abandonada (algo, na minha opinião, bastante positivo, considerando o quão interessantes e cativantes podem ser estes personagens e temáticas). Contudo, falar muito mais do que isso vai me exigir entrar em spoilers, então considere isto o seu aviso. Se ainda não leu este mangá, leia. Ele foi publicado no Brasil em 2015, em 4 volumes pela editora Panini, e definitivamente vale a pena dar uma olhada.

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A morte não é igual para todos (ao menos na ficção)

Shigofumi: a história de uma carteira que traz as últimas palavras de um falecido.
Shigofumi: a história de uma carteira que traz as últimas palavras de um falecido.

Uma das mais antigas obras literárias escritas na história da humanidade – isso se não a mais antiga de fato (a depender, claro, da sua definição de “literatura”) – é o épico conhecido como Epopeia de Gilgamesh. Provavelmente do século VII a.C., mas compilando mitos e lendas sumérios muito mais antigos, a história segue as aventuras do herói rei de Uruk, o personagem título da história, Gilgamesh. Para os fins deste texto, eu quero comentar brevemente a parte final desse épico de milênios atrás, que começa quando da morte do melhor amigo do protagonista, Enkidu. Ao perder seu amigo, Gilgamesh parece tomar consciência excessiva de sua própria mortalidade, e parte então em uma busca para conquistar a morte: uma busca pela imortalidade. E o final de sua busca se dá junto a um personagem conhecido como Utnapishtim, um sobrevivente do antigo dilúvio que quase destruiu a Terra, e que como recompensa – tecnicamente mesmo como compensação, mas isso já é entrar em detalhes demais – recebeu dos deuses a imortalidade.

Agora, o importante dessa revelação, para Gilgamesh, é que ela mostra que a imortalidade não era algo que se podia conseguir, mas antes era uma bênção única dos deuses. Mas nem tudo estava perdido: Utnapishtim informa Gilgamesh de uma planta mágica, capaz de rejuvenescer quem a ingerisse. O herói do épico a obtém, mas num momento no qual ele para para se banhar uma serpente vem e rouba a planta, assim encerrando em definitivo toda e qualquer possibilidade de imortalidade para Gilgamesh (que, ironicamente, talvez como um último conforto, atinge a imortalidade não física, mas cultural: ainda hoje, milênios após os textos terem sido escritos, ainda podemos falar sobre as aventuras do personagem). No final, esta é uma história sobre a morte. Ela começa com uma tentativa de assassinato: Enkidu, que depois se torna amigo de Gilgamesh, foi originalmente enviado pelos deuses para matar ao rei herói. Em seu meio temos uma morte trágica, a de Enkidu, e ela termina com a lição de que homem algum pode, realmente, conquistar a morte, pouco importa o quão poderoso seja.

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Sobre símbolos, referências e alegorias.

Símbolo, referência, alegoria: você sabe diferenciá-los quando vê?
Símbolo, referência, alegoria: você sabe diferenciá-los quando vê?

Não é de hoje que o uso de simbolismo é visto com bons olhos pelo público em geral, ao menos no caso dos animes. Muitas obras são extremamente elogiadas pelo seu uso de simbolismo, e enormes debates já foram iniciados para tentar entender, de fato, o que o autor quis dizer com esta ou aquela cena. Agora, eu, pessoalmente, aprecio bastante o uso de simbolismo em uma obra, especialmente quando bem feito, a exemplo de obras como Mawaru Penguindrum. Mas o que eu percebo é que existe uma espécie de confusão a respeito do que é, de fato, simbolismo. O conceito em si mesmo, que muitas vezes parece se confundir com outros tantos conceitos. Por exemplo, fala-se muito do simbolismo religioso em Neon Genesis Evangelion, mas o que temos ali é muito mais uma referência à símbolos do que um simbolismo de fato, e mais pra frente eu vou explicar melhor o que quero dizer com isso.

Conceitos como símbolos, signos, referências, alegorias, e ainda outros acabam se “misturando” baixo o termo abrangente de “simbolismo”. E sinceramente: tudo bem. Confusões nessa linha são ridiculamente comuns, e eu mesmo as mantive por muito tempo. Mas o interessante de parar para notar as nuances que esses termos podem ter (digamos, o que diferencia um símbolo de uma referência) é que você muitas vezes acaba percebendo melhor qual era de fato a intenção do autor por trás do uso de qualquer que tenha sido aquele recurso. Então vamos ver essas nuances. E para começar nós vamos ter de dar uma olhada rápida numa ciência que provavelmente a maioria dos leitores nunca se quer ouviu falar: a semiótica.

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Tempo, mudança e o coming of age.

"O tempo não espera por ninguém"
“O tempo não espera por ninguém”

Antes de entrar no texto em si, alguns rápidos disclaimers. O que temos aqui é mais um fruto da iniciativa Blogosfera Otaku BR. Desta vez, o É Só Um Desenho participa de uma corrente de artigos, onde cada blog recomenda um tema para um outro blog participante, que poderá então tratar do tema conforme preferir. O elo anterior nesta corrente foi o Otaku Pós-Moderno, com seu artigo sobre a simplicidade em Boku no Hero Academia, e foi ele quem passou o tema que será trabalhado nesse texto aqui: coming of age.

Agora, não vou mentir, foi um tema bem difícil de trabalhar, sobretudo pela situação do blog. Os animes do gênero que eu já vi a maioria eu já fiz uma review, e os demais simplesmente não pareciam me dar muito material para uma resenha que valesse a pena. Mas não queria publicar uma lista, considerando que este já foi o estilo de post da semana passada (pode vê-la clicando aqui). Sobrava-me então o Ensaio, um quadro que já estava há mais de um mês completamente parado (!)

Felizmente, após assistir algumas obras do gênero e pensar algumas características e pontos delas, me veio a ideia deste texto. Espero que gostem. E já deixo avisado que o próximo a escrever para a corrente será o blog Dissidência Pop, que fará um texto com o tema pirataria. O texto deles deve sair em algum momento da semana que vem, então fiquem de olho no blog. E feitos todos os avisos, vamos a este texto aqui. Uma boa leitura a todos.

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Vamos falar sobre representatividade?

É, eu sei, mais um texto sobre esse assunto na internet. Mas leia um pouco antes de julgar, por favor.
É, eu sei, mais um texto sobre esse assunto na internet. Mas leia um pouco antes de julgar, por favor.

Antes de mais nada é preciso deixar algumas coisas bem claras, sobretudo porque já imagino alguns leitores revirando os olhos apenas de ler o título deste texto. Assim sendo, em primeiro lugar quero deixar bem explícito que o que direi abaixo é a minha opinião. Não a opinião de um grupo, movimento, partido ou o que for: apenas minha. Não estou dizendo isso para tentar me “proteger” com aquele velho discurso de “é apenas a minha opinião, respeite”, e eu completa e totalmente incentivo o debate. Se você acredita que falei alguma bobagem, se discorda do que lê e deseja contra-argumentar apontando onde minha lógica falha, por favor, sinta-se a vontade para fazê-lo. Quando eu digo que é a minha opinião, o que eu quero dizer é na verdade um pedido para que não julguem o que irão ler com base em qualquer ideia pré-concebida sobre qualquer um dos N movimentos que atualmente se fazem presentes sobretudo na internet, sejam estas ideias boas ou ruins. Julguem o texto apenas pelo que está escrito nele, não pelo que vocês acham que talvez quem sabe é possível que esteja nas entrelinhas, e não assumam a minha posição sobre um dado assunto a menos que eu a explicite com todas as letras. Eu não me associo com nenhum movimento, ainda que talvez possa simpatizar com esta ou aquela causa ou com este ou aquele argumento, mas só.

E eu vou dizer agora, até para que aqueles que continuarem a leitura tenham alguma noção do que vem pela frente: sim, eu acredito que seria interessante que houvesse uma maior representatividade de certos grupos na mídia, e ao longo do texto eu tentarei explicar essa minha opinião e como ela se aplica à ficção. Serei o primeiro a reconhecer que essa questão vai, sim, muito além de quadrinhos e séries de televisão, e que existe bastante discussão por ai sobre a representatividade de alguns grupos em certas profissões, na política, na economia, e por ai vai. Mas eu não vou entrar nessas questões, não apenas por não me julgar qualificado para discutir esse assunto com a devida profundidade, mas também porque quis me manter atento à proposta deste blog. Aqui é um espaço para falar de animes, mangás e questões relacionadas a esse universo “otaku”, então prefiro que meus textos se foquem nisso. E feito esse aviso, vamos ao texto. Mas antes de entrarmos exatamente nos meus argumentos para ser a favor desta questão, vamos primeiro delinear um pouco melhor o que é todo esse debate sobre representatividade, até para ter certeza de que todos entendam bem o que é que motiva toda a discussão envolvendo o tema.

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