Antiguidades – Shin Takarajima e o Mangá de Osamu Tezuka

Poucos autores poderiam alegar terem sido tão seminais para a história do mangá quanto Osamu Tezuka, o proverbial manga no kamisama: o “Deus do Mangá”. Responsável por uma vasta biblioteca de títulos, e por uma série de personagens ainda hoje icônicos, este estudante de medicina tornado mangaka é não poucas vezes apontado como grande responsável pelo mangá moderno.

Tezuka, porém, não brotou da terra com lápis em uma mão e papel na outra, já o melhor em sua arte. É preciso tempo para que alguém atinga a divindade, afinal. Sendo assim, neste artigo eu quero falar um pouco sobre uma das primeiras obras de sua carreira, um título que inclusive veio a se tornar tão mítico quanto o seu criador: Shin Takarajima.

E aos que se interessarem, o mangá foi lançado no Brasil pela editora New Pop, e pode ser encontrado para compra pela Amazon.



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Review – Chobits (Mangá)

Chobits. Capas dos volumes 1, 2 e 3.

No futuro próximo, eis que surgem os persocom: computadores pessoais de formato antropomórfico. Verdadeiros androides com acesso à internet, estes persocom estão dispostos a obedecer a cada comando de seu dono ou dona, e não são nada baratos. Motosuwa Hideki acaba de se mudar para Tóquio, vindo do campo e sem muito dinheiro para gastar. Para ele, ter um persocom é quando muito um sonho distante, mas eis então que um dia, conforme voltava para casa, ele vê uma persocom jogada em meio aos sacos de lixo da rua, aparentemente descartada por seu antigo dono. Hideki decide então aproveitar a oportunidade e levá-la para sua casa, onde ele consegue ligá-la após algumas tentativas. Para sua surpresa, a única coisa que a persocom parece capaz de falar é “chi”, nome pelo qual Hideki decide então batizá-la. Logo, porém, Hideki descobrirá que Chi é diferente das demais persocom, e talvez seja até mesmo uma lendária Chobits: uma persocom dotada de personalidade e vontade própria.

Chobits foi seriado entre 2000 e 2002, sendo um mangá do grupo feminino CLAMP – que, vamos e venhamos, dispensa apresentações. A obra foi publicada pela editora Kodansha na sua revista semanal Young Magazine, uma revista seinen que até hoje publica outra obra do grupo CLAMP: xxxHolic Rei. No Japão, os 88 capítulos de Chobits foram compilados em 8 volumes, que foram lançados entre favereiro de 2001 e novembro de 2002. No Brasil, o mangá primeiro chegou até nós pela editora JBC, em uma edição meio-tanko que totalizou 16 volumes, lançados a partir de 2003. Em 2015, a JBC relançou a coleção agora em seu formato tanko, com 8 volumes. E: sim, vale muito a pena dar uma conferida nesse mangá, não só por ser uma boa história de maneira geral, mas também por conta dos temas que o mangá aborda, talvez até mais relevantes hoje do que o eram quase vinte anos atrás. Ah sim, e como de costume: spoilers a frente, então ai mais um motivo para ler o mangá primeiro.

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Review – Ansatsu Kyoushitsu (Manga)

Ansatsu Kyoshitsu
Capas dos volumes 1, 2 e 3

Então, aqui a premissa da história. Tudo começa quando 70% da Lua é destruído em uma explosão. Na Terra, uma criatura que mais parece um polvo antropomórfico de pele amarela assume a responsabilidade pelo desastre, e ainda diz que fará o exato mesmo com o planeta azul dali exatamente um ano. Tomando assim o mundo todo como refém, ele faz então uma exigência: ele gostaria de ser o professor de uma certa turma de alunos, e diz que, enquanto exercer a profissão, seus alunos ainda estariam livres para tentar assassiná-lo. Não querendo perder a chance de manter essa criatura em um lugar só, o governo japonês concorda, e é assim que a turma 3-E do colégio Kunigigaoka recebe seu mais novo professor, um capaz de se mover à uma velocidade 20 vezes mais rápida do que a do som, desviando de uma saraiva de balas enquanto ainda faz a chamada. Os alunos o apelidam de Koro-sensei, um trocadilho com as palavras sensei, “professor”, e korosenai, “impossível de matar”, e logo ele se provará o melhor professor que essa turma já teve.

Se tudo isso lhe pareceu um tremendo absurdo, você não está sozinho. Chamar a premissa de Ansatsu Kyoushitsu de “inusitada” ainda não lhe faria justiça. Mais conhecido no ocidente pelo título Assassination Classroom, o mangá é de autoria de Yusei Matsui, e foi originalmente seriado na revista Shounen JUMP entre 2012 e 2016, resultando em um total de 21 volumes além de uma adaptação para anime em duas temporadas, a primeira em 2015 e a segunda em 2016. Sucesso de público e de vendas, Ansatsu Kyoushitsu é certamente um ótimo mangá, que começa como uma excelente comédia e termina como uma montanha russa de emoções incrivelmente satisfatória, além de ainda trazer algumas temáticas bastante dignas de discussão. No Brasil, o mangá foi publicado na íntegra pela editora Panini, começando em 2014 e finalizando em 2017. Quem ainda não leu, fica aqui a minha recomendação, inclusive porque a review terá spoilers. E para os que ficaram, vamos então falar um pouco sobre esse mangá. Continuar lendo

Lista – 5 Mangás de Volume Único que Valem a Leitura.

Kizu

Mangás de volume único! Francamente falando, eis ai um formato que eu adoro. Nada contras as séries mais longas, mesmo aquelas com dezenas de volumes, mas é inegável que estas exigem um comprometimento muito maior por parte do leitor. Em contraste, um bom volume único consegue entregar em si mesmo uma experiência completa, uma história com começo, meio e final que, nos melhores casos, nada deixa a dever às obras de mais longa duração. Ainda assim, é evidente que nem todo volume único é automaticamente uma obra prima, e um ou outro título menos que excelente (para usar de um eufemismo) ainda acaba saindo vez ou outra. Mas não nos concentremos neles, mas sim naquelas histórias que de fato valem nosso tempo e, ao menos no caso daquelas aqui citadas, o nosso dinheiro – porque sim, eu foquei esta lista em mangás publicados aqui no Brasil.

Mas antes de irmos às entradas, eu queria deixar aqui dois rápidos disclaimers. Primeiro, uma menção honrosa ao mangá Tom Sawyer [review], um dos meus títulos favoritos. Originalmente eu considerei incluí-lo nesta lista, mas para ter uma distribuição um pouco maior de editoras – e como este mangá já possui uma review aqui no blog – preferi deixar ele de lado desta vez (quem sabe não o incluo em uma listagem futura?). Mas ainda é um mangá que eu imensamente recomendo. Já sobre o segundo aviso, é a nota que eu faço quase sempre nestas listas do blog: isto aqui não é um top, e não é minha intenção que estes são os melhores volumes do tipo. São apenas 5 mangás que eu realmente gostei e que acho que o leitor também pode vir a gosta, só isso. E dados os avisos, vamos então à lista /o/.

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Sobre realismo, pessimismo e otimismo.

O quão realista uma história precisa ser?

Pergunta rápida: uma história precisa ser realista? Qualquer que seja a sua resposta, eu apostaria que você provavelmente caiu em um de três grupos: aqueles que prontamente disseram “não”, aqueles que provavelmente pensaram algo como “não, mas ela precisa ser verossímil e consistente consigo mesma”, ou aqueles que prontamente disseram “sim”. Mas quantos de vocês pararam para se perguntar o que essa palavra se quer significa?

Como movimento artístico e literário, o Realismo surge na França do século XIX como uma reação ao Romantismo, com a proposta de retratar a vida real de forma… bom, real. Mas isso é se quer possível? Nesse sentido, eu gosto de uma pequena fala de Vladimir Nabokov, nos comentários finais de seu livro Lolita. Ao falar sobre o cenário norte-americano de seu livro, o autor coloca: “a obtenção daqueles ingredientes locais que me permitissem acrescentar alguma ‘realidade’ (uma das poucas palavras que só fazem sentido entre aspas) no caldeirão de minha fantasia pessoal provou ser muito mais difícil, aos cinquenta anos, do que fora na Europa de minha juventude” [1]

Uma das poucas palavras que só fazem sentido entre aspas“. É, eu gosto dessa definição. E ela me parece ainda mais verdadeira atualmente, quando fica cada vez mais claro que o “realismo” do qual as pessoas falam é um tipo bastante específico de “realismo”. Mais especificamente, e sendo bastante direto, o termo deixou de se referir a obras que retratassem a realidade concreta e passou a se referir a qualquer história que seja “dark” , “pesada”, “cruel”, “brutal”, e por ai vai. Aparentemente, o único requisito atual para uma obra ser “realista” é ter personagens sofrendo e morrendo, preferencialmente de alguma forma absurdamente chocante.

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