Algumas críticas aos serviços de streaming de anime.

No passado, a televisão era nossa fonte primária de animes. E conforme esse papel passa para a internet, novos problemas vão começando a surgir.

Falar sobre serviços de streaming, ou mais especificamente sobre os problemas e defeitos que eles possuem, é quase sempre um tópico espinhoso. As pessoas tendem a ficar bastante defensivas discutindo esse tópico, e não raras vezes qualquer crítica a esses serviços é tratada como apologia à pirataria travestida. Isso muito possivelmente é fruto da retórica moralista que normalmente se usa para defender esses serviços, sendo muito mais comum ouvir que as pessoas usam deles por ser “o certo” ou para “ajudar o mercado” do que realmente por serem um bom produto. O importante, assim, se torna mostrar que você é moralmente superior, pouco importa a real qualidade do produto que você consome: um comportamento tóxico não apenas para o meio de fãs de anime e mangá, mas também para os próprios serviços de streaming. Afinal, uma retórica do tipo nada mais é do que uma carta branca para a estagnação, na medida em que se espera que você use desses serviços não pelo mérito de suas qualidades, mas sim tão somente pelo mérito da sua pura existência. Um ideal que vai se tornar cada vez mais difícil de se sustentar em uma industria em franco crescimento, onde novos serviços do tipo vão surgindo regularmente.

Sim, existem aqueles que simplesmente não possuem o capital necessário para investir em um serviço do tipo, e sim, existem aqueles que não o fazem por questões muito mais ideológicas. Para esses dois grupos nenhuma melhora desses serviços será o bastante, mas vale também dizer que nenhum argumento moral os irá convencer. Em todo caso, um cenário do tipo ainda não significa que devemos ser complacentes com os problemas que cercam os serviços legais de streaming, muito menos significa que eles próprios não deveriam buscar melhorar como puderem. Antes de mais nada, eu quero pedir ao leitor que deixe as suas noções pré-concebidas de lado e não veja este texto como uma defesa da pirataria – ele não o é. O que eu quero fazer aqui é tão somente apontar algumas áreas nas quais eu gostaria de ver os serviços de streaming melhorarem, bem como reais problemas que precisarão eventualmente ser resolvidos de alguma forma se os serviços hoje existentes esperam continuar ativos daqui alguns anos. Assim sendo e finalizado todo esse preambulo, vamos então ao texto.

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O quão viável é uma revista sobre anime hoje?

Parte integrante da cultura otaku japonesa, no Brasil também já tivemos nossas revistas sobre anime e mangá. Mas seria possível elas voltarem um dia?

Quem viveu entre meados dos anos 1990 e meados dos anos 2000 pode presenciar o surgimento, boom e eventual declínio das revistas de anime. Tal como animes na televisão aberta, tazos de Yu-Gi-Oh! nos salgadinhos da Elma Chips e bonecos falsificados dos personagens de Dragon Ball Z, hoje essas revistas são lembradas com um misto de nostalgia e melancolia. Fizeram parte da infância e adolescência de muitos, sim, mas seu declínio é também um triste lembrete do declínio dos animes de forma geral aqui no Brasil. O ano de 2017, porém, viu até o momento deste artigo pelo menos duas iniciativas no mínimo inusitadas. De um lado, a revista Animax está para ganhar uma edição comemorativa especial, que poderá ser adquirida tanto em formato digital como em formato físico, ao passo que, do outro lado, temos o retorno da revista Ultra Jovem, em formato impresso. E ainda que pontuais, acho que esses dois eventos levantam uma questão que vale a pena ser discutida: o quão viável é uma revista sobre anime e mangá nos dias atuais?

Não podemos negar: o mundo hoje é um lugar muito diferente do que era algumas décadas atrás. Sobretudo o avanço da internet mudou bastante a forma como consumimos conteúdo, e também o tipo de conteúdo pelo qual estamos dispostos a pagar. Sites de notícias sobre anime e mangá já existem às dezenas, mais até se você souber outra língua para além do português, e há poucas informações mais gerais que não podem ser encontradas com apenas alguns minutos na Wikipédia. Nem mesmo os jornais, com sua periodicidades diária, conseguem competir com o ritmo frenético da internet, que chance então possuem as revistas de variedades ou de notícias? Por conta disso, quando surge o debate sobre revistas de anime e mangá há sempre aquele que faz uma pergunta talvez até mais pertinente que a do parágrafo anterior: como você justifica uma publicação do tipo?

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Sobre argumentos vazios.

“Ah, mas o protagonista desse anime é muito overpower”. Ta… E daí?

No meu ensaio Tropes e clichês: nada é original, mas isso não é desculpa para não tentar eu procurei argumentar sobre como alguns autores se deixam levar pelos clichês, adotando-os sem reflexão e, nisso, gerando histórias que mais parecem cópias de alguma outra coisa. Aqui, eu quero argumentar que escritores de ficção estão bem longe de serem os únicos afetados por esse tipo de mentalidade, e que em fato muitos de nós se deixam levar por lugares comum inclusive na hora de se analisar ou comentar uma obra.

Algo que vem me incomodando nas discussões sobre anime e mangá é como parece ter despontado nos últimos tempos uma série do que eu vou chamar aqui de “argumentos vazios”. “Vazios”, no caso, eu digo de sentido mesmo. São argumentos que, se tivessem o contexto adequado, poderiam ser críticas e apontamentos bastante válidos, mas como isso raramente acontece nós terminamos com uma série de buzzwords que as pessoas apenas repetem acriticamente. Nisso, a própria discussão vai se tornando menos e menos significativa.

O ponto que eu quero trazer aqui é que não importa qual seja a sua crítica a uma obra, você precisa deixar bastante claro porquê ela é válida em primeiro lugar. Dizer que um personagem é “overpower“, por exemplo, não significa absolutamente nada se você não puder explicar porque isso é um problema naquela história em específico. Mais nisso em breve, mas antes de mais nada eu quero deixar claro o seguinte: eu não faço essas considerações para uma pessoa ou grupo de pessoas em particular, mas sim para todos aqueles que comentam, debatem e criticam animes.

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Toda interpretação é válida? O papel do autor na interpretação de sua obra.

Funfact: Kazuya Tsurumaki, diretor assistente em Neon Genesis Evangelion, já chegou a dizer que o simbolismo religioso no anime estava ali só para distingui-lo de outros animes de robôs gigantes.

Qual a importância do que diz o autor na hora de se interpretar uma obra de arte qualquer? Sinceramente, essa é uma pergunta bem difícil de responder. Nós tendemos a ver o autor como a máxima autoridade sobre a sua obra, mas isso pode ser bastante complicado de sustentar. Por outro lado, já houve aqueles que tentaram romper por completo com essa visão, a exemplo do crítico literário francês  Roland Barthes. Em 1967, Barthes publicou seu ensaio A Morte do Autor, onde advoga por uma separação entre o autor e a sua obra. Para ele, tentar explicar a segunda pelo primeiro seria limitar a própria obra. Mas enquanto eu vejo valor no argumento de Barthes, eu vejo nessa teoria um salto lógico grande demais. Tudo bem que é útil ter algum cuidado ao tratar a palavra do autor como verdade absoluta, mas isso também não significa que devemos concluir que toda interpretação é igualmente válida. É uma situação na qual extremos me parecem bem pouco úteis, francamente falando.

O que me leva ao propósito desse texto. Sendo bem sincero, não é nem de longe a minha intenção resolver toda essa problemática. Ao invés disso, o que eu quero é justamente explaná-la. Há bons argumentos para se duvidar do que diz o autor, e há bons argumentos para se evitar cair no pleno relativismo. Longe de querer dizer qual lado é o melhor, eu pretendo expor a ambos de forma que leitor possa traçar as suas próprias conclusões. Dito isso, eu imagino que pelo menos alguns leitores provavelmente irão querer saber de que lado desse debate eu me posiciono, isso se já não o perceberam pelo parágrafo anterior. Em todo caso, como alguém que vê a arte como uma forma de comunicação, eu tendo a dar bastante importância para as intenções do autor. Dito isso, nem sempre estas serão claras, e no final do dia o melhor que eu posso fazer é dizer que a interpretação do autor é a mais correta, exceto quando ela não é.

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Tropes e clichês: nada é original, mas isso não é desculpa para não tentar.

Trope: Accidental Pervert (Pervertido por Acidente) – Auto-explicativo, quando um personagem age como um pervertido acidentalmente, como o Kirito pegando nos peitos da Asuna quando ela cai sobre ele.

Então, o meu último texto, “clichês, estagnação e o problema dos animes“, recebeu reações… mistas, por assim dizer. Houve quem elogiasse, mas também houve quem criticasse. E, francamente, não sem certa razão. Para todos os efeitos, aquele texto ficou horrível, estrutural e argumentativamente falando, parte disso devido a forma como ele surgiu. Como eu explico no começo, originalmente eu pretendia fazer uma lista com alguns clichês que vinham me incomodando, mas depois decidi transformar o texto em uma argumentação sobre clichês de forma geral. E o resultado foi uma bagunça, com exemplos tomando muito mais da metade do texto e o ponto em si só aparecendo bem para o final. Em essência o que eu queria argumentar era que os animes vêm sofrendo do problema de se tornarem convencionais demais, com certos clichês aparecendo porque parece haver um zeitgeist sempre presente de que é assim que anime deve ser – maior exemplo disso sendo os diversos arquétipos femininos: a tsundere, a yandere, a kuudere e por ai vai. Mas até chegar nesse ponto eu dei tantos exemplos de diferentes clichês – muitos deles, diria até a maioria, nem se quer específicos dos animes, uma crítica que recebi e que é bastante válida – que a conversa que o artigo gerou, sobretudo em grupos no Facebook, onde costumo divulgar meus textos, acabou se focando muito mais justamente nos clichês citados, e não no que eu queria que fosse o ponto central do texto.

Paciência: nem sempre o que parece uma boa ideia na teoria o é de fato na prática. Ainda assim, a experiência me deixou com vontade de falar um pouco mais sobre clichês. Desta vez, porém, de forma um pouco mais… completa. Eu já explorei algumas facetas do tema em textos passados – por exemplo, no meu texto “alguns pensamentos sobre originalidade“, ou no artigo “pensamentos soltos sobre o overexposure” -, mas sobretudo a resposta que meu último texto trouxe me deixou com vontade de sistematizar melhor a minha opinião no tema. Porque, bem francamente, esse é um assunto muito mais complexo do que pode parecer a uma primeira olhada, e em si mesmo é um tema que se relaciona a aspectos culturais, sociais, econômicos, mesmo psicológicos. Falando assim até pode parecer que estou exagerando, mas é para demonstrar estes pontos que temos o restante de todo esse texto. Antes, porém, eu quero deixar absolutamente clara a minha opinião com relação a clichês de forma geral: como conceito, “clichê” não será sempre e invariavelmente ruim, ao menos não se assumirmos a definição em português do termo (mais sobre isso em breve). Contudo, existem alguns de fato problemáticos, na medida em que quebram a imersão na história, e mesmo os demais ainda precisam ser bem executados – como, bem, literalmente tudo em uma história -, do contrário podem soar apenas preguiçosos. Cada caso é um caso, mas dito isso eu pessoalmente ainda prefiro histórias que tendam a quebrar convenções do que histórias que as sigam com maestria (mas isso, novamente, é puramente pessoal).

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Clichês, estagnação e o problema dos animes.

Quando o anime parece interessante, mas é só a mesma pilha de clichês de sempre.

Originalmente, eu pretendia fazer um artigo listando alguns dos clichês que mais vêm me irritando nos últimos tempos, do tipo que faz você revirar os olhos e se perguntar se realmente vale a pena continuar acompanhando aquela história. Inicialmente a lista teria apenas cinco entradas e depois eu pensei em aumentar para dez, quando então eu percebi que praticamente todas elas se referiam a uma mesma “coisa”: os personagens. Suas personalidades, seus comportamentos, e por ai vai.

Por exemplo, um dos clichês que eu pretendia citar nessa lista era como o protagonista parece sempre precisar de um motivo altamente pessoal para agir ou fazer o que for. A perda de algum ente querido, algum outro evento traumático no passado… Recentemente eu li o mangá Carnaval Glare, publicado no Brasil pela editora Nova Sampa (com uma das piores traduções e diagramações que eu já vi em um mangá, mas isso não importa agora). Na história, existem estes seres que causam mortes e destruição conhecidos como Bruxas, e que só podem ser combatidos por humanos especiais capazes de empunhar armas especiais. Tais humanos formam uma espécie de força policial que lida com incidentes envolvendo Bruxas, e nosso protagonista é o capitão dessa força. E ele luta contra as Bruxas porque uma delas matou a sua irmã mais nova no distante passado.

Várias obras fazem algo do tipo, onde você tem uma ameaça a praticamente toda a humanidade, e ainda assim a obra sente que precisa dar uma motivação mega pessoal ao protagonista para justificar ele lutar. Nisso, a decisão do Eren de enfrentar os Titãs, em Shingeki no Kyojin, vem após a morte de sua mãe, ao passo que a vontade de Gon de lutar contra as formigas quimeras, em Hunter x Hunter, vem sobretudo por um desejo de salvar o Kaito. E isso só para dar alguns exemplos de um dos clichês que eu pretendia citar.

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Sobre realismo, pessimismo e otimismo.

O quão realista uma história precisa ser?

Pergunta rápida: uma história precisa ser realista? Qualquer que seja a sua resposta, eu apostaria que você provavelmente caiu em um de três grupos: aqueles que prontamente disseram “não”, aqueles que provavelmente pensaram algo como “não, mas ela precisa ser verossímil e consistente consigo mesma”, ou aqueles que prontamente disseram “sim”. Mas quantos de vocês pararam para se perguntar o que essa palavra se quer significa?

Como movimento artístico e literário, o Realismo surge na França do século XIX como uma reação ao Romantismo, com a proposta de retratar a vida real de forma… bom, real. Mas isso é se quer possível? Nesse sentido, eu gosto de uma pequena fala de Vladimir Nabokov, nos comentários finais de seu livro Lolita. Ao falar sobre o cenário norte-americano de seu livro, o autor coloca: “a obtenção daqueles ingredientes locais que me permitissem acrescentar alguma ‘realidade’ (uma das poucas palavras que só fazem sentido entre aspas) no caldeirão de minha fantasia pessoal provou ser muito mais difícil, aos cinquenta anos, do que fora na Europa de minha juventude” [1]

Uma das poucas palavras que só fazem sentido entre aspas“. É, eu gosto dessa definição. E ela me parece ainda mais verdadeira atualmente, quando fica cada vez mais claro que o “realismo” do qual as pessoas falam é um tipo bastante específico de “realismo”. Mais especificamente, e sendo bastante direto, o termo deixou de se referir a obras que retratassem a realidade concreta e passou a se referir a qualquer história que seja “dark” , “pesada”, “cruel”, “brutal”, e por ai vai. Aparentemente, o único requisito atual para uma obra ser “realista” é ter personagens sofrendo e morrendo, preferencialmente de alguma forma absurdamente chocante.

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