Por que anime?

Afinal, o que há de especial nos animes?

Eu adoro anime. Dentre todas as possíveis formas de contar histórias, em todos os possíveis países no mundo, é a animação japonesa aquela que mais me cativa, e também aquela que mais consumo. Por quê? O que há de tão especial nessas narrativas? Essa é uma pergunta que eu já me fiz algumas vezes, e uma que provavelmente não possui uma resposta única. Refletindo a respeito, há uma vasta série de fatores e elementos que me fazem gostar dessa mídia, muitos dos quais certamente serão específicos à minha pessoa e às minhas experiências. Eu deixo isso claro já nessa introdução para que os objetivos desse texto fiquem também eles bastante claros. Não, eu não estou aqui para dizer como os animes são uma mídia inerentemente superior ao cinema, aos seriados, ou à literatura: isso seria bobagem, francamente falando. Ao invés disso, o que eu de fato trago aqui é um pequeno exercício: algumas considerações minhas sobre o que nessa mídia apela tanto ao meu gosto pessoal.

Para que escrever um texto do tipo? Considerando que publico isto em um blog pessoal, “porque eu quero” provavelmente já seria mais do que suficiente para uma resposta. Ainda assim, eu sinto lá alguma necessidade de me explicar um pouco mais. “Por que gostamos do que gostamos?” é uma pergunta que a maioria de nós já deve ter se feito de uma forma ou de outra, e normalmente não obtemos respostas lá muito conclusivas. “Porque sim” sendo talvez a conclusão mais comum. Este texto é, para todos os efeitos, uma tentativa minha de ir além desse “porque sim”. Nesse sentido, ele é um artigo que fala muito mais das minhas experiências com esta mídia que são os animes, e até que ponto as considerações que eu faço aqui podem ser universalizantes (se algum) é muito difícil de dizer. Mas, se mais nada, eu espero que este texto sirva também como uma espécie de apologia dos animes: a minha forma de expor o que eu vejo de tão especial nessas animações. E sendo assim, vamos então em frente.

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Sobre reboots e continuações: nostalgia, cânone, e umas palavras mais.

Mahoujin Guru Guru (2017)

Nos últimos anos nós pudemos ver o retorno de muitas franquias que, por consagradas que certamente o sejam, estavam fora da televisão há já algum tempo. Contudo, dizer quando exatamente começou essa “onda” pode ser um tanto quanto complicado. Acho que o primeiro anime do tipo que viria à mente das pessoas seria Saint Seiya Omega, de 2012, e nos anos seguintes diversas outras propriedades da Toei Animation ganhariam uma continuação ou rebootSailor Moon Crystal em 2014, Dagon Ball SuperDigimon Adventure Try em 2015, Ge Ge Ge no Kitaro em 2018, e isso só para mencionar alguns. Mas não vamos nos esquecer que Hunter x Hunter teve o seu reboot em 2011, e que Fullmetal Alchemist: Brotherbood, de certa forma um reboot mais fiel ao mangá original do que Fullmetal Alchemist havia sido, saiu em 2009. Embora, vale mencionar, eu diria que há algo de específico em muitos dos títulos que seguiram a Saint Seiya Omega, algo que não realmente estava presente nos reboots que vemos até Hunter x Hunter (2011). Mas falemos mais disso no devido tempo.

Por agora, tratemos um pouco do escopo desse artigo. Para deixar isso claro, eu mesmo não assisti muitos dos reboots e continuações mais recentes, então não pensem que estou aqui para falar sobre o quão bom ou ruim foi esta ou aquela obra. Eu certamente darei algumas opiniões sobre o que eu considero ser um bom reboot ou uma boa continuação de uma série já finalizada, mas eu quero também tecer alguns comentários sobre essa “onda” em si mesma e um pouco também sobre a nossa recepção a ela enquanto fãs e enquanto consumidores. E claro, falar um pouco sobre o que eu vejo de específico em pelo menos alguns desses reboots e continuações atuais. Porque enquanto não há nada de novo nesses conceitos em si mesmos (eu mencionei como Ge Ge Ge no Kitaro ganhou um novo anime agora em 2018, mas vale lembrar que o mangá original recebe uma nova adaptação literalmente a cada década, começando em 1968 e seguindo em 1971, 1985, 1996 e 2007), há um fator inédito que não costumamos ver nos reboots do passado: a nostalgia.

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Há espaço para os animes na televisão brasileira hoje?

Todos crescemos vendo animes na TV, mas haveria lugar para eles nela hoje?

Na última segunda feira, 19 de março, o canal aberto Rede TV voltou a exibir o anime Pokemon, agora em uma versão remasterizada da primeira temporada. Mas a recepção aparentemente morna em termos de audiência levou ao reascender de um velho debate: há espaço para os animes na televisão brasileira hoje? Sendo franco, essa é uma pergunta bem difícil de responder, como o é qualquer pergunta que procure, de certa forma, prever o futuro. Se há ou não espaço isso é algo que somente o tempo dirá, conforme novas tentativas vão sendo feitas e pudermos observar os seus resultados. Ainda assim, considerando o quanto já se fala sobre – mesmo o quanto se pede – o retorno dos animes para a televisão, eu queria aproveitar o momento para dar a minha opinião no assunto. Sendo sucinto: eu sou bastante cético de que tal empreitada tenha futuro, e a culpa disso nem é realmente dos animes, ou mesmo das emissoras de televisão. E para além disso, eu questiono se quem pede com tanto afinco pelo retorno do anime à televisão realmente deseja aquilo que pede.

É inegável que há uma forte carga de nostalgia num pedido do tipo. A maioria dos atuais fãs de anime e mangá cresceu vendo seus animes favoritos na televisão, e a imagem de nós mesmos voltando para casa após um dia de aula somente para sentar em frente à TV e acompanhar qualquer que fosse o anime que estivesse passando é uma lembrada com profundo carinho por muitos. É preciso, porém, lembrar que nostalgia raramente é sobre o objeto no qual a projetamos. Podemos tentar seguir o exemplo de Dom Casmurro, de reconstruir a casa da nossa infância numa tentativa de, como o livro coloca, “restaurar na velhice a adolescência”, mas ao final do dia essa casa ainda é apenas um simulacro daquilo que é o real alvo de nossa nostalgia: nós mesmos. Nosso tempo livre, nossa despreocupação, nosso otimismo para com o futuro… Justamente por isso, tentativas de reviver esse tempo por meio de simulacros – como, digamos, animes na televisão – podem gerar uma forte decepção, mas falamos mais disso depois. Por agora, nos foquemos um pouco em aspectos mais técnicos.

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Precisamos mudar a forma como discutimos pirataria.

Kino no Tabi. Legalmente disponível no Hidive (legendas em inglês).

Como você introduz um texto sobre pirataria? Conforme me sento para escrever a este, percebo o quão difícil é esta tarefa. Sejamos sinceros: é um assunto espinhoso. É um assunto que desperta as paixões das pessoas, um sobre o qual a maioria já possui opiniões bem fortes a respeito e um para o qual as pessoas já vão com certa antipatia. Verdade seja dita, seja qual for a posição que você tome, você irá inevitavelmente incomodar alguém – talvez mesmo ao ponto da pessoa ignorar completamente tudo o que você tiver a dizer. O que, francamente, é parte do problema. Não existe tanto uma discussão sobre pirataria quanto existem dois lados bastante agressivos se digladiando para ver quem fala mais alto, cada qual muitas vezes completamente ignorando os pontos trazidos pelo lado oposto. É uma briga mais do que um debate, algo que se tornou tragicamente comum nos dias atuais. Como, então, evitar que o leitor já comece este texto com duas pedras em cada mão? Bom, após cuidadosa análise, eu concluo que… meio que não tem como. Só o que posso fazer é pedir um pouco de calma e clareza de pensamento a quem por ventura decidir seguir com a leitura, e fica da consciência de cada um atender ou não a este pedido.

Vamos deixar o ponto deste texto bem claro já início: a forma como discutimos pirataria precisa mudar. No cenário atual, um assunto bastante complexo e repleto de nuances é resumido a duas posições binárias – “a favor” ou “contra” – que não levam a discussão a nenhum lugar produtivo. Em fato, eu iria tão longe quanto dizer que qualquer discussão produtiva sobre este assunto é sabotada por esse pensamento binário, o que inclusive faz com que a questão nunca realmente “ande pra frente”. Praticamente toda discussão sobre o assunto que você vê é idêntica àquelas outras que você já viu, como uma peça eternamente reencenada por diferentes atores. Meu propósito com este texto, portanto, é devolver um pouco de nuance à questão. Eu preciso admitir: a maioria das críticas que farei ao longo do artigo serão aos argumentos normalmente usados por aqueles contra a pirataria, mas o lado a favor também merece uma ou duas críticas. Isso talvez leve alguns a pensarem que sou incondicionalmente a favor da pirataria, o que é o exato problema que eu acabei de descrever. Não se trata de ser a favor ou contra, mas sim de entender que a discussão, tal como ela está, é simplesmente improdutiva e insustentável.

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O apelo do slice of life: muito mais do que histórias sobre nada.

Falemos um pouco sobre o slice of life.

Como definir o slice of life? Sendo um texto que busca expressar o apelo do gênero, defini-lo certamente seria útil. Afinal, seria bom sabermos sobre o que estamos falando antes de começarmos a listar seus méritos, não? Mas aqui um detalhe interessante: falando estritamente do gênero tal como ele se aplica ao anime e mangá (como falarei ao longo de todo este texto, salvo explicitado o contrário), ainda que ele seja um dos mais prolíficos nessas mídias, ele é também um bem mal definido. Digo, todo mundo parece ter uma vaga noção de o que caracteriza o slice of life, mas comparando diferentes definições fica claro que, enquanto há alguns pontos de intersecção, há também bastante discordância. Toda definição que encontrei me pareceu de alguma fora insuficiente, e se de um lado temos o povo que imediatamente associa o gênero com “garotas fofinhas fazendo coisas fofinhas”, de outro temos definições tão ridiculamente amplas que permitem que mesmo Mob Psycho 100 seja listado como um “slice of life” em sua entrada no My Anime List. Ao mesmo tempo, não é como se eu tivesse uma definição melhor…

É um assunto complicado, e um ao qual eu irei voltar muito em breve. Mas para fechar essa introdução, toda essa problemática sustenta – e mesmo ilustra – muito bem o ponto que eu queria fazer com este texto: o de que amplo como é o gênero, as razões pelas quais alguém pode gostar de um slice of life são bem mais variadas do que “garotas fofinhas”, ao mesmo tempo que o gênero em si é capaz de entregar histórias bem mais profundas, mesmo bem mais complexas (ao menos em questões temáticas), do que o popular jargão de serem histórias sobre “nada”. Sim, o slice of life é um gênero que lida com o mundano, mas dito isso: 1) o que exatamente esse “mundano” significa pode variar enormemente de obra a obra (novamente, para este texto estou falando do slice of life como ele configura entre os animes e mangás somente), e 2) mesmo partindo dessa premissa ainda é possível criar toda miríade de histórias interessantes, provocativas, ou mesmo puramente divertidas. E dito tudo isso, vamos então abrir a caixa de pandora.

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O Facebook é ruim, precisamos de uma alternativa, mas provavelmente não há uma.

O Facebook certamente nos permitiu entrar em contato com toda sorte de pessoas, mas talvez não da melhor das maneiras…

Qual foi a última vez que você entrou em um grupo no Facebook? Com isso eu quero dizer: qual foi a última vez que você foi até a barra lateral da plataforma e conscientemente clicou em um grupos que talvez ali estejam? Agora, para explicar o porquê dessa pergunta eu preciso comentar sobre como eu utilizo esses grupos. Vejam, este é um blog sobre anime e mangá, afinal. Como tal, a vasta maioria dos grupos em que estou – praticamente todos, na verdade – são sobre anime e mangá: locais onde eu possa divulgar o meu conteúdo. Houve um tempo ainda no início da maior popularização do Facebook que eu também havia entrado em grupos de memes e de debates variados, mas há muito que o cansaço para com os primeiros e a queda na qualidade dos segundos me afastaram de praticamente todo grupo ao qual eu não possa dar um uso imediado – novamente, ferramenta de divulgação. É um tanto quanto irônico, porém, que eu raramente divulgue meus textos em grupos. Apesar de dar um bom retorno quando eu comecei essa prática, este retorno foi diminuindo, e após um tempo simplesmente não valia mais o esforço. Bom, recentemente eu decidi conferir cada grupo no qual eu já havia entrado, e digamos que deu para ter uma boa ideia do porquê dessa queda em cliques – bom, ou ao menos parte do motivo.

A vasta maioria dos grupos nos quais eu havia entrado estavam praticamente mortos. Ainda havia uma ou duas postagens por dia, mas quase sempre apenas alguém promovendo a própria página ou canal – sem nenhum comentário ou reação nessas publicações. Agora, os grupos de anime e mangá no Facebook nunca foram bastiões da excelência de conteúdo – bem pelo contrário, na verdade. Em novembro de 2016 eu publiquei meu artigo O meio otaku no facebook e os meus problemas com ele, onde critico questões como o overexposure a meia dúzia de animes, a preponderância de imagens como “curte para X, comente para Y”, o excessivo cinismo e ironia em grupos com fãs um poucos mais experientes na mídia, e toda uma sorte de problemas que basicamente só fizeram piorar desde então, para ser bastante sincero. Mesmo assim, ter tantos grupos, muitos deles com membros na casa dos milhares, simplesmente morrerem foi um pouco… estranho. Embora bastou procurar novos grupos para descobrir que esse meio continua tão ativo quanto nunca – para o bem e para o mal. Dito isso, a experiência me fez pensar algumas coisas não tanto sobre o meio otaku no Facebook, mas sim sobre o Facebook de maneira geral.

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Algumas críticas aos serviços de streaming de anime.

No passado, a televisão era nossa fonte primária de animes. E conforme esse papel passa para a internet, novos problemas vão começando a surgir.

Falar sobre serviços de streaming, ou mais especificamente sobre os problemas e defeitos que eles possuem, é quase sempre um tópico espinhoso. As pessoas tendem a ficar bastante defensivas discutindo esse tópico, e não raras vezes qualquer crítica a esses serviços é tratada como apologia à pirataria travestida. Isso muito possivelmente é fruto da retórica moralista que normalmente se usa para defender esses serviços, sendo muito mais comum ouvir que as pessoas usam deles por ser “o certo” ou para “ajudar o mercado” do que realmente por serem um bom produto. O importante, assim, se torna mostrar que você é moralmente superior, pouco importa a real qualidade do produto que você consome: um comportamento tóxico não apenas para o meio de fãs de anime e mangá, mas também para os próprios serviços de streaming. Afinal, uma retórica do tipo nada mais é do que uma carta branca para a estagnação, na medida em que se espera que você use desses serviços não pelo mérito de suas qualidades, mas sim tão somente pelo mérito da sua pura existência. Um ideal que vai se tornar cada vez mais difícil de se sustentar em uma industria em franco crescimento, onde novos serviços do tipo vão surgindo regularmente.

Sim, existem aqueles que simplesmente não possuem o capital necessário para investir em um serviço do tipo, e sim, existem aqueles que não o fazem por questões muito mais ideológicas. Para esses dois grupos nenhuma melhora desses serviços será o bastante, mas vale também dizer que nenhum argumento moral os irá convencer. Em todo caso, um cenário do tipo ainda não significa que devemos ser complacentes com os problemas que cercam os serviços legais de streaming, muito menos significa que eles próprios não deveriam buscar melhorar como puderem. Antes de mais nada, eu quero pedir ao leitor que deixe as suas noções pré-concebidas de lado e não veja este texto como uma defesa da pirataria – ele não o é. O que eu quero fazer aqui é tão somente apontar algumas áreas nas quais eu gostaria de ver os serviços de streaming melhorarem, bem como reais problemas que precisarão eventualmente ser resolvidos de alguma forma se os serviços hoje existentes esperam continuar ativos daqui alguns anos. Assim sendo e finalizado todo esse preambulo, vamos então ao texto.

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