Clichês, estagnação e o problema dos animes.

Quando o anime parece interessante, mas é só a mesma pilha de clichês de sempre.

Originalmente, eu pretendia fazer um artigo listando alguns dos clichês que mais vêm me irritando nos últimos tempos, do tipo que faz você revirar os olhos e se perguntar se realmente vale a pena continuar acompanhando aquela história. Inicialmente a lista teria apenas cinco entradas e depois eu pensei em aumentar para dez, quando então eu percebi que praticamente todas elas se referiam a uma mesma “coisa”: os personagens. Suas personalidades, seus comportamentos, e por ai vai.

Por exemplo, um dos clichês que eu pretendia citar nessa lista era como o protagonista parece sempre precisar de um motivo altamente pessoal para agir ou fazer o que for. A perda de algum ente querido, algum outro evento traumático no passado… Recentemente eu li o mangá Carnaval Glare, publicado no Brasil pela editora Nova Sampa (com uma das piores traduções e diagramações que eu já vi em um mangá, mas isso não importa agora). Na história, existem estes seres que causam mortes e destruição conhecidos como Bruxas, e que só podem ser combatidos por humanos especiais capazes de empunhar armas especiais. Tais humanos formam uma espécie de força policial que lida com incidentes envolvendo Bruxas, e nosso protagonista é o capitão dessa força. E ele luta contra as Bruxas porque uma delas matou a sua irmã mais nova no distante passado.

Várias obras fazem algo do tipo, onde você tem uma ameaça a praticamente toda a humanidade, e ainda assim a obra sente que precisa dar uma motivação mega pessoal ao protagonista para justificar ele lutar. Nisso, a decisão do Eren de enfrentar os Titãs, em Shingeki no Kyojin, vem após a morte de sua mãe, ao passo que a vontade de Gon de lutar contra as formigas quimeras, em Hunter x Hunter, vem sobretudo por um desejo de salvar o Kaito. E isso só para dar alguns exemplos de um dos clichês que eu pretendia citar.

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Sobre realismo, pessimismo e otimismo.

O quão realista uma história precisa ser?

Pergunta rápida: uma história precisa ser realista? Qualquer que seja a sua resposta, eu apostaria que você provavelmente caiu em um de três grupos: aqueles que prontamente disseram “não”, aqueles que provavelmente pensaram algo como “não, mas ela precisa ser verossímil e consistente consigo mesma”, ou aqueles que prontamente disseram “sim”. Mas quantos de vocês pararam para se perguntar o que essa palavra se quer significa?

Como movimento artístico e literário, o Realismo surge na França do século XIX como uma reação ao Romantismo, com a proposta de retratar a vida real de forma… bom, real. Mas isso é se quer possível? Nesse sentido, eu gosto de uma pequena fala de Vladimir Nabokov, nos comentários finais de seu livro Lolita. Ao falar sobre o cenário norte-americano de seu livro, o autor coloca: “a obtenção daqueles ingredientes locais que me permitissem acrescentar alguma ‘realidade’ (uma das poucas palavras que só fazem sentido entre aspas) no caldeirão de minha fantasia pessoal provou ser muito mais difícil, aos cinquenta anos, do que fora na Europa de minha juventude” [1]

Uma das poucas palavras que só fazem sentido entre aspas“. É, eu gosto dessa definição. E ela me parece ainda mais verdadeira atualmente, quando fica cada vez mais claro que o “realismo” do qual as pessoas falam é um tipo bastante específico de “realismo”. Mais especificamente, e sendo bastante direto, o termo deixou de se referir a obras que retratassem a realidade concreta e passou a se referir a qualquer história que seja “dark” , “pesada”, “cruel”, “brutal”, e por ai vai. Aparentemente, o único requisito atual para uma obra ser “realista” é ter personagens sofrendo e morrendo, preferencialmente de alguma forma absurdamente chocante.

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Sobre discutir animação

E se eu disser que a animação de Byousoku 5 Centimeter é bem menos impressionante do que as pessoas fazem parecer? Leia o texto e entenda porquê.

Falar sobre animação é complicado, e ainda assim é um dos assuntos mais recorrentes no meio otaku. Verdade seja dita, o que normalmente vemos é o consenso: para o elogio ou para a crítica, via de regra as pessoas tendem a concordar sobre se um dado anime qualquer tem ou não uma boa animação. A palavra-chave aqui, porém, é tendem. Em tempos relativamente recentes, discussões sobre a animação de Pokemon Sun & Moon, ou de Kono Subarashii Sekai ni Shukufuku wo 2, mostraram que, em raras ocasiões, uma forte polarização pode muito bem se instaurar. No caso de Pokemon, inclusive, comentários sobre a animação de sua série mais recente chegaram a variar entre aqueles que a acharam barata e mal feita e aqueles que a acharam genial e a melhor animação que a franquia já teve, um espectro no mínimo interessante de se observar. Digo, se existe um elemento da análise de um anime que todos parecemos concordar que pode ser objetivamente medido este provavelmente seria a animação, e ainda assim vez ou outra vemos discussões como as já mencionadas. Por quê? De onde vem tamanha disparidade de opiniões sobre algo que, idealmente, qualquer um com bons olhos deveria ser capaz de perceber?

Bom, vamos lá, parte disso é certamente algum nível de desinformação. Sobre Pokemon Sun & Moon, para manter o exemplo, o canal The Canipa Effect chegou a fazer um excelente vídeo demonstrando que chamar a animação da nova série de “barata” ou “mal feita” não é apenas injusto, mas também é factualmente incorreto. Entretanto, e o vídeo reconhece isso, o principal problema se encontra no fato de que algo bom do ponto de vista da produção de um anime não será necessariamente percebido como bom pelo público em geral. Eu vou entrar em maiores detalhes ao longo do texto, mas o que eu quero argumentar aqui é que a palavra “animação”, no contexto atual do meio otaku, se tornou, em fato, um termo guarda-chuva que abarca sob si mesmo uma gama bastante variada de elementos. Em conjunto, coisas como movimento, coreografia, design, coloração, e outros, formam aquilo que normalmente chamamos de “animação”, e por vezes discussões sobre a qualidade de uma animação qualquer divergem justamente porque esses elementos internos atingem diferentes graus de sucessos em agradar ao público e em corresponder à proposta da obra. Se isso parece muito confuso agora, tudo bem: vamos com mais calma, olhando alguns desses diversos elementos e seus possíveis usos.

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O que você pode aprender com animes?

É possível aprender algo com animes e mangás?

Você já aprendeu algo assistindo animes? Essa é uma pergunta que reaparece com algumas frequência no meio otaku de tempos em tempos, e que normalmente angaria todo tipo de respostas. Alguns, talvez já um pouco cansados de a verem tantas vezes, já partem logo para a brincadeira e a “zoeira”, e disso surgem respostas que ridicularizam clichês e estereótipos da mídia, como, digamos, “aprendi que se eu correr pela rua com uma torrada na boca vou trombar com a pessoa que gosto”, ou “aprendi que numa luta vence quem gritar mais alto”, dois clichês relativamente comuns dos mangás shoujo de romance e shounen de ação, respectivamente. Outros já tendem a dar respostas um pouco mais sérias. Nisso, alguns enfatizam eventuais curiosidades que aprenderam com alguma anime, como decorar os signos do zodíaco graças a Saint Seiya, ou os planetas do sistema solar graças a Bishoujo Senshi Sailor Moon. Já outros enfatizam mais lições de moral ou conceitos um pouco mais “abstratos”, como a importância da amizade, do companheirismo, da perseverança, e por ai vai. Curiosamente, vale apontar, talvez a resposta mais incomum seja o puro e simples “não”.

Por um lado, tanto a existência dessa pergunta como as respostas mais sérias me parecem surgir de uma espécie de desejo por validação. Um meio de autoafirmação mesmo, como que tentando dizer “isto importa” (“isto”, no caso, sendo o anime, mangá, etc.), fruto talvez de uma sociedade pragmática onde tudo precisa ter alguma utilidade para ter algum valor. Mas numa nota um pouco mais positiva, acho que parte disso vem também de uma própria autorrealização: das pessoas notarem que saíram deste ou daquele anime um pouco diferentes do que quando o começaram, e então querem saber se mais alguém teve uma experiência do tipo. O que, de certa forma, me lembra um pouco do anime Gallery Fake [review], em cuja análise do mesmo eu procurei comentar sobre como a visão de arte do anime se resume em “aquilo que fica conosco”. Arte, ou pelo menos boa arte, seria aquilo que impacta, e que por isso mesmo permanece em nossa mente por um bom tempo: seja um quadro, uma escultura, mesmo um objeto mecânico ou uma joia rara, quando bem feita a arte transforma aquele que a vê, mesmo que talvez só um pouquinho.

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O que faz uma boa paródia?

“Eu vou por fogo nessa p*rra”

No momento em que escrevo este texto, acabo de assistir ao 11º episódio do abridge de Sword Art Online, uma produção do canal no YouTube Something Witty Entertainment. Para quem não sabe o que é um abridge, a palavra vem da língua inglesa e literalmente se traduz por “encurtar”. Trata-se de um gênero de paródia na qual fãs redublam uma dada série de forma que seus diálogos se tornem mais voltados para a comédia, ao mesmo tempo em que editam a obra de forma a adicionar ou remover cenas. O produto final acaba sendo normalmente mais curto do que o original, daí o porquê do termo: o próprio SAO Abridge comprimiu os 14 episódios do arco de Aincrad de Sword Art Online, cada um com aproximadamente 22 minutos, em 11 episódios com uma média de 15 minutos cada (com alguns maiores e outros menores do que isso, o próprio episódio final tendo mais de 30 minutos). E que série foi essa… Impressionantemente melhor do que o original em praticamente todos os aspectos: personagens, história, desenvolvimento, com ainda por cima diversas piadas de ótimo timing. Tudo isso enquanto conseguindo trazer momentos genuinamente emocionantes, e completamente merecendo tais momentos!

Agora, para que esse texto não se torne essencialmente eu falando bem da minha nova série de internet favorita [rs], ainda que eu certamente vá retornar a esse abridge ao longo do texto, eu acho que esse tipo de obra nos permite refletir um pouco sobre um tipo bastante específico de comédia: a paródia. Afinal, séries do tipo são paródias por excelência e por essência, se definindo inteiramente no refazer de uma série prévia. E, ainda assim, conseguem se tornar imensamente populares quando bem feitas, além de muito bem recebidas. A pegadinha está, porém, nesse “quando bem feitas”: enquanto séries como DragonBall Z Abridged, do canal no YouTube TeamFourStar, ou Yu-Gi-Oh The Abridged Series, do canal Little Kuriboh, conseguem atrair centenas de milhares de pessoas, há também outras tantas séries similares que simplesmente não conseguiram atingir qualquer audiência. Então… O que os faz tão bons? Certamente há ai um aspecto técnico: enquanto a maioria das séries abridge tem uma produção bem mais amadora e rústica (são feitas por fãs como um hobby, afinal), as séries que mais se destacam são realmente bem mais profissionais, em praticamente todos os sentidos. Mas será apenas isso? Afinal: o que faz uma boa paródia?

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Como fazer uma (boa) review negativa?

Falando sobre críticas negativas.

O que define uma boa review negativa? Para mim, isso se resume ao efeito que ela causa. Idealmente falando, apontar os defeitos e problemas de uma dada obra deveria servir para incentivar ao pensamento crítico, além de nos fazer refletir um pouco mais sobre o que faz uma boa e uma má obra de ficção. E notem: eu não digo que todos precisam concordar com a review. É plenamente possível discordar dos pontos apresentados após ponderação, ao mesmo tempo que, para aqueles que gostem da obra criticada, é também possível concordar com os defeitos levantados e ainda seguir gostando daquela história. O ponto aqui é menos a busca de um consenso e mais a ideia de que essa review deveria trazer algo de positivo. Algo que, infelizmente, muitas vezes não acontece. Não é raro encontrarmos reviews negativas que só encontram eco entre aqueles que já não gostavam do anime em primeiro lugar, bem como deve ser ainda mais fácil encontrar tais reviews sendo recebidas com puro desdém e irritação por parte daqueles que gostem da obra analisada. E é aqui, a meu ver, que temos as reviews negativas ruins.

Para alguns, essa minha distinção talvez soe como injusta. Afinal, não é como se o autor pudesse controlar a reação à sua crítica, não é verdade? Bom… Enquanto há certamente alguma verdade nisso (também não sou ingênuo: sei muito bem que há pessoas que não suportam ver aquilo que gostam ser criticado negativamente, por mais ponderada e bem argumentada que seja a crítica), eu ainda não seria tão rápido em isentar ao autor. Isso porque eu acredito que existem algumas estratégias discursivas que podem em muito minimizar qualquer possível reação negativa, estratégias estas que eu mesmo busco usar nas raras vezes em que vou falar mal de algo. Não vou dizer que sejam fáceis de aplicar, e eu mesmo penso que fazer uma boa review positiva é um trabalho bem mais fácil que fazer uma boa review negativa (dai tão poucas reviews minhas nesse sentido). Mas para aqueles que eventualmente se interessarem, ficam então estas considerações.

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Vamos falar de traps (o termo…)

Kinoshita Hideyoshi

Trap. Palavra da língua inglesa que literalmente se traduz por “armadilha”, no meio otaku ela é normalmente usada para descrever um personagem que, embora de aparência feminina ou andrógena, acaba por se revelar, no decurso da história, como masculino. Isso, claro, sendo apenas uma apropriação do termo, muito usado na internet como reação a fotos de transexuais ou crossdressers, uso esse sintetizado em memes como “it’s a trap“. O espírito aqui sendo óbvio: a pessoa crê estar olhando para uma figura feminina, apenas para depois descobrir que não se trata de uma mulher “de verdade”.

Justamente por conta desse significado, o termo já foi bastante criticado como sendo transfóbico, e isso baseado em sobretudo dois argumentos: primeiro, o de que o termo faz parecer que mulheres trans estariam tentando “enganar” os outros, ao invés de estarem apenas sendo elas mesmas; e segundo, o de que ao criar uma divisão entre as mulheres trans e as mulheres “de verdade”, o termo acaba por lhes negar parte de sua identidade. Mantenham isso em mente pois será relevante depois, mas por agora fica então a pergunta: e quanto ao meio otaku?

Que o termo é no mínimo “politicamente incorreto” se aplicado a pessoas reais é uma espécie de regra não dita já bastante consolidada. Por conta disso, vez ou outra surge no meio otaku o debate de se é ou não certo seguir usando do termo mesmo que para personagens fictícios. Afinal, se ele é assim tão ofensivo, não seria melhor abandoná-lo, talvez trocando por algum outro menos problemático? Até porque, não é como se perdêssemos qualquer coisa ao fazê-lo, não é? Bom… É complicado. Ou, pelo menos, mais complicado do que poderia parecer a princípio.

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