O que você pode aprender com animes?

É possível aprender algo com animes e mangás?

Você já aprendeu algo assistindo animes? Essa é uma pergunta que reaparece com algumas frequência no meio otaku de tempos em tempos, e que normalmente angaria todo tipo de respostas. Alguns, talvez já um pouco cansados de a verem tantas vezes, já partem logo para a brincadeira e a “zoeira”, e disso surgem respostas que ridicularizam clichês e estereótipos da mídia, como, digamos, “aprendi que se eu correr pela rua com uma torrada na boca vou trombar com a pessoa que gosto”, ou “aprendi que numa luta vence quem gritar mais alto”, dois clichês relativamente comuns dos mangás shoujo de romance e shounen de ação, respectivamente. Outros já tendem a dar respostas um pouco mais sérias. Nisso, alguns enfatizam eventuais curiosidades que aprenderam com alguma anime, como decorar os signos do zodíaco graças a Saint Seiya, ou os planetas do sistema solar graças a Bishoujo Senshi Sailor Moon. Já outros enfatizam mais lições de moral ou conceitos um pouco mais “abstratos”, como a importância da amizade, do companheirismo, da perseverança, e por ai vai. Curiosamente, vale apontar, talvez a resposta mais incomum seja o puro e simples “não”.

Por um lado, tanto a existência dessa pergunta como as respostas mais sérias me parecem surgir de uma espécie de desejo por validação. Um meio de autoafirmação mesmo, como que tentando dizer “isto importa” (“isto”, no caso, sendo o anime, mangá, etc.), fruto talvez de uma sociedade pragmática onde tudo precisa ter alguma utilidade para ter algum valor. Mas numa nota um pouco mais positiva, acho que parte disso vem também de uma própria autorrealização: das pessoas notarem que saíram deste ou daquele anime um pouco diferentes do que quando o começaram, e então querem saber se mais alguém teve uma experiência do tipo. O que, de certa forma, me lembra um pouco do anime Gallery Fake [review], em cuja análise do mesmo eu procurei comentar sobre como a visão de arte do anime se resume em “aquilo que fica conosco”. Arte, ou pelo menos boa arte, seria aquilo que impacta, e que por isso mesmo permanece em nossa mente por um bom tempo: seja um quadro, uma escultura, mesmo um objeto mecânico ou uma joia rara, quando bem feita a arte transforma aquele que a vê, mesmo que talvez só um pouquinho.

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O que faz uma boa paródia?

“Eu vou por fogo nessa p*rra”

No momento em que escrevo este texto, acabo de assistir ao 11º episódio do abridge de Sword Art Online, uma produção do canal no YouTube Something Witty Entertainment. Para quem não sabe o que é um abridge, a palavra vem da língua inglesa e literalmente se traduz por “encurtar”. Trata-se de um gênero de paródia na qual fãs redublam uma dada série de forma que seus diálogos se tornem mais voltados para a comédia, ao mesmo tempo em que editam a obra de forma a adicionar ou remover cenas. O produto final acaba sendo normalmente mais curto do que o original, daí o porquê do termo: o próprio SAO Abridge comprimiu os 14 episódios do arco de Aincrad de Sword Art Online, cada um com aproximadamente 22 minutos, em 11 episódios com uma média de 15 minutos cada (com alguns maiores e outros menores do que isso, o próprio episódio final tendo mais de 30 minutos). E que série foi essa… Impressionantemente melhor do que o original em praticamente todos os aspectos: personagens, história, desenvolvimento, com ainda por cima diversas piadas de ótimo timing. Tudo isso enquanto conseguindo trazer momentos genuinamente emocionantes, e completamente merecendo tais momentos!

Agora, para que esse texto não se torne essencialmente eu falando bem da minha nova série de internet favorita [rs], ainda que eu certamente vá retornar a esse abridge ao longo do texto, eu acho que esse tipo de obra nos permite refletir um pouco sobre um tipo bastante específico de comédia: a paródia. Afinal, séries do tipo são paródias por excelência e por essência, se definindo inteiramente no refazer de uma série prévia. E, ainda assim, conseguem se tornar imensamente populares quando bem feitas, além de muito bem recebidas. A pegadinha está, porém, nesse “quando bem feitas”: enquanto séries como DragonBall Z Abridged, do canal no YouTube TeamFourStar, ou Yu-Gi-Oh The Abridged Series, do canal Little Kuriboh, conseguem atrair centenas de milhares de pessoas, há também outras tantas séries similares que simplesmente não conseguiram atingir qualquer audiência. Então… O que os faz tão bons? Certamente há ai um aspecto técnico: enquanto a maioria das séries abridge tem uma produção bem mais amadora e rústica (são feitas por fãs como um hobby, afinal), as séries que mais se destacam são realmente bem mais profissionais, em praticamente todos os sentidos. Mas será apenas isso? Afinal: o que faz uma boa paródia?

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Como fazer uma (boa) review negativa?

Falando sobre críticas negativas.

O que define uma boa review negativa? Para mim, isso se resume ao efeito que ela causa. Idealmente falando, apontar os defeitos e problemas de uma dada obra deveria servir para incentivar ao pensamento crítico, além de nos fazer refletir um pouco mais sobre o que faz uma boa e uma má obra de ficção. E notem: eu não digo que todos precisam concordar com a review. É plenamente possível discordar dos pontos apresentados após ponderação, ao mesmo tempo que, para aqueles que gostem da obra criticada, é também possível concordar com os defeitos levantados e ainda seguir gostando daquela história. O ponto aqui é menos a busca de um consenso e mais a ideia de que essa review deveria trazer algo de positivo. Algo que, infelizmente, muitas vezes não acontece. Não é raro encontrarmos reviews negativas que só encontram eco entre aqueles que já não gostavam do anime em primeiro lugar, bem como deve ser ainda mais fácil encontrar tais reviews sendo recebidas com puro desdém e irritação por parte daqueles que gostem da obra analisada. E é aqui, a meu ver, que temos as reviews negativas ruins.

Para alguns, essa minha distinção talvez soe como injusta. Afinal, não é como se o autor pudesse controlar a reação à sua crítica, não é verdade? Bom… Enquanto há certamente alguma verdade nisso (também não sou ingênuo: sei muito bem que há pessoas que não suportam ver aquilo que gostam ser criticado negativamente, por mais ponderada e bem argumentada que seja a crítica), eu ainda não seria tão rápido em isentar ao autor. Isso porque eu acredito que existem algumas estratégias discursivas que podem em muito minimizar qualquer possível reação negativa, estratégias estas que eu mesmo busco usar nas raras vezes em que vou falar mal de algo. Não vou dizer que sejam fáceis de aplicar, e eu mesmo penso que fazer uma boa review positiva é um trabalho bem mais fácil que fazer uma boa review negativa (dai tão poucas reviews minhas nesse sentido). Mas para aqueles que eventualmente se interessarem, ficam então estas considerações.

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Vamos falar de traps (o termo…)

Kinoshita Hideyoshi

Trap. Palavra da língua inglesa que literalmente se traduz por “armadilha”, no meio otaku ela é normalmente usada para descrever um personagem que, embora de aparência feminina ou andrógena, acaba por se revelar, no decurso da história, como masculino. Isso, claro, sendo apenas uma apropriação do termo, muito usado na internet como reação a fotos de transexuais ou crossdressers, uso esse sintetizado em memes como “it’s a trap“. O espírito aqui sendo óbvio: a pessoa crê estar olhando para uma figura feminina, apenas para depois descobrir que não se trata de uma mulher “de verdade”.

Justamente por conta desse significado, o termo já foi bastante criticado como sendo transfóbico, e isso baseado em sobretudo dois argumentos: primeiro, o de que o termo faz parecer que mulheres trans estariam tentando “enganar” os outros, ao invés de estarem apenas sendo elas mesmas; e segundo, o de que ao criar uma divisão entre as mulheres trans e as mulheres “de verdade”, o termo acaba por lhes negar parte de sua identidade. Mantenham isso em mente pois será relevante depois, mas por agora fica então a pergunta: e quanto ao meio otaku?

Que o termo é no mínimo “politicamente incorreto” se aplicado a pessoas reais é uma espécie de regra não dita já bastante consolidada. Por conta disso, vez ou outra surge no meio otaku o debate de se é ou não certo seguir usando do termo mesmo que para personagens fictícios. Afinal, se ele é assim tão ofensivo, não seria melhor abandoná-lo, talvez trocando por algum outro menos problemático? Até porque, não é como se perdêssemos qualquer coisa ao fazê-lo, não é? Bom… É complicado. Ou, pelo menos, mais complicado do que poderia parecer a princípio.

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O que é uma “desconstrução”?

"Desconstrução": a palavra é jogada aqui e ali com frequência, mas o que ela de fato significa?
“Desconstrução”: a palavra é jogada aqui e ali com frequência, mas o que ela de fato significa?

Com toda certeza o leitor já se deparou com esse argumento ao menos uma vez, o de que dado anime ou mangá é uma “desconstrução do” e ai segue-se algum gênero, clichê, ou o que couber. “Neon Genesis Evangelion é uma desconstrução do gênero mecha“, “Madoka Magica é uma desconstrução do gênero mahou shoujo“, “Re:Zero Kara Hajimeru Isekai Seikatsu é uma desconstrução do gênero isekai [protagonista que viaja para outro mundo]”, “Hunter x Hunter é uma desconstrução do shounen“, e por ai vai. Você talvez inclusive concorde com algumas dessas afirmações, discorde de outras, e talvez incluísse entre esses exemplos a sua própria lista de animes que “desconstroem” alguma coisa. Mas para o quanto a palavra é usada, ela é também incrivelmente imprecisa. Boas são as chances que duas pessoas a usando queiram dizer coisas completamente diferentes, e mesmo que concordem que este ou aquele anime é uma desconstrução de algo, talvez o achem por motivos totalmente distintos. Justamente por isso é possível surgir bastante debate e discussão sobre se dado anime é ou não uma desconstrução disso ou daquilo. Mas isso levanta então a questão: o que, afinal, é uma desconstrução? O que o termo realmente quer dizer?

Bom, bem francamente, essa é uma pergunta bem difícil de responder. Ao longo do tempo e do contexto essa palavra mudou drasticamente, ao ponto de que a forma como o meio otaku a usa atualmente é total e completamente diferente daquela do uso original da palavra. O que traz consigo um certo grau de ironia, para ser bem sincero, mas explicarei melhor isso em breve. Por agora, o importante é apontar o seguinte: para tentar explicar melhor essa palavra, eu vou precisar entrar em pelo menos três definições que ela assumiu ao longo do tempo. Primeiro, a definição original, de quando a palavra surge ainda no meio da teoria literária. Em segundo lugar, a definição mais consensual entre a crítica dentro do meio otaku, aquela normalmente adotada e propagada por aqueles com um conhecimento um pouco maior da mídia. Finalmente, a definição coloquial dentro do meio otaku, aquela surgida a partir de uma espécie de subversão ou “corrupção” do segundo significado, e que essencialmente é a responsável pelas pessoas começarem a usar o termo para falar de literalmente todo anime minimamente diferente do padrão.

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O que faz uma boa trilha sonora?

O impacto que pode ter uma boa música.
O impacto que pode ter uma boa música.

É curioso como, quando discutindo sobre animes, a trilha sonora raramente recebe lá muita atenção. Isso talvez se deva ao fato de que, ao contrário de elementos como animação, desenvolvimento de personagem e consistência no roteiro, as “regras” pelas quais avaliar a trilha sonora nunca ficaram exatamente claras. Enquanto podemos discordar sobre se personagem X ou Y foi bem desenvolvido ou não, ou se animação deste ou daquele anime foi competente ou não, nós ainda temos em mente um talvez-nem-tão-pequeno set de características que compõe o que seria um personagem bem desenvolvido ou um anime bem animado. Mas explicar conceitualmente o que faz uma boa trilha sonora é algo bem mais nebuloso, e talvez por isso a maioria das vezes que alguém comenta sobre a trilha sonora de uma obra a análise inevitavelmente cai em impressionismos como “é boa”, “é bela”, “é ruim”, e por ai vai (e é, eu certamente não sou imune a isso, muitíssimo pelo contrário).

Dito isso, eu honestamente acredito que a trilha sonora é um dos aspectos mais importantes de um anime, podendo facilmente tornar até a pior das histórias ao menos um pouco mais palatável – quando bem utilizada -, ou fazendo até a mais belíssima animação parecer “vazia” e “inacabada” – quando mal utilizada. E para explicar o porque disso, eu quero deixar claro aqui o que eu acho que faz uma boa trilha sonora: ela ser notável. Isto é, uma boa trilha sonora deve ser percebida pelo espectador, e para além disso a sua presença ali deve ser complementar à cena. Em outras palavras: a trilha sonora deve ser parte integrante da cena em questão, e significativamente impactar na forma como a percebemos. Se uma cena passa exatamente as mesmas ideias, impressões e sensações no mudo do que quando com o som ligado, então temos aqui um mal uso da trilha sonora. Mas para ir mais a fundo nisso, talvez alguns exemplos sejam o melhor caminho.

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O que torna um personagem “humano”?

Emoções, expressão facial, passatempos: algumas breve considerações sobre o que torna um personagem "humano".
Emoções, expressão facial, passatempos: algumas breve considerações sobre o que torna um personagem “humano”.

Dizer que um personagem é “humano” é um elogio bastante comum em análises e críticas. Normalmente, o termo é usado para dizer que o personagem é complexo e bem desenvolvido, que é fácil de se identificar e de simpatizar com ele, e não raras vezes o termo parece ser usado como sinônimo de “verossímil” ou “realista”. Mas como muitos desses termos cujo significado parece ser tratado como implícito, deduzível ou evidente, é raro vermos explicações detalhadas sobre o que a pessoa entende por “humano” em primeiro lugar. O que nos leva então à pergunta-título deste artigo: o que, afinal, torna um personagem “humano”?

Obviamente, eu só posso falar por mim. Diferentes pessoas podem apontar diferentes características e elementos que, para elas, tornam o personagem mais “humano”, e o próprio termo “humano” pode querer indicar uma série de coisas não exatamente contraditórias, mas também não exatamente idênticas, conforme expliquei no parágrafo anterior. O que já vale também uma nota: pessoalmente, eu entendo e uso o termo “humano” como sinônimo de “realista”, e ao longo de todo esse texto o leitor pode tranquilamente assumir os dois termos como intercambiáveis quando eu estiver me referindo a um personagem ou grupo de personagens.

Ainda assim, espero que esse texto seja interessante, e ajude o leitor a pensar de forma um pouco mais aprofundada sobre o que esse termo significa. Então vamos lá: assumindo que um autor queira fazer seus personagens o mais “humanos” possível, a que elementos e características eu acho que ele deveria se ater e por quê?

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