Sobre argumentos vazios.

“Ah, mas o protagonista desse anime é muito overpower”. Ta… E daí?

No meu ensaio Tropes e clichês: nada é original, mas isso não é desculpa para não tentar eu procurei argumentar sobre como alguns autores se deixam levar pelos clichês, adotando-os sem reflexão e, nisso, gerando histórias que mais parecem cópias de alguma outra coisa. Aqui, eu quero argumentar que escritores de ficção estão bem longe de serem os únicos afetados por esse tipo de mentalidade, e que em fato muitos de nós se deixam levar por lugares comum inclusive na hora de se analisar ou comentar uma obra.

Algo que vem me incomodando nas discussões sobre anime e mangá é como parece ter despontado nos últimos tempos uma série do que eu vou chamar aqui de “argumentos vazios”. “Vazios”, no caso, eu digo de sentido mesmo. São argumentos que, se tivessem o contexto adequado, poderiam ser críticas e apontamentos bastante válidos, mas como isso raramente acontece nós terminamos com uma série de buzzwords que as pessoas apenas repetem acriticamente. Nisso, a própria discussão vai se tornando menos e menos significativa.

O ponto que eu quero trazer aqui é que não importa qual seja a sua crítica a uma obra, você precisa deixar bastante claro porquê ela é válida em primeiro lugar. Dizer que um personagem é “overpower“, por exemplo, não significa absolutamente nada se você não puder explicar porque isso é um problema naquela história em específico. Mais nisso em breve, mas antes de mais nada eu quero deixar claro o seguinte: eu não faço essas considerações para uma pessoa ou grupo de pessoas em particular, mas sim para todos aqueles que comentam, debatem e criticam animes.

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Café com Anime – Kino no Tabi, episódio 2: O Coliseu.

Olá e bem vindos a mais um Café com Anime o/ Caso não saibam bem o que é esse quadro, trata-se de uma conversa entre eu, o Fábio, do Anime21, o Vinicius, do Finisgeekis, e o Gato de Ulthar, do Dissidência Pop, conversa essa na qual discutimos alguns dos animes da temporada corrente.

Aqui no É Só Um Desenho o leitor acompanha nossos debates sobre Kino no Tabi: The Beautiful World – The Animated Series. No Anime21 vocês poderão ler nossas conversas sobre Animegataris e sobre Children of the Whale. No Finisgeekis, temos as discussões sobre Girl’s Last Tour. E no Dissidência Pop vocês encontram as conversas sobre Mahoutsukai no Yome.

Então peguem uma cadeira, sirvam-se de uma quente xícara de café, e vamos falar um pouco sobre o segundo episódio da mais nova encarnação de Kino no Tabi. Uma boa leitura a todos o/

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Uma Breve Análise – Gamers: Como Criar Desentendimentos.

Nenhum clichê é ruim se você souber como utilizá-lo.

Dentre os tropes que mais me irritam na ficção, “constantes desentendimentos que poderiam ser resolvidos com uma simples conversa” é um que está bem próximo do topo da minha lista. Não diria que é que mais me irrita (acho que personagens femininas arquetípicas ainda tomam o primeiro lugar), mas definitivamente é um trope do qual eu prefiro distância. O que torna bastante surpreendente o fato de eu ter adorado um anime que se baseia exatamente nisso.

Anime de 2017 do estúdio Pine Jam, adaptando a light novel homônima escrita por Sekina Aoi e ilustrada por Saboten, a trama de Gamers! começa quando a idol do colégio, Tendou Karen, tenta convidar o introvertido Amano Keita para o clube de videogames da escola. O que começa de forma bastante inocente – mesmo um pouco genérica – logo, porém, espirala em uma constante de hilários desentendimentos amorosos envolvendo o quinteto principal da história.

Falando assim não parece grande coisa, e mesmo os primeiros episódios do anime não são exatamente uma obra prima, mas o saldo final dessa obra ainda é um bastante positivo, não apesar dos constantes mal entendidos, mas inclusive por conta deles e da forma como o anime os utiliza. Quem ainda não o assistiu eu definitivamente recomendo que ao menos dê a ele o teste dos três episódios, mas se quiser decidir após ler a análise fique a vontade: desta vez não há spoilers aqui.

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Toda interpretação é válida? O papel do autor na interpretação de sua obra.

Funfact: Kazuya Tsurumaki, diretor assistente em Neon Genesis Evangelion, já chegou a dizer que o simbolismo religioso no anime estava ali só para distingui-lo de outros animes de robôs gigantes.

Qual a importância do que diz o autor na hora de se interpretar uma obra de arte qualquer? Sinceramente, essa é uma pergunta bem difícil de responder. Nós tendemos a ver o autor como a máxima autoridade sobre a sua obra, mas isso pode ser bastante complicado de sustentar. Por outro lado, já houve aqueles que tentaram romper por completo com essa visão, a exemplo do crítico literário francês  Roland Barthes. Em 1967, Barthes publicou seu ensaio A Morte do Autor, onde advoga por uma separação entre o autor e a sua obra. Para ele, tentar explicar a segunda pelo primeiro seria limitar a própria obra. Mas enquanto eu vejo valor no argumento de Barthes, eu vejo nessa teoria um salto lógico grande demais. Tudo bem que é útil ter algum cuidado ao tratar a palavra do autor como verdade absoluta, mas isso também não significa que devemos concluir que toda interpretação é igualmente válida. É uma situação na qual extremos me parecem bem pouco úteis, francamente falando.

O que me leva ao propósito desse texto. Sendo bem sincero, não é nem de longe a minha intenção resolver toda essa problemática. Ao invés disso, o que eu quero é justamente explaná-la. Há bons argumentos para se duvidar do que diz o autor, e há bons argumentos para se evitar cair no pleno relativismo. Longe de querer dizer qual lado é o melhor, eu pretendo expor a ambos de forma que leitor possa traçar as suas próprias conclusões. Dito isso, eu imagino que pelo menos alguns leitores provavelmente irão querer saber de que lado desse debate eu me posiciono, isso se já não o perceberam pelo parágrafo anterior. Em todo caso, como alguém que vê a arte como uma forma de comunicação, eu tendo a dar bastante importância para as intenções do autor. Dito isso, nem sempre estas serão claras, e no final do dia o melhor que eu posso fazer é dizer que a interpretação do autor é a mais correta, exceto quando ela não é.

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Café com Anime – Kino no Tabi, episódio 1: Uma Terra Onde é Permitido Matar

E começa agora mais um Café com Anime \o/ Para quem não leu o post anterior no assunto, o Café com Anime é o momento no qual eu, o Vinicius Marino, do Finisgeekis, o Gato de Ulthar, do Dissidência Pop, e o Fábio “Mexicano”, do Anime21, sentamos para discutir alguns dos animes da temporada.

Aqui no blog vocês conferem a nossa conversa sobre Kino no Tabi: The Beautiful World – The Animated Series. No Finisgeekis estará a nossa conversa sobre Girl’s Last Tour. No Dissidência Pop, a discussão sobre Mahoutsukai no Yome. E no Animes21, temos as discussões sobre Children of The Whale Animegataris.

Portanto puxem uma cadeira, sirvam-se de uma xícara de café, e venham se divertir com a nossa conversa sobre esse anime que se mostra uma das maiores promessas dessa temporada. E quando terminar, não deixe de dar uma passada nos outros sites para ver nossas outras conversas ;)

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Uma Breve Análise – Re:Creators: Vocaloids, Originalidade e o Simulacro

Qual o papel da originalidade na era do simulacro?

Eu quero já começar dizendo que essa análise vai ser um pouco mais densa e um pouco mais longa do que o normal. Mas Re:Creators abre tanta margem para discutir alguns assuntos em profundidade que eu não poderia fazer só alguns parágrafos curtos. Dito isso, eu ainda fiz o possível que o texto não fosse excessivamente confuso.

Vamos lá: para quem talvez não saiba, Re:Creators é a mais nova produção do estúdio Troyca, um anime original com roteiro de Rei Hiroe e direção de Ei Aoki. A premissa da história é a de que personagens das mais diversas mídias – anime, mangá, light novel, videogames – começaram a aparecer na Tóquio moderna, aparentemente trazidos pela misteriosa Princesa de Uniforme Militar. Quais os seus objetivos é um mistério que desvendamos conforme o anime avança, mas desde cedo uma coisa fica bem clara: se os personagens, aqui chamados Criações, não voltarem logo aos seus mundos, a própria realidade pode estar em perigo.

Agora, eu vou dizer que, modéstia à parte, eu provavelmente fiz o anime soar mais interessante do que ele realmente é. Ele tem bons momentos, mas que são exatamente isso: momentos. Há boas ideias e bons conceitos aqui, mas mais de uma vez a execução deixa a desejar. Não chega a ser um flop completo, mas digamos que a obra é, quando muito, mediana. Dito isso, ela levanta algumas questões que valem a pena comentar. Ah, mas antes, fica o aviso: spoilers a partir daqui, então sigam por sua conta e risco.

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Review – Sakura Quest (Anime)

Sakura Quest

Lançado em abril de 2017, Sakura Quest é a mais nova produção do estúdio P.A.Works a se focar no cotidiano de um grupo de jovens adultas. Com roteiro de Masahiro Yokotani e direção de Soichi Masui, nossa história começa quando Koharu Yoshino recebe uma proposta de emprego vinda do ministério do turismo da cidade interiorana Manoyama. A garota aceita com relutância: vinda ela própria de uma cidade pequena, seu grande sonho era fincar raízes na megalópole que é Tóquio, mas a dificuldade de conseguir um emprego na cidade a faz recorrer a pequenos bicos para pagar suas contas. O problema surge, porém, quando Yoshino descobre que a proposta é para um pouco mais do que um bico. Embora ela inicialmente acreditasse que seu trabalho seria breve – ela deveria posar como rainha do “Reino do Chupa-Cabra”, uma atração turística da cidade que já viu dias melhores -, logo a garota descobre que seu contrato deveria durar um ano. Surpresa, ela imediatamente tenta resignar de seu novo “posto”, mas acaba sendo convencida a ficar. Aqui começa um novo capítulo na vida de Yoshino, que será também um novo capítulo para a pacata cidade de Manoyama.

Ao longo do anime, somos introduzidos a uma miríade de outros personagens, quatro dos quais sendo as jovens que se tornam as “ministras” de Yoshino, cada qual com seus próprios talentos e problemas pessoais. E, é lógico, somos também apresentados à cidade, incluindo ai aos problemas e dificuldades pelos quais ela passa. É certamente um anime bem leve, mas nem por isso sem substância. Enquanto otimista em essência, ele ainda se mostra capaz de abordar desde questões tão tipicamente japonesas quanto os problemas advindos do envelhecimento populacional, como questões bem mais universais, como a busca de um local ao qual pertencer. A isso adicionamos os belos cenários que já se tornaram praticamente a marca registrada dos animes da P.A.Works, além de uma trilha sonora que, se não fenomenal em todos os seus momentos, ainda apresenta algumas músicas verdadeiramente marcantes. Uma obra descontraída e séria na medida certa, é um anime que vale muito a pena conferir. E aqui cabe o aviso de sempre: spoilers abaixo, então sigam por sua conta e risco.

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