Uma Breve Análise – Centaur no Nayami: Ditadura do Politicamente Correto?

Centaur no Nayami

Centaur no Nayami tem um dos melhores exemplos de um bom worldbilding que eu vi em tempos recentes. O anime de 2017 é uma adaptação do mangá homônimo de Kei Mirayama, que se passa numa realidade alternativa onde a evolução deu origem a vertebrados de seis membros, resultando num presente no qual convivem quatro grupos de seres humanos (centauros, sátiros, anjos/demônios e sereias) mais outras espécies humanoides inteligentes (como o povo serpente da antártica e o povo anfíbio da floresta).

Na trama, acompanhamos inicialmente um grupo de três garotas: a centauro Himeno, a sátiro Kyouko e a demônimo Nozomi. A partir do episódio 5, a antarticana Quetzalcoatl é introduzida ao grupo principal, e em diversos episódios também acompanhamos o dia a dia da anja presidenta do conselho estudantil, Manami. É um elenco de personagens até que grande para uma obra de apenas 12 episódios, e mesmo assim o anime ainda sente a necessidade de incluir algumas esquetes com outros personagens em outras regiões daquele mundo.

Fica claro que a preocupação maior da obra é com o seu universo, e com como ele realmente seria se as pessoas fossem tão drasticamente diferentes umas das outras ao ponto que a série propõe. Dentro disso, o anime desenvolve diversos comentários sobre o preconceito e a discriminação, sendo um deles aquele que eu quero focar nessa análise: em um mundo com um longo histórico de opressão, é possível que tentativas de compensação por esse passado possam passar um pouco da conta?

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Uma Breve Análise – Just Because: A Sutil Importância dos Círculos de Amizade.

Just Because

Você já teve a experiência de assistir um anime e achá-lo um tanto quanto… vazio? Não em conteúdo, temas ou ideias, mas em “vida” mesmo, como se as única pessoas que existissem naquele mundo fossem os personagens principais – e talvez meia dúzia de figurantes lá no fundo do quadro. Não tem nada de estranho em uma história ter um grupo central de personagens, boa sorte tentando escrever uma sem um, mas acho que existe uma linha que separa você ter um foco em um grupo de personagens de você ter esse grupo de personagens.

Just Because, de 2017, é um anime que me impressionou, dentre outras coisas, justamente por não cair nessa situação, mesmo com um roteiro que tende mesmo a favorecê-la. A história é sobre um grupo de cinco estudantes do ensino médio que estão agora nos seus últimos meses de colégio, com a faculdade e o mercado de trabalho já batendo às portas de cada um deles. É essencialmente um drama adolescente com elementos do slice of life e uma boa dose de romance, e como um todo uma produção bem sólida e bem fácil de recomendar.

Agora, quando o anime começa, esses cinco protagonistas são, quando muito, conhecidos uns dos outros. Estudam na mesma escola, alguns já haviam mesmo estudado juntos no ensino fundamental, mas num geral ninguém mantém uma relação próxima com ninguém. Como esses personagens vão se conhecendo melhor e formando lanços entre eles é basicamente a história desse anime, e em parte é o motivo pelo qual eu digo que é um cenário que poderia facilmente cair no que comentei no primeiro parágrafo.

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Café com Anime – Kino no Tabi, episódio 12: Kino Vs. Ovelhas

Olá a todos, e sejam muito bem vindos a mais um Café com Anime, nossa conversa semanal sobre os animes da temporada. E como de costume, estou aqui com o Fábio, do Animes 21, o Vinicius, do Finisgeekis, e o Gato de Ulthar, do Dissidência Pop, para discutirmos nossas impressões sobre o décimo segundo e último episódio de Kino no Tabi: The Beautiful World – The Animated series.

Antes, porém, vale lembrar que no Animes 21 vocês poderão conferir nossas conversas sobre Animegataris e sobre Children of the Whale; no Finisgeekis, nosso bate-papo sobre Girl’s Last Tour; e no Dissidência Pop, nossas discussões sobre Mahoutsukai no Yome, então não deixem de visitar e ficar de olho nos outros sites.

E dados os disclaimers de sempre, vamos então à conversa /o/

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Uma Breve Análise – Houseki no Kuni: Como Usar do Cliffhanger

Phosphophyllite, a protagonista de Houseki no Kuni.

Houseki no Kuni começou como um mangá seinen escrito e ilustrado por Haruko Ichikawa, sendo publicado na revista Gekkan Afternoon desde outubro de 2012. Exatamente cinco anos após o seu início, em outubro de 2017 o mangá recebe uma adaptação para anime na forma de uma série de 12 episódios, produzidos pelo estúdio Orange e contando com a distinta característica de se utilizar largamente da computação gráfica: com um excelente resultado, diga-se de passagem.

Dizer que Houseki no Kuni eleva o nível do que podemos considerar um “bom CG” seria ainda subestimar a produção. Com cenários absolutamente estonteantes, movimentos de câmera inovadores e personagens cujos belos cabelos lustrosos só poderiam existir graças à computação gráfica, esse anime faz tudo o que eu elogiei no CG de Seikaisuru Kado enquanto ainda sendo um anime muito, muito melhor do que aquele foi. Mas… seria uma pena se isso cerceasse demais a discussão sobre essa obra.

Por ser o que mais chama a atenção, sobretudo em um contexto onde pouquíssimos animes se utilizam da computação gráfica de forma se quer passável, que dirá então boa, é normal que o que mais se comente sobre Houseki no Kuni seja justamente o quão excepcional ele é nesse quesito, um ponto fora da curva no que costuma terminar sendo um festival do vale da estranheza. Mas há muito mais que se possa ser dito deste anime, e justamente por isso – e por já ter falado sobre CG com Kado – eu decidi me focar aqui em um outro assunto.

Se você não sabe do que Houseki no Kuni se trata, o melhor que eu posso fazer em termos de sinopse é dizer que a trama segue uma série de pedras preciosas e semi-preciosas antropomórficas e imortais que, ao longo dos milênios, estão em constante conflito contra o Povo da Lua, seres misteriosos que descem à Terra para tentar levar essas gemas com eles. É um anime fantástico, e que definitivamente vale a pena conhecer, se ainda não o fez. E a partir daqui, spoilers correrão soltos, então sigam por sua conta e risco.

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Uma Breve Análise – Neon Genesis Evangelion: Uma História Otimista

Sim, é sério.

Shinseiki no Evangelion (ou Neon Genesis Evangelion), é facilmente uma das mais importantes franquias da animação japonesa. Gostemos ou não do anime enquanto obra, fato é que o seu impacto na mídia não pode ser subestimado. Infelizmente, o que também não pode ser subestimado é o quão horrivelmente mal compreendida a obra foi. Não é nenhum segredo que Hideaki Anno, diretor do anime, pretendia que o mesmo fosse uma forte crítica ao otaku recluso da época, mas a quantia de dakimakura da Ayanami Rey ainda hoje a venda mostra que a capacidade interpretativa dos otakus japoneses não está muito mais longe que a do brasileiro médio.

Mas meu cinismo de lado, sobre o que é Neon Genesis Evangelion? Para os poucos que talvez nunca tenham ouvido falar nesse anime, uma produção original do estúdio GAINAX de 1995, a história começa quando Ikari Shinji é chamado por seu pai, Gendou, para as instalações da NERV. O foco da agência é o combate aos Angels, misteriosos seres imensos que começaram a aparecer no Japão, e para ajudar nessa luta Shinji precisará pilotar o gigantesco robô conhecido como Evangelion (ou EVA, para encurtar).

Acontece que longe de ser uma trama inocente sobre salvar o mundo, o anime acaba por trabalhar muito mais a psique dos seus personagens e o quão horrivelmente perturbados são todos eles (menos o pinguim, aparentemente). Justamente por conta disso, a obra foi – e ainda é – bastante recebida como uma história altamente cínica e depressiva, mas eu não acho que tal descrição realmente a faz justiça. Deixo aqui o aviso de spoilers, e vamos então conversar porque eu vejo Neon Genesis Evangelion como uma história, essencialmente, otimista.

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Uma Breve Análise – Gamers: Como Criar Desentendimentos.

Nenhum clichê é ruim se você souber como utilizá-lo.

Dentre os tropes que mais me irritam na ficção, “constantes desentendimentos que poderiam ser resolvidos com uma simples conversa” é um que está bem próximo do topo da minha lista. Não diria que é que mais me irrita (acho que personagens femininas arquetípicas ainda tomam o primeiro lugar), mas definitivamente é um trope do qual eu prefiro distância. O que torna bastante surpreendente o fato de eu ter adorado um anime que se baseia exatamente nisso.

Anime de 2017 do estúdio Pine Jam, adaptando a light novel homônima escrita por Sekina Aoi e ilustrada por Saboten, a trama de Gamers! começa quando a idol do colégio, Tendou Karen, tenta convidar o introvertido Amano Keita para o clube de videogames da escola. O que começa de forma bastante inocente – mesmo um pouco genérica – logo, porém, espirala em uma constante de hilários desentendimentos amorosos envolvendo o quinteto principal da história.

Falando assim não parece grande coisa, e mesmo os primeiros episódios do anime não são exatamente uma obra prima, mas o saldo final dessa obra ainda é um bastante positivo, não apesar dos constantes mal entendidos, mas inclusive por conta deles e da forma como o anime os utiliza. Quem ainda não o assistiu eu definitivamente recomendo que ao menos dê a ele o teste dos três episódios, mas se quiser decidir após ler a análise fique a vontade: desta vez não há spoilers aqui.

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Uma Breve Análise – Re:Creators: Vocaloids, Originalidade e o Simulacro

Qual o papel da originalidade na era do simulacro?

Eu quero já começar dizendo que essa análise vai ser um pouco mais densa e um pouco mais longa do que o normal. Mas Re:Creators abre tanta margem para discutir alguns assuntos em profundidade que eu não poderia fazer só alguns parágrafos curtos. Dito isso, eu ainda fiz o possível que o texto não fosse excessivamente confuso.

Vamos lá: para quem talvez não saiba, Re:Creators é a mais nova produção do estúdio Troyca, um anime original com roteiro de Rei Hiroe e direção de Ei Aoki. A premissa da história é a de que personagens das mais diversas mídias – anime, mangá, light novel, videogames – começaram a aparecer na Tóquio moderna, aparentemente trazidos pela misteriosa Princesa de Uniforme Militar. Quais os seus objetivos é um mistério que desvendamos conforme o anime avança, mas desde cedo uma coisa fica bem clara: se os personagens, aqui chamados Criações, não voltarem logo aos seus mundos, a própria realidade pode estar em perigo.

Agora, eu vou dizer que, modéstia à parte, eu provavelmente fiz o anime soar mais interessante do que ele realmente é. Ele tem bons momentos, mas que são exatamente isso: momentos. Há boas ideias e bons conceitos aqui, mas mais de uma vez a execução deixa a desejar. Não chega a ser um flop completo, mas digamos que a obra é, quando muito, mediana. Dito isso, ela levanta algumas questões que valem a pena comentar. Ah, mas antes, fica o aviso: spoilers a partir daqui, então sigam por sua conta e risco.

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