Representatividade em Runway de Waratte // Análise de Cena


Pra que serve a representatividade?


Roteiro:

Filha do dono de uma agência de modelos, Fujito Chiyuki almeja desde pequena caminhar na Semana da Moda de Paris, como uma autêntica top model. Infelizmente, sua altura estagnou em 1,58 – baixo demais para uma indústria onde estatura é tudo.

Já Tsumura Ikuto mostra desde criança um talento para a costura, sonhando um dia se tornar um designer de moda. Mas com a mãe no hospital e três irmãs para cuidar, Ikuto já se decidiu por abandonar o seu sonho a fim de conseguir um emprego assim que deixar o ensino médio.

E é do encontro desses dois que nascerá uma amizade e uma rivalidade que os irá propelir adiante. Um incentivando o outro a dar o melhor de si na busca de seus sonhos – nem que só pra não ficar para trás.

Já faz ai um bom tempo que eu quero falar de Runway de Waratte, um dos meus animes favoritos de 2020, e suponho que agora seja uma hora tão boa quanto qualquer outra.

Um shounen por excelência, mas com uma roupagem que muito o distingue, além de uma execução que vai muito além do que apenas a premissa poderia indicar. De personagens carismáticos e bem trabalhados, passando por bons valores de produção e excelente direção, até uma fantástica trilha sonora, é bem o tipo de anime que sabe muito bem como criar momentos de alto impacto.

Surpreendentemente, porém, é de nada disso que eu quero comentar aqui.

Antes, eu quero analisar uma cena em específico, que vem já terceiro episódio. E eu já vou deixar aqui o aviso de spoilers para o anime até esse ponto, mas não devo entrar em nada para além disso – faça o que quiser com essa informação. Em todo caso, o motivo de eu querer falar dessa sequência em especial é que eu diria que ela responde muito bem uma pergunta que vez ou outra torna a entrar em voga.

Afinal: para que serve a representatividade?

Vem comigo e vamos começar com um pouquinho de contextualização.

Contexto


No segundo episódio do anime, temos que o Ikuto consegue um emprego de meio período junto ao designer de moda profissional Yanagida Hajime, por indicação do pai da Chiyuki.

Pra não me estender demais nessa parte, temos que Yanagida organiza um desfile a fim de anunciar oficialmente o lançamento de sua própria marca. Para seu azar, porém, uma de suas modelos falta bem no dia marcado, e acaba que a Chiyuki é enviada como substituta, restando agora ao Ikuto reajustar para ela um vestido pensando para alguém bem mais alto.

Tal é a situação dos protagonistas quando começa o terceiro episódio, mas nesse ponto eu preciso ainda mencionar uma terceira personagem, que será o real foco dessa análise: Niinuma Fumiyo.

Nós somos introduzidos a ela no episódio dois, uma jovem jornalista que almejava trabalhar com literatura, mas que de alguma forma acabou empregada por uma revista de moda – assunto que ela não domina e pelo qual nem se interessa.

Ela e uma colega de trabalho sua vieram cobrir o desfile de Yanagida, e com o desfile começando elas assumem seus lugares junto à plateia. Do que nós finalmente chegamos na cena que eu quero tratar

“Uma Baixinha como Eu”


Começamos com a Niinuma suspirando em seu assento, no que a sua colega pergunta se ela está entediada. A resposta da Niinuma sendo uma espécie de não resposta, com ela comentando da falta de expressão das modelos que passam. E enquanto sua colega tenta explicar o porque do desfile ser assim, a própria Niinuma não parece lá muito interessada.

É nesse ponto que nós deixamos essa posição de expectadores externos para ouvir um pouco dos pensamentos da Niinuma, onde a personagem reflete sobre como nem adiantaria ela tentar se vestir bem, pois sabe que roupa alguma ficaria boa em uma baixinha como ela. Do que nós podemos tirar três conclusões mais importantes.

Primeiro, que obviamente é isso que realmente a incomoda, não a expressão facial das modelos. Dai eu dizer que a sua resposta à sua colega foi, na prática, uma não resposta. Uma forma de mudar de assunto antes que precisasse dar mais explicações do que gostaria.

Em segundo lugar, descobrimos aqui que ela tem um claro complexo com a sua altura. Do que deriva a terceira conclusão: de que não é bem que ela não se interesse por moda. É que ela sente que não pode se interessar. Porque nada ficaria bem nela.

Isso é algo que a Niinuma diz com quase todas as letras logo na sequência, quando diz que mesmo ela já teve uma fase de se interessar por moda. Mas antes, temos a entrada da Chiyuki na passarela.

A chegada de uma modelo tão baixa causa um claro espanto na plateia, mas ninguém fica mais surpreso que a própria Niinuma, que até se levanta da cadeira. E é nesse ponto que nós temos uma das minhas transições favoritas no anime, onde a essa imagem da Niinuma ao fundo, olhando apreensiva para um grupo de jovens bem vestidos, se sobrepõe a imagem da Chiyuki caminhando na passarela, ocupando o mesmo lugar no quadro que a Niinuma ocupava.

É uma forma ao mesmo tempo sutil e direta de dizer que a Niinuma se viu na Chiyuki, e ao longo desse desfile nós ainda veremos o quanto a jornalista ficou investida nessa modelo que nem sabe o nome.

Nesse ponto, o anime retorna aos bastidores, onde aprendemos que os sapatos que a Chiyuki está usando estão com defeito. E no que voltamos à passarela, o pior acontece: o calçado da Chiyuki cede, com ela tropeçando e caindo. Ao que a Niinuma pensa que é isso o que acontece quando você tenta se encaixar onde não se encaixa: você falha e todos riem de você.

Felizmente, a costura do Ikuto faz com que uma parte do vestido de solte logo que a Chiyuki cai, dando um caráter transformista à peça e fazendo tudo parecer parte do show. Ao que se segue uma salva de aplausos da plateia… e uma Niinuma chorando de emoção. E quando sua colega pergunta o que houve, esta apenas diz:

“Tudo bem? Ela é pequena como eu. Ela não pertence a este lugar, e ainda assim…”

Se ainda restava alguma dúvida do quanto a Niinuma se projeta na Chiyuki, esse é um momento que deixa a coisa bem explícita. Ao ponto mesmo de eu achar que só descrever toda essa sequência já deixa bem claro o meu ponto, mas… bom, sejamos aqui um pouco mais complecionistas.

Representatividade


Goste ou não, o nosso universo pessoal ainda é muito ditado por aquilo que vemos. E quando você só vê, digamos, um certo tipo físico em uma carreira, uma comunidade ou um grupo qualquer, você começa a associar as duas coisas. E conclui, talvez até de forma inconsciente, que um é pré-requisito para o outro.

Quando o anime começa, somos informados de que há uma razão bastante prática para as modelos de passarela terem de se altas: para mostrar melhor a roupa, é claro. O problema é que isso cria uma realidade igualmente prática onde a moda se associa à altura – algo que a Chiyuki sente na pele ao longo de todo o anime.

Niinuma é um exemplo de alguém de fora desse meio que, tendo apenas o que lhe é mostrado para tirar suas conclusões, internalizou essa associação. E, nisso, acabou alienada de um mundo que ela até tinha interesse, mas que sentia que não era pra ela. Que ela não tinha o direito de participar nele.

Agora, Runway de Waratte não é um anime sobre representatividade. Há um motivo pelo qual esse vídeo é uma análise de cena, não uma análise da série. Ainda assim, vemos ao longo do anime o quanto essa caminhada da Chiyuki afetou a Niinuma, reascendendo nela o interesse pela moda. Tudo porque ela viu, na passarela, alguém que a lembrava de si mesma.

Representatividade é mais do que uma tentativa canhestra de diversidade. É, antes de mais nada, uma mensagem. A de que este mundo, qualquer que seja este mundo, também pode ser pra você, quem quer que seja você.



Nossas Redes Sociais:

● Facebook

● Twitter

● Instagram

Publicidade

4 comentários sobre “Representatividade em Runway de Waratte // Análise de Cena

  1. Nunca tinha ouvido falar desse anime mas vou assitir hora mesmo kkkkkk. O fato de ela ser uma modelo baixa e que ela tá conseguindo realizar o sonho, nem que seja por um momento pequeno ( o que eu espero que não seja kkkkkk), me deixa realmente alegre. E vou me encaixar aqui em haikyuu pq eu amo vôlei mas sou pequena (Hinata shoyu-des???? Nishinoya-da???) E as únicas posições que me cabem são líbero e levantadora kkkkkkk

    Curtido por 1 pessoa

  2. Não é ótima mas é uma boa matéria, continue bem.
    Não é um shounen e sim um seinen.
    A propósito como eu vim parar aqui nessa matéria de seinen, qual o seinen que eu já assisti que eu não lembro.
    Ah já sei, o Google deve ter me indicado a matéria que ali no corpo está escrito shounen mas está errado. Aff!!

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s