“Há vários tipos diferentes de encontros em Aqua” // Aria the Natural, episódio 1


Aquele encontro no carnaval…


Quando eu primeiro assisti Aria, lá no distante ano de 2017, a minha leitura foi a de que cada temporada traz em si um tema central. Assim, Animation é uma que nos apresenta àquele mundo, e que nos convida a reparar em suas vielas estreitas e canais apertados. Já Natural, por sua vez, é uma temporada dedicada a encontros, a nos mostrar quem são os habitantes dessa idílica cidade.

Claro que não é uma análise perfeita, e exceções abundam a essas “regras” (como bem veremos ao longo dessa série de artigos). Mas ainda acho uma forma válida de se interpretar essas temporadas, e esse primeiro episódio de Aria the Natural apenas me reforça esse pensamento.

Apenas três meses separam o final de Aria the Animation do começo de Natural. Aquele terminando em 25 de Dezembro de 2005, enquanto que este começa em 3 de Abril de 2006. E mesmo assim, todo esse primeiro episódio é focado em nos reintroduzir a esses personagens e a esse mundo. De certa forma: a todos os encontros que a Akari teve desde que se mudou para Neo Venezia.

Um episódio dividido em duas partes bem distintas, neste artigo começamos com alguns comentários sobre nosso retorno a Aqua enquanto audiência, para depois explorarmos um pouco essa figura que é o Cat Sith. Espero que gostem!

Encontros e Reencontros


Eu gosto bastante de toda a sequência que abre esse primeiro episódio. A câmera deslizando pela fachada da companhia Aria, cortando para focar na gôndola da Alicia, e dai mais um corte para a mesa sendo arrumada para o café da manhã por uma Akari ainda fora do quadro. Uma sequência que vai, bem aos poucos, reaproximando o espectador daquele mundo e daquelas personagens.

A presença de quatro pratos à mesa é um detalhe que talvez até passe desapercebido por alguns, mas que é logo explicado quando vemos a Ai entrando em cena. Um paralelo interessante com a primeira temporada, cujo primeiro episódio também parte do encontro da Ai e da Akari. Aqui há, porém, diferenças importantes.

Longe de ser a pequena intrusa que a garota foi em sua primeira aparição, aqui temos uma Ai integrada à companhia Aria, aproveitando sua viagem a Neo Venezia junto a esta que se tornou uma amiga de longa distância. Um pouco mais pra frente no episódio até a veremos ajudando na companhia, cuidando dos clientes da Alicia ao lado da Akari. E devo dizer: o uniforme até que cai bem nela.

Se estendermos para este episódio a interpretação que fiz da personagem quando do primeiro episódio de Animation, isto é, dela enquanto a personagem que representa a audiência, que seu mais recente retorno a Aqua seja marcado pela familiaridade com aquele mundo e aquelas pessoas reflete, talvez, muito como a própria audiência teria se sentido. Como que voltando a um lugar que, agora, já conhecem muito bem.

Mas avançando, a presença da Ai aqui é também uma pequena pista do que virá no restante do episódio. Isso porque, como mencionei acima, aqui somos reintroduzidos a todo o elenco de Aria, algo que a abertura e, depois, o encontro deles na bauta, faz muito bem, transmitindo de forma rápida e eficiente a personalidade de cada um.

No caso da abertura, esta mantém o estilo daquela em Aria the Animation, com a música tocando enquanto o episódio continua. E aqui podemos ver a Aika e a Alice acompanhando suas respectivas instrutoras, Akira e Athena, no trabalho. Destaque indo para a Athena cantando, ótima maneira de nos lembrar de uma de suas características mais importantes.

Com o encontro na bauta, as primeiras a aparecer, fora o trio da companhia Aria, são Akira e Aika. A primeira dando um pequeno susto na Ai, enquanto que a segunda faz um comentário sobre o rosto assustador de sua instrutora. Ao que chegam então a Athena e a Alice – com a primeira tendo colocado sua máscara de ponta cabeça, ao que a segunda apenas solta um “eu avisei”.

É interessante contrastar esses dois momentos. Na abertura, vemos a faceta profissional dessas personagens. O lado de si que colocam em evidência para os turistas de Neo Venezia. Aqui na bauta, porém, estão todos entre amigos – do que o episódio pode, então, nos lembrar das características menos elogiáveis dessas garotas, como o mal temperamento da Akira ou o lado mais desajeitado da Athena.

Aqui também aparecem o Akatsuki e o Woody. A participação dos dois dura pouco, mas ainda cuida de nos lembrar tanto de como ambos já são velhos conhecidos, como também da personalidade mais extravagante e convencida do Akatsuki – pelo menos até a Alicia aparecer na sua frente. A sequência terminando com a Aika perguntando do Al, ao que o Woody comenta que ele viria mais a noite.

Numa outra nota, em dois momentos nesse começo do episódio temos que a câmera foca na Akari apenas sorrindo enquanto olha para seus amigos. Isso acontece primeiro durante o café da manhã, com ela olhando para a Ai, e depois se repete na bauta, desta vez com ela olhando para todo o elenco.

Em ambos os momentos a garota reflete sobre os encontros que já teve em Neo Venezia, sorrindo de felicidade diante de todas as pessoas que conheceu. São momentos que evocam certa nostalgia, e não por acaso em ambos a Akari é posta afastada dos demais personagens – distante da ação da cena, mas tanto mais próxima da audiência, convidada aqui a se identificar com ela.

“Nostalgia” é um sentimento que Aria evoca repetidas vezes ao longo de sua história, e que só vai se tornando mais forte conforme o anime avança. Aqui, porém, já temos um gostinho disso, em um momento de reunião que convida a própria audiência a se sentir nostálgica por tudo que já viram do anime até aquele momento.

O Rei dos Gatos


Mas não só de reencontros é feito esse primeiro episódio. Ainda que colocar a coisa nesses termos seja um tanto quanto enganosa.

Estou falando, é lógico, do Cat Sith, essa entidade que a Akari e a Ai conhece agora, durante o carnaval de Neo Venezia. Só que essa não é a primeira aparição do personagem, e na verdade quem voltar ao episódio 12 de Animation, onde a Akari volta no tempo após cruzar a mais antiga ponte da cidade, pode muito bem reparar a inconfundível silhueta do personagem nas sombras do interior da ponte.

Isso para dizer que, enquanto o episódio é a introdução formal, para a audiência, do Cat Sith, e enquanto essa é a primeira vez que a Akari toma conhecimento dele, parece que o Cat Sith em si já estava de olho na Akari há algum tempo. O que talvez explique o seu comportamento nesse episódio.

Mas antes de falarmos desse novo personagem, acho que vale comentar um pouco sobre como esse mais recente encontro da Akari com o sobrenatural ainda segue muitas das convenções que a temporada passada estabeleceu.

Para começar, segue sendo o caso de que a Akari é guiada para o sobrenatural. Na temporada passada isso era sempre feito pelo presidente Aria, e aqui nesse episódio não seria de estranhar se o “ajudante” do Casanova que as garotas primeiro veem fosse o próprio, ainda que é difícil dizer.

Há também a questão do limiar que separa o natural e o sobrenatural. Sendo que, desta vez, são as vielas de Neo Venezia, claustrofóbicas e labirínticas, que atuam como esse limiar. Que, inclusive, separa a Akari e a Ai da Aika e a Alice, como se as outras duas não tivessem o direito de entrar nesse outro mundo.

A questão visual também é bem forte aqui. Grande parte do episódio se passa durante o crepúsculo, com uma predominância dos tons de laranja. Isso é por si só significativo: o próprio crepúsculo é um momento limiar, que atua como a ponte entre o dia e a noite (e, por extensão simbólica, entre este mundo e outro, entre o natural e o sobrenatural). Mas o episódio ainda vai além.

No que as garotas vão atrás do ajudante do Casanova, os corredores estreitos de Neo Venezia, ladeados pelos prédios refletindo a luz do sol poente, intensificam esses tons de laranja. E uma vez que a Akari e a Ai encontram com o Casanova e se juntam à sua parada, o cenário vai se tornando cada vez mais onírico.

E por fim, temos os gatos. Nesse ponto já está bem estabelecido em Aria que os gatos são aqueles capazes de transitar entre os dois mundos. E que, pelo menos em algum nível, é preciso a permissão deles para que uma pessoa possa cruzar esse limiar. Seja sendo chamada por eles, como ocorreu com a gatinha Amy em Animation, seja sendo guiada por eles, como nas vezes em que o Aria guia a Akari.

O que nos traz de volta ao Cat Sith, o “Rei dos Gatos”.

De início, toda a sequência sobrenatural do episódio tem um “q” que horror, o que não é por acaso. Até os minutos finais, bem parece que estamos diante de um caso clássico de kamikakushi – quando uma pessoa é sequestrada por uma entidade sobrenatural e levada ao mundo espiritual.

Das garotas se perderem na cidade até o aparente estado de transe em que elas entram ao acompanhar a parada do Casanova, tudo é feito para evocar essa exata imagem. Mas claro, é de Aria que estamos falando. E não apenas o próprio Cat Sith se recusa a levar as duas consigo, como também o Aria aparece para quebrar o transe. Ao final, a sequência termina numa nota positiva, tratando o acontecido como apenas um novo “encontro” da Akari em Neo Venezia.

E de fato, acho que aqui bem cabe recuperar algo que falei no meu último artigo de Aria the Animation: o encontro com o sobrenatural é a forma pela qual a própria cidade de Neo Venezia se abre para a Akari, mostrando à garota uma faceta de si que segue oculta para a maioria das pessoas. E claro, ao menos nessa instância tudo o que eu disse se aplica também à Ai.

Ainda assim, ao que tudo indica ainda veremos mais do Cat Sith no futuro. Digo, essa já é a segunda aparição do personagem, e estava bem claro que todo o seu objetivo era entrar em contato com a Akari. Então ainda voltaremos ao “Rei dos Gatos” ao longo dessa série de artigos.

Extras


Assim como fiz nos artigos de Animation, deixo esse espaço para tudo aquilo que não consegui encaixar no texto corrido. Embora desta vez seja um ponto só, que quase optei por apenas não incluir, mas porque não aumentar a contagem de palavras do artigo, não é mesmo?

○ Eu falo bastante de limiares no texto, e é um assunto no qual eu provavelmente vou tocar toda vez que lidarmos com o sobrenatural em Aria, mas algo que deixei de comentar é o fato da história se passar durante o carnaval.

Historicamente, a festa é um caso típico de inversão controlada dos valores sociais, e como tal bem pode ser vista ela própria como um limiar. Ainda que talvez seja mais útil, aqui, a interpretarmos pela ótica do matsuri, o tradicional festival japonês, que traz em si uma carga espiritual bem mais explícita.

Como eu mencionei quando da minha análise do episódio 10 de Animation, ainda que Aria use de Veneza como o seu cenário, a sua essência ainda é japonesa. E o conceito de matsuri bem combina com a ideia de um momento de exceção no qual o sobrenatural é capaz de andar entre os humanos.

Um comentário sobre ““Há vários tipos diferentes de encontros em Aqua” // Aria the Natural, episódio 1

  1. Demorou, mas finalmente chegamos aos tão esperados artigos de Aria the Natural. E como não poderia deixar de ser, a qualidade dos mesmos se manteve, não sendo apenas bons resumos da história de cada episódio, pois também ressaltam todas as qualidades e curiosidades mais do que importantes desse universo.

    Sempre muito interessante reparar na qualidade da direção do anime, né?

    Difícil sair daqui sem aprender algo sobre uma obra que já conheço muito bem, mas nunca me canso de buscar entender cada vez mais! Muito obrigado pelos artigos e torço para que consiga seguir com os mesmos, ao seu ritmo, da melhor forma possível, até o final.

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s