O Teatro do Mal // Evillious Chronicles


“E o papel principal é…”


Vocaloid. Tecnologia de sintetização de voz para canto. Vozes artificiais, criadas com o específico propósito de servirem como um tipo bastante avançado de instrumento musical. Quase sempre, diga-se, representadas por um personagem, que lhes estampa o produto comercial. Imagino que todos já ouviram falar de Hatsune Miku, não?

Nos três primeiros artigos desta série sobre Evillious Chronicles, vimos o início daquela que viria a ser uma das maiores sagas de sua mídia. Onze músicas que, dispersas que possam parecer, preparam as fundações do que viria adiante. E agora chegamos ao primeiro álbum de MOTHY, que traz importantes pistas para o futuro desta série. A todos: sejam bem vindos ao 「Teatro」!

EVILS THEATER


【17 de Maio de 2009】

Spotify


Evils Theater (literalmente “Teatro do Mal”) foi primeiro lançado durante o oitavo THE VOC@LOID M@ASTER, convenção voltada para divulgar producers de destaque. O evento acontece em Tóquio quatro vezes ao ano, com sua oitava edição tendo ocorrido em 17 de Maio de 2009

Comparado aos que viriam depois, o primeiro álbum de MOTHY é bem simples. O mais próximo de um “extra” que temos aqui é o típico livreto que acompanha qualquer CD, onde temos a letra das músicas. E quanto a estas, o álbum não traz nenhuma inédita, sendo uma compilação das onze músicas que seu autor havia lançado até então, na seguinte ordem:

01. Aku no Musume
02. Aku no Meshitsukai
03. Kotoba Asobi
04. Zenmai Jikake no Kimori Uta
04. Zenmai Jikake no Kimori Uta
05. Okizari Tsukiyo Shou
06. Hakoniwa no Shoujo
07. Akujiki Musume Conchita
08. Juppun no Koi
09. Regret Message
10. Re_Birthday
11. South North Story

Diga-se de passagem, a própria ordem das músicas não parece ter significado. Estão fora de qualquer ordem cronológica, e mesmo músicas que sabemos pertencerem a uma mesma série estão distantes umas das outras. Nem mesmo popularidade à época parece explicar essa ordem, tirando as duas primeiras faixas.

Mas apesar da sua simplicidade, o álbum ainda trouxe algumas pistas importantes para a história maior de Evillious Chronicles. Quase todas contidas em seu livreto, ainda que seu obi traga uma críptica mensagem sobre “uma música e uma história que começa a girar”. O que isso significa, porém, só o tempo viria a dizer.

O 「Colecionador」



Ao abrir o livreto, vemos em sua contracapa um curioso poema. Um que fala sobre o “Colecionador”, aquele que criou o “Teatro” pouco antes da sua morte.

Dentro deste, o único filme em exibição era um documentário sobre a sua coleção. E agora que o “Teatro” foi esquecido por todos, os objetos lá dentro começam a escrever a própria história. A nova curadora sendo aquela que o “Colecionador” mais amava: a Boneca Mecânica.

Essa última informação é talvez a mais importante, já que sabemos de ao menos uma boneca cujo dono veio a falecer: aquela de Hakoniwa no Shoujo.

Se essa “Boneca Mecânica” for a Boneca Mecânica da qual o livreto fala, podemos supor algumas coisas. A começar pelo fato de que seu “pai” muito provavelmente seria o tal “Colecionador”, e que os objetos mencionados em Hakoniwa no Shoujo (a taça de vinho, a colher e o par de espelhos) são justamente a sua coleção, ou no mínimo parte dela.

Além disso, o fato do poema dizer que agora os objetos passaram a escrever a própria história nos permite inferir, afinal, que há mesmo algo de mágico acontecendo aqui. Que a tal boneca é de fato uma entidade dotada de consciência. E, talvez o mais interessante: que o mesmo parece valer para os demais objetos desta “coleção”.

Mas ainda sobre o “Teatro”, há um detalhe bem interessante escondido na capa do livreto. Vejam, quando você abre o livreto, capa e verso formam uma imagem da Rin e do Len de costas um para o outro, em posições que espelham as suas em Zenmai Jikake no Komori Uta e Re_Birthday. Mas reparem agora o que acontece se separamos a imagem no meio e invertemos as posições:

Talvez seja difícil de reparar, mas há no centro a silhueta de um prédio. Este é o “Teatro”, em sua primeira aparição formal. E dentro dele, uma série de engrenagens, bastante usadas em Evillious Chronicles como símbolos do destino.

E enquanto eu poderia ir além nas minhas interpretações, prefiro evitar saltos de lógica grandes demais. Em todo caso, esta não é a última vez que ouviremos falar nesse “Teatro”, posto que quase todos os primeiros álbuns de MOTHY vão trazendo mais e mais informações a seu respeito. Mas que papel ele desempenha na história maior, isso ainda demoraria um pouco para descobrirmos.

A Princesa de Lúcifer



Avançando no livreto, como eu mencionei é aqui que encontramos as letras de cada música. Em álbuns futuros, MOTHY usaria deste espaço para, junto da letra, colocar toda sorte de informações adicionais sobre o mundo de Evillious Chronicles e os personagens da música em questão. Aqui, porém, isso é limitado a uma outra prática: a de dar um subtítulo em inglês a cada música. Assim, nós temos:

Título OriginalSubtítulo
Aku no MusumeThe Princess of Lucifer
Aku no MeshitsukaiHis Significance of Existence
Kotoba AsobiClockwork Lullaby ZERO
Zenmai Jikake no Komori UtaClockwork Lullaby I
Okizaki Tsukiyo ShouInsane Moonlight
Hakoniwa no ShoujoClockwork Lullaby II
Akujiki Musume ConchitaBeelzebub Party
Juppun no KoiBus Stop Magic
Regret MessageFalen Angel
Re_BirthdayClockwork Lullaby III
South North StoryAnother World

Isso é algo que voltaria a se repetir em diversos álbuns posteriores, mas aqui não há bem muito o que extrair. Quatro das onze músicas são chamadas de “Clockwork Lullaby” (“Canção de Ninar Mecânica”), mais uma vez confirmando que há alguma conexão entre elas. Já outras cinco recebem subtítulos bastante inócuos, que também não parecem adicionar muito ao que já sabíamos.

Duas, porém, são de particular interesse para nós. Ao menos quando vistas em conjunto com a última página do livreto…

Os Sete Pecados Capitais



Superbia. Invidia. Ira. Acedia. Avaritia. Gula. Luxuria.

Estas são as palavras que adornam o final do livreto, com superbia e gula destacadas em vermelho. E se os cognatos não denunciaram, esta é uma lista dos sete pecados capitais: orgulho, inveja, ira, preguiça, avareza, gula e luxúria.

Agora, não há porque narrar aqui toda a história dos sete pecados e de como estes vieram a ser, mas um capítulo bastante específico desta história é de particular interesse para nós. Um envolvendo Peter Binsfeld, bispo e teólogo alemão, que em 1589 elaborou a lista dos que hoje nós conhecemos como os Sete Príncipes do Inferno: sete demônios, cada qual associado a um dos pecados capitais.

Lúcifer para o orgulho. Mammon para a ganância. Asmodeu para a luxúria. Leviatã para a inveja. Belzebu para a gula. Satã para a ira. E Belphegor para a preguiça.

Como eu havia aludido no meu artigo anterior, Evillious Chronicles é o nome que se dá à combinação de várias sub-séries menores, cada qual contando uma parte dessa história.

Aku no… (“… do mal”) ou Aku no Monogatari (“História do Mal”), são alguns dos nomes dados à série de músicas que contam a história da princesa de 14 anos e seu criado. Já a série Clockwork Lullaby é mais óbvia em nome, mas menos em história: suas músicas trazem o nome da série como subtítulo, mas não parece haver uma ligação clara entre as histórias que contam.

Aqui, a última página do livreto oficializa aquela que viria a ser não apenas a terceira em Evillious Chronicles, mas também uma das mais populares séries de vocaloid. Nanatsu no Taizai (“Sete Pecados Capitais”), ou apenas Aku no Taizai (“Pecados do Mal”).

Aku no Musume e Akujiki Musume Conchita. A princesa de Lúcifer e a festa de Belzebu. Orgulho e gula. Podemos não ter muito clara ainda qual a conexão entre essas músicas. Mas uma coisa o livreto implica: ao que parece, ainda há mais cinco por vir.

Eu gostaria de poder terminar dizendo que Evils Theater responde algumas perguntas enquanto abre outras, mas isso não seria bem verdade. Antes, é mais o caso que o álbum nos dá pistas para algumas perguntas, enquanto abrindo muitas mais do que chega perto de resolver. Nesse sentido, diria que é um bom microcosmos de Evillious Chronicles num geral.

O próximo artigo será outro um pouco mais longo, onde discutiremos mais cinco músicas: Moonlit Bear, Neji to Haguruma to Pride, Heartbeat Clocktower, Mukuchina Kimi he, e Enbizaka no Shitateya. A última, diga-se, representando ao pecado da 「Inveja」.

Próximo →

Crédito das imagens: evilliyes.tumblr.com

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