Do Jardim em Miniatura à Devoradora Repulsiva // Evillious Chronicles


“Agora, coma sem deixar restos!”


Vocaloid. Tecnologia de sintetização de voz para canto. Vozes artificiais, criadas com o específico propósito de servirem como um tipo bastante avançado de instrumento musical. Quase sempre, diga-se, representadas por um personagem, que lhes estampa o produto comercial. Imagino que todos já ouviram falar de Hatsune Miku, não?

No primeiro artigo desta série sobre Evillious Chronicles, vimos o começo da carreira de seu criador, MOTHY. Já no segundo, vimos nascer uma de suas séries de músicas mais populares, a “História do Mal”. Finalmente, aqui veremos os rumos que MOTHY escolheu tomar após o sucesso considerável de suas músicas anteriores.

Será um artigo um tanto quanto mais errático que os anteriores, já que compilo aqui várias canções que, ao menos em um primeiro momento, não parecem ter lá muita relação umas com as outras. Ainda assim, paciência é chave nessa saga. E logo mais as peças começam a se encaixar.

Miniature Garden Girl ~Clockwork Lullaby 2~


Hakoniwa no Shoujo ~Zenmai Jikake no Komori Uta 2~. MOTHY, ft. Hatsune Miku

【22 de Junho de 2008】

YouTube」 「Nico Nico」 「Piapro


Parando agora pra pensar, Hakoniwa no Shoujo (“A Garota do Jardim Miniatura”) é uma música bastante curiosa, e isso por uma série de motivos. Não o menor deles sendo, é claro, o fato de ter sido a primeira vez que vemos MOTHY usando de um vocaloid que não o par Kagamine – no caso, a Hatsune Miku.

Mas para além disso, é interessante que, após o sucesso da trilogia que deu início à “História do Mal”, MOTHY tenha optado não apenas por não continuá-la (por hora, pelo menos), como também por retomar a uma música anterior. E que o tenha feito, diga-se, com outra que parece ter bem pouca relação com aquela, ao menos em um primeiro momento.

Kotoba Asobi e Zenmai Jikake no Komori Uta estão, como mencionei no primeiro artigo desta série, entre as músicas mais crípticas em Evillious Chronicles. Ambas partilham de um mesmo tema de se aprender palavras e transformá-las em uma canção, além da melodia “lu li la” (bom, “la la la lu lu lu” no caso de Kotoba Asobi). Mas são difíceis de decifrar para além disso.

Hakoniwa no Shoujo também apresenta a melodia “lu li la”, mas aqui nós temos uma história bem mais fácil de se compreender. Uma garota incapaz de se mover, trancada em um quarto cujo pai enfeita com toda sorte de presentes. Uma guerra e um incêndio, que termina com a mansão vindo abaixo. E uma reviravolta final de que a garota era, em fato, uma boneca.

Gosto de como é ambíguo se há ou não algo de mágico acontecendo aqui. Com a música sendo cantada do ponto de vista da boneca, pode-se interpretar isso tanto como pura questão estilística como também que a boneca teria, de fato, uma consciência. Isso dito, materiais futuros viriam a esclarecer essa ambiguidade (mas isso é conversa para outro momento).

No mais, o leitor talvez queira prestar atenção nos três objetos mencionados aqui. Uma taça de vinho vermelha. Uma colher azul. E um par de espelhos de moldura dourada. São objetos sobre os quais ainda voltaremos a falar muito em breve – além, claro, da própria boneca.

De um ponto de vista técnico, é de se admirar que a manipulação da Miku tenha sido tão boa, considerando que é a primeira vez que MOTHY a usa. Claro que a experiência prévia com os Kagamines deve ter ajudado, mas no fim ainda são vozes diferentes com as quais trabalhar.

No mais, aqui ocorre o mesmo que havia acontecido com Aku no Musume e Aku no Meshitsukai, onde MOTHY primeiro lançou Hakoniwa no Shoujo em sua conta no Piapro para, pouco mais de uma semana depois, lançá-la também no Nico Nico Douga – ali sim acompanhada de seu PV (Promotional Video).

E assim como havia ocorrido em Aku no Meshitsukai, o PV de Hakoniwa no Shoujo é uma coletânea de ilustrações de artistas diferentes, o que resulta numa identidade visual bastante errática (menos do que em Aku no Meshitsukai, mas ainda presente).

Esta ainda não é a última vez que vemos um PV nesses moldes, mas diria que a próxima vez em que isso acontece é um caso especial. No mais, daqui para frente veremos uma tendência de PVs com um visual cada vez mais coesos internamente, o que por sua vez os torna fontes de informação muito mais relevantes do que vinham sendo até o momento.

Por fim, eu não poderia encerrar esta seção sem perguntar, mais diretamente, que relação esta música poderia ter com aquela com a qual partilha o título, Zenmai Jikake no Komori Uta. E vou dizer que eu até tenho uma explicação, mas ainda é cedo demais para entrarmos nela. Assim, deixo para o leitor confabular, pelo menos por enquanto.

Tale of Abandonmed on a Moonlit Night


Okizari Tsukiyo Shou. MOTHY, ft. Kagamines Rin & Len

【6 de Outubro de 2008】

Nico Nico」 「Piapro


Devo dizer: acho fascinante como o começo de toda essa franquia é tão… disperso. Não se enganem: todas as músicas que vimos até agora fazem parte de uma mesma e contínua história. Mas eu não culparia ao leitor desavisado que, tendo chegado até aqui após ler os dois primeiros artigos nessa série, duvidasse dessas palavras.

Evillious Chronicles é muito como montar um quebra cabeças. Você encontra duas ou três peças que se ligam, e depois outras duas ou três que também se juntam, mas sem que esses dois grupos pareçam ter qualquer conexão. Ainda assim, se você continuar, pouco a pouco uma imagem vai se formando. E diferentes peças vão assumindo seus lugares no quadro maior.

Okizari Tsukiyo Shou (“Abandono à Luz do Luar”) vem nos mostrar outra consistente fonte de inspiração de MOTHY: os contos de fada. Muito como, diga-se, Aku no Musume já havia mostrado sua inclinação a se inspirar em eventos do mundo real.

Aqui MOTHY retorna ao par Kagamine, que emprestam suas vozes para contar a história de duas crianças abandonadas na floresta – “é como Hansel e Gretel”, diz a letra. Vagando pela escuridão, guiadas pela luz da lua, as crianças chegam à casa de uma “bruxa” e seu “capanga”, e matam a ambos.

História de tradição oral, posta em texto pelos irmãos Grimm, o conto de Hansel e Gretel é mais conhecido aqui no Brasil como o de João e Maria. E enquanto essa “versão” de MOTHY toma várias liberdades para com o original, diria que onde ela mais difere é em como letra e vídeo sugerem que a “bruxa” e o “capanga” seriam, na verdade, os pais das crianças.

A loucura é outro dos temas recorrentes em Evillious Chronicles, e parte do que torna muitos de seus personagens figuras tão moralmente ambíguas. Abandonadas e perdidas na floresta, levadas à insanidade, podemos julgar as crianças por seus atos? Estavam elas mesmas cientes do que faziam? Não seria a última vez que essa série levanta questões do tipo…

E junto da loucura, temos a lua. A associação entre ambos vem desde a antiguidade, e se faz presente ainda hoje mesmo no nosso vocabulário (vide a palavra “lunático”). Embora, é verdade, a associação tenda a ser da lua cheia com a loucura, enquanto que o PV de Okizari Tsukiyo Shou nos mostra uma lua crescente.

E falando no PV, acho este o mais elaborado até o momento. São vários quadros em disposição circular, que mais diretamente refletem a letra da canção do que qualquer outro até o momento (com exceção de, talvez, o de Hakoniwa no Shoujo).

Ilustrado e editado por Ichika, o fato de ser o trabalho de uma artista só também dá ao PV uma coesão visual que faltava a outros que também se usavam de múltiplas imagens (isto é, os de Aku no Meshitsukai e Hakoniwa no Shoujo). O resultado sendo, na minha opinião, o melhor até o momento – ainda que caibam aqui algumas ressalvas.

Vejam, os eventos narrados em Okizari Tsukiyo Shou, isolados que possam parecer agora, acabariam por repercutir em toda a história de Evillious Chronicles. Como consequência, eles já foram recontados diversas vezes, sofrendo uma ou outra alteração com o passar do tempo.

Um exemplo é o design dos pais das duas crianças, cuja silhueta aqui não bate com o design que viriam a ter mais pra frente. Já outro é a lua: se aqui o PV enfatiza a lua crescente, versões posteriores desses eventos nos mostram uma lua cheia – muito mais em linha com o mito mencionado ainda há pouco.

Nada de se estranhar. Até pelo tamanho e longevidade dessa saga, muitas ideias foram mudadas ou abandonadas com o passar do tempo, e ainda veremos outros exemplos disso. Mas isso, de novo, é história para um outro momento.

South North Story


South North Story. MOTHY & unimemo-P, ft. Kagamine Rin

【28 de Novembro de 2008】

Nico Nico」 「Piapro


E agora chegamos em uma das entradas mais complicadas em Evillious Chronicles. Não em termos do que acontece, diga-se, a música é bastante clara nesse sentido, mas sim em termos de cânone.

Vejam, South North Story (“História do Sul e do Norte”) é uma colaboração entre MOTHY e um outro producer, unimemo-P. “Producer”, nesse contexto, indicando aqueles que produzem músicas com vocaloid, sendo que esta colaboração foi, em si, parte de outra maior, envolvendo producers membros da comunidade Rin Len SNS. O resultado sendo o álbum cheeRful, com 16 faixas de vários artistas diferentes.

Dado todo esse contexto, não seria de estranhar se a música nada tivesse a ver com Evillious Chronicles. Ainda assim, aqui nós vemos o encontro de duas “Rins”. Uma, vinda do sul, parece ser uma colegial japonesa normal, com problemas típicos da idade. Mas a outra, vinda do norte, é claramente a princesa de Aku no Musume.

Esse pequeno “cameo” torna difícil falar de Evillious Chronicles sem mencionar essa música, ainda que a sua canonicidade não pareça ter sido confirmada ou negada.

Isso dito, tanto Aku no Meshitsukai como Regret Message aludem à ideia de reencarnação, e há ao menos uma música anterior do MOTHY com uma Rin que parece viver no mundo moderno: Juppun no Koi. Mas admito que ai já é pura especulação de minha parte.

Entrando na parte mais técnica, eu gosto bastante da manipulação da Rin aqui, mas não acho que as duas soem lá muito diferentes uma da outra. E enquanto isso pode soar uma reclamação estranha para alguns, tenham em mente que um mesmo vocaloid pode soar drasticamente diferente a depender de como é manipulado – como, aliás, ainda veremos.

Quanto ao PV, gosto de como tudo aqui tem um ar meio “etéreo”, como se tudo não passasse de um sonho ou ilusão. E claro, ele é o principal responsável por identificarmos a Rin do norte como a princesa de Aku no Musume (ainda que a letra também ajude, é verdade).

Num geral, é uma boa música, mas que em retrospecto eu posso dizer que termina não sendo lá muito relevante para a história maior de Evillious Chronicles. Por isso, acho que podemos terminar por aqui e seguir logo para a próxima canção…

Re_Birthday ~Clockwork Lullaby 3~


Re_Birthday ~Zenmai Jikake no Komori Uta 3~. MOTHY, ft. Kagamine Len

【27 de Dezembro de 2008】

YouTube」 「Nico Nico」 「Piapro


Eu mencionei mais cedo que Evillious Chronicles é como montar um quebra-cabeça. Tal como, por ocasião encontramos aquela peça que conecta dois ou mais grupos que, até então, pareciam nada ter a ver um com o outro. A imagem maior, claro, segue um mistério. Mas ao menos demos um passo importante em sua direção.

Re_Birthday (“Re_Aniversário”) é como uma dessas peças. Um ponto de conexão entre duas séries de músicas que, até aqui, não pareciam ter qualquer relação. Por um lado, a “História do Mal”, encabeçada por Aku no Musume e suas continuações. Do outro, a “Canção de Ninar Mecânica”, encabeçada por Zenmai Jikake no Komori Uta.

Na música, a segunda solo de Kagamine Len nesta série, temos que um garoto acorda em um espaço escuro, cuja única característica distinta é uma imensa mola no teto. Seus pulsos presos por algemas vermelhas, enquanto que os calcanhares estão presos por grilhões azuis. Uma voz misteriosa deixando claro que o garoto jamais sairá de lá.

Sem saber quanto tempo se passou, ele segue escutando uma melodia. “Lu li la”, a distinta melodia desta série. Eventualmente, porém, o garoto parece entender o real significado dessa canção. E ao adicionar suas próprias palavras, uma luz desce do teto. Uma mensagem para o garoto, que faz a mola começar a girar.

Nesse ponto a evidência ainda é circunstancial, mas bem podemos concluir que esse garoto é o servo de Aku no Meshitsukai. E que a mensagem que chega para ele é a mesma que sua irmã jogou ao mar, em Regret Message.

Se Hakoniwa no Shoujo ainda mantinha alguma ambiguidade quanto a se havia ou não algo de mágico acontecendo na música, aqui parece bastante evidente que estamos lidando com algum tipo de pós-vida. O local para onde foi a alma do garoto após os eventos de sua música, ao que parece como punição pelos seus crimes.

O final, porém, é distintamente mais esperançoso. A voz misteriosa ainda declama ao garoto que seus crimes jamais serão perdoados. Porém: “palavras como ‘água’, e palavras como ‘mal’, vamos transformar todas em uma canção”. Suas correntes se soltam. E terminamos no que podemos presumir ser a sua reencarnação.

Mais uma vez, o tema do perdão é uma constante em Evillious Chronicles, sobretudo na série de Aku no Musume. E a resposta que Re_Birthday dá à pergunta de se é possível perdoar um crime de imensa gravidade é uma bem interessante. Talvez este nunca possa ser perdoado. Ainda assim, uma segunda chance é merecida.

Mas claro, várias perguntas ainda seguem no ar. Qual é a “verdade” da melodia “lu li la”? De quem é a voz que declara a punição do garoto? O que é esse espaço tão estranho no qual ele se encontra? E porque o PV original espelha o de Zenmai Jikake no Komori Uta?

Com o tempo, a maioria dessas perguntas seria respondida. Mas é engraçado que ao menos uma foi apenas ignorada. Em 19 de Agosto de 2020, MOTHY lançou Re_Birthday em sua conta no YouTube, com um PV inteiramente novo que, se facilita identificar o garoto como o servo de Aku no Meshitsukai, também abandona o visual espelhado para com Zenmai Jikake no Komori Uta.

Evil Food Eater Conchita


Akujiki Musume Conchita. MOTHY, ft. MEIKO, Kagamines Rin & Len

【4 de Março de 2009】

YouTube」 「Nico Nico」 「Piapro


Se por algum motivo isso ainda não ficou claro, Evillious Chronicles pode ser um pouquinho dark” de vez em quando. Digo, Aku no Musume retrata um literal genocídio, enquanto que Okizari Tsukiyo Shou nos mostra abandono infantil e assassinato. E ainda assim Akujiki Musume Conchita parece estar além de tudo o que vimos até aqui…

Primeira vez que vemos MOTHY usar a vocaloid MEIKO, esta é também a primeira vez que temos uma personagem com nome e sobrenome: Banica Conchita. Aquela que, em busca da mais repulsiva das refeições, termina por recorrer ao canibalismo, devorando seus súditos, seu cozinheiro, seus servos e, por fim, a si mesma.

É até difícil achar o que comentar aqui, visto que a música é bastante direta quanto ao que descreve. Não ao ponto de ser gráfica, acho que vale acrescentar, preferindo deixar muito apenas implícito, mas também não a chamaria de sutil.

Ainda assim, se for para dizer algo, acho que o que mais me chama a atenção aqui não está nem na letra da música, mas sim no seu PV. Um único quadro, onde temos os dizeres “se deixar sobras, vão brigar comigo”. Em retrospecto, é o único indício do que havia por trás das ações da Conchita, algo que só viríamos a entender plenamente anos depois.

Na parte técnica eu vou dizer que nunca fui lá muito fã da voz da MEIKO, mas é sempre bom também considerar que ela foi uma das primeiras vocaloids da Crypton Future Media, anterior mesmo à Hatsune Miku. E em todo caso eu ainda diria que é uma boa manipulação dela.

Já o PV é mais uma vez ilustrado por Ichika, e mais uma vez consideravelmente mais elaborado do que os anteriores. Isso dito, acho que cabe aqui uma pequena curiosidade sobre a diferença que entre o PV original, postado no Nico Nico Douga, e aquele que MOTHY depois viria a postar em sua conta no YouTube.

Não é nada de mais, mas o menu do original tem algumas referências ao mundo real e ao fandom de vocaloids da época. Quando o PV foi refeito para ser lançado no YouTube, essas referências foram mudadas para algo mais condizente com o universo de Evillious Chronicles.

Como podemos ver aqui, algumas conexões já vão surgindo. Há, pelo menos, duas séries de músicas bem claras nessas onze que vimos até aqui. Uma delas, a “História do Mal”, que começa com Aku no Musume. E outra, a “Canção de Ninar Mecânica”, que começa com Zenmai Jikake no Komori Uta. Re_Birthday, como disse, fazendo a ponte entre essas duas.

Ainda assim, estamos longe de poder formar um quadro mais completo, e algumas músicas seguem isoladas. Felizmente, o próximo artigo já deve dar uma clareada em algumas coisas, posto que chegamos em fim ao primeiro álbum de MOTHY. Fiquem no aguardo. E sejam bem vindos ao 「Teatro」.

← Anterior || Próximo →

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s