O que o “Politicamente Correto” tem a ver com Digimon?!


Essa é claramente a pior linha do tempo…


Confesso ao leitor que há já algum tempo venho pensando em dedicar, aqui no blog, um espaço para comentar os rotineiros absurdos que vez ou outra estouram nesse nosso meio otaku.

Isso dito, sempre terminei por engavetar a ideia. Isto aqui não é um blog de notícias, afinal, e sempre busquei dar prioridade a produção de conteúdo “evergreen“. Artigos que as pessoas poderiam ler mesmo que anos após a sua publicação. E qualquer que fosse a treta da semana, ela certamente seria esquecida em alguns dias.

Semana passada, porém, eu decidi quebrar essa minha regra pessoal, saindo do meu hiato para comentar a flagrante desinformação levada a cabo pelo portal Intoxi Anime a respeito de uma fala do atual diretor da Kadokawa.

Caixa de pandora aberta, eu plenamente esperava voltar a escrever algo numa linha similar cedo ou tarde. Só não esperava que fosse ser tão cedo, nem que o assunto da vez seria sobre como o roteirista de Serial Experiments Lain decidiu usar da franquia Digimon para propagar suas ideias reacionárias.

Mas o que diabos…


O nome de Chiaki J. Konaka talvez não seja familiar para o leitor, mas garanto que você já deve ter ao menos ouvido falar de suas obras. Roteirista, alguns de seus trabalhos mais notórios incluem o já mencionado Serial Experiments Lain, além do distópico Texhnolyze e, mais relevante para nós, a terceira série da franquia Digimon, Digimon Tamers.

2021 marca o aniversário de 20 anos de Digimon Tamers, e justamente por isso a série teve destaque na DigiFes 2021. Evento anual, a DigiFes é o momento em que se anunciam toda sorte de novidades envolvendo a franquia Digimon, além de contar com painéis especiais dos mais variados.

No caso, foi um destes painéis que gerou toda a polêmica que vocês devem ter visto circular pelo Twitter. No palco, dubladores de diversos personagens da série Digimon Tamers encenaram uma nova história, escrita por Konaka como uma continuação direta da série, se passando vinte anos após o seu final.

Segundo matéria do Anime News Network, a história começa com o surgimento de um novo vilão: o “Politicamente Correto“. Que, um dos personagens coloca, é “o maior problema que a internet e a mídia enfrentam”, censurando “notícias reais e as substituindo por fake news“. 

Só esqueceram de mencionar o nome do ataque do vilão: “Cancel Culture. Estou tão perdido quanto vocês…

Conspiracionismo a rodo


Posto num vácuo, e salpicado com um pouquinho de boa vontade, poderíamos ver aqui uma tentativa talvez canhestra de se comentar um problema real. A “cultura do cancelamento” existe, e por vezes pessoas online se deixam levar pelos seus impulsos mais destrutivos.

É nesse ponto, contudo, que vale mencionar uma publicação que Konaka fez em maio deste ano, no blog que criou em comemoração aos 20 anos de Digimon Tamers, onde ele parece se mostrar simpático a teorias da conspiração envolvendo o onze de setembro e ao conspiracionista James Corbett.

As opiniões de Corbett [sobre a COVID-19] incluem culpar ao co-fundador da Microsoft, Bill Gates, por “manipular” o vírus e a pandemia, que a morte de Osama Bin Laden em 2011 e o pouso da Apollo na Lua foram uma farsa, além de outras conspirações sem base – Anime News Network

E ainda que Konaka faça questão de colocar que não concorda com todas as ideias de Corbett, ainda diria que aqui se esfacela qualquer semblante de boa vontade que se poderia ter para com o roteiro que nos foi apresentado na DigiFes 2021. Longe de uma crítica bem intencionada, parece que Konaka se deixou levar pelas baboseiras da extrema direita.

Então… que fazemos a respeito?

“Cancelando” quem?


Até aqui eu me foquei em tão somente dar os fatos. O que aconteceu, qual o contexto, e porque esse evento parece ter incomodado tantas pessoas internet afora. Gostaria agora, contudo, de adicionar um pouco da minha opinião quanto ao “politicamente correto” e à “cultura do cancelamento”.

Em primeiro lugar, reitero que a “cultura do cancelamento” é algo que existe, e não acho que faça bem fingir o contrário. Especialmente quando consideramos que ela parece ser bem pouco efetiva em fazer o que deveria fazer.

A prática vê seus melhores resultados quando empregada contra verdadeiros zé ninguéns. Pessoas de pouca ou nenhuma relevância que estouram nas redes sociais por conta de algum comentário inapropriado em alguma rede social – geralmente o twitter, vamos ser bem sinceros aqui.

E me desculpem os mais radicais, mas não acredito que uma pessoas deva ser bombardeada com ameaças de morte ou perder o seu emprego por causa de um tweet, pouco importa o quão racista ou homofóbico este tenha sido.

Não estou dizendo que nunca devemos fazer nada a respeito desse tipo de opinião, mas a própria plataforma tem ferramentas para lidar com ela. Denuncie o tweet, se quiser. Denuncie o perfil, se quiser. E sim, critique as ideias expostas. Mais do que isso, porém, me parece excessivo em relação ao “crime” cometido.

Em se tratando de figuras de destaque, porém, a prática de “xingar muito no twitter” é pura e simplesmente inútil. E isso porque algumas pessoas são grandes demais para serem derrubadas com alguns comentários maldosos.

Ironicamente, o próprio Konaka é nosso melhor exemplo aqui. Clamando o terror da “censura” levada a cabo pelo “politicamente correto” em um evento de alcance internacional.

Por fim…


Há ainda alguns pontos que eu gostaria de fazer antes de encerrarmos este artigo.

Em primeiro lugar, e mesmo indo contra o tom deste artigo, é importante não tomar ao Chiaki Konaka como único responsável por esse desastre. Sim, ele escreveu o roteiro, mas me custa acreditar que ninguém o tenha lido e aprovado previamente. Os organizadores desse painel são tão culpados quanto.

Em segundo lugar, e numa nota mais positiva, quero lembrar a todos que a DigiFes não se resumiu a essa apresentação, e tivemos noticias bem animadoras para o futuro da franquia, incluindo ai duas novas animações: um novo anime para a TV, Digimon Ghost Game, e um novo filme para Digimon Adventure 02

Por fim, quero dizer que mesmo discordando veementemente das opiniões políticas de Konaka, Digimon Tamers seguirá sendo uma das minhas séries favoritas da franquia, e uma que eu abertamente recomendo a qualquer um. Respeito a quem discorde, mas gosto demais dessa série para jogá-la pelo ralo.

Leia também: Boa História. Má Pessoa.

Em Resumo:


Durante a DigiFes 2021, evento anual da franquia Digimon, foi feita a leitura ao vivo, pelo elenco original da série Digimon Tamers, de um novo roteiro escrito pela roteirista da série, Chiaki J. Konaka.

A história se passa 20 anos após o fim do anime, e conta com o surgimento de um novo vilão, o “politicamente correto”, dotado do terrível golpe “cultura do cancelamento”.

E o resto, como dizem, é [censurado].

Atualizações


1. Me foi informado que o artigo poderia passar a errônea impressão de que estou, aqui, tratando do conspiracionismo do Konaka e da “cultura do cancelamento” como males equivalentes e opostos. Então queria fazer um adendo para deixar bem claro que o conspiracionismo é muito pior.

Mesmo em seu absoluto pior, descrito acima, o máximo que a “cultura do cancelamento” consegue é derrubar contas no twitter ou fazer alguém perder o emprego. O que é bem ruim, mas ainda é muito melhor do que os “fatos alternativos” (mentiras) envolvendo a COVID-19, que literalmente matam.

Não, as duas coisas não são equivalentes. E se critico a “cultura do cancelamento” neste artigo é tão somente porque enxergo os perigos do conspiracionismo como autoevidentes. O que, em retrospecto, foi bastante ingênuo de minha parte, já que se fosse o caso não teríamos tantas pessoas vitimadas por essas conspirações

2. Errata: originalmente, eu havia dito que o evento teve transmissão internacional, o que está errado. A transmissão foi, ao menos oficialmente, apenas para o Japão. Isso dito, é claro que ele ainda teria alcance internacional, fosse por meio como fansubs, fosse por pessoas usando VPN.

3. Em 08 de Agosto, Chiaki Konaka fez um pronunciamento sobre o assunto em seu blog pessoal. Ele foi dirigido ao público internacional, e nele Konaka assume inteira responsabilidade pelo roteiro, deixa bem claro que a COVID-19 é real, mas ainda se posiciona contra a mídia mainstream japonesa.

— 

Imagem de capa: Digimon Tamers, episódio 1

5 comentários sobre “O que o “Politicamente Correto” tem a ver com Digimon?!

  1. Meu caro, me desculpe mas desse trecho “E me desculpem os mais radicais, mas não acredito que uma pessoas deva ser bombardeada com ameaças de morte ou perder o seu emprego por causa de um tweet, pouco importa o quão racista ou homofóbico este tenha sido.” eu discordo em parte, ameaça de morte nunca, claro ,mas perder o emprego sim senhor. Que empresa quer um racista assumido divulgando mensagens racistas e homofóbicas? Não sei se viu aquele caso do casal no Rio de Janeiro que interpelou um homem negro que estava com uma bicicleta idêntica a que tinha sido roubada deles e os dois já chegaram acusando ele de roubo. A empresa de ambos os demitiram e fez muito bem, agora na próxima eles vão pensar duas vezes antes de serem racistas.
    Abraços meu caro e como sempre obrigado pelo ótimo conteúdo.

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    • Enquanto casos como o que você citou dão uma catarse emocional legal (ver pessoas ruins se ferrando), eu prefiro ver a coisa em termos mais abstratos. Ponto em caso: queremos mesmo dar a empresas o poder de demitir funcionários por ações feitas e palavras ditas fora do ambiente de trabalho? Especialmente numa sociedade na qual o trabalho é necessário para a própria sobrevivência da pessoa? Não gosto dessa ideia. Por mim, quanto menos poder uma empresa tiver sobre os seus funcionários, melhor.

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    • Isso é diferente, acredito, do que o caso geral e do que o Diego tinha em mente quando escreveu (mas isso é com ele, me corrija se achar que deve).

      Não é a “cultura do cancelamento” que está em ação quando você é um racista à luz do dia e isso vira notícia (mesmo que seja publicado primeiro em redes sociais, porque hoje é muito fácil e rápido tudo cair em rede social e a imprensa só acompanha).

      Mas é “cultura do cancelamento” quando alguém tuíta algo que possa ser considerado racista (ou retuíta) e a as pessoas passem a criticá-la por isso.

      E a partir daqui acho que a minha interpretação de “cultura do cancelamento” difira da do Diego, mas ele já sabe disso, e talvez difira da sua:

      Mesmo esses casos exclusivamente virtuais, chamemo-los assim, em que uma ou mais pessoas começam a criticar uma outra, geralmente de forma incisiva, talvez de forma ofensiva ou mesmo violenta, por conta de conteúdo publicado online, via de regra não atingiriam a dimensão que atingem se não repercutissem na mídia também.

      Lógico que nem todos repercutem, mas os casos clássicos, que levam à consequências, são em sua esmagadora maioria repercutidos pela mídia – e só então advém as consequências (remoção da conta, admoestações oficiais, perda de emprego).

      Mais ainda, é porque há um punhado de casos alcançam repercussão e provocam consequências que as pessoas se sentem estimuladas a continuar atacando viciosamente terceiros pelo conteúdo publicado em redes sociais, imbuídos, acreditam, da fúria dos justos.

      Em resumo: na minha interpretação dos fatos, a cultura do cancelamento existe por causa da mídia, da imprensa tradicional, não por causa de supostas turbas digitais, organizadas ou não.

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  2. Olá, quanto tempo! Espero que esteja bem e se cuide direitinho, certo?

    Reconheço que é estranho toda esta polêmica, mesmo que tenha seus motivos e não estou aqui pra dizer que estejam certos ou errados, apenas que o contexto deve ser melhor dito e não ficar somente no superficial. O real problema é como a Toei Animation parece não ligar para “Digimon Tamers” ter uma nova produção e nisto, concordo e assino embaixo da “ignorância” do estúdio quanto à série.

    Tamers é ao lado da primeira série da franquia, as mais queridas e impactantes, cada uma ao seu estilo. Enquanto o primeiro anime ganhou uma cinessérie, “Digimon Adventure Tri” (fiz resenha destes filmes no Animecote, se quiser dar uma conferida, são duas abordando três em três filmes) , mais um filme pra fechar a trama e o reboot, o que temos da terceira série? Apenas audio dramas e uns produtos, mais nada. Tipo, qual é problema de revitalizar esta temporada em específico?

    E penso em diversos motivos, então, tenha noção que sejam suposições minhas quanto. Exceto uma, a dublagem: há dois problemas aí, as vozes originais do Guilmon e da Renamon, o primeiro é a dubladora do Goku que desde “Dragon Ball Super” tem emendado uma dublagem atrás da outra nos animes da Toei, atualmente, a narradora do reboot (fui contrária a entrada da dubladora, por “explorarem demais” sua voz) e a da Renamon se aposentou no ramo. Nada que troca de dublagem não possa resolver.

    Quanto aos motivos de não quererem produzir nada relevante ao anime, o primeiro é como dar continuidade à trama original? Dava pra ignorar o final, temos animes que ignoram acontecimentos da série anterior e continuam, tem um filme do Tamers que faz justamente isso e funciona bem. Ou focar nos demais personagens que vieram junto ao trio principal, como fiz em uma fanfic, Digimon Tamers 02; tem o contexto desta fanfic na resenha que fiz desta temporada, pra ter ideia. Penso que não queiram continuar a obra, o que é uma pena. Certo, este motivo tem suas razões.

    A outra penso que é receios do estúdio. Convenhamos, a Toei Animation nunca foi uma primazia em continuar suas obras, basta ver o que houve em “Digimon 02” e “Digimon Frontier”: a primeira foi uma continuação problemática e falha; a outra veio na época errada, quando a franquia tinha alcançado o ápice com Tamers, botando a franquia na geladeira e só foi revitalizada com “Digimon X-Evolution” e “Digimon Savers”, com intervalos de três a quatro anos cada produção. Então, a não ser que tenham realmente interesse, vão focar somente no seguro até a última gota e a Franquia Digimon merecia mais respeito da parte deles. De verdade, é uma franquia que merecia mais esmero e olha que temos a Franquia Precure do mesmo estúdio que pode dar umas dicas de como fazer isso.

    Não fazem porque não querem, é este o lema do estúdio nestes últimos anos. Antigamente, diria que era baixo orçamento e bem, o estúdio era bem mais produtivo e criativo nisso: assisti “Devilman” e “Hana Yori Dango”, ambos tem um conteúdo que mostra este lado deles, são animes bons se levar em consideração o tempo que foram feitos e conseguem ser eficazes no que propõem. Gosto muito deste dois animes e se fossem revitalizar ambos, o primeiro ia bem, o segundo sofreria com censuras. Ou seja, a não ser que realmente queiram, “Digimon Tamers” ficará no limbo do estúdio até dizer chega.

    São estes os motivos que penso a respeito. Pelo menos, dava pra fazer filmes, só pro pessoal ter um gostinho e tal como “Digimon”, ter um final. Afinal, deu certo os filmes, por que não? Esta teimosia da Toei Animation com Tamers vai continuar porque eles não tem um pingo de interesse em voltar com a temporada e tenhamos dito. O que trás tristeza ao público e fanbase desta animação, curtam ou não o anime em si…

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  3. Bom, ótimo blog, mas eu realmente queria saber o roteiro exato dessa apresentação, tipo se ela se passa depois do final de Tamers ou como os personagens conseguiram o derrotar e etc, eu sinceramente não acho em site nenhum sobre isso, as falas dos personagens, as ações e etc.

    Acredito até que seja isso que tá causando uma divisão entre o público, pois canais no YouTube e outros sites só citam que o inimigo é o Politicamente correto e só, sem mais ou menos e alguns já apelam pro criador e esquecem justamente de falar do roteiro que deveria ser o essencial ao meu ver, claro, não que você tenha feito isso, na verdade você até que falou da polêmica de melhor forma.

    Inclusive um adendo, o Konaka na verdade ia usar o seu vilão do CD drama que continua a história do Tamers, só que a Toe não deixou fazer isso e ele teve que improvisar o roteiro e criar esse Politicamente corretomon.

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